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VI DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – AS BEM – AVENTURANÇAS

Lc 6,17.20-26

Caros irmãos e irmãs

Este domingo o texto evangélico traz para a nossa reflexão o conhecido Sermão da Montanha, um novo programa de vida para se livrar dos falsos valores do mundo e abrir-se aos verdadeiros bens presentes e futuros. Quando Deus conforta, sacia a fome de justiça, enxuga as lágrimas dos que choram, isso significa que, além de recompensar cada um de forma sensível, abre também para os que passam por estas provações, o Reino do Céu.

As bem-aventuranças iluminam as ações e atitudes que caracterizam a vida cristã e exprimem o que significa ser discípulo de Cristo (cf. CIgC, n. 1717). Ao mesmo tempo, elas são como que uma biografia interior oculta de Jesus, um retrato da sua figura. Devemos olhar como Jesus viveu estas bem-aventuranças. Os evangelhos são, do início ao fim, uma demonstração da mansidão de Cristo, em seu duplo aspecto de humildade e de paciência. Ele mesmo se propõe como modelo de mansidão para nós.

O texto bíblico nos mostra que Jesus, dirigindo o olhar aos seus discípulos, diz: “Bem-aventurados os pobres… bem-aventurados vós, que agora tendes fome… bem-aventurados vós, que chorais… bem-aventurados vós, quando os homens… desprezarem o vosso nome”. Após as quatro menções aos “bem-aventurados vós”: os pobres, os famintos, os que choram e os que sofrem insultos por causa de Jesus, temos também quatro “ais”: ai de vós os ricos, ai de vós os que têm fartura, ai dos que riem e ai dos que são elogia- dos. Como afirma Jesus, tudo irá inverter no final dos tempos: os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos” (cf. Lc 13, 30).

Jesus diz inicialmente: “Bem-aventurados vós os pobres, porque vosso é o Reino de Deus” (v. 20). A palavra grega usada por São Lucas para “pobres” (ptôchos) traduz certos termos hebraicos (‘anawim, dallim, ebionim) que, no Antigo Testamento, definem uma classe de pessoas privadas de bens. São os desprotegidos, os pequenos, as vítimas da injustiça, que com frequência são privados dos seus direitos e da sua dignidade. Por isso, eles têm fome, choram, são perseguidos. Ora, serão eles, precisamente, os primeiros destinatários da salvação de Deus, que, na sua bondade, quer derramar sobre eles a sua bondade, a sua misericórdia, a sua salvação. Depois, a salvação de Deus dirige-se prioritariamente a estes porque eles, na sua simplicidade, humildade, disponibilidade e despojamento, estão mais abertos para acolher a proposta que Deus lhes faz em Jesus.

Jesus reassume neste sermão das bem-aventuranças as promessas divinas de que os pobres não terão nem fome e nem sede (cf. Is 49,10.13; Ez 34,29) e anuncia que eles serão saciados. Aos pobres, é prometido o Reino de Deus e assegurada, também, a participação na mesa da casa do Pai. A participação no Reino de Deus fará com que os pobres, que agora choram, possam ter motivos para rir e estar alegres.
O grande mal de todos os tempos é o de almejar a fortuna para um interesse pessoal e não para melhor servir a Deus. Sob esse prisma, não vem ao caso ser rico ou pobre, porque o primeiro desprezará o segundo, este invejará o outro e ambos incorrerão na sentença contida no versículo 24: “Mas ai de vós, os ricos, porque tendes já a vossa consolação” (v. 24). Os pobres em bens, podem ser ricos na fé, como dizia o apóstolo São Tiago: “Não escolheu Deus os pobres deste mundo para que fossem ricos na fé e herdeiros do Reino prometido por Deus aos que o amam?” (Tg 2,5). A ver- dadeira riqueza que torna os pobres bem-aventurados é o Reino de Deus.

No episódio da pesca milagrosa (cf. Lc 5,1-11), temos o chamado dos primeiros discípulos de Jesus, o texto conclui dizendo: Eles, atracando as barcas à terra, deixaram tudo e o seguiram” (Lc 5,11). Nesta mesma página do evangelho encontramos o chamado de Levi, e a conclusão é semelhante: “Ele, abandonando tudo, levantou-se e o seguiu” (Lc 5,28). Esta é uma das características do verdadeiro discípulo de Jesus: Abandonar tudo para segui-lo. Os apóstolos e também muitos santos souberam reconhecer que a vida do homem não depende dos bens que ele possui.

O homem que constrói sua vida e projeta o seu futuro somente em função de si mesmo, é como aquele homem que construiu a sua casa sobre a areia (cf. Mt 7,21-29). Neste sentido, o rico pode tornar-se pobre, pois, a sua pobreza se mede pelo que ele perde: o Reino de Deus, como nos narra o mesmo evangelista São Lucas: “Assim acontece com quem guarda para si riquezas, mas não é rico para com Deus” (Lc 12,21).

Neste sentido devemos sempre nos questionar de qual lado estamos: Entre os que constroem a vida sobre si mesmos ou entre aqueles que constroem sobre o Reino de Deus? Devemos estar sempre conscientes de que não podemos servir a Deus e ao dinheiro (cf. Mt 6,24). O motivo da alegria anunciada para os pobres consiste na promessa que é feita: para eles chegou o reino de Deus, para aqueles que fizeram a opção de não colocar a própria segurança nos bens materiais já teve início um novo mundo, pois tudo passa a ser em comum (cf. At 4,34). Esta é a proposta que Jesus faz aos seus primeiros apóstolos que deixam tudo para o seguir. Jesus também diz: “Bem-aventurados os que agora tendes fome, porque sereis saciados” (v. 21). O mais alto grau desta bem-aventurança consiste em suportar com resignação cristã, ou seja, sem revolta, sem in- veja e sem ódio, os sacrifícios decorrentes da pobreza material, isto torna o pobre um bem-aventurado. Por outro lado, também são bem-aventurados os que têm fome de Deus. A estes últimos, Deus alimentará com a sua graça, com mais abundância, na medida do desejo de perfeição.

Os pecadores encontram sua falsa felicidade na transgressão da lei de Deus. A estes adverte Jesus severamente, porque no dia do Juízo hão de chorar sua condenação eterna: “Ai de vós, os que agora rides, porque gemereis e chorareis” (v. 26). Ademais, ainda nesta terra, apesar de sua aparente alegria, vivem de tristeza, pois a consciência continuamente os acusa de suas faltas. Ao prazer decorrente do pecado sempre se segue o remorso pela falta cometida. Mas aqueles que choram de arrependimento pelos próprios pecados, já encontram, na sua contrição, consolo e felicidade. A experiência nos ensina que o arrependimento traz alegria, e é fruto da graça de Deus.

Lancemos uma vez mais o nosso olhar para a Virgem Maria, aquela que todas as gerações a proclamam de “bem-aventurada”, porque acreditou na boa nova que o Senhor lhe anunciou (cf. Lc 1,45.48). Que ela, mãe de Deus e nossa, interceda por cada um de nós e nos faça trilhar, todos os dias, com o coração dilatado, o caminho das bem-aventuranças. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

V DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – A PESCA ABUNDANTE

Lc 5,1-11

Caros irmãos e irmãs!

Para este domingo a Igreja nos apresenta um texto evangélico onde encontramos a vocação dos primeiros discípulos de Jesus, no contexto da pesca milagrosa. Na vocação dos discípulos está retratado a missão da Igreja e dentro dela a dos apóstolos, particularmente, a de Pedro. Por isso, entre os dois barcos que havia visto, Jesus, o Mestre, escolhe precisamente a barca de Simão, nela se senta, e de onde passa a ensinar às multidões. Com este gesto, indica por quem a Palavra de Deus deve ser anunciada, por Ele mesmo, o Cristo Jesus, que fala através da cátedra de Pedro.

A pesca milagrosa ocorre junto ao mar. Neste sentido, para melhor entender o texto, precisamos recordar o que significava o “mar” no ideário judaico: era o lugar dos monstros, onde residiam os espíritos e as forças demoníacas que procuravam roubar a vida e a felicidade do homem. Dizer que os seus discípulos vão ser “pescadores de homens” significa que a missão do cristão é continuar a obra de Jesus em favor do homem, procurando libertá-lo de tudo aquilo que lhe rouba a vida e a felicidade. Trata-se de salvar o homem de morrer afogado no mar da opressão, do egoísmo, do sofrimento, do medo, das forças demoníacas que impedem a sua felicidade.

Sendo o mar o lugar simbólico das forças hostis a Deus (cf. Gn 7, 17-24; Sl 74,13-14; Jó 38,16-17), é provável que o lago de Genesaré simbolize o campo de batalha onde os discípulos devem lutar para exercer, com a força da graça, o ministério dado por Jesus. Este campo de combate, representado pela dificuldade da pesca e o reconhecimento de Simão como pecador, demonstra as adversidades contínuas, pois o pecado e a influência do mal se manifestam por toda a parte.

Para o peixe, criado para a água, é mortal ser tirado para fora do mar. Ele é privado do seu elemento vital para servir de alimento ao homem. Os peixes retirados da água, morrem, ao passo que os homens vivem. Jesus se serve deste simbolismo para explicar que na missão do pescador de homens acontece o contrário. Quantas pessoas vivem alienadas, nas águas salgadas do sofrimento e da morte; em um mar de obscuridade sem luz, marcadas pelo pecado, pelo egoísmo, pelo ódio e pela violência e pelo erro. As ondas impetuosas podem submergir e arrastar o homem para o fundo do abismo. Muitos podem ser tragados pelas forças do mal. Cabe aos discípulos de Cristo a missão de salvar a todos, tirando-os, através da rede do Evangelho, para fora das águas da morte para os conduzir ao esplendor da luz de Deus, na verdadeira vida.

Nota-se ainda que a pesca é feita durante a noite. A noite é o tempo das trevas, da escuridão: significa a ausência de Jesus: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 9,4-5). O resultado da ação dos discípulos, à noite, sem Jesus, é um fracasso: “Sem Mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5). A chegada da manhã, da luz, coincide com a presença de Jesus, que é a luz do mundo (cf. Jo 8,12). Jesus não está com eles no barco, mas sim em terra. Ele não acompanha os discípulos na pesca; a sua ação no mundo exerce-se por meio dos discípulos. O grupo está desorientado e decepcionado pelo fracasso. Mas Jesus lhes dá indicações; e as redes enchem-se de peixes. O fruto da pesca se deve à obediência com que os discípulos seguem as indicações de Jesus.

Estes pescadores tinham, certamente, ouvido falar de Jesus. O seu ensinamento parecia ter autoridade, mas não era um homem do Lago. Não era Ele que ia dar lições a estes pescadores experientes. Pedro era um pescador profissional. Conhecia o seu ofício. Aquele dia era um dia de pesca infrutífera. E chega Jesus, carpinteiro, a dizer-lhe o que fazer, para lançar as redes. A primeira atitude de Simão é, naturalmente, de hesitação. Apesar de tudo, manifesta uma atitude de confiança, ao lançar as redes. A palavra e a personalidade de Jesus inspiraram-lhe alguma confiança.

A pesca é verdadeiramente milagrosa, por isso, Simão Pedro vê a glória de Deus em Jesus, chamando-o com o título de Senhor, e, simultaneamente, ele se conscientiza de sua precária condição de pecador. Curioso é que o seu gesto não corresponde às suas palavras; pois ele se joga aos pés de Jesus enquanto pede o seu afastamento (v.8). As palavras de Jesus, no entanto, vão ao encontro deste gesto de confiança e de fé, associando-o à sua missão, elevando-o à condição de pescador de homens (v.10). Vencendo o temor (v.10), Simão deixa tudo e começa a aventura do seguimento de Cristo, juntamente com os demais companheiros (v.11).

Pedro ao cair de joelhos aos pés de Jesus, suplica: “Retira-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador!” (Lc 5,9). É que tanto ele quanto quem o acompanhava na barca ficaram fortemente impressionados com a extraordinária pesca que acabavam de realizar pela palavra de Jesus. Por isso, Pedro não o chama agora de Mestre, mas de Senhor (v.10). Ou seja, para Pedro, Jesus era o seu mestre. Mas, diante da pesca milagrosa que não se explica por causas naturais, Pedro descobre que Jesus não é um simples mestre ou profeta comum. Já o vê como seu Senhor, nome reservado exclusivamente a Deus. Foi um grande passo na descoberta da verdadeira identidade de Jesus.

A admiração atrai Pedro a Jesus, mas a consciência de seu estado de pecador o afasta dele. Nos versículos anteriores, o Evangelista São Lucas, usa o nome “Simão”, referindo-se a Pedro, contudo, no momento de relatar a sua reação diante da pesca prodigiosa, diz “Simão Pedro”. Por que razão? Certamente, porque diante do milagre presenciado, a fé de Simão começou a tornar-se uma rocha, ou seja, uma pedra. Pela fé, Simão é transformado em pedra, e já se põe o fundamento para a sua vocação em “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja” (Mt 16,18).

Assim como Pedro, nós também somos chamados a reconhecer Jesus como “o Senhor” (v. 8): é o que faz Pedro, ao perceber como a proposta de Jesus gera vida e fecundidade para todos. O título “Senhor”, em grego, “kyrios”, é o título que a comunidade cristã primitiva dá a Jesus ressuscitado, reconhecendo nele o “Senhor” que preside o mundo e a história.

Sob a imagem da pesca, os evangelhos sinóticos apresentam a missão que Jesus confia aos discípulos (cf. Mc 1,17; Mt 4,19; Lc 5,10): libertar todos os homens que vivem mergulhados no mar do sofrimento e da escravidão. O peixe tornou-se símbolo dos primeiros cristãos, porque nas águas do batismo eles nascem para a fé e, nela vivendo, se salvam.

A imagem da pesca refere-se também à missão da Igreja e sobre a vocação à qual fomos chamados para uma tarefa no mundo. Por isto, devemos assiduamente pedir ao Senhor que envie trabalhadores para a sua messe e que mediante o seu convite, saibamos segui-lo respondendo com generosidade o seu chamado. E que também cada sacerdote saiba reavivar a sua disponibilidade em responder todos os dias o convite do Senhor com a mesma humildade dos primeiros apóstolos, renovando o seu “sim” ao Senhor com alegria e plena dedicação. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

III DOMINGO DO TEMPO COMUM – C -JESUS NA SINAGOGA

Lc 1,1-14;4,14-21

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia da Palavra deste domingo coloca no centro da nossa reflexão o início da pregação de Jesus. O Evangelista São Lucas, que nos acompanha durante este ano litúrgico, apresenta um significativo texto em que narra o começo do ministério de Jesus na sinagoga de Nazaré e tem seus paralelos sinóticos em Mc 6,1-6 e Mt 13,53-58. É o começo da intervenção salvífica de Deus em Jesus Cristo.

O texto evangélico nos situa em Nazaré, a cidade onde Jesus foi criado e, em um dia de sábado, Jesus entra na sinagoga da cidade. O culto sinagogal, como era o costume, consistia na leitura da palavra de Deus feita por turno, por alguns membros da comunidade. Lia-se inicialmente um trecho do livro da Lei ou seja, os primeiros cinco livros da Bíblia, e, em seguida, uma passagem dos livros dos Profetas, que pudesse elucidar o texto lido. Jesus se apresenta para ler o trecho profético e fazer o comentário. Ele escolhe um texto do profeta Isaías Is 61,1-2, que assim diz: “O Espírito do Senhor está sobre mim (…) enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração e para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os prisioneiros e para publicar o ano da graça do Senhor” (v. 17-19). É um texto em que descreve como é que o Messias concretizará a sua missão.

É significativo cada momento da narrativa sobre o fato ocorrido naquela manhã na sinagoga de Nazaré. Inicialmente Jesus abre o volume que lhe é entregue. Em seguida, após a leitura, enrola o volume, o entrega ao assistente e toma o seu assento. Naquele tempo, quem se sentava para instruir os outros era considerado mestre. O evangelista São Lucas quer frisar que Jesus se tornou o nosso mestre. Todos os livros do Antigo Testamento têm a finalidade de nos conduzir até Ele. Nas celebrações dominicais sempre temos uma leitura tirada de algum livro do Antigo Testamento, porque estes textos são indispensáveis, visando nos preparar a escutar o Cristo.

Podemos dizer que neste trecho do Evangelho temos um programa que Jesus irá realizar ao longo da sua vida terrena. A sua missão consiste em fazer realizar a boa nova e elucidar que algo novo chegou ao coração e à vida de todos os prisioneiros do sofrimento, da opressão, da injustiça, do desânimo, do medo. O que é mais significativo, no entanto, é a “atualização” que Jesus faz desta profecia: Ele se apresenta como o profeta que Deus ungiu com o seu Espírito, a fim de concretizar essa missão.

E neste texto Jesus manifesta de forma bem nítida a consciência de que foi investido do Espírito de Deus e enviado para transformar tudo o que rouba a vida e a dignidade do homem. É ele que vem anunciar a plenitude da bênção de Deus para a humanidade. Ele vem, como diz o texto, para anunciar o Evangelho aos pobres. No sermão das bem-aventuranças, lemos: “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3). Neste sermão Jesus se refere aos indigentes, aos carentes, aos fracos, aos humilhados. São os que trabalham dignamente e possuem apenas o trivial, os que vivem em condição de miséria absoluta. São ainda os desprovidos de socorro humano e material e que recorrem exclusivamente ao socorro de Deus e, por isso, são felizes. São felizes por não acumularem tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem corroem. São felizes porque foram cativados a servir a Deus e amar ao próximo. São felizes por terem encontrado a alegria do ser.

Jesus é aquele que também vem dar a vista aos cegos, não só os curando miraculosamente como sinal do seu poder, mas iluminando cada pessoa, para que ela possa conhecer a luz da fé e os preceitos da Lei de Deus. Ele vem livrar os cativos de toda a escravidão, quer material, quer espiritual, que desfigura a humanidade. Ele vem implantar no mundo a alegria da liberdade dos filhos de Deus.

Nas páginas do Evangelho encontramos uma orientação muito clara aos pobres e aos doentes, àqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, aqueles que não têm como retribuir. Hoje e sempre, os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho (cf. FRANCISCO, Carta Encíclica “Evangelii Gaudium”, 48).

Jesus, após ler o trecho do livro do profeta Isaías, diz: “Hoje se cumpriu este oráculo que vós acabais de ouvir” (v. 21). Ele anuncia repentinamente que essa palavra se cumpre hoje, nele. Na verdade o próprio Jesus é o “hoje” da salvação na história, porque leva a cumprimento a plenitude da redenção. O termo “hoje” já nos é apresentado com as palavras que o anjo dirigiu aos pastores: “Hoje nasceu para vós, na Cidade de Davi, um Salvador, o Cristo Senhor” (Lc 2, 11).

Aquele “hoje” pronunciado por Jesus naquele sábado em Nazaré vale para todo o sempre, porque Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre (cf. Hb 13,8). Este trecho interpela também a nós. Esta passagem do Evangelho também nos convida a interrogar-nos sobre a nossa capacidade de escuta. Antes de poder falar de Deus e com Deus, é preciso ouvi-lo, e a liturgia da Igreja é a escola desta escuta do Senhor que nos fala. Enfim, nos diz que cada momento pode tornar-se um “hoje” propício para a nossa conversão.

Também nós hoje somos chamados a anunciar aos necessitados uma palavra de estímulo e de esperança. Cada dia pode tornar-se o “hoje” salvífico, porque a salvação é história que continua para a Igreja e para cada discípulo de Cristo.

O “Hoje” é a novidade de Jesus e indica que o tempo está em desenvolvimento e que a história da humanidade está atravessando um momento excepcional de graça. O “hoje” prolonga-se no tempo da Igreja, o nosso tempo é o “hoje” de Deus.

A escuta da Palavra de Deus deve nos conduzir, como conduziu o povo da primeira leitura, a um exame de consciência, ao arrependimento e à conversão. A Palavra proclamada também é geradora de festa, de alegria e de felicidade: “Hoje é um dia consagrado a nosso Senhor; portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa fortaleza” (Ne 8,9), como consta na primeira leitura. O fato de Deus ainda hoje nos dirigir a sua palavra salvadora é fonte de alegria e de festa. Além disto, a Palavra de Deus é sempre palavra de salvação, que tem o seu pleno cumprimento em Jesus de Nazaré. E nele começa o eterno “hoje” da salvação que deve ser continuado pela ação da Igreja.

Cada momento pode tornar-se um “hoje” propício para a nossa conversão. Saibamos aproveitar o “hoje” que Deus nos concede em prol da nossa salvação. E que a participação em cada Celebração Eucarística, onde nos alimentamos não só do corpo e do sangue do Senhor, mas também da Palavra, lida e explicada, possa nos fazer compreender melhor a Palavra de Deus, Palavra de salvação para o nosso “hoje” concreto de cada dia.

À Virgem Maria, a quem sempre devemos ter como modelo e guia, peçamos que interceda incessantemente por cada um de nós, para que saibamos reconhecer e acolher, em cada dia da nossa vida, a presença de Deus, o Salvador nosso e de toda a humanidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

Festa do Batismo do senhor

Lc 3,15-16.21-22

Caros irmãos e irmãs,

Neste domingo, depois da solenidade da Epifania, celebramos a festa do Batismo do Senhor, que conclui o tempo litúrgico do Natal. É uma oportunidade propícia para que todos os cristãos redescubram a alegria e a beleza do seu Batismo que, vivido com fé, é uma realidade sempre atual: renova em nós a imagem do homem novo, na santidade dos pensamentos e das ações.

A liturgia da Palavra nos apresenta para esta celebração um texto evangélico que nos faz voltar o olhar para Jesus com a idade de trinta anos, fazendo-se batizar por João no rio Jordão. João Batista tinha o costume de administrar um batismo de penitência e utilizava o símbolo da água para expressar a purificação do coração e da vida. Ele era chamado de João, o “Batista”, ou seja, o que batizava, e pregava este batismo a Israel, para preparar a eminente vinda do Messias. Dizia a todos que depois dele viria outro, maior que ele, que não batizaria com água, mas com o Espírito Santo (cf. Mc 1,7-8).

Jesus se une àquela multidão e se direciona ao encontro de João, para ser batizado por ele, embora não necessitasse deste símbolo de purificação. Jesus quis ser batizado porque ainda não se manifestara como o Messias. Não convinha, pois, que fosse diferente dos outros. Jesus faz-se batizar não por necessidade, mas para dar um grande exemplo de humildade.

No momento do batismo de Jesus, o Espírito Santo desce sobre ele em forma de pomba, de maneira visível. E uma grande luz brilha no céu, como se o céu se abrisse. A pomba era o símbolo da paz, do amor puro, da inocência e da simplicidade (cf. Ct 2,14). O Espírito Santo ilumina os corações, transmite a luz divina, restaura a paz. Nos relata o evangelista São Lucas: “O céu se abriu e o Espírito Santo desceu” (Lc 3,21-22). E todos puderam ouvir as palavras: “Tu és o Meu Filho muito amado; em Ti eu ponho toda a minha complacência ” (v. 22). O Pai, o Filho e o Espírito Santo descem e temos a própria voz do Pai a indicar a presença de Jesus Cristo, seu Filho unigênito, no mundo.

A cena do batismo de Jesus, de algum modo acontece no batismo de cada catecúmeno. Não se vê o céu se abrir, mas a nossa fé nos garante que o Pai do céu está dizendo: “Este é o meu filho querido”. Como de fato, no dia do nosso batismo a voz do Pai nos chamou para sermos seus filhos em Cristo e sermos membros da Igreja, local onde iremos encontrar os meios necessários para o desenvolvimento do dom sublime da fé. E a Igreja, desde Pentecostes, vem celebrando o Sacramento do Batismo. Em sua pregação, São Pedro já dizia: “Convertei-vos e peça cada um de vós o Batismo… Recebereis o dom do Espírito Santo” (At 2,38). Jesus, no dia do seu batismo recebeu o Espírito, como nós o recebemos. Muito embora, o Espírito Santo já habitasse nele, em plenitude, desde o instante da sua concepção divina.

É o Espírito Santo que nos impulsiona a viver a vida nova conferida pelo Batismo. A água derramada sobre a cabeça de cada batizado não significa apenas ablução, purificação, significa vida, e vida nova, mas é também um “renascer”, um nascer de novo: “Quem não renascer pela água e pelo Espírito Santo, não pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3,5).

É importante lembrarmos as palavras pronunciadas por João Batista no Evangelho: “Eu vos batizo com água, mas vai chegar alguém mais forte do que eu… Ele há de vos batizar no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3,16). E podemos perguntar o significado deste fogo a que João Batista se refere. Antes, devemos lembrar que o Batismo administrado por João era um ato de penitência, com a finalidade de pedir perdão pelos pecados e a possibilidade de começar uma nova existência. No Batismo instituído por Cristo é o próprio Deus que age, é Jesus que age através do Espírito Santo. Neste Batismo está presente o fogo do Espírito Santo. É Deus que age em nós, para sermos seus filhos.

Pelo batismo, com o derramamento da água sobre as nossas cabeças fomos assinalados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, fomos mergulhados nesta “fonte” de vida que é o próprio Deus e que nos constituiu seus verdadeiros filhos. A água é o elemento da fecundidade. Sem água não há vida. E assim, em todas as grandes religiões a água é vista como símbolo da purificação, da fecundidade, símbolo da vida.

Na cena evangélica está presente uma eloquente manifestação da Santíssima Trindade: O Pai do Céu que fala das nuvens entreabertas; o Espírito Santo em forma de pomba; e o Filho unigênito, saindo das águas do rio Jordão. Esta é uma viva referência ao batismo cristão, que é ministrado, segundo a ordem de Jesus, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”.

O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que o Batismo é o fundamento de toda a vida cristã, o pórtico da vida no Espírito e a porta que dá acesso aos outros sacramentos. Pelo Batismo somos libertos do pecado e regenerados como filhos de Deus: tornamo-nos membros de Cristo e somos incorporados na Igreja e tornados participantes na sua missão (cf. CIgC 1213). Quando recebemos o Batismo, todos os pecados são perdoados: o pecado original e todos os pecados pessoais, bem como todas as penas do pecado. Com efeito, naqueles que foram regenerados, não resta nada que os impeça de entrar no Reino de Deus. Porém, certas consequências temporais do pecado permanecem, tais como os sofrimentos, a doença, a morte ou as fragilidades inerentes à vida, como as fraquezas do caráter (cf. CIgC, n. 1264).

O Batismo também aparece sempre ligado à fé (cf. At 16,31-33). Segundo o apóstolo São Paulo, pelo Batismo o crente comunga na morte de Cristo; é sepultado e ressuscita com Ele (cf. Rm 6,3-4). E, em nossos dias, a fé é um dom que se deve redescobrir, cultivar e testemunhar.

Somos incorporados a Cristo pelo Batismo e com este sacramento o cristão recebe um sinal espiritual indelével da sua pertença a Cristo. É um sacramento que imprime caráter, ou seja, uma marca que nunca apaga, nem mesmo mediante o pecado, embora esta fragilidade possa impedir o Batismo de produzir os frutos de salvação. Assim, todo o organismo da vida sobrenatural do cristão tem a sua raiz no santo Batismo.

Com esta festa em que recordamos o Batismo do Senhor, peçamos a Ele que nos conceda a graça de viver a beleza e a alegria de sermos bons cristãos e que aprendamos a conhecê-lo e a amá-lo com todas as forças e a servi-lo fielmente e sendo portadores de uma vida cristã coerente.

Peçamos também a Virgem de Nazaré, a filha predileta do Senhor, para que nós, já revestidos com a veste branca do batismo, sinal da nova dignidade de filhos de Deus, durante toda a nossa vida, sejamos discípulos fiéis de Cristo e corajosas testemunhas do Evangelho. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB