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VI DOMINGO DA QUARESMA – ANO C – DOMINGO DE RAMOS

Lc 23,1-49

Caros irmãos e irmãs,

Com o domingo de Ramos iniciamos a Semana Santa e somos chamados a reviver os últimos momentos de Cristo em sua peregrinação terrena. A celebração consta de dois momentos: Inicialmente temos o relato da sua gloriosa entrada na cidade de Jerusalém e, em um segundo momento, a leitura da sua gloriosa paixão.

Logo no início da celebração temos a descrição da entrada de Jesus em Jerusalém montado em um jumentinho. Os mantos são estendidos diante dele e uma voz faz ressoar: “Bendito aquele que vem em nome do Senhor” (Lc 19,38). Em um clima de alegria os ramos são agitados em um sinal de festa, e também nós somos chamados a agitar os nossos ramos e somos convidados a seguir o Cristo. Caminhamos com ele. Jesus entra em Jerusalém mostrando a sua condição de rei e Senhor, mas com o objetivo de subir ao calvário e para morrer pregado em uma cruz: o seu trono glorioso, pois ele passa pela morte para chegar à ressurreição.

No relato da Paixão de Jesus temos a descrição do evangelista São Lucas, que nos apresenta o Cristo Senhor que vem ao nosso encontro, para manifestar a todos, em gestos concretos, a bondade e a misericórdia de Deus. Essa ideia está presente no gesto de curar o guarda ferido no Jardim do Getsêmani (cf. Lc 22,51) e no perdão conferido aos seus adversários. Isto quer mostrar que o discípulo de Jesus não pode agredir ninguém, mas deve estar sempre disposto a curar as feridas provocadas pelos outros e a perdoar mutuamente.

Em um outro momento da narração observa-se um detalhe. Pedro, após haver negado o Mestre, saiu para fora e começa a chorar. São Lucas narra que o “Senhor, voltando-se, fixou o seu olhar em Pedro” (Lc 22,62). Um gesto comovente que mostra a compreensão de Jesus pela fraqueza do seu discípulo e é também o sinal do perdão que lhe concede. Jesus é compreensivo e misericordioso e a todos lança o seu olhar misericordioso e repleto de amor.

No relato da Paixão, podemos ainda testemunhar os sofrimentos de Jesus, em particular a sua angústia na agonia no monte das Oliveiras. Contudo, mesmo diante deste sóbrio quadro, o Evangelista São Lucas relata com uma certa sutileza a misericórdia do Pai, ao transcrever em seu Evangelho algumas frases de Jesus. Nossos olhos se voltam para os momentos finais de Cristo na cruz, quando diz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,24). Jesus não se limita a perdoar, vai mais longe. Ele sabe que a fonte de todo o amor e de todo o perdão não está nele, mas no Pai. Ele se apresenta diante do Pai como o intercessor a quem o Pai nada pode recusar. Ele se apaga, para que vejamos que é a vontade do Pai que se está a cumprir. É a oração de Jesus por nós.

Jesus foi crucificado no meio de dois criminosos, considerados perigosos bandidos, em razão dos erros praticados. Um deles zombava do Cristo, enquanto o outro, após repreender o seu companheiro, disse a Jesus: “Lembra-te de mim, quando estiveres no teu reino” (Lc 23,42). E Jesus, mesmo agonizante, lhe respondeu: “Em verdade, vos digo, hoje estarás comigo no paraíso” (v. 43). O ladrão, que a tradição conhece como São Dimas, passou a ser conhecido como o Bom Ladrão e deixou para nós um exemplo de uma oração simples, onde pede apenas para ser lembrando, mas o Senhor lhe concede muito mais: estar na nova humanidade dos redimidos.

Todos os evangelhos sinóticos falam da requisição de Simão de Cirene para auxiliar Jesus levar a sua cruz (cf. Mt 27,32; Mc 15,21); no entanto, só o evangelista São Lucas sublinha que Simão transporta a cruz “atrás de Jesus” (cf. Lc 23,26). Este dado quer nos mostrar o modelo do discípulo de Cristo: é aquele que toma a cruz de Jesus e o segue no seu caminho, pois ele mesmo já havia dito: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz dia após dia e siga-me” (Lc 9,23). Possamos também nós acompanhar o Cristo neste momento. E com a atitude de Cireneu, que se coloca junto de Jesus, para auxiliá-lo a carregar a cruz, a dividir com ele este peso, possamos também lembrar de tantos que necessitam do nosso auxílio e da nossa ajuda, pois ele mesmo disse: “Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25,40).

Logo no início da celebração litúrgica deste dia, a Igreja antecipa a sua resposta ao Evangelho, dizendo: “Sigamos o Senhor”. É o seguimento. Somos chamados a considerar o caminho de Jesus Cristo como o caminho justo: uma peregrinação, um ir juntamente com Jesus Cristo. Um ir naquela direção que Ele nos indicou e nos indica. Jesus caminha diante de nós, e vai para o alto. Ele seguiu adiante. Ele sobe a Jerusalém. Ele também quer nos conduzir para Deus, mas, ao mesmo tempo, deseja habitar entre nós, estar totalmente conosco.

O seu caminho conduz para além do cume do monte do Templo até à altura do próprio Deus. É esta a grande subida à qual Ele nos convida a fazer. Assim, na amplitude da subida de Jesus tornam-se visíveis as dimensões do nosso seguimento a meta para a qual Ele nos quer conduzir: até às alturas de Deus, à comunhão com Deus. É esta a verdadeira meta. É a comunhão com Ele. É o caminho. A comunhão com Ele é um estar a caminho, uma subida permanente rumo à verdadeira altura da nossa chamada.

A cruz faz parte da subida para a altura de Jesus Cristo, da subida até à altura de Deus. Jesus sobe à altura de Deus através da cruz. A cruz é expressão daquilo que o amor significa: só quem se perde a si mesmo, se encontra.

E como a multidão que segue Jesus rumo ao calvário, possamos viver estes dias participando das celebrações em clima de oração e de unidade com Ele. E que ao longo desta santa semana, que nos leva à Páscoa, possamos trafegar por este caminho que nos faz lembrar a humilhação de Cristo. É o caminho da humildade. Percorrendo este caminho Jesus se fez servo. Ele esvaziou-se de si mesmo para ser o servo de todos.

Possamos pedir a intercessão da Virgem Maria para que tenhamos sempre o desejo de caminhar com Cristo. E junto com Maria, possamos contemplar ao pé da cruz Aquele que deu a sua vida por nós. E saibamos ser no mundo um sinal expressivo e eficaz do seu amor, expresso no sofrimento, visando a nossa salvação. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

 

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CALENDÁRIO TRIMESTRAL – BATISMO 2022

OBS 1: VOCÊS QUE SERÃO PADRINHOS:
SE SOLTEIROS: Devem ser maiores de 16 anos e serem batizados.

SE CASADOS: Casados na Igreja Católica e batizados na mesma.

OBS 2.: DOCUMENTOS NECESSÁRIOS PARA FAZER A INSCRIÇÃO:
– Xérox da Certidão de Nascimento da criança;

– Xérox da Lembrança de Batismo da madrinha ou declaração;

– Xérox da Lembrança de Batismo do padrinho ou declaração;

• Endereço da criança com CEP e telefone;

• Endereço da madrinha com CEP e telefone;

•  Endereço do padrinho com CEP e telefone.

*Se os padrinhos forem casados:
– Xérox da Certidão de Casamento no religioso.

V DOMINGO DA QUARESMA – ANO C – A MULHER ADÚLTERA

Jo 8, 1-11

Caros irmãos e irmãs,

Chegamos ao quinto domingo da quaresma e a Liturgia da Palavra nos propõe, para a nossa reflexão, o episódio evangélico de Jesus que salva uma mulher adúltera da condenação à morte (Jo 8,1-11). O texto nos apresenta uma disputa entre Jesus e os escribas e fariseus, a propósito de uma mulher surpreendida em adultério flagrante. Segundo a prescrição contida na Lei de Moisés (cf. Lv 20,10 e Dt 22,22-24), são condenados à lapidação o homem e a mulher em adultério. A Lei deve ser aplicada? É este o problema apresentado a Jesus. Para os escribas e fariseus, trata-se de uma oportunidade para testar a ortodoxia de Jesus e a sua fidelidade às exigências da Lei.
Inicialmente Jesus é chamado pelos fariseus de “mestre” e lhe interrogam se é justo lapidar a mulher surpreendida em adultério. Eles conhecem a sua misericórdia e o seu amor pelos pecadores, e estão curiosos para ver como reagirá num caso como este, que segundo a Lei mosaica não deixava espaço a dúvidas. E se alguém falasse contra as prescrições da Lei, seria considerado injusto. Caso Jesus manifestasse a sua concordância com a Lei, colocava em contraste a sua bondade e a sua misericórdia; e se decidisse por conceder liberdade à mulher, não estaria cumprindo as prescrições da Lei.
Diante da questão apresentada, Jesus parece silenciar e põe-se a escrever no chão palavras misteriosas, que o evangelista não revela, mas pode nos fazer interpretar a respeito da fragilidade desse julgamento, pois o que se escreve na poeira da terra, será apagado pelo vento ou quando animais ou homens caminharem sobre as letras então desenhadas. Com isto, Jesus pode querer mostrar o frágil valor do julgamento realizado pelos escribas e fariseus, contudo, após algum tempo escrevendo na terra, pronuncia a frase que se tornou famosa: “Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe lançar uma pedra” (Jo 8, 7). Com o seu silêncio, Jesus parece também convidar cada um a refletir sobre si próprio. Por um lado, convida a mulher a reconhecer a culpa cometida; por outro, convida os seus acusadores a não se subtraírem ao exame de consciência. Com estas palavras Jesus fez os acusadores da mulher a entrarem em si mesmos e, refletir sobre si próprios. Foram eles atingidos por estas palavras e, por isto, um a um se retiraram.
A cena é cheia de dramaticidade: das palavras de Jesus depende a vida daquela mulher, mas também a sua própria vida. De fato, os acusadores fingem confiar a ele o julgamento, enquanto na realidade é precisamente a ele a quem querem acusar e julgar. Jesus sabe o que está no coração de cada homem, deseja condenar o pecado, mas salvar o pecador. O pecado não é um caminho aceitável, pois gera infelicidade e rouba a paz. Enquanto os acusadores o interrogam com insistência, Jesus inclina-se e põe-se a escrever com o dedo no chão. Observa Santo Agostinho que aquele gesto mostra Cristo como o legislador divino: de fato, Deus escreveu a lei com o seu dedo nas tábuas de pedra (cf. S. AGOSTINHO, Comentário ao Evangelho de João, 33,5). Portanto Jesus é o Legislador, é a Justiça em pessoa.
Quando os acusadores “foram saindo um por um, a começar pelos mais velhos” (v. 9), Jesus absolve a mulher do seu pecado e a introduz numa vida nova, orientada para o bem e diz à mulher: “Nem eu te condeno; vai e doravante não tornes a pecar” (v. 11). Deus deseja para nós apenas o bem e a vida. Ele provê a saúde da nossa alma por meio dos seus ministros, libertando-nos do mal com o Sacramento da Confissão, para que ninguém se perca, mas todos tenham a ocasião de se converter. Quando os escribas e fariseus se retiraram, Jesus nem sequer pergunta à mulher se ela está ou não arrependida, mas a convida a seguir um caminho novo, um caminho de luz, na confiança de libertar-se do erro e do pecado, a partir do amor e do perdão oferecido por Deus.
Podemos observar que Jesus não rejeita a Lei, pede somente aos escribas e fariseus para ter um olhar sobre a própria vida antes de olhar a mulher e a condenar. Os detratores acabam por se condenar a si mesmos e se retiram, reconhecem que são pecadores, a começar pelos mais velhos… E à mulher pede para não voltar a pecar, dá a ela uma nova oportunidade.
Este fato pode se apresentar em inúmeras situações análogas em todas as épocas da história. Uma mulher é deixada sozinha, é exposta diante da opinião pública com “o seu pecado”, enquanto por detrás deste “seu” pecado se esconde um homem como pecador, culpado pelo “pecado do outro”, ou seja, co-responsável por este mesmo pecado. Às vezes ele passa a ser até acusador, como no caso descrito, esquecido do próprio pecado. Quantas vezes, de modo semelhante, só a mulher parece levar a maior culpa pelo erro. No caso da mulher adúltera, observa-se que ela foi abandonada e entregue à morte. Onde estava o homem com quem ela praticou o adultério? A Lei prescrevia apedrejar os adúlteros, então ele deveria também estar ali.
Lancemos um olhar para o momento da criação, quando Deus criou o homem e a mulher. A mulher foi confiada ao homem com a sua diversidade feminina, e também com a sua potencial maternidade. Também o homem foi confiado pelo Criador à mulher. Foram reciprocamente confiados um ao outro como pessoas feitas à imagem e semelhança do próprio Deus. Nesse ato de confiança está a medida do amor, do amor esponsal: para tornar-se “um dom sincero” um para o outro. Após o pecado original, forças opostas operam no homem e na mulher. O sexto mandamento da Lei de Deus nos diz: “Não cometerás adultério” (Ex 20, l4). E o próprio Cristo ainda completa no Sermão da montanha: “Todo aquele que olhar para uma mulher com mau desejo, já cometeu adultério com ela no seu coração” (Mt 5,28). Estas palavras, dirigidas diretamente ao homem, mostram a verdade fundamental da sua responsabilidade em relação à mulher: pela sua dignidade, pela sua maternidade, pela sua vocação. Por isso, cada homem deve olhar para dentro de si e ver se aquela que lhe é confiada na mesma humanidade, como esposa, não se tenha tornado objeto de adultério no seu coração; por isto a mulher não pode ser tomada como objeto de prazer, de exploração por parte do homem (cf. S. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica “Mulieris Dignitatem”, n. 13).
E podemos lembrar que no momento da criação, disse o Senhor: “O homem deixará o seu pai e a sua mãe para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne” (Gn 2,24). Desta união procedem todas as gerações humanas. O adultério designa a infidelidade conjugal. Os profetas, no Antigo Testamento, já denunciavam a sua gravidade e viam no adultério um grave pecado, uma vez que quem o comete, falta aos seus compromissos, viola o vínculo matrimonial, lesa o direito do outro cônjuge e atenta contra a instituição do matrimônio. Compromete o bem da geração humana e dos filhos que têm necessidade da união estável dos pais (cf. CIgC, nº 2381).
Meus irmãos e irmãs, o Evangelho de hoje nos faz ainda compreender que o nosso verdadeiro inimigo é o apego ao pecado, que pode levar-nos ao fracasso da nossa existência. Jesus despede-se da mulher adúltera com esta exortação: “Vai, e doravante não tornes a pecar”. O episódio põe em relevo, por outro lado, a intransigência e a hipocrisia do homem, sempre disposto a julgar e a condenar os outros.
Aprendamos com o Senhor Jesus a não julgar e a não condenar o nosso próximo. Como Cristo, sejamos também nós dispostos a perdoar, imitando os seus gestos e as suas atitudes. Se é verdade que Deus é justiça, não podemos esquecer que ele é sobretudo amor. Se ele odeia o pecado, é porque ama infinitamente cada pessoa humana. Ama cada um de nós, e a sua fidelidade é tão profunda que não se deixa desanimar nem sequer pela nossa rejeição.
E neste caminho quaresmal que estamos a percorrer e que se aproxima rapidamente da sua conclusão, sejamos acompanhados pela certeza de que Deus nunca nos abandona, e que o seu amor é nascente de alegria e de paz; é força que nos impele poderosamente ao longo do itinerário que percorremos rumo à perfeição.
Não paremos e nem abrandemos os nossos passos em direção à santidade de vida. Pelo contrário, orientemo-nos com todas as forças em direção à meta para a qual Deus nos chama. Peçamos a Nossa Senhora que nos ajude a abrir o nosso coração ao arrependimento de nossas faltas e que ela interceda sempre por nós, agora e na hora do nosso encontro definitivo com Cristo. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

 

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III DOMINGO DA QUARESMA – ANO C – A PARÁBOLA DA FIGUEIRA ESTÉRIL

Lc 13,1-9

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia deste terceiro domingo de Quaresma traz novamente à nossa reflexão o tema da conversão e nos convida a reconhecer o mistério de Deus, que se torna presente na nossa vida, como ressalta na primeira leitura tirada do Livro do Êxodo e nos mostra Moisés, que, enquanto apascentava o rebanho, vê uma sarça em chamas, mas que não se consome. Aproxima-se para observar este prodígio, quando uma voz pronuncia o seu nome e o convida a tomar consciência da sua indignidade. Esta mesma voz lhe ordena a tirar as sandálias, porque o lugar é santo. E Deus revela a Moisés o seu próprio nome, ao dizer: “Eu sou aquele que sou!” (Ex 3,14), para que ele o comunique ao povo de Israel. Há algum tempo atraz esta expressão “Eu sou aquele que sou!” foi entendida em sentido filosófico: eu sou aquele que existe, isto é, o Ser absoluto, o único que existe por si mesmo. Atualmente os estudiosos da Sagrada Escritura descobriram algo que muda esse significado: o verbo “ser”, que deve ser entendido aqui no sentido de “estar presente”, ou seja, “eu existo para ti”. Deus é aquele que existe para a humanidade e para que todos possam sentir a sua presença a sua proximidade. É o anúncio do que Deus tornará um dia: o Emanuel, isto é, o Deus conosco.

No encontro com Moisés Deus também se revela como “o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó” (Ex 3,15). Ele é o Deus dos nossos pais, mas é também um Deus pessoal. É alguém que mantém relacionamentos de pessoa para pessoa, de geração a geração e continua na história a manter este mesmo relacionamento. É ele presente também no meio de nós, sensível aos gritos de quem sofre.

E agora, voltando o nosso olhar para a página do Evangelho prescrita para este domingo, encontramos dois acontecimentos históricos: um crime cometido por Pilatos e o desabamento de uma torre ao lado da piscina de Siloé. Dois fatos trágicos bem diversos: um provocado pelo homem e o outro acidental. Segundo a mentalidade da época, pensava-se que uma desgraça com vítimas era sinal de uma culpa pessoal grave. Mas Jesus diz: “E aqueles dezoito que morreram, quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? Eu vos digo que não” (v. 4). E para ambos os casos conclui: “Mas, se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo” (v. 5). Com estas exortações, Jesus faz aos seus ouvintes um apelo à conversão. Essas pessoas não Foram punidas por causa dos seus pecados: foram vítimas de uma fatalidade. Mas este acontecimento pode ser interpretado como um apelo à conversão, que consiste na mudança no nosso modo de agir e de pensar.

Na segunda parte do Evangelho, referindo-se a um costume do seu tempo, Jesus apresenta a parábola de uma figueira plantada numa vinha. Esta figueira, contudo, é estéril, não dá frutos (v. 6-9). O diálogo que se desenvolve entre o dono e o vinhateiro, manifesta, por um lado, a misericórdia de Deus, que é paciente e deixa ao homem, ou seja, a todos nós, um tempo para a conversão; e, por outro, a necessidade de iniciar imediatamente a mudança de vida, para não perder as ocasiões que a misericórdia de Deus nos oferece para superar a nossa preguiça espiritual e corresponder ao amor de Deus com o nosso amor filial.

O Senhor Jesus, mais uma vez, toma por base a figura de uma árvore. Numa linguagem simples define o destino dos que, plantados por Deus para darem frutos, não os produziram. A narrativa serviu de lição para o povo de Israel e hoje, serve de lição para cada um de nós que compomos o grupo dos discípulos do Senhor. Ele nos escolheu, a fim de produzirmos frutos para o engrandecimento do seu reino.

A Sagrada Escritura com frequência faz referência à figueira, que duas vezes ao ano, na primavera e no outono, produz saborosos frutos. Em tempos remotos ela simbolizava a prosperidade e a paz (cf. 1Rs 4,25; Is 36,16). No deserto os israelitas sonhavam com uma terra rica em nascentes de água, trigais e figueiras (cf. Dt 8,8). No nosso texto, encontramos uma figueira no meio da vinha (v. 6). A vinha é uma plantação de videiras, cultivadas para produzir uvas. No Antigo Testamento, quando Deus se referia ao estado desejado para o povo de Israel, prometia que cada um se assentaria debaixo de suas videiras e figueiras, em alusão a paz, segurança e prosperidade (1Rs 4,25; Mq 4,4; Zc 3,10).

A parábola nos diz que um homem tinha uma figueira em sua vinha, algo muito comum em Israel. Ela ocupava uma certa área do terreno que podia ter sido usada para as videiras. Cada ano a árvore permanecia estéril, o que significava prejuízo para o seu proprietário. Ela absorvia umidade e nutrientes que serviam para as videiras. A figueira era como uma dívida, que aumentava na medida em que se passavam os anos. Por causa da sua localização, deduzimos que a árvore tinha sido muito bem cuidada. Outra árvore ou videira poderia ter sido plantada ali e, dentro de alguns anos, produziria frutos.

O proprietário deu instruções ao homem que cuidava da vinha para que cortasse a figueira. Mas ele pediu ao dono que tivesse ainda um pouco mais de paciência. Queria dar mais um ano à árvore, durante o qual cavaria o solo ao seu redor e a adubaria. O Antigo Testamento tinha utilizado a figueira como símbolo de Israel (cf. Os 9,10), por isto uma figueira tinha um papel importante na vida de um israelita, representava prosperidade e abastança e era muito comum para cada israelita ter pelo menos uma figueira em sua casa.

Na parábola, o proprietário é geralmente considerado como o representante de Deus e o agricultor, o próprio Cristo Jesus, o enviado à casa de Israel, a fim de cuidar da figueira especial “no meio da vinha” (Mt 15,24). O Evangelho de São João, referindo-se a Jesus, nos diz: “Ele veio para o que era seu, mas os seus não o receberam” (Jo 1,11); e frisa o tempo que Jesus oferece aos seus ouvintes como uma última chance para o arrependimento. O período de tempo limitado mencionado faz uma referência à urgência da nossa conversão.

O homem deve frutificar no tempo, isto é, durante a vida terrena. Todavia este seu agir no tempo, não pode fazer-lhe esquecer da sua outra dimensão essencial: a de um ser orientado para a eternidade: portanto, o homem deve, simultaneamente, frutificar também para a eternidade, pois sem esta perspectiva, ele continuará a ser uma figueira estéril.

O dono da vinha tinha uma predileção especial pela figueira, estabelecida no meio da sua plantação de videiras. Isso significa a escolha de Israel, no meio das outras nações. Espiritualmente falando, para Deus, o centro da Terra é Jerusalém, é Israel. Deus esperava que ela frutificasse, mas se decepcionou: “Foi procurar nela fruto, não o achando, disse ao vinhateiro; Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira, e não o acho” (vv. 6.7). Este período, segundo intérpretes da Bíblia, refere-se aos três anos do ministério terreno de Jesus, durante o qual, Ele, o Messias, como bom vinhateiro, fez tudo o que pôde, a fim de que a nação escolhida desse bons frutos para Deus.

Diante da frustração, em face da não produção dos frutos esperados, o dono da vinha ordenou ao vinhateiro que cortasse a figueira estéril. Mas Jesus procedeu com muito cuidado e zelo. Tamanha é a sua misericórdia, mostrando-se tolerante com a fraqueza humana. Neste ponto, temos grandes lições espirituais a observar. Ele escolheu Israel como seu representante entre os povos, daí a localização da figueira: no meio da vinha. Em contrapartida, esperou que desse fruto, mas ocorreu o contrário. Os judeus rejeitaram o seu plano. Assim, se desejamos fazer parte da vinha do Senhor, precisamos dar frutos, para não sermos cortados.

O ensinamento da parábola é claro: daquele que ouviu a mensagem do Evangelho, Deus espera frutos saborosos e abundantes. E o tempo da quaresma é um tempo de graça, como um novo tempo precioso que é concedido para que a figueira, que representa cada um de nós, produza frutos. Deus hoje nos convida a fazer uma mudança em nossa própria existência, para que possamos viver segundo o Evangelho, corrigindo algo no nosso agir, porque ele quer o nosso bem, a nossa felicidade e a nossa salvação. Possamos responder com um sincero esforço interior

Peçamos a intercessão da Virgem Maria, para que ela possa nos acompanhar e nos amparar ao longo desse itinerário quaresmal, e para que ela interceda sempre por nós e nos ajude a redescobrir a grandeza de uma autêntica conversão. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

 

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