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XIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – SEGUE-ME

Lc 9,51-62

Caros irmãos e irmãs,

As leituras bíblicas da santa Missa deste domingo ressaltam o tema da vocação de seguir o Cristo e as suas exigências. O Evangelho mostra Jesus a caminhar para Jerusalém, que é a meta final onde Jesus, na sua Páscoa derradeira, deve morrer e ressuscitar, elevar a cumprimento a sua missão de salvação. Ao longo desse caminho Jesus vai mostrando aos discípulos os valores do Reino de Deus. Todo este percurso que aqui se inicia converge para a cruz. Os discípulos também são exortados a seguir este “caminho”, para se identificarem plenamente com Jesus.

Se Jesus parece exigente para com aqueles que O querem seguir, é porque Ele mesmo é exigente quanto à sua própria caminhada. É caminhando que Jesus convida a colocarmos a segui-lo. Então, aqueles que o seguirem poderão dizer como Paulo: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4,7).

Ao longo do seu caminho até Jerusalém, Jesus encontra alguns homens, provavelmente jovens, os quais prometem segui-lo onde quer que ele vá. Ele os admoesta dizendo que “o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”, ou seja, não tem uma habitação estável e que quem escolhe trabalhar com Ele na sua vinha , jamais poderá arrepender-se (cf. Lc 9,57-58.61-62). A outro jovem o próprio Cristo diz: “Segue-me”, pedindo-lhe um desapego total dos vínculos familiares (cf. Lc 9, 59-60). Estas exigências podem parecer demasiado severas, mas na realidade expressam a novidade e a prioridade absoluta do Reino de Deus que se torna presente na própria pessoa de Jesus Cristo. Em última análise, trata-se daquela radicalidade que é devida ao amor de Deus, ao qual Jesus é o primeiro a obedecer. Quem renuncia a tudo, até a si mesmo, para seguir Jesus, entra numa nova dimensão da liberdade, pois está a serviço uns dos outros (cf. Gl 5,16).

Jesus chamou muitos para segui-lo. Podemos lembrar de Pedro e dos demais apóstolos. Podemos lembrar mais precisamente do evangelista e também apóstolo São Mateus (cf. Mt 9,9). Antes que Jesus o chamasse, ele desempenhava a profissão de publicano e, por isso, era considerado pecador público, excluído da “vinha do Senhor”. Mas, tudo muda quando Jesus, passando ao lado da sua mesa de impostos, fixa nele o seu olhar e diz: “Segue-me!” Foi precisamente isto que o evangelista São Mateus fez: Levantou-se e seguiu-o.

Também São Paulo experimentou a alegria de ser chamado pelo Senhor para trabalhar na sua vinha. Mas como ele mesmo confessa, foi a graça de Deus que agiu nele, aquela graça que, de perseguidor da Igreja, o transformou em Apóstolo das nações. A ponto de o levar a dizer: “Para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fl 1,21). Paulo compreendeu bem que trabalhar para o Senhor já é, nesta terra, uma recompensa.

A proposta que Jesus faz às pessoas ao dizer-lhes “Segue-me!” (v. 59), é exigente e exaltante. São elas convidadas a entrar no âmbito da sua amizade, a escutar de perto a sua Palavra e a viver com Ele; ensina-lhes a dedicação total a Deus e à propagação do seu Reino, segundo a lei do Evangelho: “Se o grão de trigo cair na terra e não morrer, fica só ele; mas, se morrer, dá muito fruto” (Jo 12, 24)

No encontro de Jesus com o jovem rico (cf. Mc 10, 17-22), na narração evangélica de São Marcos sublinha como “Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele” (Mc 10, 21). No olhar do Senhor, está o coração deste encontro e de toda a experiência cristã.

Jesus convida o jovem rico a ir mais além da satisfação das suas aspirações e dos seus projetos pessoais, dizendo-lhe: “Vem e segue-me!” (Mt 19,21). Ao jovem rico Jesus ainda diz: “Vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres… depois vem e segue-me” (Mt 19,21). Estas palavras inspiraram numerosos Cristãos ao longo da história da Igreja para seguir Cristo numa vida de pobreza radical, confiando na Providência Divina. Entre estes generosos discípulos de Cristo encontrava-se também São Bento, São Francisco de Assis e tantos outros que, sem hesitações, responderam o chamado do divino Mestre.

A vocação cristã deriva de uma proposta de amor do Senhor e só pode realizar-se graças a uma resposta de amor. Jesus convida os seus discípulos a segui-lo com uma confiança sem reservas em Deus. Os santos acolheram este convite exigente e, com humilde docilidade, põe-se a seguir Cristo crucificado e ressuscitado. A sua perfeição na lógica da fé, às vezes humanamente incompreensível, consiste em viver segundo o Evangelho.

Como de fato, muitos são aqueles que deixam a família de origem, os estudos, o trabalho, os seus bens, para se consagrar a Deus, como resposta radical à vocação divina. Para seguir Jesus Cristo é preciso estar livre de todas as ataduras, pois quem olha para trás, não está apto para o Reino de Deus (cf. Lc 9,62). Só vivemos a verdadeira liberdade se sairmos de nós mesmos, se desapegarmos de nós mesmos, para nos colocarmos a caminho com o Senhor e cumprirmos a sua vontade.

A exemplo de muitos discípulos de Cristo, possamos também nós acolher com alegria o convite a seguir Jesus, para vivermos intensa e fecundamente neste mundo. Com efeito, mediante o batismo, Ele chama cada um a segui-lo com ações concretas, a amá-lo sobre todas as coisas e a servi-lo nos irmãos. Infelizmente, o jovem rico não acolheu o convite de Jesus e retirou-se pesaroso. Não encontrara coragem para se desapegar dos bens materiais a fim de possuir o bem maior proposto por Jesus.

Jesus nunca se cansa de estender o seu olhar de amor sobre nós, chamando-nos a ser seus discípulos; a alguns, porém, Ele propõe uma opção mais radical. Possamos estar sempre disponíveis para acolher com generosidade e entusiasmo este sinal de predileção especial. Ele sabe dar alegria profunda a quem responde com coragem.

Também hoje, o seguimento de Cristo é exigente; significa aprender a ter o olhar fixo em Jesus, a conhecê-lo intimamente, a escutá-lo na Palavra e a encontrá-lo nos Sacramentos; significa aprender a conformar a nossa própria vontade à dele.

Deus serve-se de nós segundo o seu plano de amor, segundo a modalidade que Ele estabelece e pede-nos para favorecer a ação do Espírito; devemos ser os bons colaboradores do Senhor, para a eficácia realização do seu Reino.

Possamos ser atraídos pelos exemplos luminosos dos Santos que souberam dar ao mundo um testemunho do Senhor. São eles os protagonistas do amor e do bem, exemplos vivos de esperança e testemunhas de um amor que nada teme, nem sequer a morte.

Que Maria, a Mãe de Deus e nossa, que correspondeu sem reservas o chamado do Senhor, nos ajude a sermos capazes de ouvir a voz de Deus e de a seguir com determinação e decisão o caminho da santidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento-RJ

V DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA C – UM NOVO MANDAMENTO

Jo 13, 31-35

Caros irmãos e irmãs,

No evangelho deste domingo temos as palavras pronunciadas por Jesus aos seus discípulos, depois de lhes ter lavado os pés, na última ceia, imediatamente antes da sua Paixão: “Filhinhos… Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34-35). Jesus sabe que lhe restam poucas horas de vida e sente a necessidade de deixar algumas instruções com um típico sabor testamentário. Inicia com a expressão “Filhinhos” (v. 33), fazendo lembrar um pai a transmitir aos seus filhos o que é essencial e verdadeiramente fundamental. Assim como os filhos consideram sagradas as palavras que o pai lhes diz no leito, antes da morte, também Jesus quer que os seus discípulos não esqueçam jamais as suas palavras.

Jesus fala em um “novo mandamento”. A expressão “novo”, utilizada por Jesus, não significa que até então era este mandamento desconhecido. O próprio Jesus tinha recordado que amar a Deus e ao próximo era o mandamento maior da Lei antiga (cf. Mc 12,28-31). A novidade deste novo mandamento é que não se trata do antigo e conhecido mandamento que ordenava “amar ao próximo como a si mesmo” (Lv 19,18). O “novo” deste mandamento consiste, exatamente, no “como eu vos amei”. Nem a palavra amar, nem o mandamento do amor são novos. Novo é amar como Jesus, amar em Jesus, por causa de sua palavra impressa em cada página do evangelho.

O Senhor indica que devemos amar como Ele nos amou. Ele amou a todos sem exceção, justos e pecadores. Na cruz, perdoou até os que o haviam condenado injustamente e rezou por eles: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34).

O verbo “agapaô” – traduzido do grego como amar, utilizado no texto, define, o amor como sinal de manifestação pelo outro até ao extremo, o amor que não guarda nada para si, mas é entrega total e absoluta. O ponto de referência desse amor é o próprio Jesus, como prescreve o complemento da frase: “como eu vos tenho amado”. Amar consiste em acolher, em pôr-se ao serviço dos outros, em dar-lhes dignidade e liberdade pelo amor, e isso sem limites. Jesus é a norma, agora traduzida em palavras, o que ele mesmo manifestou com seus atos, para que os seus discípulos tenham uma referência. O amor, igual ao de Jesus, que os discípulos devem manifestar entre si, será visível para todos (v. 35). Trata-se de um amor universal, capaz de transformar todas as circunstâncias negativas e todos os obstáculos em ocasiões para progredir ainda mais neste amor.

O estilo divino desse amor de Cristo deve ser o modelo do nosso amor. De tal sorte que nossa presença junto aos irmãos seja uma sombra da presença do próprio Cristo. Um amor que presta em favor dos irmãos, os mais humildes serviços. Cristo se identifica com o outro, especialmente com os mais necessitados. É uma verdade que, mediante a fé, podemos ver o Cristo na pessoa do outro, pois será a partir deste amor a base do nosso julgamento final, pois ele mesmo disse: “Tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber…”. E completa: “Todas as vezes que o deixastes de fazer a um destes pequeninos, foi a mim eu o deixastes de fazer” (Mt 25,40-45).

Além de proclamar o mandamento do amor, Jesus deixou esta norma como sinal distintivo para os seus seguidores: “Nisso conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (v. 35). Por vontade expressa de Cristo é o amor o sinal de identificação de seus discípulos. O sinal que de agora em diante distinguirá seus discípulos deverá ser o amor mútuo. Como já nos diz o Evangelista São João: “Se alguém diz: Eu amo a Deus e odeia a seu irmão é mentiroso. Pois, quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? E dele temos este mandamento: Quem ama a Deus, ame também o seu irmão” (1Jo 4,20s). E ainda frisa: “Sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte” (1Jo 3,14).

Diante destas exigências apresentadas pelo evangelho, e lançando um olhar para cada um de nós, percebemos que somos fracos e limitados. Existe sempre em nós uma resistência ao amor e na nossa existência há muitas dificuldades que provocam divisões, ressentimentos e rancores. Mas não podemos perder a esperança. O Senhor prometeu estar presente na nossa vida, nos tornando capazes deste amor generoso e total, que sabe superar todos os obstáculos. Se estivermos unidos a Cristo, poderemos amar verdadeiramente deste modo que Ele quer. Amar os outros como Jesus nos amou só é possível com aquela força que nos é comunicada na relação com Ele, especialmente na Eucaristia, na qual se torna presente de maneira real o seu Sacrifício de amor que gera amor.

A prática do amor mútuo é a expressão da fé em Jesus. O verdadeiro discípulo distingue-se pelo amor. A capacidade de amar-se mutuamente indica o quanto Jesus está agindo na vida do cristão. A presença salvadora de Jesus tem o efeito de desatar o nó do egoísmo, que afasta os indivíduos de seus semelhantes e, por consequência, de Deus também.

Em sua carta aos coríntios São Paulo ressalta que o amor é superior a todos os dons extraordinários. O amor é maior do que o dom de língua. O amor é maior do que o dom de profecia e conhecimento. O amor é maior do que o dom de milagres. Sem amor, até as melhores obras de caridade ficam isentas de valor (cf. 1Cor 13,1-3). O amor é melhor por causa da sua excelência intrínseca e também por causa da sua perpetuidade.

São Paulo define o amor como paciente e benigno, ou seja, o amor tem uma infinita capacidade de suportar e ter paciência com as pessoas, no sentido de reagir com bondade perante aqueles que o maltratam. São Paulo ainda explica que o amor não é ciumento, ufanoso e ensoberbecido. Não se conduz inconvenientemente, não procura os seus próprios interesses e não se ressente com o mal. O amor não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade. E, por fim, diz São Paulo que o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta (cf. 1Cor 13,4-7). E ainda segundo São Paulo, dentre as virtudes teologias: fé, esperança e caridade, a maior de todas é a caridade, ou seja, o amor (cf. 1Cor 13,13). Os textos sagrados nos mostram como o amor ao próximo deve ser a bússola da nossa vida. Esse ensinamento deve ser aplicado às circunstâncias em que nos encontramos habitualmente.

Podemos correr o risco de alegrarmos com o fracasso dos nossos inimigos. Há um mal intrínseco em nós mesmos. Podemos sentir um falso alívio quando vemos os nossos adversários fracassando e caindo, mas isto não é amor. O amor, além de perdoar, esquece e não mantém um registro do que foi dito e feito contra nós. A ausência de amor faz com que o cristão perca o seu significado diante de Deus.

Possamos hoje questionar a nós mesmos: “Estou vivendo e compartilhando este amor que Jesus pede? Estou testemunhando a todos, com gestos concretos, o amor de Deus?” Saibamos haurir diariamente da relação de amor com Deus pela oração, a força para transmitir o anúncio profético de salvação a todas as pessoas com as quais convivemos.

O verdadeiro remédio para as feridas da humanidade, quer materiais, como a fome e as injustiças, quer psicológicas e morais, causadas por um falso bem-estar, é uma regra de vida baseada no amor fraterno, que tem a sua fonte no amor de Deus. Por isso, é preciso abandonar o caminho do erro, da arrogância e da violência utilizada, para obter posições de poder sempre maiores.

Peçamos ao Senhor o auxílio necessário para colocarmos em prática este mandamento novo do amor que Ele nos ordena a praticar. E nos faça abrir de par em par as portas do nosso coração para perdoar e amar verdadeiramente todos os nossos irmãos. Interceda por nós também a Virgem de Nazaré, para que possamos aprender de Jesus a verdadeira humildade e, imbuídos do amor, possamos difundir para todas as pessoas os seus frutos de alegria de paz. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

 

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