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XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Parábola do administrador infiel

Lc 16,1-13

Caríssimos irmãos e irmãs,

No Evangelho deste domingo Jesus nos conta uma parábola que nos fala de um homem rico, que tinha um administrador acusado de ser desonesto, porque dissipava os bens de seu patrão. Por isso, o patrão planeja a sua demissão, mas, antes de deixar o emprego o administrador teve que prestar contas de sua gestão. Assustado e despreparado para outro tipo de trabalho, tratou de fazer amigos para garantir o seu futuro.

O administrador entendeu que, no futuro, mais do que de dinheiro, precisaria de amigos. Ele avalia a situação em que se encontra e sabe que antes de deixar a administração, ele deve fechar as contas com o seu patrão. Ele tem consciência que são muitos os devedores e, por isso, começa a refletir: “O senhor vai me tirar a administração. Que vou fazer? Para cavar, não tenho forças; de mendigar, tenho vergonha. Ah! Já sei o que fazer para que alguém me receba em sua casa quando eu for afastado da administração’. Então ele chamou cada um dos que estavam devendo ao seu patrão. E perguntou ao primeiro: “Quanto deves ao meu patrão?’ Ele respondeu: ‘Cem barris de óleo!’ O administrador disse: ‘Pega a tua conta, senta-te, depressa, e escreve cinquenta!”(v. 6).

Esta dívida correspondia a 3.650 litros, ficou reduzida a 1.825 litros de óleo. Trata-se de uma economia bem expressiva, correspondente a um ano de salário. A pergunta, em seguida, vem para o segundo devedor: “‘E tu, quanto deves?’ Ele respondeu: ‘Cem medidas de trigo’. O administrador disse: ‘Pega a tua conta e escreve oitenta’” (v.7). Estas cem medidas de trigo correspondem a 27 toneladas, equivalentes a 42 hectares de terra. A dívida fica reduzida a oitenta medidas, ou seja, 5,5 toneladas a menos.

Na parábola, pode-se perceber que o patrão é taxativo ao dizer ao administrador: “Já não podes mais administrar meus bens” (v.2). Ao receber esta informação, o administrador não esboça nem mesmo uma autodefesa. Ele parece estar consciente das suas falhas e sabe perfeitamente que as informações recebidas pelo patrão são verdadeiras e logo pensa em soluções para garantir o seu futuro. Embora o texto apresente um elogio do patrão ao administrador pela sua esperteza (v.8), entretanto, ele não voltou atrás em sua decisão de despedir o administrador infiel.

Como homem entendido em negócios ele calcula e busca saídas para a emergência dentro do sistema econômico que ele conhece. Ele age com interesse e busca cúmplices, pois os devedores de seu patrão passam a ser devedores de seus favores. Estes devedores passam a dever muito menos ao empresário e se sentem na obrigação de reconhecer a ajuda daquele administrador.

Certamente, no futuro, estes devedores não esquecerão que foram favorecidos pela generosidade do administrador. Para melhor compreender esta parábola, faz-se necessário um retorno histórico. No tempo de Jesus não havia na Palestina uma remuneração salarial aos administradores, eles recebiam uma porcentagem, em conformidade com os negócios realizados. Os administradores de então, como os publicanos ou cobradores de impostos, não costumavam ter um salário fixo, mas uma comissão de acordo com as transações comerciais que conseguissem.

Na parábola, o administrador não reduz o valor que o seu patrão tinha estipulado. O desconto que oferece aos devedores é o resultado da não cobrança da sua parte, ou seja, da sua comissão. Ele oferece esta parte em troca da amizade dos devedores, pois, na sua reflexão, muito mais importante que ter dinheiro é ter amigos.

Um empresário não poderia ficar indiferente diante de um prejuízo de 1.825 litros de óleo e 5,5 toneladas de trigo. Este patrão louva o seu antigo administrador, que não o havia prejudicado nessa operação. Por isto, tudo indica que o administrador renunciou ao que estava acostumado a lucrar com as comissões sobre os negócios. Ele renuncia à sua comissão, ao seu próprio ganho, ao dinheiro que lhe era devido, para conquistar amigos.

A mensagem da parábola está no fato de que, a única maneira de fazer frutificar para a eternidade os nossos talentos e capacidades pessoais, assim como as riquezas que possuímos, é partilhá-las com os irmãos, sendo bons administradores daquilo que Deus nos confia.

Uma outra grande lição que deve ficar dessa parábola é a de fazer um bom uso do dinheiro em vista da eternidade. No final da parábola, Jesus aponta outro caminho: investir o dinheiro e os bens que temos, poucos ou muitos, em criar amigos nas moradas eternas do Reino, pois serão eles que nos acolherão na vida eterna.

A parábola não apresenta o administrador como modelo a ser seguido, evidentemente que Jesus não está convidando a imitar a sua desonestidade, mas a sua habilidade, sua esperteza. De fato, esta breve parábola conclui-se com estas palavras: “O senhor elogiou o administrador desonesto por ter procedido prudentemente” (Lc 16, 8). O dinheiro em si não é desonesto, mas pode fechar o homem a um egoísmo cego. Em vez de usá-lo em benefício próprio, é preciso pensar também nas necessidades dos pobres, imitando o próprio Cristo, como nos diz São Paulo, que “sendo rico se fez pobre por nós, a fim de nos enriquecer pela pobreza” (2Cor 8, 9).

Esse administrador teria todos os motivos para não dar nenhum desconto àqueles que deviam para o seu patrão, pois ele precisaria desse valor logo depois, tendo em vista que seria demitido. Mas ele vê que na vida, os bens materiais ficam, perecem, são realidades terrenas. Os relacionamentos, com Deus e com os irmãos, ao contrário, permanecem. Também nós devemos ter consciência de que muito mais importante do que os bens materiais são os relacionamentos que fazemos com os irmãos e com Deus.

A parábola do administrador infiel é uma imagem da vida do homem. Tudo o que temos é dom de Deus, e nós somos os seus administradores, mais tarde ou mais cedo também teremos de prestar contas a Ele. Trata-se, pois, de um apelo ao esforço e à vigilância tendo em vista o último dia, quando se haverá de dizer a cada um: “Presta contas da tua administração!” (Lc 16,2). O uso do dinheiro exige uma grande honestidade, tanto nos negócios mais importantes, como nos mais insignificantes, porque “quem é fiel no pouco é também fiel no muito” (Lc 16,10).

Peçamos a Virgem Maria que interceda sempre por nós e nos faça usar com sabedoria evangélica, isto é, com solidariedade generosa, os bens terrenos e que possamos sempre ter consciência que Deus é o nosso único Bem. E que ele mesmo nos faça desapegar dos bens terrenos, para desejarmos apenas os bens eternos, pois só eles não levarão à verdadeira felicidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento / RJ

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

Lc 1,39-56

Caros irmãos e irmãs,

Neste domingo celebramos a solenidade da Assunção de Nossa Senhora, uma verdade que a Igreja professou desde os primeiros séculos, mas que só foi proclamada como dogma pelo Papa Pio XII em 1950, através da bula “Munificentissimus Deus”, onde declarava ser este dogma “revelado por Deus que a imaculada Mãe de Deus, a Virgem Maria, tendo terminado o curso de sua vida terrena, foi assunta em corpo e alma à glória celestial” (DS 3903).

Ao proclamar a Assunção da Virgem Maria, o Papa Pio XII ressaltou, implicitamente, a dignidade do corpo humano. O homem chega à glória da eternidade, quando sabe valer-se dos órgãos do corpo terreno para fazer o bem, para estar a serviço de Deus e dos irmãos, foi isto que levou Maria à glorificação final. Todos nós podemos e devemos fazer o mesmo. Guardar a dignidade do corpo na terra, para que Deus o glorifique no céu.

O evangelho nos remete ao limiar da casa de Zacarias, onde Maria, apressadamente, vem ter com Isabel, à quem se vê unida por um mistério análogo; e vem partilhar com ela a sua própria alegria. E neste encontro, João Batista exaltou de alegria no ventre de Isabel, porque o Salvador, presente em Maria, estava próximo. E Isabel reconheceu em Maria a Mãe do Salvador, a bendita entre todas as mulheres. Na saudação de Isabel temos a sequência do que se ouviu do Anjo Gabriel: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu….” (Lc 1,42.45). E nesse instante, brota dos lábios de Maria o cântico do “Magnificat”, onde os seus sentimentos exprimem a consciência do cumprimento das promessas do Senhor (cf. Lc 1,54).

O primeiro movimento deste cântico mariano (cf. Lc 1,46-50) é uma espécie de voz solista que se eleva em direção ao céu para alcançar o Senhor. Com efeito, observe-se o ressoar constante da primeira pessoa: “A minha alma… o meu espírito… meu salvador… me chamarão de bem-aventurada… fez grandes coisas em mim…”. A alma desta oração mariana é, portanto, a celebração da graça divina que transbordou no coração e na sua existência, tornando-a a Mãe do Senhor. Ouvimos precisamente a voz de Nossa Senhora que fala assim do seu Salvador, que fez maravilhas na sua alma e no seu corpo.

A estrutura íntima do seu canto é, portanto, o louvor, o agradecimento, a alegria. É um testemunho pessoal de Maria, que está consciente de ter uma missão a cumprir pela humanidade e a sua vicissitude insere-se no âmbito da história da salvação. E assim pode dizer: “A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem” (v. 50). Com este louvor ao Senhor, Maria dá voz a todas as criaturas beneficiadas pela misericórdia de Deus.

O cântico inicia com a palavra “Magnificat”: a minha alma “engrandece” o Senhor, ou seja, “proclama grande” o Senhor. Maria deseja que Deus seja grande no mundo, seja grande na sua vida, esteja presente entre todos nós. Se Deus é grande, o homem também é grande. Não podemos ficar distantes de Deus, mas tornar Deus presente; fazer com que Ele seja grande na nossa vida, para sermos, assim como ele, também santos. É importante que Deus seja grande entre nós, porque somente se Deus está presente, temos uma orientação, uma estrada comum a seguir.

No “Magnificat” Maria também diz: “De hoje em diante todas as gerações me chamarão bem-aventurada”. A Mãe do Senhor profetiza os louvores marianos da Igreja para todo o futuro, a devoção mariana do Povo de Deus até o fim dos tempos. Louvando Maria, a Igreja respondeu a esta profecia feita por ela, naquele momento de graça. E estas palavras não deixam de ser um complemento às palavras de Isabel, pronunciadas no momento em que estava ela repleta do Espírito Santo: “Bendita aquela que acreditou”. E Maria, também cheia do Espírito Santo, sequencia, afirmando: “Todas as gerações me chamarão de bem-aventurada”.

Maria é bem “bem-aventurada”, é bendita para sempre. Este é o contexto da Solenidade que a Igreja celebra neste domingo. É bem-aventurada porque está unida a Deus, vive com Deus e em Deus. O Senhor, na vigília da sua Paixão, ao despedir-se dos apóstolos, disse: “Eu vou preparar-vos, na casa do Pai, uma morada. E Há muitas moradas na casa do meu Pai”. Quando Maria dizia: “Eu sou a tua serva, faça-se em mim segundo a tua vontade” preparava aqui na terra a morada para Deus; de corpo e alma, tornou-se morada de Deus.

Maria torna-se a tenda de Deus, a morada onde Deus vem habitar. Santo Agostinho diz: “Antes de conceber o Senhor no corpo, já O tinha concebido na alma”. Reservou ao Senhor o espaço da sua alma e assim tornou-se realmente o autêntico Templo onde Deus encarnou, tornando-se presente nesta terra. Deste modo, como morada de Deus na terra, nela já está preparada a sua morada eterna, já está preparada esta morada para sempre. E é nisto que consiste todo o conteúdo do dogma da Assunção de Maria à glória do céu de corpo e alma. Maria é “bem-aventurada” porque se tornou totalmente, de corpo e alma e para sempre a morada do Senhor. Se isto é verdade, Maria não nos convida apenas à admiração, à veneração, mas também nos orienta, nos indica o caminho da vida e nos mostra como podemos tornar-nos bem-aventurados, como podemos encontrar a vereda da felicidade.

Maria, com a sua total disponibilidade, abriu as portas ao Salvador do mundo. Foi grande e heróica a obediência da sua fé; foi precisamente através desta fé que Maria se uniu perfeitamente a Cristo, na morte e na glória.


Olhando para ela fortalece em nós a fé no que esperamos, e, ao mesmo tempo, compreendemos melhor o sentido e o valor da nossa peregrinação neste mundo.

Também as palavras do Apóstolo São Paulo, na segunda leitura (cf. 1Cor 15,20-26), nos ajudam a compreender o significado desta solenidade que celebramos. Em Maria, que subiu ao Céu no termo da sua vida terrestre, resplandece a vitória definitiva de Cristo sobre a morte, que entrou no mundo em virtude do pecado de Adão. Foi Cristo, o “novo” Adão, que venceu a morte, oferecendo-se em sacrifício no calvário, em atitude de amor obediente ao Pai. Assim, Ele nos resgatou da escravidão do pecado e do mal. No triunfo da Virgem, a Igreja contempla aquela que o Pai escolheu como verdadeira Mãe do seu Filho Jesus, a quem associou intimamente ao desígnio salvífico da Redenção. Por isso, Maria constitui um sinal consolador da nossa esperança.

Em cada celebração eucarística, o Filho de Deus é doado a nós. Quem participa da comunhão leva consigo agora de modo particular o Senhor ressuscitado. Como Maria o levou no seu ventre um frágil e pequeno ser humano, totalmente dependente do amor da mãe, assim, Jesus Cristo, sob a espécie do pão, se confiou a nós. É Jesus mesmo que se doa tão inteiramente nas nossas mãos! Possamos nós ter por ele o mesmo amor que tem a sua mãe Maria! Possamos leva-lo a todos, como Maria o levou a Isabel, suscitando júbilo e alegria! A Virgem doou ao Verbo de Deus um corpo humano, para que pudesse entrar no mundo. Doemos também nós o nosso corpo ao Senhor, tornemos o nosso corpo cada vez mais um instrumento do amor de Deus, um templo do Espírito Santo!

Possamos aprender junto com Maria os caminhos que nos levam à glória do céu. Que saibamos estar na escola daquela que “guardava e meditava tudo em seu coração” (Lc 2,16). Que Nossa Senhora da Assunção nos acompanhe com a inefável generosidade de que só a Mãe de Deus é capaz. Que Maria possa sempre interceder por nós, para que, dizendo “não” ao erro e ao pecado, saibamos preparar o nosso encontro definitivo com Cristo, no final da nossa peregrinação terrestre.

Esta solenidade também nos recorda que as raízes desta vitória sobre a morte, prodigiosamente antecipada em Maria, estão na sua fé, uma fé que é obediência à Palavra de Deus e entrega total à iniciativa e à obra divina. Contemplando Nossa Senhora da Assunção no céu compreendemos melhor que a nossa vida, não obstante seja marcada por provações e dificuldades, está sempre direciona para Deus, para a plenitude da alegria e da paz. Entendemos que o nosso morrer não é o fim, mas o ingresso na vida que não conhece a morte. O nosso crepúsculo no horizonte deste mundo é um ressurgir na aurora do mundo novo, do dia eterno. Peçamos Santa Maria, para que ela possa rogar sempre por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte! Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

XX DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – NÃO VIM TRAZER A PAZ, MAS A DIVISÃO

Lc 12,49-53

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo começa definindo a missão de Jesus como um “lançar fogo à terra”, a fim de que desapareça o pecado e nasça um novo tempo. A proposta de Jesus trará, no entanto, divisão, pois é uma proposta exigente, que provocará a oposição de muitos. Na primeira parte do texto Jesus diz: “Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!” (v. 49). No Antigo Testamento o fogo traz consigo um elemento teofânico, usado para representar a santidade divina (cf. Ex 3,2; 19,18; Dt 4,12; 2Rs 2,11). O fogo também aparece na linguagem dos profetas para ressaltar o quadro do castigo das nações pecadoras (cf. Is 30,27.30.33). No entanto, ao mesmo tempo que castiga, o fogo também faz desaparecer o pecado (cf. Is 9,17-18; Jr 15,14; 17,4.27); e surge, assim, como elemento de purificação e transformação (cf. Is 6,6; Dn 3). Neste contexto, o fogo tem um poder transformador, e dele nascerá o mundo novo, de justiça e de paz.

Jesus veio revelar aos homens a santidade de Deus. A sua proposta destina-se a destruir o erro e o pecado. Também podemos lembrar do Espírito Santo, quando no dia de Pentecostes, desceu como línguas de fogo sobre os apóstolos e a Virgem Maria, estando eles reunidos em oração no Cenáculo (cf. At 2,3-11). O Espírito Santo passa a dar energia e força a eles, para que possam propagar o fogo da sua palavra e do seu amor, como pedimos na oração: “Vinde Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor…”.

Na segunda parte (v. 51-53), Jesus confessa que não veio trazer a paz, mas a divisão: “Julgais que Eu vim estabelecer a paz na terra?” E acrescenta: “Daqui por diante estarão cinco divididos numa só casa: três contra dois e dois contra três; dividir-se-ão o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra” (Lc 12,51-53).

A Sagrada Escritura nos diz que a paz é um dom messiânico (cf. Lc 2,14.29; 7,50; 8,48; 10,5-6; 11,21; 19,38.42; 24,36) e que a função do Messias será guiar os passos dos homens “no caminho da paz” (Lc 1,79). Ele é mensagem de paz por excelência. O Cristo Senhor, como escreve São Paulo, “é a nossa paz” (Ef 2,14). Ele morreu e ressuscitou para derrubar o muro da inimizade e inaugurar o Reino de Deus que é amor, alegria e paz. Jesus é anunciado no Antigo Testamento como o príncipe da paz (cf. Is 9,5) e caberia a ele anunciar a paz aos povos (cf. Zc 9,10). Por ocasião do seu nascimento os anjos anunciaram: “Paz na terra” (Lc 2,14). E após a sua ressurreição ele aparece aos seus apóstolos dizendo: “A paz esteja convosco” (Jo 20,21).

Contudo, a mensagem que Jesus traz à humanidade é questionante e interpeladora: alguns a acolhem positivamente; outros a rejeitam, não estão interessados nem em Jesus nem mesmo na proposta que ele traz. Como consequência, haverá divisão e desavença, até mesmo dentro da própria família, mediante as opções que cada um pode fazer.

Por isso, quem deseja seguir Jesus e comprometer-se sem hesitações pela verdade deve saber que encontrará oposições e se tornará, infelizmente, sinal de divisão entre as pessoas. O amor aos pais é um mandamento sagrado, mas para ser vivido de modo autêntico, nunca pode ser anteposto ao amor de Deus e de Cristo.

A fé exige que se escolha Deus como critério básico da vida. Deus é misericórdia, Deus é fidelidade, é vida que se doa a todos nós. Jesus não quer dividir os homens entre si, pelo contrário: Jesus é a nossa paz, é a nossa reconciliação! Mas esta paz comporta a renúncia ao mal, ao egoísmo, e a escolha do bem, da verdade e da justiça, mesmo quando isto exige sacrifício e renúncia aos próprios interesses. E isto sim, divide; como sabemos, divide até os vínculos mais estreitos. Mas não é Jesus que divide! Ele propõe o critério: viver para si mesmo, ou para Deus e para o próximo; ser servido, ou servir; obedecer ao próprio eu, ou obedecer a Deus. O velho Simeão já havia dito que o próprio Cristo seria um “sinal de contradição” (Lc 2,34).

Parece difícil conciliar a paz e a divisão. Por isto, para entendermos a mensagem do evangelho deste domingo, faz-se necessário lembrar de uma outra afirmação de Jesus. Ele disse: “A verdade vos libertará” (Jo 8,32). E também afirmou: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Não se pode trair a verdade. E então, poderá acontecer que algumas pessoas não concordarão com o que o Evangelho ensina e se afastarão do caminho apontado por ele.

A paz que Jesus veio trazer não é sinônimo de simples ausência de conflitos, ao contrário, a paz de Jesus é fruto de uma luta constante contra o mal. O confronto que Jesus está decidido a enfrentar não é contra homens ou poderes humanos, mas contra satanás, o inimigo de Deus e do homem. Quem quer resistir a este inimigo, permanecendo fiel a Deus e ao bem deve necessariamente enfrentar incompreensões e, às vezes, verdadeiras perseguições.

As perseguições já ocorriam na época dos profetas, como ressalta a primeira leitura, que nos mostra a figura do profeta Jeremias, cuja existência se traduziu em arriscar a vida por causa do anúncio da Palavra de Deus. Ele foi seduzido pelo Senhor e colocou-se inteiramente ao seu serviço, mesmo que isso tenha significado violentar a sua própria maneira de ser, afastar-se dos familiares, dos amigos e deparar com o ódio dos opositores à sua mensagem. Jeremias é o protótipo do profeta que dá a sua vida para que a Palavra de Deus seja anunciada a todos. Para estar a serviço da Palavra de Deus, Jeremias experimentou o sofrimento, a incompreensão e a morte, ocorrida por volta do ano 580 a.C, estando ele exilado no Egito. Uma tradição judaica diz que ele foi apedrejado até a morte pelos próprios compatriotas.

Nisso, pode-se lembrar do início do cristianismo e do tempo das perseguições. Muitos pagãos convertidos eram desprezados pelos seus familiares. Podemos lembrar de São Sebastião, que viveu no século terceiro e era amigo pessoal do Imperador Diocleciano, mas tendo se convertido ao cristianismo, foi por ele abandonado e condenado à morte. Podemos lembrar ainda dos apóstolos, de Santo Estêvão, o primeiro mártir, de São João Batista, o maior dos profetas de Cristo, que soube renegar-se a si mesmo para dar espaço ao Salvador, e sofreu e morreu pela verdade. Podemos ainda recordar de muitos outros santos que foram perseguidos e mortos por causa da verdade, por causa de Cristo. Neste mês de agosto celebramos vários deles, dentre os quais ressaltamos de São Lourenço, do século III, vindo a falecer por ocasião da perseguição contra os cristãos no ano de 258, ordenada por Valeriano, imperador pagão, que mandou amarrar Lourenço em uma grelha, para ser assado vivo e lentamente. E Santa Teresa Benedita da Cruz, também morta num campo de concentração, por ocasião da perseguição nazista.

E neste domingo, 14 de agosto, recordamos também um outro mártir, São Maximiliano Maria Kolbe, que concluiu com o martírio a sua peregrinação terrestre, também na época da perseguição nazista, há 75 anos. Foi no final de julho de 1941, quando vários prisioneiros foram destinados a morrer de fome, e, neste dia, São Maximiliano, então sacerdote, apresentou-se espontaneamente, declarando-se pronto a morrer em substituição a um deles, porque era um pai de família e a sua vida era necessária aos seus entes queridos. Dando a sua vida por um irmão, São Maximiliano soube cumprir o preceito do Senhor: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15,13). E São Maximiliano, após mais de duas semanas de tormentos por causa da fome, enfim teve tirada a sua vida, com uma injeção letal, aos 14 de agosto daquele ano. Segundo relatos, a última palavra pronunciada por São Maximiliano, foi “Ave-Maria!”, no momento em que estendia o braço para aquele que o matava.

Este é o testemunho dos santos, este é especialmente o testemunho dos mártires, associados de maneira íntima ao sacrifício redentor de Cristo, que na cruz deu a própria vida em prol da humanidade. A Virgem Maria, Rainha da Paz, partilhou até ao martírio da alma a luta do seu Filho Jesus contra o maligno, e continua a partilhá-la até o fim dos tempos. Invoquemos a sua proteção materna, para que nos ajude a sermos sempre testemunhas da paz de Cristo. Que ela nos ajude também a manter o olhar bem fixo em Jesus e a segui-lo sempre, mesmo quando for difícil. E como mãe, se digne a interceder sempre por nós, por nossa cidade, pelo mundo inteiro, para que obtenhamos um futuro que não pode ser de ódio, mas de fraternidade; que não seja de confronto, mas de colaboração, fraternidade, respeito recíproco e de paz. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento – RJ

VII DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA C – ASCENSÃO DO SENHOR

Lc 24,46-53

Caros irmãos e irmãs,

A Igreja celebra neste domingo a solenidade da Ascensão do Senhor, que deve significar para nós um canto de vitória e de esperança. A liturgia da Palavra traz ler uma passagem do Evangelho de São Lucas, onde podemos ler: “Eu enviarei sobre vós aquele que meu Pai prometeu, por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto. Então Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os. Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu. Eles o adoraram. Em seguida voltaram para Jerusalém, com grande alegria. E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus” (49-52).

São Lucas descreve o acontecimento da Ascensão também no início do Livro dos Atos dos Apóstolos, para frisar que tal evento é como o elo que une a vida terrena de Jesus à vida da Igreja. São Lucas refere-se também à nuvem que subtrai Jesus à vista dos discípulos, os quais permanecem a contemplar Cristo que sobe para junto de Deus: “Foi elevado ao céu à vista deles e uma nuvem subtraiu-o ao seu olhar”. E eles “estavam com os olhos fixos no céu, para onde Jesus se afastava” (At 1, 9-10). Neste instante aparecem dois homens com vestes brancas que os convidam a não permanecer imóveis a contemplar o céu, mas a alimentar a sua vida e o seu testemunho com a certeza de que Jesus voltará do mesmo modo como o viram subir ao céu (cf. At 1, 10-11).

Estes dois homens com as vestes brancas são os mesmos que aparecem no sepulcro, no dia da Páscoa (cf. Lc 24,4). A cor branca representa, de acordo com o simbolismo bíblico, o universo de Deus. As palavras pronunciadas pelos dois homens constituem a explicação dada por Deus à ressurreição de Cristo. Indica que Jesus, condenado à morte pelos homens, foi glorificado. E o fato de serem duas testemunhas indica a veracidade do fato.

Com o olhar da fé, os apóstolos compreendem que, não obstante tenha sido subtraído aos seus olhos, Jesus permanece para sempre com eles e, na glória do Pai, não os abandona. Por isto, a Ascensão não indica a ausência de Jesus, mas nos diz que Ele está vivo no meio de nós de um novo modo. E esta é a razão pela qual os discípulos se alegram. Jesus não se encontra em um lugar específico do mundo, como antes, agora está no Senhorio de Deus, presente em cada espaço e tempo, próximo de cada um de nós. Na nossa profissão de fé dizemos que Jesus “subiu ao Céu, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso”. A vida terrena de Jesus culmina com o evento da Ascensão, ou seja, quando Ele passa deste mundo para o Pai e é elevado à sua direita.

A solenidade da Ascensão do Senhor também nos convida a sermos testemunhas de Jesus que vive na Igreja e nos corações de todos os povos. No dia da sua ascensão ao céu disse Jesus aos Apóstolos: “Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura… Eles, partindo, foram pregar por toda a parte; o Senhor cooperava com eles, confirmando a palavra com os sinais que o acompanhavam” (Mc 16, 15.20).

Com isto, podemos observar que a Ascensão de Jesus não indica sua ausência temporária do mundo, mas, principalmente, inaugura a nova e definitiva forma da sua presença entre nós uma realidade, em virtude da sua participação no poder régio de Deus. Caberá precisamente aos discípulos, fortalecidos pelo poder do Espírito Santo, tornar perceptível a presença do Cristo entre os homens, mediante o testemunho, a pregação e o compromisso missionário.

Somos chamados a testemunhar com coragem o Evangelho perante o mundo, levando a esperança aos necessitados, aos que sofrem, aos abandonados, aos desesperados, a todos os que têm sede de verdade e de paz. Fazendo o bem a todos, e sendo solícitos pelo bem comum, estarão eles testemunhando que Deus é amor.

Como eles, também nós, aceitando o convite dos “dois homens em trajes resplandecentes”, não devemos permanecer com os olhos fixos no céu, mas, sob a guia do Espírito Santo, temos que ir a toda a parte e proclamar o anúncio da morte e ressurreição de Cristo. A sua própria palavra constitui um conforto para todos nós: “Eu estarei sempre convosco, até o fim do mundo” (Mt 28,20).

Em cada Eucaristia que celebramos é Cristo que se dá a nós, nos edificando com o seu corpo. Os discípulos de Emaús reconheceram o Cristo na partilha do pão e voltaram apressadamente a Jerusalém a fim de partilhar a alegria com os irmãos na fé. Com efeito, a verdadeira alegria é reconhecer que o Senhor permanece no nosso meio, companheiro do nosso caminho. A Eucaristia nos faz descobrir que Cristo, morto e ressuscitado, se manifesta como nosso contemporâneo e caminha com cada um de nós.

A solenidade da Ascensão do Senhor também nos exorta a consolidar a nossa fé na presença real de Jesus na história; sem Ele, nada podemos realizar de eficaz na nossa vida e no nosso apostolado. Como recorda o Apóstolo São Paulo na segunda leitura, pois a nossa vocação na Igreja é também a de formar “um só corpo e um só Espírito, como existe uma só esperança no chamamento que recebestes” (Ef 4, 4).

Esta solenidade nos faz lembrar também que Jesus completa seu itinerário: “Saí do pai e vim ao mundo: outra vez deixo o mundo e volto para o Pai. Subo para meu Pai e vosso pai, disse também Jesus a Maria Madalena no mesmo dia de sua ressurreição” (Jo 16,28; 20,17).

Chama a nossa atenção este último gesto dos discípulos de Jesus: “Eles o adoraram”. Que saibamos também nós reconhecer o senhorio de Cristo e que saibamos dedicar a ele, em oração, um pouco do nosso tempo. Com a Ascensão do Senhor, podemos afirmar que em Cristo a nossa humanidade é levada à altura de Deus; assim, todas as vezes que rezamos, a terra se une ao Céu. E assim como o incenso queimado faz subir para o alto o seu fumo, também quando elevamos ao Senhor a nossa oração confiante em Cristo, ela atravessa o céu e alcança o próprio Deus e é por Ele ouvida e atendida.

Supliquemos por fim a Virgem Maria, para que nos ajude a contemplar os bens celestes e a sermos autênticas testemunhas da Ressurreição do seu filho Jesus, que é o caminho, a verdade e a Vida. Amém.
D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ