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XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Parábola do rico e do pobre Lázaro

Lc 16,19-31

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo nos propõe refletir sobre a parábola do rico e do pobre Lázaro. Trata-se de um texto dirigido a alguns fariseus, como representantes daqueles que amam o dinheiro e vivem só em função dele. Jesus ressalta nesta parábola a vida de dois homens; um vive luxuosamente e realiza todos os dias grandes festas, enquanto o outro, com o nome de Lázaro, está na miséria, tem fome e encontra-se doente. No entanto, com a morte de ambos, a sorte se transforma radicalmente. Quando morreu o rico, foi para um lugar de tormentos, enquanto que Lázaro foi “levado pelos anjos ao seio de Abraão”.

O texto da parábola não diz como foi a vida de Lázaro. Não sinaliza se ele cometeu más ações ou se foi um modelo de virtudes; se trabalhava duramente ou se foi um homem acomodado e que nada quis fazer para mudar a sua triste situação. A parábola não diz se Lázaro foi um homem humilde e educado, se frequentava a Sinagoga para rezar, se foi um trabalhador exemplar e quais os motivos o levaram à pobreza extrema. Não encontramos referências às ações boas ou más praticadas pelos personagens.

O outro personagem é apresentado como “um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias” (v. 19). O único pecado do rico parece ter sido o de viver somente para si. O rico personifica o uso inadequado da riqueza. O luxo desenfreado ocupa um lugar de destaque na parábola; o importante para ele era isto. O texto da parábola mostra que o rico pensa unicamente em satisfazer-se a si mesmo, sem se preocupar minimamente com o mendigo que está à sua porta.

Ele foi incapaz de enxergar Lázaro, pobre e cheio de feridas, que estava à sua porta. A narrativa nos diz que Lázaro “queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas” (v. 21). Quando Abraão nega ao rico uma gota de água, não o repreende por alguma falta. Limita-se a lembrá-lo que ele foi rico e que na terra teve muitos prazeres, ao passo que Lázaro sofreu. Não explica o motivo da inversão da posição de ambos após a morte.

O pobre representa a pessoa da qual só Deus se ocupa: em contraposição ao rico, ele tem um nome, Lázaro, abreviação de “Eleazaro”, que significa precisamente “Deus ajuda”. Mesmo sendo esquecido por todos, Deus não o esquece; quem não tem valor aos olhos dos homens é precioso aos do Senhor. Não deixa de ser impressionante que Jesus chame o pobre pelo nome, mas ignore o nome do rico! Esta é a única parábola em que Jesus dá um nome a um dos protagonistas. O rico é descrito com todo o aparato que o rodeava: vestes luxuosas, festas esplêndidas e quotidianas. Mas não tem nome, ele é apenas “o rico”. Isto mostra que o dinheiro, quando passa a ser o centro da nossa vida, quando se apodera de nós, pode nos dominar e fazer com que percamos a própria identidade.

A narração do texto mostra como a iniquidade terrena é invertida pela justiça divina; depois da morte, Lázaro é acolhido “no seio de Abraão”, isto é, Lázaro estava à sua direita, lugar de honra no banquete celeste. Em conformidade com o imaginário judaico, os eleitos se juntarão com os patriarcas e profetas. O rico, por sua vez, termina “no inferno entre os tormentos” (v. 23). Trata-se de um alerta a todos nós, pois é durante a nossa peregrinação neste mundo que devemos corrigir os nossos atos, não é possível fazê-lo após a morte.

Esta parábola também nos faz lembrar do texto das bem-aventuranças de Lc 6,20-26, onde Jesus ressalta: “Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus. Felizes vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados…” (Lc 6,20-21). Não podemos do mesmo modo esquecer também de uma outra admoestação do Senhor, referindo-se ao momento do juízo final: “Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25,40).

A parábola nos faz lembrar a comunidade dos primeiros cristãos, quando não havia entre eles nenhum necessitado, pois eram “um só coração e uma só alma”; souberam construir uma verdadeira fraternidade (cf. At 4,32ss). Realizavam aquela partilha que falta na parábola: os que possuíam terras ou casas, vendiam e traziam o dinheiro e o colocava aos pés dos apóstolos; e distribuía-se a cada um, segundo a necessidade de cada um (cf. At 4,34-35).

Nesta história, Jesus ensina que não somos donos dos bens que Deus colocou em nossas mãos, ainda que os tenhamos adquirido de forma legítima: somos apenas administradores, encarregados de partilhar aquilo que pertence a todos. Esquecer isto é viver de forma egoísta. O pecado do rico foi não ter visto Lázaro, a quem poderia ajudar, ele demonstrou sofrer de uma forte cegueira, porque não consegue olhar para além do seu mundo, feito de banquetes e roupa fina. Na verdade, o rico não utilizou os seus bens conforme o desígnio de Deus.

O pobre Lázaro é vítima do pecado do rico que não lhe deu atenção, que não o viu. Aliás, parece ter sido ele ignorado por todos. Temos aqui uma descrição muito realista do que são muitas vezes as nossas relações. Somos normalmente indiferentes aos sofrimentos dos outros. A indiferença é verdadeiramente um pecado que pode matar. Nomeando o pobre Lázaro, Jesus nos faz recordar que para Deus cada ser humano é visto como único. Jesus veio compensar o olhar vazio e anônimo do rico. O que se reprova no rico da parábola é isto: não ter tido compaixão e amor para com o pobre que estava à sua porta, a cada dia morrendo aos poucos, sendo corroído pela fome.

Mas a mensagem da parábola vai além: recorda que, enquanto estivermos neste mundo, devemos ouvir o Senhor que nos fala mediante a Sagrada Escritura e viver segundo a sua vontade. Portanto, esta parábola nos ensina que o nosso destino eterno está condicionado pela nossa atitude. Compete a nós seguir o caminho que Deus nos mostrou para alcançar a vida, e este caminho é o amor, entendido como serviço aos outros, na caridade de Cristo, como fizeram inúmeros santos e, dentre tantos, podemos mencionar São Vicente de Paulo, que estimulado pelo amor a Cristo, organizou formas estáveis de serviço aos mais pobres, aos doentes e aos necessitados. E como também não mencionar Santa Teresa de Calcutá, a missionária da caridade, que tanto trabalhou pela causa dos pobres.

Neste mês de setembro, celebramos o mês da Bíblia e a parábola também insiste em nos mostrar que a Sagrada Escritura nos aponta o caminho seguro para que possamos assumir a atitude correta em relação aos bens que possuímos. O rico ficou surdo às interpelações da Palavra de Deus: ele não se deixou transformar por ela. Até mesmo os milagres são inúteis, quando o homem não acolhe no seu coração os ensinamentos do Senhor. Só a Palavra de Deus pode fazer com que o homem corrija seus erros, saia do seu egoísmo, aprenda a amar e a partilhar.

O texto da parábola conclui com a atenção dirigida aos cinco irmãos, que ficaram em casa. Nós somos, em certo sentido, esses cinco irmãos. A nós agora foi enviado “alguém que ressuscitou dos mortos”. Deus nos enviou o seu filho Jesus Cristo em pessoa e nos mostrou o caminho da salvação.

Possamos pedir ao Senhor que venha em nosso auxílio e nos faça colocar em prática os seus ensinamentos e sermos mais atentos aos irmãos mais necessitados, a partilhar com eles o muito ou o pouco que temos e a difundir no mundo o valor e a importância da solidariedade autêntica, para que juntos cheguemos um dia à glória da vida eterna. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Parábola do administrador infiel

Lc 16,1-13

Caríssimos irmãos e irmãs,

No Evangelho deste domingo Jesus nos conta uma parábola que nos fala de um homem rico, que tinha um administrador acusado de ser desonesto, porque dissipava os bens de seu patrão. Por isso, o patrão planeja a sua demissão, mas, antes de deixar o emprego o administrador teve que prestar contas de sua gestão. Assustado e despreparado para outro tipo de trabalho, tratou de fazer amigos para garantir o seu futuro.

O administrador entendeu que, no futuro, mais do que de dinheiro, precisaria de amigos. Ele avalia a situação em que se encontra e sabe que antes de deixar a administração, ele deve fechar as contas com o seu patrão. Ele tem consciência que são muitos os devedores e, por isso, começa a refletir: “O senhor vai me tirar a administração. Que vou fazer? Para cavar, não tenho forças; de mendigar, tenho vergonha. Ah! Já sei o que fazer para que alguém me receba em sua casa quando eu for afastado da administração’. Então ele chamou cada um dos que estavam devendo ao seu patrão. E perguntou ao primeiro: “Quanto deves ao meu patrão?’ Ele respondeu: ‘Cem barris de óleo!’ O administrador disse: ‘Pega a tua conta, senta-te, depressa, e escreve cinquenta!”(v. 6).

Esta dívida correspondia a 3.650 litros, ficou reduzida a 1.825 litros de óleo. Trata-se de uma economia bem expressiva, correspondente a um ano de salário. A pergunta, em seguida, vem para o segundo devedor: “‘E tu, quanto deves?’ Ele respondeu: ‘Cem medidas de trigo’. O administrador disse: ‘Pega a tua conta e escreve oitenta’” (v.7). Estas cem medidas de trigo correspondem a 27 toneladas, equivalentes a 42 hectares de terra. A dívida fica reduzida a oitenta medidas, ou seja, 5,5 toneladas a menos.

Na parábola, pode-se perceber que o patrão é taxativo ao dizer ao administrador: “Já não podes mais administrar meus bens” (v.2). Ao receber esta informação, o administrador não esboça nem mesmo uma autodefesa. Ele parece estar consciente das suas falhas e sabe perfeitamente que as informações recebidas pelo patrão são verdadeiras e logo pensa em soluções para garantir o seu futuro. Embora o texto apresente um elogio do patrão ao administrador pela sua esperteza (v.8), entretanto, ele não voltou atrás em sua decisão de despedir o administrador infiel.

Como homem entendido em negócios ele calcula e busca saídas para a emergência dentro do sistema econômico que ele conhece. Ele age com interesse e busca cúmplices, pois os devedores de seu patrão passam a ser devedores de seus favores. Estes devedores passam a dever muito menos ao empresário e se sentem na obrigação de reconhecer a ajuda daquele administrador.

Certamente, no futuro, estes devedores não esquecerão que foram favorecidos pela generosidade do administrador. Para melhor compreender esta parábola, faz-se necessário um retorno histórico. No tempo de Jesus não havia na Palestina uma remuneração salarial aos administradores, eles recebiam uma porcentagem, em conformidade com os negócios realizados. Os administradores de então, como os publicanos ou cobradores de impostos, não costumavam ter um salário fixo, mas uma comissão de acordo com as transações comerciais que conseguissem.

Na parábola, o administrador não reduz o valor que o seu patrão tinha estipulado. O desconto que oferece aos devedores é o resultado da não cobrança da sua parte, ou seja, da sua comissão. Ele oferece esta parte em troca da amizade dos devedores, pois, na sua reflexão, muito mais importante que ter dinheiro é ter amigos.

Um empresário não poderia ficar indiferente diante de um prejuízo de 1.825 litros de óleo e 5,5 toneladas de trigo. Este patrão louva o seu antigo administrador, que não o havia prejudicado nessa operação. Por isto, tudo indica que o administrador renunciou ao que estava acostumado a lucrar com as comissões sobre os negócios. Ele renuncia à sua comissão, ao seu próprio ganho, ao dinheiro que lhe era devido, para conquistar amigos.

A mensagem da parábola está no fato de que, a única maneira de fazer frutificar para a eternidade os nossos talentos e capacidades pessoais, assim como as riquezas que possuímos, é partilhá-las com os irmãos, sendo bons administradores daquilo que Deus nos confia.

Uma outra grande lição que deve ficar dessa parábola é a de fazer um bom uso do dinheiro em vista da eternidade. No final da parábola, Jesus aponta outro caminho: investir o dinheiro e os bens que temos, poucos ou muitos, em criar amigos nas moradas eternas do Reino, pois serão eles que nos acolherão na vida eterna.

A parábola não apresenta o administrador como modelo a ser seguido, evidentemente que Jesus não está convidando a imitar a sua desonestidade, mas a sua habilidade, sua esperteza. De fato, esta breve parábola conclui-se com estas palavras: “O senhor elogiou o administrador desonesto por ter procedido prudentemente” (Lc 16, 8). O dinheiro em si não é desonesto, mas pode fechar o homem a um egoísmo cego. Em vez de usá-lo em benefício próprio, é preciso pensar também nas necessidades dos pobres, imitando o próprio Cristo, como nos diz São Paulo, que “sendo rico se fez pobre por nós, a fim de nos enriquecer pela pobreza” (2Cor 8, 9).

Esse administrador teria todos os motivos para não dar nenhum desconto àqueles que deviam para o seu patrão, pois ele precisaria desse valor logo depois, tendo em vista que seria demitido. Mas ele vê que na vida, os bens materiais ficam, perecem, são realidades terrenas. Os relacionamentos, com Deus e com os irmãos, ao contrário, permanecem. Também nós devemos ter consciência de que muito mais importante do que os bens materiais são os relacionamentos que fazemos com os irmãos e com Deus.

A parábola do administrador infiel é uma imagem da vida do homem. Tudo o que temos é dom de Deus, e nós somos os seus administradores, mais tarde ou mais cedo também teremos de prestar contas a Ele. Trata-se, pois, de um apelo ao esforço e à vigilância tendo em vista o último dia, quando se haverá de dizer a cada um: “Presta contas da tua administração!” (Lc 16,2). O uso do dinheiro exige uma grande honestidade, tanto nos negócios mais importantes, como nos mais insignificantes, porque “quem é fiel no pouco é também fiel no muito” (Lc 16,10).

Peçamos a Virgem Maria que interceda sempre por nós e nos faça usar com sabedoria evangélica, isto é, com solidariedade generosa, os bens terrenos e que possamos sempre ter consciência que Deus é o nosso único Bem. E que ele mesmo nos faça desapegar dos bens terrenos, para desejarmos apenas os bens eternos, pois só eles não levarão à verdadeira felicidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento / RJ

XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Parábola do Filho Pródigo

Lc 15,1-32

Caros irmãos e irmãs,

Para este domingo a liturgia da Palavra propõe à nossa meditação o capítulo 15 do Evangelho de Lucas, uma das páginas mais profundas e comoventes de toda Sagrada Escritura. É belo pensar que no mundo inteiro, onde a comunidade cristã se reúne para celebrar a Eucaristia dominical, ressoa neste dia esta Boa Nova de verdade e de salvação: Deus é amor misericordioso. O evangelista São Lucas recolheu neste capítulo três parábolas sobre a misericórdia divina: as duas mais breves são as parábolas da ovelha desgarrada e da moeda perdida (cf. Lc 15,1-10); a terceira, a mais longa, é a conhecida parábola do Pai misericordioso, também habitualmente chamada de parábola do filho pródigo.

O ponto de partida para a narração da Parábola é a murmuração dos fariseus e dos escribas, diante da cena onde publicanos e pecadores escutam Jesus: “Este homem acolhe os pecadores e come com eles” (v. 2), comentam. O acolhimento dos publicanos e pecadores por parte de Jesus é algo escandaloso na perspectiva dos fariseus; comer com eles, estabelecer laços de familiaridade e de irmandade é algo abominável. Na perspectiva da teologia da época, os pecadores não podiam aproximar-se de Deus. É neste contexto que Jesus apresenta a Parábola do filho pródigo, na qual encontramos três personagens de referência: o pai, o filho mais novo e o filho mais velho.

O pai, na parábola, é aquele que sabe conjugar o respeito pelas decisões e pela liberdade dos filhos, com um amor gratuito e sem limites. Esse amor manifesta-se na emoção com que abraça o filho que volta, mesmo sem saber se esse filho mudou a sua atitude. Trata-se de um amor que permaneceu inalterado, apesar da rebeldia, da ausência e da infidelidade do filho. O amor do pai aparece representado no abraço, no beijo, no anel, símbolo da autoridade e do poder (cf. Gn 41,42; Est 3,10; 8,2) e nas sandálias, calçado do homem livre (cf. Gl 5,1).

No início da parábola observa-se que o filho exige do pai tudo aquilo que ele tem direito. A lei judaica previa que o filho mais novo recebesse apenas um terço da fortuna do pai (cf. Dt 21,15-17); mas, ainda que a divisão das propriedades pudesse fazer-se em vida do pai, os filhos não podiam tomar posse de seus bens, senão depois da morte do pai (cf. Eclo 33,20-24). O filho mais novo abandona a casa e o amor do pai e dissipa os bens colocados à sua disposição. É uma imagem de egoísmo, de orgulho e irresponsabilidade. Após gastar tudo o que possuía, aquele que se tornara totalmente livre, torna-se agora escravo: guardador de porcos. Para os judeus, o porco é um animal impuro – servir aos porcos é sinal de extrema alienação e de extrema miséria. O filho mais novo tornou-se um escravo miserável. Sem direito até mesmo de saciar a fome com o alimento oferecido aos porcos. Neste momento, ele então percebe que está perdido. Percebe que o seu nível de vida é inferior a dos porcos. Sente um tédio e um vazio inquietador, de uma vida sem sentido e da qual ele só vê um iminente morrer de fome.

O filho mais novo ao partir para um país distante geograficamente, desejava uma mudança não só exterior, mas também interior, pois queria uma vida totalmente diversa. Seu desejo era viver a liberdade, fazer tudo o que desejava e ignorar as normas do Pai que ficara distante. Passa então a perceber que era muito mais livre quando estava na casa do seu pai, pois era também ele proprietário e contribuía para a edificação do lar. Ao “cair em si” inicia uma reflexão interior que o faz almejar um novo projeto de vida. A decisão pela concretização deste objetivo o leva a uma ação exterior: ele se levanta e direciona os seus passos para um encontro com o pai, com um propósito de recomeçar a sua vida, porque já compreendeu que o caminho por ele percorrido era o caminho errado. Ele quer começar de novo e sabe que perdeu o direito de ser filho e, por isto, está disposto a ser um dos empregados, pois, para ele o mais importante agora é estar na casa do pai, não importa como.

E é neste momento que ele “entra em si mesmo”, como diz o Evangelho (cf. Lc 15,17). Podemos dizer que longe da casa do pai, em um país distante ele se afastou até de si mesmo. Vivia longe da verdade de sua existência. A sua mudança, a conversão, consiste em que ele reconhece que outrora partiu de si e agora ele regressa a si mesmo. E é em si mesmo que ele encontra a indicação de um novo caminho: o caminho da casa do Pai. As palavras que ele preparou para o seu regresso: “Pai, pequei contra o céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado teu filho…” (Lc 15,18), nos permitem reconhecer a peregrinação interior que ele então realiza.

E, ao chegar à casa, recebe do pai o abraço e o beijo, sinal de reconciliação e perdão. É oferecida uma festa e então ele percebe que a vida pode começar de novo. Regressa à casa paterna interiormente maduro e purificado: compreendeu o que é viver. Mesmo diante de possíveis tentações futuras, estará ele plenamente consciente que uma vida longe da casa do Pai não funciona: falta o essencial, falta a luz, falta o sentido da vida.

Não podemos esquecer o início do Evangelho, quando a narrativa nos faz lembrar que Jesus aproximava-se dos publicanos e dos pecadores, chegando mesmo a fazer-se convidar por eles, o que o tornava impuro, aos olhos daqueles que se sentiam puros. Na Parábola, ao abraçar o filho que julgava perdido, cobrindo-o de beijos, o pai também se torna impuro, também pelo próprio ato de tocar este filho que regressava, depois de uma vida desordenada. Como os fariseus e os escribas, o filho mais velho se recusa a entrar em comunhão com um pecador, pois se julga puro, incapaz se unir aos impuros.

O filho mais velho, cumpridor de todas as regras, sempre fez o que o pai mandou. Nunca pensou em deixar o espaço cômodo e acolhedor da casa do pai. No entanto, a sua lógica é a lógica da “justiça” e não a lógica do amor e da misericórdia. Ele acha que tem créditos superiores aos do irmão e não compreende nem aceita que o pai exerça a misericórdia para com o filho rebelde. Semelhante à imagem dos fariseus e escribas, que interpelaram Jesus porque cumpriam rigorosamente as exigências da Lei, desprezavam os pecadores e achavam que essa devia ser também a lógica de Deus. Eles desconheciam o Deus misericordioso que acolhe o pecador e se alegra com o seu regresso.

Nesta parábola conhecemos a identidade de Deus: Deus é amor (cf. 1Jo 4,16). Ele é o Pai misericordioso que em Jesus nos ama e nos perdoa. Os erros que cometemos, mesmo se grandes, não prejudicam a fidelidade do seu amor. Ele nos acolhe e nos restitui a dignidade de filhos. Com isto podemos redescobrir o Sacramento da Penitência e do Perdão, que faz brotar a alegria num coração renascido para uma vida nova.

Assim como o Filho Pródigo, hoje nós também somos convidados a percorrer um caminho interior, lançar um olhar para nós mesmos, para que possamos direcionar os nossos pensamentos e os nossos atos para a conversão que, antes de ser um esforço para mudar o nosso comportamento, é uma oportunidade para recomeçar, ou seja, abandonar o pecado e escolher voltar para Deus, para a casa do Pai.

O encanto deste texto esconde-se no verbo “splanchnizomaim”, uma palavra grega comumente traduzida como: “movido por compaixão”. Trata-se, na realidade, de um movimento visceral, como que de um parto. O filho “que estava morto e voltou à vida”, renasce no abraço misericordioso do Pai. Por isso, o Pai exclama: “É preciso alegrar-se”. Esta é a grande proposta de cada cristão: renascer, voltar ao Pai como homem novo e aceitar o irmão exatamente como ele é, ou seja, com suas limitações; abraçá-lo quando vem ao nosso encontro, trazendo as suas cicatrizes e as suas fragilidades.

Assim como o filho pródigo, quantos de nós também estamos perdidos e somos convidados a percorrer um caminho interior, lançar um olhar para nós mesmos, para que possamos direcionar os nossos passos para o caminho da conversão que, antes de ser um esforço para mudar o nosso comportamento, é uma oportunidade para recomeçar, ou seja, abandonar o pecado e escolher voltar para Deus. Possamos ser determinados em nossa decisão a deixar para trás uma vida de erro e de pecado, para irmos em direção à casa do Pai. E ao chegarmos, queira esse Pai de misericórdia ter compaixão também de nós, que ele possa correr ao nosso encontro, a nos abraçar e a nos acolher de novo em sua casa. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Quem se humilha, será elevado

Lc 14,1.7-14

Caros irmãos e irmãs,

Para este domingo a Liturgia da Palavra nos propõe uma reflexão sobre alguns valores importantes para o nosso quotidiano: a humildade, a gratuidade, o amor desinteressado… Na primeira leitura, tirada do Livro do Eclesiástico (cf. Eclo 3,19-21.30-31), a humildade é enfatizada como um caminho agradável a Deus, que proporciona ao homem êxito e felicidade. O texto nos apresenta uma instrução de um pai ao seu filho, na qual mostra a humildade como uma das qualidades fundamentais que todos nós devemos cultivar. É na humildade e na simplicidade que reside o segredo da sabedoria e do bem.

O homem que se deixa dominar pelo orgulho torna-se egoísta, injusto e despreza os outros, sente-se superior aos demais e pratica, com frequência, gestos de prepotência, que o torna temido, mas nunca admirado ou amado. É preciso reconhecer, com simplicidade, que tudo o que somos e temos é um dom de Deus e que as nossas qualidades não dependem dos nossos méritos, mas somente de Deus.

Na página do Evangelho encontramos Jesus como hóspede na casa de um chefe dos fariseus. Os fariseus formavam um dos principais grupos da sociedade palestina desta época. Dominavam os ofícios sinagogais e estavam presentes em todas as atividades religiosas dos israelitas. A preocupação fundamental era transmitir a todos o amor pela Torá, quer escrita, quer oral. Tratava-se de um grupo sério, verdadeiramente empenhado na santificação do Povo de Deus; mas, ao absolutizar a Lei, esquecia das pessoas e não praticava o amor e a misericórdia. Os fariseus se consideravam puros, porque viviam de acordo com a Lei e desprezavam os que não cumpriam os seus preceitos integralmente; não eram propriamente modelos de humildade. Isso talvez explique a luta pelos lugares de honra que o Evangelho faz referência.

O relato evangélico nos situa no contexto de um banquete, que no mundo semita, era o espaço do encontro fraterno, onde os convivas partilham do mesmo alimento e estabelecem laços de comunhão, de proximidade, de familiaridade, de irmandade. Jesus aparece muitas vezes em banquetes, para sublinhar o sentido da comunhão, do encontro e da familiaridade, sinais que caracterizam o reino de Deus.

Observando que os convidados escolhiam os primeiros lugares à mesa, Jesus contou uma parábola, ambientada num banquete nupcial, dizendo: “Quando tu fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: ‘Dá o lugar a ele’. Então tu ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar. Mas, quando tu fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: ‘Amigo, vem mais para cima’. E isto vai ser uma honra para ti diante de todos os convidados” (Lc 14,8-10). Alguém que ocupa logo o primeiro lugar, já não pode ser convidado pelo anfitrião para subir a um lugar melhor; só pode ser rebaixado, isto quando aparece alguma pessoa mais importante. Por isto, é melhor ocupar o último lugar, para poder receber o convite de ocupar um lugar de maior destaque.

No final da parábola Jesus sugere ao chefe dos fariseus que convide à sua mesa não os amigos, os parentes ou os vizinhos ricos, mas as pessoas mais pobres e marginalizadas, que não têm como retribuir esse gesto (cf. Lc 14,13-14). Os fariseus escolhiam cuidadosamente os seus convidados. Nas suas refeições, não convinha comparecer alguém de nível menos elevado, pois nesta refeição, não convinha estabelecer obrigatoriamente laços com pessoas tidas como desclassificadas.

Os fariseus também tinham a tendência, própria de todas as pessoas, de todas as épocas e culturas, de convidar aqueles que podiam retribuir da mesma forma. A questão é que, dessa forma, tudo se tornava um intercâmbio de favores e não gratuidade e amor desinteressado.

Jesus reprova esta prática e ressalta ser preciso convidar “os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos” (v.13), considerados pecadores notórios, amaldiçoados por Deus e, por isso, estavam proibidos de entrar no Templo (cf. 2Sm 5,8) para não profanar o lugar sagrado (cf. Lv 21,18-23). No entanto, para Jesus, são esses que devem ser os convidados para o banquete. Com isto, Jesus fala do banquete celeste, quando todos estarão unidos por laços de familiaridade e comunhão, para o qual todos são convidados, inclusive os que a cultura social e religiosa tantas vezes exclui. O acesso a este banquete escatológico não ocorre pelo jogo de interesse, mas pela gratuidade e pelo amor. Na verdade, a verdadeira recompensa, só Deus nos dará. Para participar deste banquete é necessário ser humilde, simples e estar a serviço do outro. E Jesus conclui a parábola dizendo: “Aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado” (Lc 14,11).

A humildade é uma grande virtude humana, porque, em primeiro lugar, representa o modo de agir do próprio Deus. É o caminho escolhido por Cristo que “identificado como homem, se humilhou a si mesmo, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz” (Fl 2,7-8).

Nesta parábola podemos encontrar uma mensagem importante e atual. Cristo nos convida a seguir o itinerário da humildade. Hoje somos chamados a um compromisso honesto e a um profundo interesse pelo bem comum. A humildade é, portanto, o resultado de uma vitória do amor sobre o egoísmo e da graça sobre o pecado. Esta parábola faz pensar também na nossa posição em relação a Deus. O “último lugar” pode representar a condição da humanidade atingida pelo pecado.

No cântico do “Magnificat” Maria nos diz que Deus “olhou para a humildade da sua serva” (Lc 1,48). A humildade de Maria é aquilo que Deus mais aprecia. A humildade de Deus que se fez carne, que se fez pequenino, e a humildade de Maria que O recebeu no seu seio; a humildade do Criador e a humildade da criatura. Foi deste encontro de humildade que nasceu Jesus, Filho de Deus e Filho do homem. A primeira leitura nos diz: “Quanto maior fores, tanto mais te deves humilhar, e assim encontrarás benevolência diante de Deus” (Eclo 3,18).

Humildade vem do latim “humilis”, que por sua vez deriva de “humus”, que quer dizer “terra”. Humilde é, pois, quem está ao nível do solo e se move perto da terra. Algo que corresponde exatamente à nossa pequenez e condição de criatura, parte insignificante do cosmos. Humilde é aquele que, com sabedoria e realismo, reconhece a distância que o separa do seu Criador. Por isso, Santa Teresa diz que “humildade é caminhar na verdade”.

A humildade é também muito cara para São Bento, que escreveu em sua Regra um longo capítulo dedicado a ela, ressaltando o seu valor e a sua importância para chegarmos ao reino celeste (cf. RB 7). Possamos nós seguir o modelo dos santos, que souberam praticar a humildade; e também o exemplo do próprio Cristo, que se revelou como “manso e humilde de coração” (cf. Mt 11,29).

A humildade que o Senhor nos ensinou e que os Santos puderam testemunhar, cada qual segundo a originalidade da sua própria vocação, constitui um estilo de vida, um modelo para cada um de nós. Continuando a Celebração Eucarística, centro da nossa vida, peçamos a Nossa Senhora, modelo de uma vida humilde e santa, que nos guie pelo caminho da humildade, para podermos, um dia, sermos dignos da recompensa divina. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

XX DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – NÃO VIM TRAZER A PAZ, MAS A DIVISÃO

Lc 12,49-53

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo começa definindo a missão de Jesus como um “lançar fogo à terra”, a fim de que desapareça o pecado e nasça um novo tempo. A proposta de Jesus trará, no entanto, divisão, pois é uma proposta exigente, que provocará a oposição de muitos. Na primeira parte do texto Jesus diz: “Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!” (v. 49). No Antigo Testamento o fogo traz consigo um elemento teofânico, usado para representar a santidade divina (cf. Ex 3,2; 19,18; Dt 4,12; 2Rs 2,11). O fogo também aparece na linguagem dos profetas para ressaltar o quadro do castigo das nações pecadoras (cf. Is 30,27.30.33). No entanto, ao mesmo tempo que castiga, o fogo também faz desaparecer o pecado (cf. Is 9,17-18; Jr 15,14; 17,4.27); e surge, assim, como elemento de purificação e transformação (cf. Is 6,6; Dn 3). Neste contexto, o fogo tem um poder transformador, e dele nascerá o mundo novo, de justiça e de paz.

Jesus veio revelar aos homens a santidade de Deus. A sua proposta destina-se a destruir o erro e o pecado. Também podemos lembrar do Espírito Santo, quando no dia de Pentecostes, desceu como línguas de fogo sobre os apóstolos e a Virgem Maria, estando eles reunidos em oração no Cenáculo (cf. At 2,3-11). O Espírito Santo passa a dar energia e força a eles, para que possam propagar o fogo da sua palavra e do seu amor, como pedimos na oração: “Vinde Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor…”.

Na segunda parte (v. 51-53), Jesus confessa que não veio trazer a paz, mas a divisão: “Julgais que Eu vim estabelecer a paz na terra?” E acrescenta: “Daqui por diante estarão cinco divididos numa só casa: três contra dois e dois contra três; dividir-se-ão o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra” (Lc 12,51-53).

A Sagrada Escritura nos diz que a paz é um dom messiânico (cf. Lc 2,14.29; 7,50; 8,48; 10,5-6; 11,21; 19,38.42; 24,36) e que a função do Messias será guiar os passos dos homens “no caminho da paz” (Lc 1,79). Ele é mensagem de paz por excelência. O Cristo Senhor, como escreve São Paulo, “é a nossa paz” (Ef 2,14). Ele morreu e ressuscitou para derrubar o muro da inimizade e inaugurar o Reino de Deus que é amor, alegria e paz. Jesus é anunciado no Antigo Testamento como o príncipe da paz (cf. Is 9,5) e caberia a ele anunciar a paz aos povos (cf. Zc 9,10). Por ocasião do seu nascimento os anjos anunciaram: “Paz na terra” (Lc 2,14). E após a sua ressurreição ele aparece aos seus apóstolos dizendo: “A paz esteja convosco” (Jo 20,21).

Contudo, a mensagem que Jesus traz à humanidade é questionante e interpeladora: alguns a acolhem positivamente; outros a rejeitam, não estão interessados nem em Jesus nem mesmo na proposta que ele traz. Como consequência, haverá divisão e desavença, até mesmo dentro da própria família, mediante as opções que cada um pode fazer.

Por isso, quem deseja seguir Jesus e comprometer-se sem hesitações pela verdade deve saber que encontrará oposições e se tornará, infelizmente, sinal de divisão entre as pessoas. O amor aos pais é um mandamento sagrado, mas para ser vivido de modo autêntico, nunca pode ser anteposto ao amor de Deus e de Cristo.

A fé exige que se escolha Deus como critério básico da vida. Deus é misericórdia, Deus é fidelidade, é vida que se doa a todos nós. Jesus não quer dividir os homens entre si, pelo contrário: Jesus é a nossa paz, é a nossa reconciliação! Mas esta paz comporta a renúncia ao mal, ao egoísmo, e a escolha do bem, da verdade e da justiça, mesmo quando isto exige sacrifício e renúncia aos próprios interesses. E isto sim, divide; como sabemos, divide até os vínculos mais estreitos. Mas não é Jesus que divide! Ele propõe o critério: viver para si mesmo, ou para Deus e para o próximo; ser servido, ou servir; obedecer ao próprio eu, ou obedecer a Deus. O velho Simeão já havia dito que o próprio Cristo seria um “sinal de contradição” (Lc 2,34).

Parece difícil conciliar a paz e a divisão. Por isto, para entendermos a mensagem do evangelho deste domingo, faz-se necessário lembrar de uma outra afirmação de Jesus. Ele disse: “A verdade vos libertará” (Jo 8,32). E também afirmou: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Não se pode trair a verdade. E então, poderá acontecer que algumas pessoas não concordarão com o que o Evangelho ensina e se afastarão do caminho apontado por ele.

A paz que Jesus veio trazer não é sinônimo de simples ausência de conflitos, ao contrário, a paz de Jesus é fruto de uma luta constante contra o mal. O confronto que Jesus está decidido a enfrentar não é contra homens ou poderes humanos, mas contra satanás, o inimigo de Deus e do homem. Quem quer resistir a este inimigo, permanecendo fiel a Deus e ao bem deve necessariamente enfrentar incompreensões e, às vezes, verdadeiras perseguições.

As perseguições já ocorriam na época dos profetas, como ressalta a primeira leitura, que nos mostra a figura do profeta Jeremias, cuja existência se traduziu em arriscar a vida por causa do anúncio da Palavra de Deus. Ele foi seduzido pelo Senhor e colocou-se inteiramente ao seu serviço, mesmo que isso tenha significado violentar a sua própria maneira de ser, afastar-se dos familiares, dos amigos e deparar com o ódio dos opositores à sua mensagem. Jeremias é o protótipo do profeta que dá a sua vida para que a Palavra de Deus seja anunciada a todos. Para estar a serviço da Palavra de Deus, Jeremias experimentou o sofrimento, a incompreensão e a morte, ocorrida por volta do ano 580 a.C, estando ele exilado no Egito. Uma tradição judaica diz que ele foi apedrejado até a morte pelos próprios compatriotas.

Nisso, pode-se lembrar do início do cristianismo e do tempo das perseguições. Muitos pagãos convertidos eram desprezados pelos seus familiares. Podemos lembrar de São Sebastião, que viveu no século terceiro e era amigo pessoal do Imperador Diocleciano, mas tendo se convertido ao cristianismo, foi por ele abandonado e condenado à morte. Podemos lembrar ainda dos apóstolos, de Santo Estêvão, o primeiro mártir, de São João Batista, o maior dos profetas de Cristo, que soube renegar-se a si mesmo para dar espaço ao Salvador, e sofreu e morreu pela verdade. Podemos ainda recordar de muitos outros santos que foram perseguidos e mortos por causa da verdade, por causa de Cristo. Neste mês de agosto celebramos vários deles, dentre os quais ressaltamos de São Lourenço, do século III, vindo a falecer por ocasião da perseguição contra os cristãos no ano de 258, ordenada por Valeriano, imperador pagão, que mandou amarrar Lourenço em uma grelha, para ser assado vivo e lentamente. E Santa Teresa Benedita da Cruz, também morta num campo de concentração, por ocasião da perseguição nazista.

E neste domingo, 14 de agosto, recordamos também um outro mártir, São Maximiliano Maria Kolbe, que concluiu com o martírio a sua peregrinação terrestre, também na época da perseguição nazista, há 75 anos. Foi no final de julho de 1941, quando vários prisioneiros foram destinados a morrer de fome, e, neste dia, São Maximiliano, então sacerdote, apresentou-se espontaneamente, declarando-se pronto a morrer em substituição a um deles, porque era um pai de família e a sua vida era necessária aos seus entes queridos. Dando a sua vida por um irmão, São Maximiliano soube cumprir o preceito do Senhor: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15,13). E São Maximiliano, após mais de duas semanas de tormentos por causa da fome, enfim teve tirada a sua vida, com uma injeção letal, aos 14 de agosto daquele ano. Segundo relatos, a última palavra pronunciada por São Maximiliano, foi “Ave-Maria!”, no momento em que estendia o braço para aquele que o matava.

Este é o testemunho dos santos, este é especialmente o testemunho dos mártires, associados de maneira íntima ao sacrifício redentor de Cristo, que na cruz deu a própria vida em prol da humanidade. A Virgem Maria, Rainha da Paz, partilhou até ao martírio da alma a luta do seu Filho Jesus contra o maligno, e continua a partilhá-la até o fim dos tempos. Invoquemos a sua proteção materna, para que nos ajude a sermos sempre testemunhas da paz de Cristo. Que ela nos ajude também a manter o olhar bem fixo em Jesus e a segui-lo sempre, mesmo quando for difícil. E como mãe, se digne a interceder sempre por nós, por nossa cidade, pelo mundo inteiro, para que obtenhamos um futuro que não pode ser de ódio, mas de fraternidade; que não seja de confronto, mas de colaboração, fraternidade, respeito recíproco e de paz. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento – RJ

XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – A oração do Pai nosso

Lc 11,1-13

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo nos apresenta Jesus recolhido em oração. Ele tinha o costume de passar noites e noites em oração; horas e horas em intimidade com o Senhor. Em todos os momentos da vida Jesus estava rezando. Ele fazia da sua vida uma oração e da oração a sua vida. Este exemplo de Cristo despertou em um dos seus discípulos o desejo de aprender a rezar como ele, por isto, lhe disse: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11,1), e Jesus respondeu: “Quando orardes, dizei: Pai Nosso…”. E ensinou a eles a oração do Pai Nosso (cf. Lc 11, 2-4).

A Oração do Pai nosso é a mais bela de todas as orações, sendo rezada milhões de vezes por dia pelos cristãos, em toda a terra, às vezes até de maneira muito espontânea, em certos momentos de dor ou de alegria coletiva. É também o mais profundo itinerário daquilo que significa a oração, pois nos faz começar invocando Deus como nosso Pai. É a intimidade que deve existir entre filho e Pai; e entre Pai e filho. Deus é Pai de todos nós, por isto a oração está no plural, para indicar que toda oração deve ser para todos.

Uma das maiores graças que recebemos pelo sacramento do batismo, está no fato de podermos tratar Deus como Pai. Quando chamamos a Deus de “nosso Pai”, precisamos lembrar de que devemos ter um comportamento de filhos de Deus. Podemos invocar a Deus como “Pai” porque, pelo batismo, somos incorporados e adotados como filhos de Deus. Jesus nos ensina a chamar Deus de Pai e a recorrer a Ele como filhos. Em Deus vemos um Pai cheio de bondade e amor.

Na oração do Pai Nosso, pedimos inicialmente que o nome de Deus seja santificado e que seu reino venha até nós. Começamos pedindo aquilo que deve estar acima de tudo, dominando nossos afetos e aspirações. Pedimos que o nome de Deus seja conhecido, honrado e amado por todos. Desejamos que o nome de Deus seja conhecido como santo e seja glorificado. E pedimos que o nome de Deus seja santificado pelas nossas alegrias, nossos sofrimentos, nosso trabalho, nossas orações e por toda a nossa vida.

A oração tem início com um louvor a Deus. O objetivo da oração é elevar nosso pensamento para o alto, e de desprender-nos da materialidade das coisas do tempo, que muitas vezes podem nos impedir de rezar bem. Após esta inovação a Deus como Pai, seguem os pedidos. Os sete pedidos da Oração do Pai Nosso, normalmente são divididos em duas partes, na primeira parte pedimos pelo que é eterno e na segunda, pelo que é transitório.

O número sete na Sagrada Escritura significa a plenitude, plenitude de tudo aquilo que o homem precisa. Então, esta oração é fundamental para o cristão, pois contém aquilo que precisamos para nossa vida, para a experiência da nossa fé em Deus e os pedidos em nosso benefício: o pão de cada dia, o perdão dos nossos pecados, a libertação das tentações e de todo o mal.

Pedimos que Deus perdoe as nossas ofensas, porque também nós perdoamos uns aos outros. E o ideal do perdão nos é apresentado por Jesus: “Vai primeiro reconciliar-te com teu irmão” (Mt 5,24). E agora Jesus nos manda dizer que queremos ser perdoados, pois nós também perdoamos. A nossa sorte está em nossas mãos: como perdoamos, assim também nos será perdoado. A oração do Pai Nosso nos ensina a dizer: “Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Este “como” indica que o perdão que podemos receber de Deus está condicionado ao perdão que também nós devemos oferecer ao irmão que errou contra nós. O próprio Cristo também nos exorta: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros ‘como’ eu vos amei” (Lc 13,34). É a unidade do perdão mútuo que torna possível a reconciliação, tendo como exemplo o próprio Cristo, que na cruz perdoou os seus adversários (cf. Lc 26,34).

Assim adquirem vida as palavras do Senhor sobre o perdão, esse amor que ama até o extremo do amor. A oração cristã chega até o perdão dos inimigos. O perdão é um ponto alto da oração cristã; o dom da oração não pode ser recebido a não ser num coração em consonância com a compaixão divina. O perdão dá também testemunho de que, em nosso mundo, o amor é mais forte que o pecado. O perdão é a condição fundamental da reconciliação dos filhos de Deus com seu Pai e dos homens entre si (cf. CIgC 2844).

Na parte final da oração, pedimos ao Senhor: “Não nos deixeis cair em tentação”. É um pedido que atinge a raiz do nosso pecado, que é fruto do consentimento na tentação. Pedimos ao nosso Pai que não nos “deixe cair” nas ciladas do inimigo tentador. Nós pedimos que o Senhor não nos deixe enveredar pelos caminhos que conduzem ao pecado. Este pedido implora o Espírito de discernimento e de fortaleza, para que possamos vencer a tentação.

Este “não cair em tentação” envolve uma decisão do coração. É a luta contra o mal e neste combate só conseguimos a vitória através da oração. Foi pela força da oração que Jesus venceu o tentador no deserto, o que sequenciou até o último combate de sua agonia. Também somos chamados a seguir este exemplo de Cristo, para isto necessitamos estar sempre em vigilância. Esta vigilância consiste em “guardar o coração”, e Jesus pede ao Pai que “nos guarde em seu nome” (cf. CIgC, n. 2863).

Isto nos faz lembrar uma significativa oração pronunciada pelo sacerdote no decorrer da Santa Missa, logo após a oração do Pai Nosso: “Livrai-nos de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a vossa paz. Ajudados por vossa misericórdia, sejamos sempre livres do pecado e protegidos de todos os perigos, enquanto, vivendo a esperança, aguardamos a vinda do Cristo Salvador”. Com isto temos o último pedido: “Mas livrai-nos do mal”. O cristão pede a Deus, com a Igreja, que manifeste a vitória sobre tudo aquilo que nos impede de viver dignamente a nossa união com Ele.

Com isto, podemos observar que a oração do Pai Nosso acolhe e expressa também as necessidades humanas, materiais e espirituais. E precisamente por causa das necessidades e das dificuldades de cada dia, Jesus exorta com vigor: “Portanto, eu vos digo: pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto” (Lc 11,9-10). Não é um pedir para satisfazer as próprias vontades, mas para manter viva a amizade com Deus.

Para demonstrar a eficácia da oração perseverante é que Jesus nos apresenta também, no final do Evangelho, uma pequena parábola, para nos ensinar que uma oração bem feita sempre será ouvida. Nesta parábola Jesus nos fala em pedra e pão, peixe, serpente, ovo e escorpião. Quer Ele nos ensinar que, se o que pedimos é bom, é útil à nossa salvação, se pedimos com fé e perseverança, Deus nos concederá.

Com isto Jesus nos ensina duas importantes lições, que devem dominar nossas orações: a perseverança e a confiança. Tarde da noite, não é fácil atender ao amigo inoportuno. No entanto, o pedido perseverante e confiante consegue tudo. Jesus também quer nos ensinar que, mesmo depois de “fechada a porta”, a oração será atendida, pois sua eficácia é importante.

A oração do Pai Nosso é realmente um compêndio de todo o Evangelho. É a mais perfeita das orações. Nela, não só pedimos tudo quanto podemos desejar corretamente, mas ainda, segundo a ordem em que convém desejá-lo. De modo que esta oração não só nos ensina a pedir, mas ordena também todos os nossos afetos (cf. CIgC 2763).

Peçamos também nós ao Senhor com a mesma consciência do discípulo do Evangelho: “Mestre, ensina-nos a rezar”, para que, através da oração, possa ser cumprida a vontade de Deus em cada um de nós. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – MARTA E MARIA

Lc 10, 38-42

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo traz um relato onde sobressaem as personagens femininas, que são duas irmãs, Marta e Maria, que vivem em Betânia com o irmão Lázaro, que, contudo, neste caso não parece. Jesus passa pela sua aldeia e, segundo o texto, Marta o hospeda. Este pormenor dá a entender que, das duas, Marta é a mais idosa, a que governa a casa. De fato, depois de Jesus ter entrado, Maria senta-se aos seus pés e ouve-o, enquanto Marta andava atarefada com muitos serviços, certamente devido à presença do ilustre hóspede.

Parece que vemos a cena: uma irmã que anda toda atarefada, e a outra atenta à presença do Mestre e das suas palavras. Um pouco depois Marta não resiste e protesta: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o serviço? Manda que ela me venha ajudar!”. Mas Jesus, com calma, responde: “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” (v. 42).

A cena é profundamente humana. Jesus é hóspede em casa desta família amiga. Marta se esforça para dar conta do serviço caseiro, enquanto Maria, sentada aos pés de Jesus, escuta a sua palavra. Podemos notar que ao responder a Marta, Jesus não condena sua atividade e seu zelo pelo serviço a sua pessoa, mas a adverte de um perigo: a inquietação da qual pode ser vítima. Ao dizer “Marta, Marta…”, exprime nesta repetição do nome um sinal do afeto de Jesus para com ela e um meio de torná-la mais atenta à lição que ele quer dar. Jesus a censura, por ela preocupar-se demais com as coisas materiais. Ele não condena o seu trabalho, mas procura mostrar que, acima das preocupações materiais, devem existir o cuidado e a solicitude para com o lado espiritual.

Jesus indica ainda que uma só coisa é importante e indispensável: o alimento espiritual da alma. Jesus quer a união do trabalho e da oração. Assim será a perfeição da vida: a oração, indispensável; o trabalho, necessário.

As atitudes das duas irmãs Marta e Maria são para nós ações complementares diante do Reino. Marta representa a atividade serviçal, o trabalho e a preocupação de cada dia, mas com o perigo que pode ter de nos roubar o tempo que necessitamos para escutar em silêncio a palavra de Deus. Em Marta e Maria estão representados os dois caminhos através dos quais se pode servir ao Senhor.

As atividades exteriores acabam com a morte. A união de nossa alma com Deus perdura para sempre. Maria se ocupa do único necessário: a própria salvação. Marta quer o mesmo fim, mas se ocupa demais com o trabalho material.

Também na nossa vida cristã a oração e a ação permaneçam sempre profundamente unidas. Uma oração que não leva à ação concreta a favor do irmão pobre, doente e necessitado de ajuda, o irmão em dificuldade, é uma prece incompleta. Mas do mesmo modo, quando no serviço eclesial só prestamos atenção à ação, quando damos mais importância às coisas, às funções e às estruturas, esquecendo-nos da centralidade de Cristo, sem reservar tempo ao diálogo com Ele na oração, corremos o risco de nos servirmos a nós mesmos, e não a Deus presente no irmão necessitado.

São Bento resumia o estilo de vida que indicava aos seus monges com estas palavras: “Ora et labora”, ou seja, oração e trabalho. É da contemplação de uma forte relação de amizade com o Senhor que nasce em nós a capacidade de viver e de anunciar o amor de Deus, a sua misericórdia, a sua ternura pelo próximo. E inclusive o nosso trabalho com o irmão em necessidade, a nossa tarefa de caridade nas obras de misericórdia nos levam ao Senhor.

Muitos outros santos também experimentaram uma profunda unidade de vida entre oração e ação, entre o amor total a Deus e o amor aos irmãos. São Bernardo, que é um modelo de harmonia entre contemplação e laboriosidade, insiste precisamente na a importância do recolhimento interior e da oração para se defender dos perigos de uma atividade excessiva, independentemente da condição em que se encontra e da tarefa que está a cumprir. São Bernardo afirma que as ocupações excessivas, uma vida frenética, terminam muitas vezes por endurecer o coração e fazer sofrer o espírito (cf. BENTO XVI, Audiência geral de 25 de abril de 2012).

Não podemos perder-nos no ativismo puro, mas devemos deixar-nos penetrar sempre na nossa atividade pela luz da Palavra de Deus e assim aprender a caridade autêntica, o serviço verdadeiro ao outro, que necessita do nosso auxílio.

Nesta narração evangélica fica acentuado a vocação para o primado da vida espiritual, para a necessidade de nos alimentarmos com a Palavra de Deus, a fim de darmos luz e sabor às tarefas quotidianas. Trata-se de um convite que é particularmente oportuno em qualquer tempo. Em ambos os casos, não há oposição entre os momentos de oração e da escuta de Deus e a atividade quotidiana e o exercício da caridade. A admoestação de Jesus a Marta frisa a prioridade que devemos dar a Deus frente as atividades cotidianas.

As palavras de Cristo dirigidas a Marta devem encontrar eco no nosso coração. Seguindo, portanto, a eloquência dessas palavras, peçamos a Deus para que abra os nossos corações, para atentamente escutarmos as palavras do seu Filho Jesus. Que nós também possamos, no nosso trabalho reservar um tempo para o Senhor.

O texto evangélico nos narra que Jesus se deteve na casa de Marta, Maria e Lázaro, que o acolhe. Jesus entra em casa para estar com eles. Ele é acolhido pelas duas mulheres Marta e Maria. No nosso dia a dia por vezes, as nossas inúmeras ocupações nos fazem ser como Marta: ativos e sempre preocupados com nossos afazeres. Mas outras vezes nos sentimos como Maria, paramos para refletir, para escutar o Cristo que nos fala em cada página do evangelho. Saibamos ouvi-lo, mas saibamos também, a exemplo de Marta e Maria, abrir sempre as portas da nossa casa para que ele possa entrar, para que ele possa estar com cada um de nós.

Procuremos também nós ter aquilo que não nos pode ser tirado, e para que isto venha a se concretizar, peçamos também a intercessão da Virgem Maria, Mãe da escuta e do serviço, que nos ensine a meditar no nosso coração a Palavra do seu Filho, a rezar com fidelidade, ela que preferiu alimentar-se daquilo que dizia o Senhor. E assim como Maria, saibamos também nós escutar atentamente a Palavra de Deus e colocá-la em prática, e que essa mesma Palavra de Deus possa dar sentido ao nosso agir quotidiano. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

XIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – SEGUE-ME

Lc 9,51-62

Caros irmãos e irmãs,

As leituras bíblicas da santa Missa deste domingo ressaltam o tema da vocação de seguir o Cristo e as suas exigências. O Evangelho mostra Jesus a caminhar para Jerusalém, que é a meta final onde Jesus, na sua Páscoa derradeira, deve morrer e ressuscitar, elevar a cumprimento a sua missão de salvação. Ao longo desse caminho Jesus vai mostrando aos discípulos os valores do Reino de Deus. Todo este percurso que aqui se inicia converge para a cruz. Os discípulos também são exortados a seguir este “caminho”, para se identificarem plenamente com Jesus.

Se Jesus parece exigente para com aqueles que O querem seguir, é porque Ele mesmo é exigente quanto à sua própria caminhada. É caminhando que Jesus convida a colocarmos a segui-lo. Então, aqueles que o seguirem poderão dizer como Paulo: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4,7).

Ao longo do seu caminho até Jerusalém, Jesus encontra alguns homens, provavelmente jovens, os quais prometem segui-lo onde quer que ele vá. Ele os admoesta dizendo que “o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”, ou seja, não tem uma habitação estável e que quem escolhe trabalhar com Ele na sua vinha , jamais poderá arrepender-se (cf. Lc 9,57-58.61-62). A outro jovem o próprio Cristo diz: “Segue-me”, pedindo-lhe um desapego total dos vínculos familiares (cf. Lc 9, 59-60). Estas exigências podem parecer demasiado severas, mas na realidade expressam a novidade e a prioridade absoluta do Reino de Deus que se torna presente na própria pessoa de Jesus Cristo. Em última análise, trata-se daquela radicalidade que é devida ao amor de Deus, ao qual Jesus é o primeiro a obedecer. Quem renuncia a tudo, até a si mesmo, para seguir Jesus, entra numa nova dimensão da liberdade, pois está a serviço uns dos outros (cf. Gl 5,16).

Jesus chamou muitos para segui-lo. Podemos lembrar de Pedro e dos demais apóstolos. Podemos lembrar mais precisamente do evangelista e também apóstolo São Mateus (cf. Mt 9,9). Antes que Jesus o chamasse, ele desempenhava a profissão de publicano e, por isso, era considerado pecador público, excluído da “vinha do Senhor”. Mas, tudo muda quando Jesus, passando ao lado da sua mesa de impostos, fixa nele o seu olhar e diz: “Segue-me!” Foi precisamente isto que o evangelista São Mateus fez: Levantou-se e seguiu-o.

Também São Paulo experimentou a alegria de ser chamado pelo Senhor para trabalhar na sua vinha. Mas como ele mesmo confessa, foi a graça de Deus que agiu nele, aquela graça que, de perseguidor da Igreja, o transformou em Apóstolo das nações. A ponto de o levar a dizer: “Para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fl 1,21). Paulo compreendeu bem que trabalhar para o Senhor já é, nesta terra, uma recompensa.

A proposta que Jesus faz às pessoas ao dizer-lhes “Segue-me!” (v. 59), é exigente e exaltante. São elas convidadas a entrar no âmbito da sua amizade, a escutar de perto a sua Palavra e a viver com Ele; ensina-lhes a dedicação total a Deus e à propagação do seu Reino, segundo a lei do Evangelho: “Se o grão de trigo cair na terra e não morrer, fica só ele; mas, se morrer, dá muito fruto” (Jo 12, 24)

No encontro de Jesus com o jovem rico (cf. Mc 10, 17-22), na narração evangélica de São Marcos sublinha como “Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele” (Mc 10, 21). No olhar do Senhor, está o coração deste encontro e de toda a experiência cristã.

Jesus convida o jovem rico a ir mais além da satisfação das suas aspirações e dos seus projetos pessoais, dizendo-lhe: “Vem e segue-me!” (Mt 19,21). Ao jovem rico Jesus ainda diz: “Vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres… depois vem e segue-me” (Mt 19,21). Estas palavras inspiraram numerosos Cristãos ao longo da história da Igreja para seguir Cristo numa vida de pobreza radical, confiando na Providência Divina. Entre estes generosos discípulos de Cristo encontrava-se também São Bento, São Francisco de Assis e tantos outros que, sem hesitações, responderam o chamado do divino Mestre.

A vocação cristã deriva de uma proposta de amor do Senhor e só pode realizar-se graças a uma resposta de amor. Jesus convida os seus discípulos a segui-lo com uma confiança sem reservas em Deus. Os santos acolheram este convite exigente e, com humilde docilidade, põe-se a seguir Cristo crucificado e ressuscitado. A sua perfeição na lógica da fé, às vezes humanamente incompreensível, consiste em viver segundo o Evangelho.

Como de fato, muitos são aqueles que deixam a família de origem, os estudos, o trabalho, os seus bens, para se consagrar a Deus, como resposta radical à vocação divina. Para seguir Jesus Cristo é preciso estar livre de todas as ataduras, pois quem olha para trás, não está apto para o Reino de Deus (cf. Lc 9,62). Só vivemos a verdadeira liberdade se sairmos de nós mesmos, se desapegarmos de nós mesmos, para nos colocarmos a caminho com o Senhor e cumprirmos a sua vontade.

A exemplo de muitos discípulos de Cristo, possamos também nós acolher com alegria o convite a seguir Jesus, para vivermos intensa e fecundamente neste mundo. Com efeito, mediante o batismo, Ele chama cada um a segui-lo com ações concretas, a amá-lo sobre todas as coisas e a servi-lo nos irmãos. Infelizmente, o jovem rico não acolheu o convite de Jesus e retirou-se pesaroso. Não encontrara coragem para se desapegar dos bens materiais a fim de possuir o bem maior proposto por Jesus.

Jesus nunca se cansa de estender o seu olhar de amor sobre nós, chamando-nos a ser seus discípulos; a alguns, porém, Ele propõe uma opção mais radical. Possamos estar sempre disponíveis para acolher com generosidade e entusiasmo este sinal de predileção especial. Ele sabe dar alegria profunda a quem responde com coragem.

Também hoje, o seguimento de Cristo é exigente; significa aprender a ter o olhar fixo em Jesus, a conhecê-lo intimamente, a escutá-lo na Palavra e a encontrá-lo nos Sacramentos; significa aprender a conformar a nossa própria vontade à dele.

Deus serve-se de nós segundo o seu plano de amor, segundo a modalidade que Ele estabelece e pede-nos para favorecer a ação do Espírito; devemos ser os bons colaboradores do Senhor, para a eficácia realização do seu Reino.

Possamos ser atraídos pelos exemplos luminosos dos Santos que souberam dar ao mundo um testemunho do Senhor. São eles os protagonistas do amor e do bem, exemplos vivos de esperança e testemunhas de um amor que nada teme, nem sequer a morte.

Que Maria, a Mãe de Deus e nossa, que correspondeu sem reservas o chamado do Senhor, nos ajude a sermos capazes de ouvir a voz de Deus e de a seguir com determinação e decisão o caminho da santidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento-RJ

XII SEMANA DO TEMPO COMUM – C – E vós, quem dizeis que eu sou?

Lc 9,18-24

Caros irmãos e irmãs,

Neste domingo o texto evangélico traz uma pergunta formulada por Jesus aos seus discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Os discípulos respondem: “Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que és algum dos antigos profetas que ressuscitou” (v.19). Na opinião do povo, Jesus é comparado aos grandes personagens apresentados pela Sagrada Escritura, mas não o reconhecem como Messias, certamente porque a postura de Jesus não correspondia àquilo que se esperava de um rei forte e vencedor.

Contudo, a reação das pessoas é de admiração e enaltecimento, pois recordam João Batista, o maior dos profetas; Elias, o profeta que surgiu como um fogo, cuja palavra queimava como uma tocha (cf. Eclo 48,1). Na verdade o povo enaltece, admira, mas não reconhece a verdadeira identidade de Cristo.

Jesus viveu numa época de enormes dificuldades para o Povo de Deus. E esse sofrimento gerou grande expectativa messiânica. Todos sonhavam com a chegada do Messias anunciado pelos profetas. Neste período apareceram várias figuras que se assumiram como “enviados de Deus”; o que criou-se um clima de ebulição, visto que arrastaram atrás de si grupos de discípulos exaltados e acabaram chacinados pelas tropas romanas.

Muitos pensavam que o Messias seria um herói, um guerreiro forte semelhante a Sansão, um rei vitorioso como Davi, um político inteligente como Salomão etc. Aparentemente, Jesus não é considerado pelo povo como o novo Messias, mas o identificam como o novo Elias, o profeta que as lendas judaicas consideravam estar junto de Deus.

Em seguida temos a segunda pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” As perguntas que Cristo faz, as respostas que são dadas pelos seus discípulos e, finalmente, por Pedro, constituem uma espécie de exame da maturidade da fé daqueles que vivem mais perto de Cristo. Pedro responde em nome dos Doze, com uma profissão de fé que se diferencia de modo substancial da opinião que as pessoas têm sobre Jesus; com efeito, ele reconhece Jesus como o “Cristo de Deus” (v. 20). Ou, de acordo com a narração do Evangelista São Mateus: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16).

Esta confissão de fé apresentada por Pedro está intrinsecamente vinculada à primeira frase que no trecho evangélico, diz estar Jesus em um lugar afastado, em um momento de oração (v. 19). Um momento em que os próprios discípulos testemunham a unidade de Jesus com Deus. Frequentemente o evangelista São Lucas observa que Jesus, antes de cumprir algum gesto importante ou antes de transmitir um ensinamento com um significado extraordinário, ele se recolhe em oração. Temos nesta indicação que pela oração também podemos descobrir o rosto do Senhor e o conteúdo mais autêntico da sua missão.

Jesus não desmente a afirmação de Pedro, mas ordena que não a digam a ninguém. Dizer que Jesus é o Messias significa reconhecer nele esse “enviado” de Deus, a linhagem davídica, que havia de traduzir em realidade essas esperanças de libertação que enchiam o coração de todos. Jesus não discorda da afirmação de Pedro. Ele sabe, no entanto, que os discípulos sonhavam com um Messias, poderoso e vitorioso e apressa-se a esclarecer possíveis equívocos.

Ele é o enviado de Deus para libertar os homens, no entanto, não vai realizar essa libertação pelo poder das armas, mas pelo amor e pelo dom da vida. No seu horizonte próximo não está um trono, mas a cruz. Ele não é o Messias que todos estão esperando. Por isto, logo em seguida, o texto do Evangelho esclarece: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia” (v. 22). Com isto, Jesus mostra que não lhe espera o triunfo, mas a humilhação, o sofrimento e a morte. Porém, Deus transforma este seu sofrimento em caminho para a glorificação.

Na teologia do evangelista São Lucas, Jesus será revelado como Messias pelo sofrimento e pela paixão (cf. Lc 27,7.26.46). Sua missão messiânica consiste em vencer a morte pela cruz (cf. At 2,23s). Mas este mistério de sua messianidade ainda está oculto, para evitar falsas esperanças, por isto, Jesus proíbe aos discípulos comunicar aos outros a verdade professada por Pedro.

Imediatamente, depois da confissão petrina, Jesus anuncia a sua paixão e ressurreição, pondo em destaque o seguimento dos discípulos pelo caminho da cruz. E depois acrescenta que ser discípulo significa “perder-se a si mesmo”, isto para voltar a encontrar-se plenamente a si mesmo” (cf. Lc 9,22-24).

Mas o que significa “perder a vida por causa de Jesus?” Isto pode acontecer de dois modos: confessando explicitamente a fé, ou defendendo de modo implícito a verdade. Os mártires são o exemplo máximo da perda da vida por Cristo.

E dentre os mártires que vieram a perder a vida por causa da verdade, que é Cristo, uma vez que ele disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6), está João Batista. Ele foi o escolhido por Deus para preparar o caminho diante de Jesus e indicá-lo ao povo de Israel como o Messias, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (cf. Jo 1,29).

De Jerusalém e de todas as partes da Judeia o povo acorria para ouvir João Batista e fazer-se batizar por ele no rio Jordão, confessando os próprios pecados (cf. Mc 1,5). A fama do profeta batizador cresceu a tal ponto que muitos perguntavam se era ele o Messias. Mas ele, ressalta o evangelista São João, negou categoricamente: “Eu não sou o Messias” (Jo 1,20).

João consagrou-se totalmente a Deus e ao seu enviado, Jesus. Mas, no final, morreu em nome da verdade, quando denunciou o adultério do rei Herodes com Herodíades (cf. Mc 6,16-29). Pagou com a vida, selando com o martírio o seu serviço a Cristo, que é a Verdade em pessoa.

Para seguir Jesus, é necessário renunciar a todas as inclinações contrárias à vontade de Deus, ou seja, renunciar-se a si mesmo (v. 23). É preciso carregar a cruz todos os dias. Esta é a grande lei do cristianismo. Jesus vai à frente com a cruz e nos convida a segui-lo. E o seu convite continua atual: “Segue-me!”.

E Jesus, diante desta profissão de fé, renova a Pedro e aos demais discípulos o convite a segui-lo pela estrada exigente do amor até a cruz. Também a nós Jesus dirige a proposta de segui-lo todos os dias, e lembra que, para sermos seus discípulos, é necessário que nos apropriemos do poder da sua Cruz, ápice de nossos bens e coroa de nossa esperança.

Saibamos acolher com alegria esta palavra de Jesus. É uma regra de vida proposta a todos e que São João Batista interceda por nós para que possamos pô-la em prática. Invoquemos também a intercessão da Virgem Maria, para que, nos nossos dias, saibamos sempre manter a fidelidade a Cristo e testemunhar com coragem a sua verdade e o seu amor a todos. Ela, que se identificou como a Serva do Senhor, e que conformou a sua vontade com a de Deus, nos acompanhe durante todos os dias da nossa vida. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

VII DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA C – ASCENSÃO DO SENHOR

Lc 24,46-53

Caros irmãos e irmãs,

A Igreja celebra neste domingo a solenidade da Ascensão do Senhor, que deve significar para nós um canto de vitória e de esperança. A liturgia da Palavra traz ler uma passagem do Evangelho de São Lucas, onde podemos ler: “Eu enviarei sobre vós aquele que meu Pai prometeu, por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto. Então Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os. Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu. Eles o adoraram. Em seguida voltaram para Jerusalém, com grande alegria. E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus” (49-52).

São Lucas descreve o acontecimento da Ascensão também no início do Livro dos Atos dos Apóstolos, para frisar que tal evento é como o elo que une a vida terrena de Jesus à vida da Igreja. São Lucas refere-se também à nuvem que subtrai Jesus à vista dos discípulos, os quais permanecem a contemplar Cristo que sobe para junto de Deus: “Foi elevado ao céu à vista deles e uma nuvem subtraiu-o ao seu olhar”. E eles “estavam com os olhos fixos no céu, para onde Jesus se afastava” (At 1, 9-10). Neste instante aparecem dois homens com vestes brancas que os convidam a não permanecer imóveis a contemplar o céu, mas a alimentar a sua vida e o seu testemunho com a certeza de que Jesus voltará do mesmo modo como o viram subir ao céu (cf. At 1, 10-11).

Estes dois homens com as vestes brancas são os mesmos que aparecem no sepulcro, no dia da Páscoa (cf. Lc 24,4). A cor branca representa, de acordo com o simbolismo bíblico, o universo de Deus. As palavras pronunciadas pelos dois homens constituem a explicação dada por Deus à ressurreição de Cristo. Indica que Jesus, condenado à morte pelos homens, foi glorificado. E o fato de serem duas testemunhas indica a veracidade do fato.

Com o olhar da fé, os apóstolos compreendem que, não obstante tenha sido subtraído aos seus olhos, Jesus permanece para sempre com eles e, na glória do Pai, não os abandona. Por isto, a Ascensão não indica a ausência de Jesus, mas nos diz que Ele está vivo no meio de nós de um novo modo. E esta é a razão pela qual os discípulos se alegram. Jesus não se encontra em um lugar específico do mundo, como antes, agora está no Senhorio de Deus, presente em cada espaço e tempo, próximo de cada um de nós. Na nossa profissão de fé dizemos que Jesus “subiu ao Céu, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso”. A vida terrena de Jesus culmina com o evento da Ascensão, ou seja, quando Ele passa deste mundo para o Pai e é elevado à sua direita.

A solenidade da Ascensão do Senhor também nos convida a sermos testemunhas de Jesus que vive na Igreja e nos corações de todos os povos. No dia da sua ascensão ao céu disse Jesus aos Apóstolos: “Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura… Eles, partindo, foram pregar por toda a parte; o Senhor cooperava com eles, confirmando a palavra com os sinais que o acompanhavam” (Mc 16, 15.20).

Com isto, podemos observar que a Ascensão de Jesus não indica sua ausência temporária do mundo, mas, principalmente, inaugura a nova e definitiva forma da sua presença entre nós uma realidade, em virtude da sua participação no poder régio de Deus. Caberá precisamente aos discípulos, fortalecidos pelo poder do Espírito Santo, tornar perceptível a presença do Cristo entre os homens, mediante o testemunho, a pregação e o compromisso missionário.

Somos chamados a testemunhar com coragem o Evangelho perante o mundo, levando a esperança aos necessitados, aos que sofrem, aos abandonados, aos desesperados, a todos os que têm sede de verdade e de paz. Fazendo o bem a todos, e sendo solícitos pelo bem comum, estarão eles testemunhando que Deus é amor.

Como eles, também nós, aceitando o convite dos “dois homens em trajes resplandecentes”, não devemos permanecer com os olhos fixos no céu, mas, sob a guia do Espírito Santo, temos que ir a toda a parte e proclamar o anúncio da morte e ressurreição de Cristo. A sua própria palavra constitui um conforto para todos nós: “Eu estarei sempre convosco, até o fim do mundo” (Mt 28,20).

Em cada Eucaristia que celebramos é Cristo que se dá a nós, nos edificando com o seu corpo. Os discípulos de Emaús reconheceram o Cristo na partilha do pão e voltaram apressadamente a Jerusalém a fim de partilhar a alegria com os irmãos na fé. Com efeito, a verdadeira alegria é reconhecer que o Senhor permanece no nosso meio, companheiro do nosso caminho. A Eucaristia nos faz descobrir que Cristo, morto e ressuscitado, se manifesta como nosso contemporâneo e caminha com cada um de nós.

A solenidade da Ascensão do Senhor também nos exorta a consolidar a nossa fé na presença real de Jesus na história; sem Ele, nada podemos realizar de eficaz na nossa vida e no nosso apostolado. Como recorda o Apóstolo São Paulo na segunda leitura, pois a nossa vocação na Igreja é também a de formar “um só corpo e um só Espírito, como existe uma só esperança no chamamento que recebestes” (Ef 4, 4).

Esta solenidade nos faz lembrar também que Jesus completa seu itinerário: “Saí do pai e vim ao mundo: outra vez deixo o mundo e volto para o Pai. Subo para meu Pai e vosso pai, disse também Jesus a Maria Madalena no mesmo dia de sua ressurreição” (Jo 16,28; 20,17).

Chama a nossa atenção este último gesto dos discípulos de Jesus: “Eles o adoraram”. Que saibamos também nós reconhecer o senhorio de Cristo e que saibamos dedicar a ele, em oração, um pouco do nosso tempo. Com a Ascensão do Senhor, podemos afirmar que em Cristo a nossa humanidade é levada à altura de Deus; assim, todas as vezes que rezamos, a terra se une ao Céu. E assim como o incenso queimado faz subir para o alto o seu fumo, também quando elevamos ao Senhor a nossa oração confiante em Cristo, ela atravessa o céu e alcança o próprio Deus e é por Ele ouvida e atendida.

Supliquemos por fim a Virgem Maria, para que nos ajude a contemplar os bens celestes e a sermos autênticas testemunhas da Ressurreição do seu filho Jesus, que é o caminho, a verdade e a Vida. Amém.
D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ