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XII SEMANA DO TEMPO COMUM – C – E vós, quem dizeis que eu sou?

Lc 9,18-24

Caros irmãos e irmãs,

Neste domingo o texto evangélico traz uma pergunta formulada por Jesus aos seus discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Os discípulos respondem: “Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que és algum dos antigos profetas que ressuscitou” (v.19). Na opinião do povo, Jesus é comparado aos grandes personagens apresentados pela Sagrada Escritura, mas não o reconhecem como Messias, certamente porque a postura de Jesus não correspondia àquilo que se esperava de um rei forte e vencedor.

Contudo, a reação das pessoas é de admiração e enaltecimento, pois recordam João Batista, o maior dos profetas; Elias, o profeta que surgiu como um fogo, cuja palavra queimava como uma tocha (cf. Eclo 48,1). Na verdade o povo enaltece, admira, mas não reconhece a verdadeira identidade de Cristo.

Jesus viveu numa época de enormes dificuldades para o Povo de Deus. E esse sofrimento gerou grande expectativa messiânica. Todos sonhavam com a chegada do Messias anunciado pelos profetas. Neste período apareceram várias figuras que se assumiram como “enviados de Deus”; o que criou-se um clima de ebulição, visto que arrastaram atrás de si grupos de discípulos exaltados e acabaram chacinados pelas tropas romanas.

Muitos pensavam que o Messias seria um herói, um guerreiro forte semelhante a Sansão, um rei vitorioso como Davi, um político inteligente como Salomão etc. Aparentemente, Jesus não é considerado pelo povo como o novo Messias, mas o identificam como o novo Elias, o profeta que as lendas judaicas consideravam estar junto de Deus.

Em seguida temos a segunda pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” As perguntas que Cristo faz, as respostas que são dadas pelos seus discípulos e, finalmente, por Pedro, constituem uma espécie de exame da maturidade da fé daqueles que vivem mais perto de Cristo. Pedro responde em nome dos Doze, com uma profissão de fé que se diferencia de modo substancial da opinião que as pessoas têm sobre Jesus; com efeito, ele reconhece Jesus como o “Cristo de Deus” (v. 20). Ou, de acordo com a narração do Evangelista São Mateus: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16).

Esta confissão de fé apresentada por Pedro está intrinsecamente vinculada à primeira frase que no trecho evangélico, diz estar Jesus em um lugar afastado, em um momento de oração (v. 19). Um momento em que os próprios discípulos testemunham a unidade de Jesus com Deus. Frequentemente o evangelista São Lucas observa que Jesus, antes de cumprir algum gesto importante ou antes de transmitir um ensinamento com um significado extraordinário, ele se recolhe em oração. Temos nesta indicação que pela oração também podemos descobrir o rosto do Senhor e o conteúdo mais autêntico da sua missão.

Jesus não desmente a afirmação de Pedro, mas ordena que não a digam a ninguém. Dizer que Jesus é o Messias significa reconhecer nele esse “enviado” de Deus, a linhagem davídica, que havia de traduzir em realidade essas esperanças de libertação que enchiam o coração de todos. Jesus não discorda da afirmação de Pedro. Ele sabe, no entanto, que os discípulos sonhavam com um Messias, poderoso e vitorioso e apressa-se a esclarecer possíveis equívocos.

Ele é o enviado de Deus para libertar os homens, no entanto, não vai realizar essa libertação pelo poder das armas, mas pelo amor e pelo dom da vida. No seu horizonte próximo não está um trono, mas a cruz. Ele não é o Messias que todos estão esperando. Por isto, logo em seguida, o texto do Evangelho esclarece: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia” (v. 22). Com isto, Jesus mostra que não lhe espera o triunfo, mas a humilhação, o sofrimento e a morte. Porém, Deus transforma este seu sofrimento em caminho para a glorificação.

Na teologia do evangelista São Lucas, Jesus será revelado como Messias pelo sofrimento e pela paixão (cf. Lc 27,7.26.46). Sua missão messiânica consiste em vencer a morte pela cruz (cf. At 2,23s). Mas este mistério de sua messianidade ainda está oculto, para evitar falsas esperanças, por isto, Jesus proíbe aos discípulos comunicar aos outros a verdade professada por Pedro.

Imediatamente, depois da confissão petrina, Jesus anuncia a sua paixão e ressurreição, pondo em destaque o seguimento dos discípulos pelo caminho da cruz. E depois acrescenta que ser discípulo significa “perder-se a si mesmo”, isto para voltar a encontrar-se plenamente a si mesmo” (cf. Lc 9,22-24).

Mas o que significa “perder a vida por causa de Jesus?” Isto pode acontecer de dois modos: confessando explicitamente a fé, ou defendendo de modo implícito a verdade. Os mártires são o exemplo máximo da perda da vida por Cristo.

E dentre os mártires que vieram a perder a vida por causa da verdade, que é Cristo, uma vez que ele disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6), está João Batista. Ele foi o escolhido por Deus para preparar o caminho diante de Jesus e indicá-lo ao povo de Israel como o Messias, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (cf. Jo 1,29).

De Jerusalém e de todas as partes da Judeia o povo acorria para ouvir João Batista e fazer-se batizar por ele no rio Jordão, confessando os próprios pecados (cf. Mc 1,5). A fama do profeta batizador cresceu a tal ponto que muitos perguntavam se era ele o Messias. Mas ele, ressalta o evangelista São João, negou categoricamente: “Eu não sou o Messias” (Jo 1,20).

João consagrou-se totalmente a Deus e ao seu enviado, Jesus. Mas, no final, morreu em nome da verdade, quando denunciou o adultério do rei Herodes com Herodíades (cf. Mc 6,16-29). Pagou com a vida, selando com o martírio o seu serviço a Cristo, que é a Verdade em pessoa.

Para seguir Jesus, é necessário renunciar a todas as inclinações contrárias à vontade de Deus, ou seja, renunciar-se a si mesmo (v. 23). É preciso carregar a cruz todos os dias. Esta é a grande lei do cristianismo. Jesus vai à frente com a cruz e nos convida a segui-lo. E o seu convite continua atual: “Segue-me!”.

E Jesus, diante desta profissão de fé, renova a Pedro e aos demais discípulos o convite a segui-lo pela estrada exigente do amor até a cruz. Também a nós Jesus dirige a proposta de segui-lo todos os dias, e lembra que, para sermos seus discípulos, é necessário que nos apropriemos do poder da sua Cruz, ápice de nossos bens e coroa de nossa esperança.

Saibamos acolher com alegria esta palavra de Jesus. É uma regra de vida proposta a todos e que São João Batista interceda por nós para que possamos pô-la em prática. Invoquemos também a intercessão da Virgem Maria, para que, nos nossos dias, saibamos sempre manter a fidelidade a Cristo e testemunhar com coragem a sua verdade e o seu amor a todos. Ela, que se identificou como a Serva do Senhor, e que conformou a sua vontade com a de Deus, nos acompanhe durante todos os dias da nossa vida. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE

Jo 16,12-15

Meus caros irmãos e irmãs,

Celebramos neste domingo a Solenidade da Santíssima Trindade, que, em certo sentido, recapitula a revelação de Deus advinda dos mistérios pascais: morte e ressurreição de Cristo, sua ascensão à direita do Pai e a efusão do Espírito Santo.

Depois do tempo pascal, culminado na festa de Pentecostes, a liturgia prevê estas três solenidades do Senhor: a Santíssima Trindade; na próxima quinta-feira, o dia de “Corpus Christi”; e finalmente, na sexta-feira sucessiva, a festa do Sagrado Coração de Jesus. Cada uma destas celebrações litúrgicas evidencia uma perspectiva a partir da qual se abrange todo o mistério da fé cristã: ou seja, respectivamente a realidade de Deus Uno e Trino, o Sacramento da Eucaristia e o centro divino-humano da Pessoa de Cristo. Na verdade são aspectos do único mistério da salvação, que num certo sentido resumem todo o itinerário da revelação de Jesus, da encarnação à morte e ressurreição até à ascensão e ao dom do Espírito Santo.

Como sabemos, a Trindade divina passa a habitar em nós a partir do dia do Batismo: “Eu te batizo – diz o ministro – em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. O nome de Deus, no qual fomos batizados, é lembrado por nós toda vez que fazemos o sinal da cruz. Também iniciamos cada Celebração Eucarística em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. O mesmo ocorre no final, ao concluir, com a bênção do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Também no decorrer da Santa Missa fazemos a nossa profissão de fé dizendo: “Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso… e em um só Senhor, Jesus Cristo… e no Espírito Santo”. No sinal da cruz está também o anúncio que gera a fé e inspira a oração.

No texto evangélico, Jesus promete aos Apóstolos: “Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade” (Jo 16, 13). A missão do Espírito Santo será iluminar os discípulos para que eles entendam de maneira correta aquilo que o Cristo ensinou e possam conduzir a comunidade dos discípulos de Jesus ao caminho da verdade. Assim também ocorre na liturgia dominical, quando os sacerdotes oferecem, semanalmente, o pão da Palavra e da Eucaristia.

Neste domingo, as leituras nos falam da Santíssima Trindade, para nos revelar o amor que Deus tem por nós e nos mostrar o seu projeto de salvação. A primeira leitura ressalta o projeto do Pai na criação, a fonte e a origem de tudo. A segunda leitura nos revela que o projeto de Deus, prescrito na primeira leitura, se realiza em Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus, escondido desde a eternidade no seio do Pai e que estava com ele no momento da criação, mas somente com a intervenção do Espírito Santo é que saberemos compreender e aderir plenamente ao projeto de Deus para nós à obra salvadora do Filho, ou seja, do Cristo Jesus. Cabe ao Espírito Santo iluminar as mentes e os corações dos homens a respeito dos ensinamentos do Evangelho e colocar em prática as recomendações que ele nos apresenta.

Todas as celebrações são sempre em honra de Deus, Uno e Trino. Os sacramentos são realizados e celebrados mediante a invocação das três pessoas divinas. Pode-se ressaltar ainda a doxologia que conclui todos os salmos na Liturgia do Ofício Divino: “Glória ao Pai, e ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora e sempre”. E quando nos dirigimos a Deus com uma oração de impetração, podemos concluir com estas palavras: “Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus, e vive e reina convosco, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos”.

A Santíssima Trindade está, pois, incessantemente nos lábios e no coração dos cristãos. E neste domingo nós a adoramos de modo especial. Com esta solenidade, quer também a Igreja mostrar de modo mais intenso a sua devoção à Trindade Santíssima e proclamar de forma mais expressiva a sua fé.

Todas as nossas obras devem ter uma única finalidade: que o nome de Jesus seja glorificado em nós. O Pai e o Espírito Santo glorificam a Jesus e nos dão com Ele uma norma a nos orientar sempre. O lema, como que a síntese de nossa vida, deverá ser aquela significativa oração no final das preces eucarísticas da Santa Missa, onde apresentamos o Corpo e o Sangue de Jesus na patena e no cálice: “Por Cristo, com Cristo e em Cristo, a vós, Deus Pai todo-poderoso, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre, na unidade do Espírito Santo”. E, acompanhando esse momento forte de oração que brota do íntimo de nosso ser, possamos dizer com fé, mesmo que não consigamos atingir a grandeza que o mistério encerra: “Amém”.

E ao colocar esta solenidade no domingo seguinte à solenidade de Pentecostes, a Igreja vem nos lembrar que cada domingo é uma festa da Santíssima Trindade, pois o domingo é o dia do Senhor, dia em que Jesus ressuscitou e que o Espírito Santo nos santificou, descendo sobre a igreja nascente. Neste sentido, todo domingo devemos contemplar este mistério Trinitário!

Assim como Jesus, em quem vivia “a plenitude Deus” (Cl 2,4) e só fazia a vontade do Pai (cf. Jo 4,34; 5,36), assim, em nós, Deus quer ser a meta e o impulso de todas as nossas vontades, nas provações e nos momentos de esperança.

Possamos invocar a Bem-aventurada Virgem Maria, primeira criatura plenamente enriquecida pela Santíssima Trindade. Na sua humildade ela se fez serva do Senhor e acolheu a vontade do Pai e concebeu o Filho por obra do Espírito Santo. Que ela interceda sempre por nós e nos ajude a crescer na fé no mistério trinitário. A ela pedimos a sua proteção materna, para que possamos prosseguir bem a nossa peregrinação terrena. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ.

SOLENIDADE DE PENTECOSTES

 

Jo 20,19-23

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia da Palavra deste domingo acentua a manifestação do Espírito Santo no milagre de Pentecostes e nos conduz ao Cenáculo onde nos deparamos com Maria, a Mãe de Jesus e os Apóstolos reunidos em oração (cf. At 1,14s), quando ficaram repletos do Espírito Santo (cf. At 2,1-4). Cumpria-se o prometido pelo Salvador: “O Espírito Santo, que o Pai vos enviará em meu nome. Ele vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar o que eu vos disse” (Jo 14,26).

Neste dia teve início a missão da Igreja no mundo. O próprio Jesus tinha preparado os seus apóstolos para esta missão aparecendo-lhes várias vezes depois da sua ressurreição (cf. At 1,3). Antes da ascensão ao Céu, ordenou que “não se afastassem de Jerusalém, mas que aguardassem que se cumprisse a promessa do Pai” (cf. At 1,4-5); isto é, pediu que permanecessem juntos e se preparassem para receber o dom do Espírito Santo.

O Povo de Deus, que tinha encontrado no Sinai a sua primeira configuração, vê agora um novo sinal de Deus a ponto de não conhecer qualquer fronteira de raça, cultura, espaço ou tempo. Diferente do que tinha acontecido com a torre de Babel (cf. Jo 11,1-9), quando os homens, intencionados a construir com as suas mãos um caminho para o céu, fragilizaram a sua própria capacidade de se compreenderem reciprocamente, enquanto o Espírito Santo torna os corações capazes de compreender as línguas de todos e restabelece a ponte da comunicação entre Deus e a humanidade.

No Evangelho temos a aparição de Jesus aos apóstolos para lhes comunicar a sua paz e o dom do Espírito Santo, para tirar o pecado do mundo, ou seja, para que eles continuem sua obra salvadora (cf. Jo 14,27s). Jesus sopra sobre os apóstolos, para que eles recebam o Espírito Santo e tenham o poder de perdoar os pecados. Porém, o mais grandioso é quando, na manhã de Pentecostes, um grande vendaval soprou em Jerusalém e o Espírito Santo desceu em forma de línguas de fogo sobre a comunidade inicial da Igreja, e eles ficaram repletos de uma nova vida e de uma nova luz.

O termo “Espírito” traduz o termo hebraico “Ruah” que, na sua primeira acepção, significa sopro, ar, vento. Jesus utiliza precisamente a imagem sensível do vento para sugerir a novidade transcendente daquele que é pessoalmente o Sopro de Deus, o Espírito divino. É o dom por excelência de Cristo ressuscitado conferido aos seus Apóstolos, mas Ele quer que chegue a todos. No Evangelho Jesus diz: “Eu apelarei ao Pai e Ele vos dará outro Paráclito para que esteja sempre convosco” (Jo 14,16). É o Espírito Paráclito, o Consolador, que dá a coragem de levar o Evangelho pelas estradas do mundo! O Espírito Santo ergue o nosso olhar para o horizonte e nos impele para que possamos anunciar a todos a mensagem de Jesus Cristo.

O Batismo nos concede a graça do novo nascimento em Deus Pai, por meio do Filho no Espírito Santo, que é o primeiro no despertar da nossa fé e na vida nova que consiste em conhecer o Pai e aquele que Ele enviou, Jesus Cristo.

Toda a história da Igreja, através dos séculos, desde Pentecostes até nossos dias, está vinculada à ação do Paráclito. Sua atuação é o cumprimento da promessa de Jesus: “Eu estarei convosco até o final dos tempos” (Mt 28,20b). A comunidade primitiva não só se proclamava membro do Corpo Místico de Cristo, mas igualmente acreditava ser o templo do Espírito Santo: “Não sabeis que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Cor 3,16).

Notemos ainda que em Pentecostes, o Espírito Santo manifesta-se como fogo. A sua chama desceu sobre os discípulos reunidos, acendeu-se neles e infundiu-lhes o novo ardor de Deus. Realiza-se assim aquilo que o Senhor Jesus tinha predito: “Vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele já tivesse sido ateado!” (Lc 12,49). Juntamente com os fiéis das diversas comunidades, os Apóstolos levaram esta chama divina até aos extremos confins da terra, abriram assim um caminho para a humanidade, uma senda luminosa, e colaboraram com Deus que com o seu fogo quer renovar a face da terra. O fogo de Deus, o fogo do Espírito Santo, é aquele da sarça que ardia sem se consumir (cf. Ex 3,2).

Esta chama do Espírito Santo arde, mas não queima. E, todavia, ela realiza uma transformação, e por isso, deve consumir algo no homem, o pecado que o corrompe e o impede de construir de forma satisfatória a sua relação com Deus e com o próximo. Enquanto a água significava o nascimento e a fecundidade da vida dada no Espírito Santo, o fogo simboliza a energia transformadora dos atos do Espírito Santo. São João Batista anuncia Cristo como Aquele que “há de batizar no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3,16). E São Paulo ordena: “Não apagueis o Espírito!” (1Ts 5, 19). A tradição espiritual reterá este simbolismo do fogo como um dos mais expressivos da ação do Espírito Santo (cf. CIgC, n. 696).

Possamos também lembrar que quando Cristo sobe das águas do seu batismo, o Espírito Santo, sob a forma duma pomba, desce e paira sobre Ele (cf. Mt 3,16). O símbolo da pomba para significar o Espírito Santo é tradicional na iconografia cristã. Assim, em cada batizado que celebramos, o Espírito Santo desce e repousa no coração purificado do catecúmeno (cf. CIgC, n. 701).

Na solene celebração do Pentecostes, somos enviados a professar a nossa fé na presença e na ação do Espírito Santo e a invocar a sua efusão sobre nós, sobre a Igreja e sobre o mundo inteiro. Portanto, façamos nossa, e com intensidade particular, a invocação da própria Igreja: “Vinde Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor”. Uma invocação simples e profunda que deve nos envolver de alegria e de esperança.

Na anunciação do Anjo Gabriel, Maria é convidada a ser a mãe do Salvador, em quem habitará “corporalmente toda a plenitude da Divindade” (Cl 2,9). A resposta à pergunta de Maria: “Como será isto, se eu não conheço homem?” (Lc 1,34) é dada pelo anjo dizendo: “O Espírito Santo virá sobre ti” (Lc 1,35). O Espírito Santo, que é “o Senhor que dá a vida”, como recitamos no Credo, é enviado para santificar o seio da Virgem Maria e para a fecundar pelo poder divino, fazendo com que ela venha conceber o Filho eterno do Pai, numa humanidade originada da sua. E a ela, que desde o Pentecostes se une com a Igreja nascente invocando o Espírito Santo, peçamos que fique conosco no centro deste nosso cenáculo singular, a fim de que, com a sua intercessão, possamos dar ao mundo um testemunho vivo e autêntico de Cristo, o nosso Salvador. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

V DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA C – UM NOVO MANDAMENTO

Jo 13, 31-35

Caros irmãos e irmãs,

No evangelho deste domingo temos as palavras pronunciadas por Jesus aos seus discípulos, depois de lhes ter lavado os pés, na última ceia, imediatamente antes da sua Paixão: “Filhinhos… Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34-35). Jesus sabe que lhe restam poucas horas de vida e sente a necessidade de deixar algumas instruções com um típico sabor testamentário. Inicia com a expressão “Filhinhos” (v. 33), fazendo lembrar um pai a transmitir aos seus filhos o que é essencial e verdadeiramente fundamental. Assim como os filhos consideram sagradas as palavras que o pai lhes diz no leito, antes da morte, também Jesus quer que os seus discípulos não esqueçam jamais as suas palavras.

Jesus fala em um “novo mandamento”. A expressão “novo”, utilizada por Jesus, não significa que até então era este mandamento desconhecido. O próprio Jesus tinha recordado que amar a Deus e ao próximo era o mandamento maior da Lei antiga (cf. Mc 12,28-31). A novidade deste novo mandamento é que não se trata do antigo e conhecido mandamento que ordenava “amar ao próximo como a si mesmo” (Lv 19,18). O “novo” deste mandamento consiste, exatamente, no “como eu vos amei”. Nem a palavra amar, nem o mandamento do amor são novos. Novo é amar como Jesus, amar em Jesus, por causa de sua palavra impressa em cada página do evangelho.

O Senhor indica que devemos amar como Ele nos amou. Ele amou a todos sem exceção, justos e pecadores. Na cruz, perdoou até os que o haviam condenado injustamente e rezou por eles: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34).

O verbo “agapaô” – traduzido do grego como amar, utilizado no texto, define, o amor como sinal de manifestação pelo outro até ao extremo, o amor que não guarda nada para si, mas é entrega total e absoluta. O ponto de referência desse amor é o próprio Jesus, como prescreve o complemento da frase: “como eu vos tenho amado”. Amar consiste em acolher, em pôr-se ao serviço dos outros, em dar-lhes dignidade e liberdade pelo amor, e isso sem limites. Jesus é a norma, agora traduzida em palavras, o que ele mesmo manifestou com seus atos, para que os seus discípulos tenham uma referência. O amor, igual ao de Jesus, que os discípulos devem manifestar entre si, será visível para todos (v. 35). Trata-se de um amor universal, capaz de transformar todas as circunstâncias negativas e todos os obstáculos em ocasiões para progredir ainda mais neste amor.

O estilo divino desse amor de Cristo deve ser o modelo do nosso amor. De tal sorte que nossa presença junto aos irmãos seja uma sombra da presença do próprio Cristo. Um amor que presta em favor dos irmãos, os mais humildes serviços. Cristo se identifica com o outro, especialmente com os mais necessitados. É uma verdade que, mediante a fé, podemos ver o Cristo na pessoa do outro, pois será a partir deste amor a base do nosso julgamento final, pois ele mesmo disse: “Tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber…”. E completa: “Todas as vezes que o deixastes de fazer a um destes pequeninos, foi a mim eu o deixastes de fazer” (Mt 25,40-45).

Além de proclamar o mandamento do amor, Jesus deixou esta norma como sinal distintivo para os seus seguidores: “Nisso conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (v. 35). Por vontade expressa de Cristo é o amor o sinal de identificação de seus discípulos. O sinal que de agora em diante distinguirá seus discípulos deverá ser o amor mútuo. Como já nos diz o Evangelista São João: “Se alguém diz: Eu amo a Deus e odeia a seu irmão é mentiroso. Pois, quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? E dele temos este mandamento: Quem ama a Deus, ame também o seu irmão” (1Jo 4,20s). E ainda frisa: “Sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte” (1Jo 3,14).

Diante destas exigências apresentadas pelo evangelho, e lançando um olhar para cada um de nós, percebemos que somos fracos e limitados. Existe sempre em nós uma resistência ao amor e na nossa existência há muitas dificuldades que provocam divisões, ressentimentos e rancores. Mas não podemos perder a esperança. O Senhor prometeu estar presente na nossa vida, nos tornando capazes deste amor generoso e total, que sabe superar todos os obstáculos. Se estivermos unidos a Cristo, poderemos amar verdadeiramente deste modo que Ele quer. Amar os outros como Jesus nos amou só é possível com aquela força que nos é comunicada na relação com Ele, especialmente na Eucaristia, na qual se torna presente de maneira real o seu Sacrifício de amor que gera amor.

A prática do amor mútuo é a expressão da fé em Jesus. O verdadeiro discípulo distingue-se pelo amor. A capacidade de amar-se mutuamente indica o quanto Jesus está agindo na vida do cristão. A presença salvadora de Jesus tem o efeito de desatar o nó do egoísmo, que afasta os indivíduos de seus semelhantes e, por consequência, de Deus também.

Em sua carta aos coríntios São Paulo ressalta que o amor é superior a todos os dons extraordinários. O amor é maior do que o dom de língua. O amor é maior do que o dom de profecia e conhecimento. O amor é maior do que o dom de milagres. Sem amor, até as melhores obras de caridade ficam isentas de valor (cf. 1Cor 13,1-3). O amor é melhor por causa da sua excelência intrínseca e também por causa da sua perpetuidade.

São Paulo define o amor como paciente e benigno, ou seja, o amor tem uma infinita capacidade de suportar e ter paciência com as pessoas, no sentido de reagir com bondade perante aqueles que o maltratam. São Paulo ainda explica que o amor não é ciumento, ufanoso e ensoberbecido. Não se conduz inconvenientemente, não procura os seus próprios interesses e não se ressente com o mal. O amor não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade. E, por fim, diz São Paulo que o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta (cf. 1Cor 13,4-7). E ainda segundo São Paulo, dentre as virtudes teologias: fé, esperança e caridade, a maior de todas é a caridade, ou seja, o amor (cf. 1Cor 13,13). Os textos sagrados nos mostram como o amor ao próximo deve ser a bússola da nossa vida. Esse ensinamento deve ser aplicado às circunstâncias em que nos encontramos habitualmente.

Podemos correr o risco de alegrarmos com o fracasso dos nossos inimigos. Há um mal intrínseco em nós mesmos. Podemos sentir um falso alívio quando vemos os nossos adversários fracassando e caindo, mas isto não é amor. O amor, além de perdoar, esquece e não mantém um registro do que foi dito e feito contra nós. A ausência de amor faz com que o cristão perca o seu significado diante de Deus.

Possamos hoje questionar a nós mesmos: “Estou vivendo e compartilhando este amor que Jesus pede? Estou testemunhando a todos, com gestos concretos, o amor de Deus?” Saibamos haurir diariamente da relação de amor com Deus pela oração, a força para transmitir o anúncio profético de salvação a todas as pessoas com as quais convivemos.

O verdadeiro remédio para as feridas da humanidade, quer materiais, como a fome e as injustiças, quer psicológicas e morais, causadas por um falso bem-estar, é uma regra de vida baseada no amor fraterno, que tem a sua fonte no amor de Deus. Por isso, é preciso abandonar o caminho do erro, da arrogância e da violência utilizada, para obter posições de poder sempre maiores.

Peçamos ao Senhor o auxílio necessário para colocarmos em prática este mandamento novo do amor que Ele nos ordena a praticar. E nos faça abrir de par em par as portas do nosso coração para perdoar e amar verdadeiramente todos os nossos irmãos. Interceda por nós também a Virgem de Nazaré, para que possamos aprender de Jesus a verdadeira humildade e, imbuídos do amor, possamos difundir para todas as pessoas os seus frutos de alegria de paz. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

 

Veja também:

IV DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA C – O BOM PASTOR

Jo 10, 27-30

Caros irmãos e irmãs,

Este quarto domingo da Páscoa nos apresenta Jesus como o Bom Pastor. O trecho evangélico nos traz estas palavras de Jesus: “As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão. E ninguém vai arrancá-las de minha mão. Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai. Eu e o Pai somos um” (Jo 10,27-30). São quatro versículos que resumem a mensagem de Jesus e nos fazem compreender o sentido e o significado da figura do Pastor, que é o tema central apresentado pela Liturgia da Palavra deste domingo.

A imagem do pastor vem de longe. No Antigo Oriente, os reis costumavam designar-se a si mesmos como pastores dos seus povos. No Antigo Testamento, Moisés e Davi, antes de serem chefes e pastores do Povo de Deus, foram efetivamente pastores de rebanhos. Nas dificuldades do período do exílio, diante do fracasso dos pastores de Israel, isto é, dos chefes políticos e religiosos, o profeta Ezequiel traçou a imagem do próprio Deus como Pastor do seu povo. Através do profeta, Deus disse: “Como o pastor se preocupa com o seu rebanho… assim me preocuparei com o meu” (Ez 34, 12).

O próprio Deus é apresentado no salmo 23 como pastor de seu povo: “O Senhor é meu pastor, nada me falta” (Sl 23, 1). E o salmo 95 continua: “Ele é nosso Deus e nós, o povo de seu rebanho” (Sl 95, 7). O futuro Messias também é descrito com a imagem do pastor: “Como o pastor, ele pastoreia seu rebanho; recolhe em braços os cordeirinhos, leva-os no seio e trata com cuidado os recém-nascidos” (Is 40, 11). Como de fato, esta imagem ideal de pastor encontra sua plena realização em Cristo. Ele é o bom pastor que se compadece do povo porque o vê “como ovelhas sem pastor” (Mt 9, 36). E Pedro identifica Jesus como “o pastor de nossas almas” (1Pd 2, 25) e a Carta aos Hebreus, faz uma referência a Cristo como “o grande pastor das ovelhas” (Hb 13, 20).

O evangelho apresenta apenas uma parte do grande discurso de Jesus sobre os pastores. Neste relato, o Senhor Jesus faz referências a algumas situações a respeito do verdadeiro pastor: ele dá a própria vida pelas suas ovelhas; ele as conhece e elas o conhecem. A frase que com grande vigor permeia todo o discurso sobre os pastores é esta: “O pastor dá a vida pelas suas ovelhas” (Jo 10,11). O mistério da Cruz encontra-se no centro do serviço de Jesus como pastor. Este é o grande serviço que Ele presta a todos nós. Ele entrega-se a si mesmo, e não apenas num passado longínquo. Na sagrada Eucaristia, realiza isto todos os dias, doando-se a si mesmo mediante as mãos dos sacerdotes. Por isso, justamente, no âmago da vida sacerdotal encontra-se a celebração eucarística, onde o sacrifício de Jesus na cruz permanece contínua e realmente presente no meio de nós.

E Jesus ainda diz: “Minhas ovelhas escutam minha voz; eu as conheço e elas me seguem” (v. 27). Nesta frase, são duas relações que parecem totalmente diferentes e encontram-se entrelaçadas: a relação entre Jesus e o Pai e a relação entre Jesus e as ovelhas que lhe são confiadas. Em certos países, as ovelhas são criadas especialmente para a carne, em Israel se criavam, sobretudo, visando a lã e o leite. Por isso, permaneciam anos e anos em companhia do pastor, que acabava por conhecer o caráter de cada uma e passava a chamá-la com algum afetuoso apelido. Neste sentido, o pastor conhece as suas ovelhas e as suas ovelhas o conhecem.

Jesus busca esta inspiração para mostrar a sua unidade com o Pai. Trata-se de uma relação pessoal profunda. Um conhecimento do coração, próprio de quem ama e de quem é amado; de quem é fiel e de quem sabe que, por sua vez, se pode confiar. Um conhecimento de amor, em virtude do qual, é comparado com a imagem do pastor dedicado às suas ovelhas.

Grande parte da Judéia era uma planície de solo áspero e pedregoso, mais adequado ao pastoreio que à agricultura. Devido a escassez de ervas, o rebanho deveria ser transferido continuamente; não havia cercas e isso exigia a constante presença do pastor atento aos movimentos de seu rebanho. O pesadelo dos pastores de Israel eram os animais selvagens, lobos, hienas e salteadores. Em lugares tão isolados, constituíam uma ameaça constante. Era o momento em que se evidenciava a diferença entre o verdadeiro pastor e o assalariado, que se põe ao serviço de algum pastor só pelo pagamento que dele recebe. Frente ao perigo, o mercenário foge e deixa as ovelhas sob a ameaça do lobo ou do malfeitor; o verdadeiro pastor enfrenta o perigo para salvar o rebanho. Isso explica porque a liturgia nos propõe o Evangelho do bom pastor no tempo pascal. A Páscoa foi o momento em que Cristo demonstrou ser o bom pastor, porque na cruz, ele deu a vida pelas suas ovelhas.

As ovelhas, por sua vez, devem escutar a voz do Pastor e segui-lo (cf. v. 27). Isto significa que fazer parte do rebanho de Jesus é aderir a Ele, escutar as suas propostas, comprometer-se com Ele e, como Ele, entregar-se sem reservas numa vida de amor e de doação ao Pai e também aos irmãos. E nós, como ovelhas de Jesus, também precisamos “escutar a sua voz” e segui-lo… E devemos diferenciar a “voz” de Jesus, o nosso Pastor, de outros apelos através de um confronto permanente com a sua Palavra e através da participação nos sacramentos. Nos dias atuais podemos ouvir a voz do Senhor e reconhecê-lo através da pregação dos Apóstolos e dos seus sucessores.

E neste domingo em que também celebramos o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Todos os fiéis são exortados a rezar de modo particular para as vocações sacerdotais e também para a vida consagrada. Ainda hoje o Senhor continua chamando muitos pelo nome, como fez um dia com os Apóstolos na margem do Lago da Galileia, para que se tornem “pescadores de homens”, isto é, seus colaboradores mais diretos no anúncio do Evangelho e no serviço do Reino de Deus.

A Igreja antiga encontrou na escultura e nos ícones do seu tempo a figura do pastor que carrega uma ovelha nos próprios ombros. Para os cristãos, esta figura tornou-se, com toda naturalidade, a imagem daquele que foi à procura da ovelha perdida e a levou de volta ao redil. Por isto, peçamos também hoje ao Cristo Bom Pastor, para que, em nossas fraquezas e em nossas provações, e nas vezes em que também sentirmos perdidos e sem rumo, Ele também nos ampare e nos conduza de volta, nos carregue em seus ombros e nos faça retomar ao bom caminho, ao caminho da perfeição e da santidade. Que Ele também possa conceder o dom da perseverança a todos os sacerdotes. Que se mantenham fiéis às suas promessas e assimilem dia após dia os mesmos sentimentos e as atitudes de Jesus Bom Pastor.

E que a Virgem de Nazaré, a Mãe do Bom Pastor, que respondeu prontamente ao chamado de Deus dizendo: “Eis aqui a escrava do Senhor” (Lc 1, 38), nos ajude a acolher com alegria e disponibilidade o convite de Cristo para sermos os bons trabalhadores da sua vinha (cf. Mt 20,1-16). Que ela vele todos os dias por cada um de nós e nos proteja de todos os perigos. Ela é a Virgem do Sim. Ela também, como mãe, aprendeu a reconhecer a voz de Jesus, desde quando o trazia no seu ventre. Que ela também possa nos ajudar a reconhecer cada vez melhor a voz de Jesus, o Bom Pastor, que nos chama a segui-lo pelo caminho do bem. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

III DOMINGO DO TEMPO PASCAL – O DIÁLOGO DE JESUS COM PEDRO

Jo 21, 1-19

Meus caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo nos apresenta uma nova aparição de Jesus ressuscitado. Fundamentar a fé dos discípulos é o objetivo de tais aparições. Mas hoje começa também a despontar o tema do amor, em concreto, do amor a Jesus. Fé e amor, crer e amar são duas dimensões de uma mesma e única realidade: a vida com Cristo por meio do Espírito Santo.

Com as palavras de Pedro “Eu vou pescar”. E com o assentimento dos demais: “Nós vamos contigo” (v. 3), indica que após a morte e ressurreição de Jesus Cristo, a vida retomou para eles ao seu ritmo anterior. Deveriam voltar à antiga profissão de pescadores, retomando os barcos e as redes, mesmo se a vida já não era como antes.

A pesca é feita durante a noite. Eles buscaram na noite, e nada pescaram. A noite é sinônimo de trevas, de escuridão, de ausência de luz. Para os israelitas o mar simboliza lugar de escravidão e sofrimento, o símbolo de todas as forças inimigas do homem. Jesus já havia dito aos discípulos que “eles seriam pescadores de homens”. A missão deles seria a de enfrentar as ondas do mar para pescar os homens, para os tirar das águas salgadas e os livrar de todas as situações negativas que os impedem de viver.

Jesus aparece pela manhã, dissipando a escuridão. Ele mesmo já teria dito: “Eu estou no mundo, sou a luz do mundo” (Jo 9,4-5). Normalmente, os peixes caem na rede durante a noite, quando é escuro, e não de manhã, quando a água já é transparente. Contudo, o resultado da ação dos discípulos, durante a noite, sem Jesus, é um fracasso, o que faz lembrar uma outra frase dita por Jesus: “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5).

O amanhecer coincide com a presença de Jesus. Jesus não está com eles no barco. Ele não acompanha os discípulos na pesca; a sua ação no mundo é exercida por meio dos discípulos. Concentrados no seu esforço inútil, os discípulos nem reconhecem Jesus quando ele se apresenta. O grupo está desorientado e decepcionado pelo insucesso, posto em evidência pela pergunta de Jesus: “Tendes alguma coisa de comer?” (v. 5). Mas Jesus dá a eles as indicações: “Lançai a rede… e haveis de encontrar!” (v.6). Apesar do momento inoportuno, por estar de manhã, momento em que os peixes retornam ao leito do mar, os discípulos confiaram nas palavras de Jesus e o resultado foi uma pesca milagrosamente abundante, a tal ponto que mal conseguiam arrastar a rede, devido à grande quantidade de peixes pescados (cf. v. 6).

O êxito da missão não se deve ao esforço humano, mas sim à presença viva e a Palavra do Senhor ressuscitado. É, então, graças a um sinal que os discípulos reconhecem o Ressuscitado. Jesus Cristo não tem mais necessidade de dizer quem Ele é. Eles sabem que Ele é o Senhor. Os discípulos fazem, nesse dia, a experiência da prodigalidade do amor de Deus: não conseguem arrastar as redes, dada a quantidade de peixe. Fazem também a experiência da universalidade da salvação: havia 153 grandes peixes, número que evoca, segundo São Jerônimo, todas as espécies de peixes enumerados na época. Também a este número pode ser dada uma outra interpretação simbólica. O número 153 é resultante de 50 x 3 + 3. Para os israelitas o número 50 indicava todo o povo; o número 3 significava a perfeição, a plenitude. O sentido deste detalhe curioso está no fato de que a comunidade cristã levará em frente de modo pleno e total a sua missão de salvação. Toda a humanidade é chamada a se libertar das águas impetuosas do mar através dos discípulos de Cristo, mas eles só poderão agir, tendo como guia a voz do Cristo Ressuscitado.

Os discípulos de Emaús reconhecem Jesus apenas na fração do pão. Os primeiros cristãos chamavam à Eucaristia a “fração do pão”. Mas Jesus oferece peixe. Sabemos que este se tornou bem cedo o símbolo de Cristo. Em grego, as primeiras letras da expressão “Jesus, Filho de Deus, Salvador” formam a palavra “peixe”, em grego: “ichtus”. Desde então, oferecendo-lhes peixe, Jesus ressuscitado diz aos discípulos que é verdadeiramente com Ele, o Filho de Deus, o único Salvador de todos os homens, que estarão doravante em comunhão, cada vez que partirem o pão eucarístico.

Em seguida Jesus come com os apóstolos o peixe assado nas brasas e, logo temos o diálogo entre Jesus e Pedro. Três perguntas: “Tu me amas?”; três respostas: “Tu sabes que te amo”. Após as respostas, Jesus confia a Pedro o pastoreio do seu rebanho, que só pode ser confiado a quem ama Jesus com o maior amor possível. Por isto diz a Pedro: “Apascenta as minhas ovelhas!”. Com estas palavras, Jesus confere de fato a Pedro a tarefa de supremo e universal pastor do rebanho de Cristo. Confere a ele esse primado que lhe havia prometido quando disse: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. E eu te darei as chaves do Reino dos Céus” (Mt 16, 18-19).

O que mais comove nesta significativa página do Evangelho é que Jesus permanece fiel à promessa feita a Pedro, apesar da infidelidade de Pedro, que não havia cumprido a promessa feita a Jesus de não o trair jamais, ainda à custa da sua própria vida (cf. Mt 26,35).

No diálogo entre Jesus e Pedro, revela-se um jogo de verbos muito significativo. Em grego o verbo “philéo” expressa o amor de amizade, terno, mas não totalizante enquanto o verbo “agapáo” significa o amor sem reservas, total e incondicionado. Jesus pergunta a Pedro pela primeira vez: “Simão, filho de Jonas, tu me amas? Jesus usa o verbo “agapáo”, que quer dizer, com um amor total e incondicionado (cf. Jo 21,15). Antes da experiência da traição o Apóstolo teria certamente respondido: “Amo” “agapô”, ou seja, incondicionalmente”. Agora, que conheceu a amarga tristeza da infidelidade, o drama da própria debilidade, diz apenas: “Senhor, tu sabes que sou deveras teu amigo”, ou seja, “Tu sabes que te amo com o meu pobre amor humano”. Cristo insiste: “Simão, filho de Jonas, tu me amas com este amor total que eu quero?”. E Pedro repete a resposta do seu humilde amor humano: “Kyrie, philéo”, que em outras palavras seria: “Senhor, tu sabes que eu sou deveras teu amigo”.

Pela terceira vez Jesus pergunta a Simão, porém agora mudando o verbo para “philéo”. Simão Pedro compreende que para Jesus é suficiente o seu pobre amor, o único de que é capaz, e contudo sente-se entristecido porque o Senhor teve que lhe falar daquele modo. Por isso, responde: “Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo! (philéo)”. Na verdade, Jesus se adaptou a Pedro, e não Pedro a Jesus! É precisamente esta adaptação divina que dá esperança ao discípulo, que conheceu o sofrimento da infidelidade. Surge daqui a confiança que o torna capaz do seguimento até ao fim, por isto conclui dizendo a Pedro: “Segue-me!” (Jo 21,19).

Podemos ainda destacar no texto evangélico deste domingo dois verbos: “pescar” e “apascentar”. Trata-se de duas operações que aparecem sucessivas no relato apresentado. A missão de Pedro é apascentar aqueles que pescou, ou seja, deve nutrir com a doutrina e os sacramentos aqueles que se converteram ao Evangelho. E como Pedro, todos os discípulos são chamados a “apascentar” as ovelhas e os cordeiros de Cristo, sendo, naturalmente, os primeiros e os mais generosos nesta doação de si mesmos.

O diálogo entre Jesus e Pedro deve ser ainda trasladado à vida de cada um de nós. Ao interrogar Pedro: “Tu me amas?”, Jesus interroga também cada um de nós. E qual é a nossa resposta? Hoje ele também nos convida a amá-lo, ele que em sua paixão e morte, demonstrou a prova de seu amor por cada um de nós. Que saibamos corresponder com generosidade a este seu amor.

E possamos acolher com alegria o mandato que o Cristo mesmo hoje nos faz: “Lançai a rede…” (v. 6). Este mandato de Jesus foi docilmente acolhido pelos santos que no mundo foram anunciadores da Ressurreição do Senhor e deram um testemunho válido de vida, mediante sinais do perdão e do amor fraterno, que é o testemunho mais próximo que nós também podemos dar, de que Jesus está vivo e ressuscitou para estar conosco. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

II DOMINGO DO TEMPO PASCAL: A PAZ ESTEJA CONVOSCO!

Jo 20,19-31

Meus caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo relata as aparições de Cristo ressuscitado a seus discípulos. Na primeira delas está ausente o Apóstolo Tomé, e presente na segunda, oito dias depois. Estas aparições confirmam o sepulcro vazio e revigoram decisivamente a fé dos Apóstolos e da comunidade eclesial, isto é, nossa própria fé na Ressurreição de Jesus. Neste relato, o evangelista João nos faz partilhar a emoção sentida pelos Apóstolos neste encontro com Cristo depois da sua ressurreição.

O texto evangélico descreve que Jesus, depois da Ressurreição, visitou os seus discípulos, entrando pelas portas fechadas do Cenáculo. Jesus mostra os sinais da paixão, chegando a conceder ao incrédulo Tomé que os tocasse. Na realidade, a condescendência divina permite-nos tirar proveito até da incredulidade de Tomé assim como dos discípulos crentes. De fato, tocando as feridas do Senhor, o discípulo hesitante cura não só a sua desconfiança, mas também a nossa.

Ao apóstolo é concedido que toque nas suas feridas para reconhecer, além da identidade humana do Jesus de Nazaré, também a sua verdadeira e mais profunda identidade, por isto diz: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20, 28). A resposta de Tomé é um ato de fé, de adoração e de entrega sem limites. As dúvidas de Tomé viriam a servir para confirmar a fé dos que mais tarde haviam de crer em Jesus. Se a nossa fé for firme, também haverá muitos que se apoiarão nela. É necessário que essa virtude teologal vá crescendo em nós de dia para dia. Estas palavras pronunciadas pelo apóstolo Tomé têm servido de jaculatória para muitos cristãos, e como ato de fé na presença real de Cristo na Sagrada Eucaristia.

Podemos ainda sublinhar a saudação feita por Jesus tanto na primeira como na segunda aparição: “A paz esteja convosco!”. Não era apenas a saudação tradicional dos hebreus. Tinha um sentido da promessa de paz para aqueles que acolhessem a verdade da Ressurreição. E a promessa de paz se completou com o grande dom do perdão que nesse dia Jesus deixou nas mãos da Igreja, quando soprou sobre os apóstolos e disse a eles: “Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; aqueles aos quais não perdoardes, ser-lhes-ão retidos” (Jo 20,22-23). É esta a missão da Igreja perenemente assistida pelo Espírito Santo: levar a todos o feliz anúncio, a jubilosa realidade do amor misericordioso de Deus. O Espírito de Jesus Cristo é poder de perdão e da Divina Misericórdia. Concede a possibilidade de iniciar de novo, sempre de novo. A Paz é o dom que Cristo deixou aos seus amigos (cf. Jo 14, 27), como bênção destinada a todos os povos. É a paz que Jesus Cristo adquiriu com o preço do seu Sangue e que comunica a quantos nele confiam.

Neste contexto podemos dizer que a confissão dos pecados é a festa da paz. E a fórmula atual com que o sacerdote absolve o penitente lembra o mistério da Ressurreição e a vinda do Espírito Santo. Declara que Deus, “pela morte e ressurreição de seu Filho reconciliou o mundo consigo, e enviou o Espírito Santo para remissão dos pecados”, e pede que “pelo ministério da Igreja” ele conceda ao penitente “o perdão e a paz”. É, portanto, uma festa de paz. Dessa paz que só pode existir, quando pecado for expulso. E o próprio Jesus vai dizer à mulher pecadora, que lava os seus pés com as próprias lágrimas: “A tua fé te salvou, vai em paz” (Lc 7,50). Para essa mulher o contato com Jesus significou paz, pois sentiu o restabelecimento da sua dignidade enquanto pessoa. E ainda no caso daquela mulher que sofria de um fluxo de sangue, havia doze anos, a ela também Jesus disse: “A tua fé te salvou, vai em paz” (Lc 8,48). Para ela o milagre foi a plenitude da regeneração da vida, o começo da paz. Por isso, a fé, entendida como adesão a Jesus, constitui o fundamento da paz.

Há um anexo inseparável entre a paz, dom do alto, e o Espírito Santo; não sem razão são representados com o mesmo símbolo da pomba. O perdão dos pecados passa a ser o grande presente pascal que recebemos. O perdão que traz a paz de Deus é causa de alegria em nós. A paz indica ainda o estado do homem que vive em harmonia com Deus, com o ambiente em que vive e consigo mesmo, como afirma o Sl 4,9: “Eu tranquilo vou deitar-me e na paz logo adormeço, pois só vós, ó Senhor Deus, dais segurança à minha vida”.

Esta saudação “A paz esteja convosco” soa ainda como um eco das palavras dos anjos no dia do nascimento de Jesus em Belém: “Glória a Deus nas alturas e Paz na terra aos homens por Ele amados” (Lc 2,14), onde Jesus é apresentado como o portador da paz ao mundo por excelência. Com Jesus nasce uma nova humanidade que responde à sede de vida e de harmonia da humanidade de todos os tempos. Ele é a plenitude da paz, porque oferece a possibilidade de uma felicidade e de paz que ultrapassam as barreiras dos povos e da própria morte. Os anjos e os pastores exprimem a nova proximidade entre o mundo de Deus: “Glória a Deus” e o mundo dos homens: “Paz aos homens” que, por sua vez, alude à possibilidade de uma nova fraternidade entre os seres humanos.

Talvez o conceito que na nossa língua mais se aproxima da expressão hebraica “shalom” é o de felicidade. Mas também indica o sentido de bem-estar de uma pessoa. Pode ainda indicar a ideia de se ter completado uma vida longa e feliz, daí a expressão “sheol”, que tem a mesma raiz. Simeão, já ancião, um homem justo, que esperava a consolação de Israel, certa vez tomando o menino Jesus nos braços e louvou a Deus, por ter podido ver realizada a sua esperança: “Agora, Senhor, podeis deixar o vosso servo partir em paz, segundo a tua palavra, porque os meus olhos viram a tua salvação, que preparastes diante de todos os povos: luz para iluminar as nações todas e glória de Israel, o vosso povo” (Lc 2,29-30). O louvor de Simeão começa por uma exclamação de felicidade realizada. Chegado ao fim de seus dias, amadurecido na esperança considera-se saciado e exprime essa felicidade pela palavra paz. Com a chegada do dom de Deus em Jesus, Simeão vê completar-se o sentido da sua vida; pode deixar este mundo como um homem feliz.

A paz é comunicada aos homens desde o momento em que Cristo veio ao mundo. E paz também é o anúncio de Jesus no momento em que ele está para deixar este mundo e voltar para o Pai. Assim diz Jesus no seu discurso de despedida: “Deixo-vos a paz, eu vos dou a minha paz” (Jo 14,27). E após a ressurreição continua oferecendo a sua paz dizendo aos discípulos: “Recebei o Espírito Santo” (cf. Jo 20,22).

Ao longo da sua vida pública por diversas vezes Jesus ressaltou o valor da paz: E disse: “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). Aqui Jesus frisa bem o que se deve “fazer”. É o agir. É o trabalhar em prol da paz. São os que realizam a paz. Não tanto no sentido de que se reconciliam com os próprios inimigos, mas no sentido de que ajudam os inimigos a reconciliar-se. Trata-se de pessoas que amam a paz, tanto que não temem comprometer a própria paz pessoal intervindo nos conflitos a fim de promover a paz entre os que estão divididos.

Muitos santos deixaram fortes exemplos de uma demonstração do que podemos fazer em prol da paz. Certa vez São Francisco de Assis pediu em oração: “Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz”. E todos nós somos chamados a ser um instrumento da paz do Senhor. Para sermos instrumentos de paz não podemos difundir o mal, nem sermos agentes do acusador, do semeador da cizânia. Não podemos espalhar o mal. Não podemos permitir que o mal prossiga em seu desenvolvimento.

A paz continua sendo fruto do Espírito Santo, isto é, graça e colaboração humana. A paz continua sendo um fenômeno da graça de Deus e do empenho daqueles que a compõem. Ela é fruto da união de cada um de nós, com todas suas notas de singularidade, em união dos corações na comunhão. Em outras palavras, é a concórdia que deve fazer parte do nosso cotidiano.

Na terra podemos descobrir os caminhos que levam à paz (cf. Lc 19,42), podemos “dirigir os nossos passos no caminho da paz” (Lc 1,79). Podemos, num momento de graça, ter como que uma amostra e um primeiro sinal da paz que nos espera no céu. Lembrando a expressiva bênção de Aarão, peçamos: “Que o Senhor nos abençoe e nos guarde. Que o Senhor faça brilhar sobre nós a sua face e nos dê a sua graça! Que o Senhor volte para nós o seu olhar e nos dê a paz”. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB