V DOMINGO DA QUARESMA – ANO C – A MULHER ADÚLTERA

Jo 8, 1-11

Caros irmãos e irmãs,

Chegamos ao quinto domingo da quaresma e a Liturgia da Palavra nos propõe, para a nossa reflexão, o episódio evangélico de Jesus que salva uma mulher adúltera da condenação à morte (Jo 8,1-11). O texto nos apresenta uma disputa entre Jesus e os escribas e fariseus, a propósito de uma mulher surpreendida em adultério flagrante. Segundo a prescrição contida na Lei de Moisés (cf. Lv 20,10 e Dt 22,22-24), são condenados à lapidação o homem e a mulher em adultério. A Lei deve ser aplicada? É este o problema apresentado a Jesus. Para os escribas e fariseus, trata-se de uma oportunidade para testar a ortodoxia de Jesus e a sua fidelidade às exigências da Lei.
Inicialmente Jesus é chamado pelos fariseus de “mestre” e lhe interrogam se é justo lapidar a mulher surpreendida em adultério. Eles conhecem a sua misericórdia e o seu amor pelos pecadores, e estão curiosos para ver como reagirá num caso como este, que segundo a Lei mosaica não deixava espaço a dúvidas. E se alguém falasse contra as prescrições da Lei, seria considerado injusto. Caso Jesus manifestasse a sua concordância com a Lei, colocava em contraste a sua bondade e a sua misericórdia; e se decidisse por conceder liberdade à mulher, não estaria cumprindo as prescrições da Lei.
Diante da questão apresentada, Jesus parece silenciar e põe-se a escrever no chão palavras misteriosas, que o evangelista não revela, mas pode nos fazer interpretar a respeito da fragilidade desse julgamento, pois o que se escreve na poeira da terra, será apagado pelo vento ou quando animais ou homens caminharem sobre as letras então desenhadas. Com isto, Jesus pode querer mostrar o frágil valor do julgamento realizado pelos escribas e fariseus, contudo, após algum tempo escrevendo na terra, pronuncia a frase que se tornou famosa: “Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe lançar uma pedra” (Jo 8, 7). Com o seu silêncio, Jesus parece também convidar cada um a refletir sobre si próprio. Por um lado, convida a mulher a reconhecer a culpa cometida; por outro, convida os seus acusadores a não se subtraírem ao exame de consciência. Com estas palavras Jesus fez os acusadores da mulher a entrarem em si mesmos e, refletir sobre si próprios. Foram eles atingidos por estas palavras e, por isto, um a um se retiraram.
A cena é cheia de dramaticidade: das palavras de Jesus depende a vida daquela mulher, mas também a sua própria vida. De fato, os acusadores fingem confiar a ele o julgamento, enquanto na realidade é precisamente a ele a quem querem acusar e julgar. Jesus sabe o que está no coração de cada homem, deseja condenar o pecado, mas salvar o pecador. O pecado não é um caminho aceitável, pois gera infelicidade e rouba a paz. Enquanto os acusadores o interrogam com insistência, Jesus inclina-se e põe-se a escrever com o dedo no chão. Observa Santo Agostinho que aquele gesto mostra Cristo como o legislador divino: de fato, Deus escreveu a lei com o seu dedo nas tábuas de pedra (cf. S. AGOSTINHO, Comentário ao Evangelho de João, 33,5). Portanto Jesus é o Legislador, é a Justiça em pessoa.
Quando os acusadores “foram saindo um por um, a começar pelos mais velhos” (v. 9), Jesus absolve a mulher do seu pecado e a introduz numa vida nova, orientada para o bem e diz à mulher: “Nem eu te condeno; vai e doravante não tornes a pecar” (v. 11). Deus deseja para nós apenas o bem e a vida. Ele provê a saúde da nossa alma por meio dos seus ministros, libertando-nos do mal com o Sacramento da Confissão, para que ninguém se perca, mas todos tenham a ocasião de se converter. Quando os escribas e fariseus se retiraram, Jesus nem sequer pergunta à mulher se ela está ou não arrependida, mas a convida a seguir um caminho novo, um caminho de luz, na confiança de libertar-se do erro e do pecado, a partir do amor e do perdão oferecido por Deus.
Podemos observar que Jesus não rejeita a Lei, pede somente aos escribas e fariseus para ter um olhar sobre a própria vida antes de olhar a mulher e a condenar. Os detratores acabam por se condenar a si mesmos e se retiram, reconhecem que são pecadores, a começar pelos mais velhos… E à mulher pede para não voltar a pecar, dá a ela uma nova oportunidade.
Este fato pode se apresentar em inúmeras situações análogas em todas as épocas da história. Uma mulher é deixada sozinha, é exposta diante da opinião pública com “o seu pecado”, enquanto por detrás deste “seu” pecado se esconde um homem como pecador, culpado pelo “pecado do outro”, ou seja, co-responsável por este mesmo pecado. Às vezes ele passa a ser até acusador, como no caso descrito, esquecido do próprio pecado. Quantas vezes, de modo semelhante, só a mulher parece levar a maior culpa pelo erro. No caso da mulher adúltera, observa-se que ela foi abandonada e entregue à morte. Onde estava o homem com quem ela praticou o adultério? A Lei prescrevia apedrejar os adúlteros, então ele deveria também estar ali.
Lancemos um olhar para o momento da criação, quando Deus criou o homem e a mulher. A mulher foi confiada ao homem com a sua diversidade feminina, e também com a sua potencial maternidade. Também o homem foi confiado pelo Criador à mulher. Foram reciprocamente confiados um ao outro como pessoas feitas à imagem e semelhança do próprio Deus. Nesse ato de confiança está a medida do amor, do amor esponsal: para tornar-se “um dom sincero” um para o outro. Após o pecado original, forças opostas operam no homem e na mulher. O sexto mandamento da Lei de Deus nos diz: “Não cometerás adultério” (Ex 20, l4). E o próprio Cristo ainda completa no Sermão da montanha: “Todo aquele que olhar para uma mulher com mau desejo, já cometeu adultério com ela no seu coração” (Mt 5,28). Estas palavras, dirigidas diretamente ao homem, mostram a verdade fundamental da sua responsabilidade em relação à mulher: pela sua dignidade, pela sua maternidade, pela sua vocação. Por isso, cada homem deve olhar para dentro de si e ver se aquela que lhe é confiada na mesma humanidade, como esposa, não se tenha tornado objeto de adultério no seu coração; por isto a mulher não pode ser tomada como objeto de prazer, de exploração por parte do homem (cf. S. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica “Mulieris Dignitatem”, n. 13).
E podemos lembrar que no momento da criação, disse o Senhor: “O homem deixará o seu pai e a sua mãe para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne” (Gn 2,24). Desta união procedem todas as gerações humanas. O adultério designa a infidelidade conjugal. Os profetas, no Antigo Testamento, já denunciavam a sua gravidade e viam no adultério um grave pecado, uma vez que quem o comete, falta aos seus compromissos, viola o vínculo matrimonial, lesa o direito do outro cônjuge e atenta contra a instituição do matrimônio. Compromete o bem da geração humana e dos filhos que têm necessidade da união estável dos pais (cf. CIgC, nº 2381).
Meus irmãos e irmãs, o Evangelho de hoje nos faz ainda compreender que o nosso verdadeiro inimigo é o apego ao pecado, que pode levar-nos ao fracasso da nossa existência. Jesus despede-se da mulher adúltera com esta exortação: “Vai, e doravante não tornes a pecar”. O episódio põe em relevo, por outro lado, a intransigência e a hipocrisia do homem, sempre disposto a julgar e a condenar os outros.
Aprendamos com o Senhor Jesus a não julgar e a não condenar o nosso próximo. Como Cristo, sejamos também nós dispostos a perdoar, imitando os seus gestos e as suas atitudes. Se é verdade que Deus é justiça, não podemos esquecer que ele é sobretudo amor. Se ele odeia o pecado, é porque ama infinitamente cada pessoa humana. Ama cada um de nós, e a sua fidelidade é tão profunda que não se deixa desanimar nem sequer pela nossa rejeição.
E neste caminho quaresmal que estamos a percorrer e que se aproxima rapidamente da sua conclusão, sejamos acompanhados pela certeza de que Deus nunca nos abandona, e que o seu amor é nascente de alegria e de paz; é força que nos impele poderosamente ao longo do itinerário que percorremos rumo à perfeição.
Não paremos e nem abrandemos os nossos passos em direção à santidade de vida. Pelo contrário, orientemo-nos com todas as forças em direção à meta para a qual Deus nos chama. Peçamos a Nossa Senhora que nos ajude a abrir o nosso coração ao arrependimento de nossas faltas e que ela interceda sempre por nós, agora e na hora do nosso encontro definitivo com Cristo. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

 

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IV DOMINGO DA QUARESMA – ANO C – A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO

Lc 15,1-3.11-32

Caros irmãos e irmãs,

Em cada Celebração Eucarística, é o próprio Cristo que se faz presente no meio de nós, a nos iluminar com o seu ensinamento na Liturgia da Palavra e a nos alimentar com o seu Corpo e o seu Sangue na Liturgia Eucarística e na Comunhão. É Ele que nos ensina o caminho do acolhimento, do amor e do perdão. Neste tempo da quaresma a Igreja nos exorta a percorrer este itinerário e, para isto, o próprio Cristo nos mostra o caminho da conversão e da vida nova ao nos apresentar para a nossa reflexão a Parábola do Filho Pródigo, que é a leitura evangélica deste domingo.

O ponto de partida para a narração da Parábola é a murmuração dos fariseus e dos escribas, diante da cena onde publicanos e pecadores escutam Jesus: “Este homem acolhe os pecadores e come com eles” (v. 2), comentam. O acolhimento dos publicanos e pecadores por parte de Jesus é algo de escandaloso na perspectiva dos fariseus; comer com eles, estabelecer laços de familiaridade e de irmandade é algo abominável. Na perspectiva da teologia da época, os pecadores não podiam aproximar-se de Deus. É neste contexto que Jesus apresenta a Parábola do filho pródigo, na qual encontramos três personagens de referência: o pai, o filho mais novo e o filho mais velho.

O pai, na parábola, é aquele que sabe conjugar o respeito pelas decisões e pela liberdade dos filhos, com um amor gratuito e sem limites. Esse amor manifesta-se na emoção com que abraça o filho que volta, mesmo sem saber se esse filho mudou a sua atitude de orgulho e de auto-suficiência. Trata-se de um amor que permaneceu inalterado, apesar da rebeldia, da ausência e da infidelidade do filho. O amor do pai aparece representado no anel, símbolo da autoridade e do poder (cf. Gn 41,42; Est 3,10; 8,2) e nas sandálias, calçado do homem livre (cf. Gl 5,1).

O filho exige do pai tudo aquilo a que tem direito. A lei judaica prescrevia que o filho mais novo recebesse apenas um terço da fortuna do pai (cf. Dt 21,15-17); mas, ainda que a divisão das propriedades pudesse fazer-se em vida do pai, os filhos não podiam tomar posse de seus bens, senão depois da morte do pai (cf. Eclo 33,20-24). O filho mais novo abandona a casa e o amor do pai e dissipa os bens colocados à sua disposição. É uma imagem de egoísmo, de orgulho e irresponsabilidade. Após gastar tudo o que possuía, aquele que se tornara totalmente livre, torna-se agora escravo: guardador de porcos. Para os judeus o porco é um animal impuro, pois servir aos porcos era sinal de extrema alienação e de extrema miséria. O filho mais novo tornou-se um escravo miserável. Sem direito até mesmo de saciar a fome com o alimento oferecido aos porcos. Neste momento ele então percebe que está perdido. Percebe que o seu nível de vida é inferior a dos porcos. Sente um tédio e um vazio inquietador, de uma vida sem sentido e da qual ele só vê um iminente morrer de fome.

O filho mais novo ao partir para um país distante geograficamente, desejava uma mudança não só exterior, mas também interior, pois queria uma vida totalmente diversa. Seu desejo era viver a liberdade, fazer tudo o que desejava e ignorar as normas do pai que ficara distante. Passa a perceber que era muito mais livre quando estava na casa do seu pai, pois era também ele proprietário e contribuía para a edificação do lar. Ao “cair em si” inicia uma reflexão interior que o faz almejar um novo projeto de vida. A decisão pela concretização deste objetivo o leva a uma ação exterior: ele se levanta e direciona os seus passos para um encontro com o pai, com um propósito de recomeçar a sua vida, porque já compreendeu que o caminho por ele percorrido era o caminho errado. Ele quer começar de novo e sabe que perdeu o direito de ser filho e, por isto, está disposto a ser um dos empregados, pois, para ele o mais importante agora é estar na casa do pai, não importa como.

E é neste momento que ele “entra em si mesmo” (cf. v.17). Podemos dizer que longe da casa do pai, em uma terra distante ele se afastou até de si mesmo. Ele vivia longe da verdade de sua existência. A sua mudança, a sua conversão, consiste em que ele reconhece que outrora partiu de si e agora ele regressa a si mesmo. E é em si mesmo que ele encontra a indicação de um novo caminho: o caminho da casa do Pai. As palavras que ele preparou para o seu regresso: “Pai, pequei contra o céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado teu filho…” (Lc 15,18), nos permitem reconhecer a peregrinação interior que ele então realiza.

E ao chegar à casa recebe do pai o abraço e o beijo, sinal de reconciliação e perdão. É oferecida uma festa e então ele percebe que a vida pode começar de novo. Ele regressa à casa paterna interiormente maduro e purificado: compreendeu o que é viver. Mesmo diante de possíveis tentações futuras, estará ele plenamente consciente de que uma vida longe da casa do Pai não funciona: falta o essencial, falta a luz, falta o sentido da vida.

Não podemos esquecer o início do Evangelho, quando a narrativa nos faz lembrar que Jesus aproximava-se dos publicanos e dos pecadores, chegando mesmo a fazer-se convidar por eles, o que o tornava impuro, aos olhos daqueles que se sentiam puros. Na Parábola, ao abraçar o filho que julgava perdido, cobrindo-o de beijos, o pai também se torna impuro, também pelo próprio ato de “tocar” este filho que regressava, depois de uma vida desordenada. Como os fariseus e os escribas, o filho mais velho se recusa a entrar em comunhão com um pecador, por se julgar puro e não podia se unir aos impuros.

O filho mais velho, cumpridor de todas as regras, sempre observou o que o pai mandou. Nunca pensou em deixar o espaço cômodo e acolhedor da casa do pai. No entanto, a sua lógica é a lógica da “justiça” e não a lógica do amor e da misericórdia. Ele acha que tem créditos superiores aos do irmão e não compreende nem aceita que o pai queira exercer a misericórdia para com o filho rebelde. Semelhante à imagem dos fariseus e escribas que interpelaram Jesus porque cumpriam rigorosamente as exigências da Lei, desprezavam os pecadores e achavam que essa devia ser também a lógica de Deus. Eles desconheciam o Deus misericordioso que acolhe o pecador e se alegra com o seu regresso.

Nesta parábola conhecemos a identidade de Deus: Deus é amor (cf. 1Jo 4,16). Ele é o Pai misericordioso que em Jesus nos ama e nos perdoa. Os erros que cometemos, mesmo se grandes, não prejudicam a fidelidade do seu amor. Ele nos acolhe e nos restitui a dignidade de filhos. Com isto podemos redescobrir o Sacramento da Penitência e do Perdão, que faz brotar a alegria num coração renascido para a verdadeira vida.

Mas a grande beleza deste texto se esconde na palavra grega “splanchnizomai”, normalmente traduzido para o português como: “movido de compaixão”. Trata-se, na realidade, de um movimento visceral, como que de parto. O filho “que estava morto e voltou à vida” (v. 24), renasce no abraço misericordioso do Pai. Por isso o pai exclama: “É preciso fazer festa e alegrar-se” (v. 24).

Assim como o Filho Pródigo, hoje nós também somos convidados a percorrer um caminho interior, lançar um olhar para nós mesmos, para que possamos direcionar os nossos pensamentos e os nossos atos para a conversão que, antes de ser um esforço para mudar o nosso comportamento, é uma oportunidade para recomeçar, ou seja, abandonar o pecado e escolher voltar para Deus, para a casa do Pai.

A verdadeira miséria do filho mais novo é de não ter ninguém atento a ele, que o olhe. Para os seres humanos, o olhar é vital. O filho sente a falta de um olhar de amor, sente fome de amor. Jesus quer mudar esta situação, renovando relações em que o amor possa circular de novo. Jesus lança o seu olhar de amor também sobre cada um de nós. Um olhar que é fonte de vida! Um olhar do qual não podemos fugir!

A segunda parte da parábola deste domingo é uma crítica à conduta do filho mais velho, mas também uma crítica da nossa própria conduta. Se estamos a serviço de Deus sem nunca ter desobedecido às suas leis, podemos correr o risco de faltar em nós o amor e a misericórdia. Com esta parábola é Deus que por meio de Cristo fala conosco.

Possamos também nós um dia receber este abraço do Pai a nos acolher em sua casa, participando do banquete que Ele nos preparou, em plena união com Ele e com os nossos irmãos. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

III DOMINGO DA QUARESMA – ANO C – A PARÁBOLA DA FIGUEIRA ESTÉRIL

Lc 13,1-9

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia deste terceiro domingo de Quaresma traz novamente à nossa reflexão o tema da conversão e nos convida a reconhecer o mistério de Deus, que se torna presente na nossa vida, como ressalta na primeira leitura tirada do Livro do Êxodo e nos mostra Moisés, que, enquanto apascentava o rebanho, vê uma sarça em chamas, mas que não se consome. Aproxima-se para observar este prodígio, quando uma voz pronuncia o seu nome e o convida a tomar consciência da sua indignidade. Esta mesma voz lhe ordena a tirar as sandálias, porque o lugar é santo. E Deus revela a Moisés o seu próprio nome, ao dizer: “Eu sou aquele que sou!” (Ex 3,14), para que ele o comunique ao povo de Israel. Há algum tempo atraz esta expressão “Eu sou aquele que sou!” foi entendida em sentido filosófico: eu sou aquele que existe, isto é, o Ser absoluto, o único que existe por si mesmo. Atualmente os estudiosos da Sagrada Escritura descobriram algo que muda esse significado: o verbo “ser”, que deve ser entendido aqui no sentido de “estar presente”, ou seja, “eu existo para ti”. Deus é aquele que existe para a humanidade e para que todos possam sentir a sua presença a sua proximidade. É o anúncio do que Deus tornará um dia: o Emanuel, isto é, o Deus conosco.

No encontro com Moisés Deus também se revela como “o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó” (Ex 3,15). Ele é o Deus dos nossos pais, mas é também um Deus pessoal. É alguém que mantém relacionamentos de pessoa para pessoa, de geração a geração e continua na história a manter este mesmo relacionamento. É ele presente também no meio de nós, sensível aos gritos de quem sofre.

E agora, voltando o nosso olhar para a página do Evangelho prescrita para este domingo, encontramos dois acontecimentos históricos: um crime cometido por Pilatos e o desabamento de uma torre ao lado da piscina de Siloé. Dois fatos trágicos bem diversos: um provocado pelo homem e o outro acidental. Segundo a mentalidade da época, pensava-se que uma desgraça com vítimas era sinal de uma culpa pessoal grave. Mas Jesus diz: “E aqueles dezoito que morreram, quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? Eu vos digo que não” (v. 4). E para ambos os casos conclui: “Mas, se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo” (v. 5). Com estas exortações, Jesus faz aos seus ouvintes um apelo à conversão. Essas pessoas não Foram punidas por causa dos seus pecados: foram vítimas de uma fatalidade. Mas este acontecimento pode ser interpretado como um apelo à conversão, que consiste na mudança no nosso modo de agir e de pensar.

Na segunda parte do Evangelho, referindo-se a um costume do seu tempo, Jesus apresenta a parábola de uma figueira plantada numa vinha. Esta figueira, contudo, é estéril, não dá frutos (v. 6-9). O diálogo que se desenvolve entre o dono e o vinhateiro, manifesta, por um lado, a misericórdia de Deus, que é paciente e deixa ao homem, ou seja, a todos nós, um tempo para a conversão; e, por outro, a necessidade de iniciar imediatamente a mudança de vida, para não perder as ocasiões que a misericórdia de Deus nos oferece para superar a nossa preguiça espiritual e corresponder ao amor de Deus com o nosso amor filial.

O Senhor Jesus, mais uma vez, toma por base a figura de uma árvore. Numa linguagem simples define o destino dos que, plantados por Deus para darem frutos, não os produziram. A narrativa serviu de lição para o povo de Israel e hoje, serve de lição para cada um de nós que compomos o grupo dos discípulos do Senhor. Ele nos escolheu, a fim de produzirmos frutos para o engrandecimento do seu reino.

A Sagrada Escritura com frequência faz referência à figueira, que duas vezes ao ano, na primavera e no outono, produz saborosos frutos. Em tempos remotos ela simbolizava a prosperidade e a paz (cf. 1Rs 4,25; Is 36,16). No deserto os israelitas sonhavam com uma terra rica em nascentes de água, trigais e figueiras (cf. Dt 8,8). No nosso texto, encontramos uma figueira no meio da vinha (v. 6). A vinha é uma plantação de videiras, cultivadas para produzir uvas. No Antigo Testamento, quando Deus se referia ao estado desejado para o povo de Israel, prometia que cada um se assentaria debaixo de suas videiras e figueiras, em alusão a paz, segurança e prosperidade (1Rs 4,25; Mq 4,4; Zc 3,10).

A parábola nos diz que um homem tinha uma figueira em sua vinha, algo muito comum em Israel. Ela ocupava uma certa área do terreno que podia ter sido usada para as videiras. Cada ano a árvore permanecia estéril, o que significava prejuízo para o seu proprietário. Ela absorvia umidade e nutrientes que serviam para as videiras. A figueira era como uma dívida, que aumentava na medida em que se passavam os anos. Por causa da sua localização, deduzimos que a árvore tinha sido muito bem cuidada. Outra árvore ou videira poderia ter sido plantada ali e, dentro de alguns anos, produziria frutos.

O proprietário deu instruções ao homem que cuidava da vinha para que cortasse a figueira. Mas ele pediu ao dono que tivesse ainda um pouco mais de paciência. Queria dar mais um ano à árvore, durante o qual cavaria o solo ao seu redor e a adubaria. O Antigo Testamento tinha utilizado a figueira como símbolo de Israel (cf. Os 9,10), por isto uma figueira tinha um papel importante na vida de um israelita, representava prosperidade e abastança e era muito comum para cada israelita ter pelo menos uma figueira em sua casa.

Na parábola, o proprietário é geralmente considerado como o representante de Deus e o agricultor, o próprio Cristo Jesus, o enviado à casa de Israel, a fim de cuidar da figueira especial “no meio da vinha” (Mt 15,24). O Evangelho de São João, referindo-se a Jesus, nos diz: “Ele veio para o que era seu, mas os seus não o receberam” (Jo 1,11); e frisa o tempo que Jesus oferece aos seus ouvintes como uma última chance para o arrependimento. O período de tempo limitado mencionado faz uma referência à urgência da nossa conversão.

O homem deve frutificar no tempo, isto é, durante a vida terrena. Todavia este seu agir no tempo, não pode fazer-lhe esquecer da sua outra dimensão essencial: a de um ser orientado para a eternidade: portanto, o homem deve, simultaneamente, frutificar também para a eternidade, pois sem esta perspectiva, ele continuará a ser uma figueira estéril.

O dono da vinha tinha uma predileção especial pela figueira, estabelecida no meio da sua plantação de videiras. Isso significa a escolha de Israel, no meio das outras nações. Espiritualmente falando, para Deus, o centro da Terra é Jerusalém, é Israel. Deus esperava que ela frutificasse, mas se decepcionou: “Foi procurar nela fruto, não o achando, disse ao vinhateiro; Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira, e não o acho” (vv. 6.7). Este período, segundo intérpretes da Bíblia, refere-se aos três anos do ministério terreno de Jesus, durante o qual, Ele, o Messias, como bom vinhateiro, fez tudo o que pôde, a fim de que a nação escolhida desse bons frutos para Deus.

Diante da frustração, em face da não produção dos frutos esperados, o dono da vinha ordenou ao vinhateiro que cortasse a figueira estéril. Mas Jesus procedeu com muito cuidado e zelo. Tamanha é a sua misericórdia, mostrando-se tolerante com a fraqueza humana. Neste ponto, temos grandes lições espirituais a observar. Ele escolheu Israel como seu representante entre os povos, daí a localização da figueira: no meio da vinha. Em contrapartida, esperou que desse fruto, mas ocorreu o contrário. Os judeus rejeitaram o seu plano. Assim, se desejamos fazer parte da vinha do Senhor, precisamos dar frutos, para não sermos cortados.

O ensinamento da parábola é claro: daquele que ouviu a mensagem do Evangelho, Deus espera frutos saborosos e abundantes. E o tempo da quaresma é um tempo de graça, como um novo tempo precioso que é concedido para que a figueira, que representa cada um de nós, produza frutos. Deus hoje nos convida a fazer uma mudança em nossa própria existência, para que possamos viver segundo o Evangelho, corrigindo algo no nosso agir, porque ele quer o nosso bem, a nossa felicidade e a nossa salvação. Possamos responder com um sincero esforço interior

Peçamos a intercessão da Virgem Maria, para que ela possa nos acompanhar e nos amparar ao longo desse itinerário quaresmal, e para que ela interceda sempre por nós e nos ajude a redescobrir a grandeza de uma autêntica conversão. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

 

Veja também:

II DOMINGO DE QUARESMA – C: A TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS

Lc 9, 28b-36

Caros irmãos e irmãs,

Neste segundo domingo de Quaresma a liturgia da Palavra nos convida a meditar acerca das sugestivas narrações da Transfiguração de Jesus. No alto do Monte Tabor, na presença de Pedro, Tiago e João, testemunhas privilegiadas deste importante acontecimento, Jesus é revestido, também exteriormente, da glória de Filho de Deus que lhe pertence.

O quadro evangélico tem como fundo de cena o céu escuro ainda pela madrugada, quando Jesus se transfigurou diante dos olhos dos apóstolos. Seu rosto se tornou brilhante como o sol, e suas vestes ficaram alvas como a neve. Uma nuvem luminosa, sinal bíblico da presença de Deus, os envolveu. E apareceram Moisés e Elias, conversando com Jesus. Do meio da nuvem ouviu-se uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Eleito. Escutai-o”. A alegria de todos foi tão grande, que Pedro exclamou: “Senhor, é bom estarmos aqui, façamos três tendas, uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias” (Lc 9,33).

E como o apóstolo Pedro, podemos também dizer: “É bom estarmos aqui” (Lc 9,33). É bom estarmos juntos, reunidos ao altar do Senhor. É bom estarmos na Casa do Senhor para escutarmos a mensagem que o seu Filho nos traz através do seu Evangelho. Este é o convite que o próprio Deus nos faz: “Escutai o que Ele diz” (Lc 9,35). Devemos escutá-lo porque só ele pode nos conduzir à Vida. Só ele tem palavras de vida eterna (cf. Jo 6,68). Nós somos chamados a escutá-lo, mas também a fazer tudo o que ele nos disser (cf. Jo 2,5). Escutando a sua Palavra e praticando os seus ensinamentos seremos verdadeiramente discípulos de Cristo.

Neste domingo a primeira leitura nos apresenta a figura de Abraão, o modelo do crente que soube escutar a voz do Senhor. Diante do chamado do Senhor, ele deixou a própria terra, sustentado apenas pela fé e pela obediência ao seu Senhor. Com Abraão, também nós somos convidados a escutar e confiar nos desígnios de Deus. E nesta primeira Leitura temos a narração da aliança estabelecida por Deus com Abraão, que responde “esperando contra toda a esperança” (Rm 4,18); por este motivo, ele torna-se pai na fé de todos os crentes, porque acreditou no Senhor. Como Abraão, também nós queremos prosseguir o nosso caminho quaresmal, renunciando às nossas próprias vontades para estarmos em conformidade com a vontade divina.

Mas a transfiguração de Jesus não deixa de apontar também para a nossa própria transfiguração. Como nos exorta São Paulo: “O Senhor Jesus Cristo transformará o nosso corpo perecível, tornando-o conforme ao Seu corpo glorioso” (Fl 3, 21). Estas palavras do Apóstolo enfatizadas na segunda leitura deste domingo, nos recordam que a nossa pátria verdadeira está no céu e que Jesus transfigurará o nosso corpo mortal num corpo glorioso como o Seu. Como de fato, Jesus quis dar um sinal e uma profecia da sua Ressurreição gloriosa, da qual também nós somos chamados a participar.

O evangelista Lucas ressalta como este fato extraordinário se verifica precisamente num contexto de oração. Enquanto rezava, o rosto de Jesus mudou de aspecto (cf. Lc 9, 29). Jesus tinha o costume de subir ao monte para rezar (cf. Lc 6,12) e, normalmente, “à noite”, por lhe permitir estar a sós com o Senhor (cf. Mc 1,35; Lc 6, 12).

Por diversas vezes e sobretudo nos momentos mais urgentes e complexos, a oração de Jesus tornava-se mais prolongada e intensa. Na iminência da escolha dos doze Apóstolos, por exemplo, São Lucas sublinha a duração da oração preparatória de Jesus: “Naqueles dias, Jesus foi para o monte fazer a oração e passou toda a noite a orar a Deus. Quando nasceu o dia, convocou os seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de Apóstolos” (Lc 6, 12-13). Assim também deve ser a nossa oração, sinal da nossa amizade com Deus, a nossa intimidade com Ele. A oração deve ser entendida também como tempo para estar com o Senhor.

Sobressaem na oração três elementos: a fé em um Deus pessoal, vivo; a fé em sua presença efetiva; o diálogo entre o homem e Deus. Um diálogo pessoal, íntimo, profundo. Quem reza sabe que se encontra diante da Sabedoria Suprema, diante daquele que nos conhece. Assim, quem reza tem fé na presença ativa de Deus. É a fé viva da oração. Onde cessa a oração, cessa também a fé viva; e onde cessa a fé, cessa a oração. A oração é este diálogo, este colóquio com o Senhor.

E a exemplo de Cristo, que se colocava frequentemente em oração, sejamos também nós convidados a viver o itinerário quaresmal em espírito de oração e de penitência, a fim de nos preparar desde agora para receber a luz divina que resplandecerá na Páscoa.

Estamos no tempo da Quaresma, esses quarenta dias de oração e de penitência com que a Igreja nos prepara para a solene celebração da Páscoa. Quarenta era um número particularmente significativo no mundo bíblico. O dilúvio durou quarenta dias e quarenta noites. O povo hebreu viveu quarenta anos de vida nômade no deserto. Moisés passou quarenta dias junto de Deus no Sinai. Também foi o prazo dado por Jonas aos ninivitas para a conversão. Mas, sobretudo, Jesus passou quarenta dias de jejum no deserto, o que inspirou o estabelecer-se na Igreja estes quarenta dias de penitência da Quaresma.

O tempo da Quaresma nos é oferecido, precisamente, como uma ocasião para nos colocarmos mais na escuta da Palavra de Deus que Se fez carne. Possamos aproveitar para aprofundar o nosso silêncio interior, tornando-nos mais atentos ao que Jesus quer dizer a cada um de nós.

E agora, ao celebrar a Eucaristia, Jesus nos dá o seu corpo e o seu sangue, para que de certa forma possamos saborear já aqui na terra a situação final, quando os nossos corpos mortais forem transfigurados à imagem do corpo glorioso de Cristo.

Como Pedro, Tiago e João, também nós somos convidados a subir ao Monte Tabor juntamente com Jesus, e a nos deixar deslumbrar pela Sua glória. E Maria, que como Abraão esperou contra toda a esperança, nos ajude a reconhecer em Jesus o Filho de Deus e o Senhor da nossa vida. E que esta quaresma possa constituir para cada um de nós um momento privilegiado de graça e possa trazer abundantes frutos de bem. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

 

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I DOMINGO DA QUARESMA – C – As tentações no deserto

Lc 4,1-13

Caros irmãos e irmãs,

Na última quarta-feira, com o tradicional rito das cinzas, entramos no clima penitencial da Quaresma, um tempo litúrgico que nos recorda os quarenta dias transcorridos por Jesus no deserto e constitui para todos os batizados um forte convite à conversão.

Neste primeiro domingo do tempo quaresmal, o Evangelho nos apresenta Cristo, conduzido pelo Espírito Santo ao deserto, onde é tentado pelo demônio, após receber o Batismo de João no Jordão.

O relato evangélico é constituído em torno de um diálogo em que tanto o diabo como Jesus citam passagens da Sagrada Escritura como base para certificar as suas afirmações. Das três tentações às quais Satanás submete Jesus, a primeira tem origem na fome, ou seja, na necessidade material: “Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pão”. Mas Jesus responde: “Nem só de pão vive o homem” (Lc 4,3-4; cf. Dt 8,3). Esta tentação sugere que Jesus poderia ter optado por um caminho de facilidade e de riqueza, utilizando a sua divindade para resolver qualquer necessidade material. No entanto, Jesus sabe que o caminho do Pai não passa pela acumulação egoísta de bens e sugere que o seu alimento, ou seja, a sua prioridade, é a Palavra do Pai.

Depois, na segunda tentação, o diabo mostra a Jesus todos os reinos da terra e diz: “Tudo será teu se, prostando-te, me adorares”. É o engano do poder. E Jesus desmascara esta tentativa dizendo: “Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a Ele prestarás culto” (cf. Dt 6, 13). Não à adoração do poder, mas só a Deus. Jesus poderia ter escolhido um caminho de poder semelhante aos dos grandes poderosos da terra. No entanto, Jesus sabe que esses esquemas são diabólicos e que não entram nos planos do Pai; por isso, citando Dt 6,13, diz que só o Pai é o seu “absoluto” e que não se deve adorar mais nada: adorar o poder que corrompe e escraviza não tem nada a ver com o projeto de Deus.

Por fim, na terceira e última tentação, o diabo propõe a Jesus que realize um milagre espetacular: lançar-se dos altos muros do Templo e fazer-se salvar pelos anjos, de modo que todos acreditassem nele. Mas Jesus responde que Deus nunca deve ser posto à prova (cf. Dt 6, 16). Não podemos “fazer uma experiência” na qual Deus deve responder e mostrar-se Deus: devemos acreditar nele. Jesus responde a esta proposta citando Dt 6,16, que manda “não tentar” o Senhor Deus.

O texto nos mostra que entre Jesus e o diabo há a Palavra de Deus. E fazendo referência à Sagrada Escritura, Jesus antepõe aos critérios humanos o único critério autêntico: a obediência, a conformidade com a vontade de Deus, que é o fundamento do nosso ser. Também este é um ensinamento fundamental para nós: se trouxermos na mente e no coração a Palavra de Deus, se esta entrar na nossa vida, se tivermos confiança em Deus, poderemos rejeitar qualquer gênero de engano do Tentador.

Jesus não está só no deserto. O evangelista São Lucas assinala que o Espírito Santo acompanha Jesus. Ele está cheio do Espírito Santo e é por Ele conduzido. Com o Espírito Santo, Jesus resiste às tentações. E se o demónio se afasta até ao momento fixado, quando este momento vier, Jesus será ainda o grande vencedor sobre o Maligno. Jesus não escolhe partir para o deserto. É conduzido pelo Espírito Santo.

Na história, houve multidões de homens e mulheres que escolheram imitar esse Jesus que se retira ao deserto. Mas o convite a seguir Jesus ao deserto não se dirige só a monges e ermitãos. De maneira diferente, também se dirige a todos. Monges e eremitas escolheram um espaço no deserto; nós devemos escolher ao menos um tempo de deserto. Passar um tempo de deserto significa fazer um pouco de vazio e de silêncio ao nosso redor; reencontrar o caminho do nosso coração, subtrair-nos das agitações e dos chamados externos, a fim de entrar em contato com as fontes mais profundas de nosso ser e de nosso crer.

Quaresma é tempo de renovação espiritual, de conversão interior e de renovação da vida. É um itinerário que nos deve fazer rever a nossa vida. É como um longo “retiro”, durante o qual cair de novo em nós mesmos e ouvir a voz de Deus, para vencer as tentações do Maligno e encontrar a verdade do nosso ser. Podemos dizer, um tempo de “competição” espiritual para viver juntamente com Jesus, usando as armas da fé, ou seja, a oração, a escuta da Palavra de Deus e a penitência. Deste modo poderemos chegar a celebrar a Páscoa na verdade, prontos para renovar as promessas do nosso Batismo.

O Evangelho nos fala de pão e de tentação. Estas duas palavras aparecem na oração do Pai Nosso: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje… não nos deixeis cair em tentação”. Se não alimentamos com o pão da Palavra, não temos forças para resistirmos, quando chegar a prova da tentação.

Confiantes comecemos o itinerário quaresmal. Ressoe em nós intensamente o convite à conversão, a “converter-se a Deus de todo o coração”, acolhendo a sua graça que faz de nós novas criaturas. Não fiquemos surdos a este apelo, que nos é dirigido neste tempo quaresmal.

Também o cristão, cuja existência é guiada pelo mesmo Espírito recebido no Batismo e na Confirmação, é chamado a enfrentar o quotidiano combate da fé, sustentado pela graça de Cristo.

Ajude-nos a Virgem Maria para que, guiados pelo Espírito Santo, vivamos com alegria e proveito este tempo de graça.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

 

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O QUE VOCÊ DEVE SABER SOBRE A QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Por Diego López Marina

No próximo dia 02 de março, a Igreja celebra a Quarta-feira de Cinzas, dando início à Quaresma, tempo de preparação para a Páscoa.

Recordamos algumas coisas essenciais que todo católico precisa saber para poder viver intensamente este tempo.

1. O que é a Quarta-feira de Cinzas?

É o primeiro dia da Quaresma, ou seja, dos 40 dias nos quais a Igreja chama os fiéis a se converterem e a se prepararem verdadeiramente para viver os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo durante a Semana Santa.

A Quarta-feira de Cinzas é uma celebração que está no Missal Romano, o qual explica que no final da Missa, abençoa-se e impõe-se as cinzas obtidas da queima dos ramos usados no Domingo de Ramos do ano anterior.

2. Como nasceu a tradição de impor as cinzas?

A tradição de impor a cinza é da Igreja primitiva. Naquela época, as pessoas colocavam as cinzas na cabeça e se apresentavam ante a comunidade com um “hábito penitencial” para receber o Sacramento da Reconciliação na Quinta-feira Santa.

A Quaresma adquiriu um sentido penitencial para todos os cristãos por volta do ano 400 d.C. e, a partir do século XI, a Igreja de Roma passou a impor as cinzas no início deste tempo.

3. Por que se impõe as cinzas?

A cinza é um símbolo. Sua função está descrita em um importante documento da Igreja, mais precisamente no artigo 125 do Diretório sobre a piedade popular e a liturgia:

“O começo dos quarenta dias de penitência, no Rito romano, caracteriza-se pelo austero símbolo das Cinzas, que caracteriza a Liturgia da Quarta-feira de Cinzas. Próprio dos antigos ritos nos quais os pecadores convertidos se submetiam à penitência canônica, o gesto de cobrir-se com cinza tem o sentido de reconhecer a própria fragilidade e mortalidade, que precisa ser redimida pela misericórdia de Deus. Este não era um gesto puramente exterior, a Igreja o conservou como sinal da atitude do coração penitente que cada batizado é chamado a assumir no itinerário quaresmal. Deve-se ajudar os fiéis, que vão receber as Cinzas, para que aprendam o significado interior que este gesto tem, que abre a cada pessoa a conversão e ao esforço da renovação pascal”.

4. O que as cinzas simbolizam e o que recordam?

A palavra cinza, que provém do latim “cinis”, representa o produto da combustão de algo pelo fogo. Esta adotou desde muito cedo um sentido simbólico de morte, expiração, mas também de humildade e penitência.

A cinza, como sinal de humildade, recorda ao cristão a sua origem e o seu fim: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra” (Gn 2,7); “até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” (Gn 3,19).

5. Onde podemos conseguir as cinzas?

Para a cerimônia devem ser queimados os restos dos ramos abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior. Estes recebem água benta e logo são aromatizados com incenso.

6. Como se impõe as cinzas?

Este ato acontece durante a Missa, depois da homilia, e está permitido que os leigos ajudem o sacerdote. As cinzas são impostas na fronte, em forma de cruz, enquanto o ministro pronuncia as palavras Bíblicas: “Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás” ou “Convertei-vos e crede no Evangelho”.

7. O que devem fazer quando não há sacerdote?

Quando não há sacerdote, a imposição das cinzas pode ser realizada sem Missa, de forma extraordinária. Entretanto, é recomendável que antes do ato participem da liturgia da palavra.

É importante recordar que a bênção das cinzas, como todo sacramental, somente pode ser feita por um sacerdote ou um diácono.

8. Quem pode receber as cinzas?

Qualquer pessoa pode receber este sacramental, inclusive os não católicos. Como explica o Catecismo (1670 ss.), “sacramentais não conferem a graça do Espírito Santo à maneira dos sacramentos; mas, pela oração da Igreja, preparam para receber a graça e dispõem para cooperar com ela”.

9. A imposição das cinzas é obrigatória?

A Quarta-feira de Cinzas não é dia de preceito e, portanto, não é obrigatória. Não obstante, nesse dia muitas pessoas costumam participar da Santa Missa, algo que sempre é recomendável.

10. Quanto tempo é necessário permanecer com a cinza na fronte?

Quanto tempo a pessoa quiser. Não existe um tempo determinado.

11. O jejum e a abstinência são necessários?

O jejum e a abstinência são obrigatórios durante a Quarta-feira de Cinzas, como também na Sexta-feira Santa, para as pessoas maiores de 18 e menores de 60 anos. Fora desses limites, é opcional. Nesse dia, os fiéis podem ter uma refeição “principal” uma vez durante o dia.

A abstinência de comer carne é obrigatória a partir dos 14 anos. Todas as sextas-feiras da Quaresma também são de abstinência obrigatória. As sextas-feiras do ano também são dias de abstinência. O gesto, dependendo da determinação da Conferência Episcopal de cada país, pode ser substituído por outro tipo de mortificação ou oferecimento como a oração do terço.

Texto por: Diego López Marina

Retirado de:

https://www.acidigital.com/noticias/o-que-voce-deve-saber-sobre-a-quarta-feira-de-cinzas-41282#.YhUaB8MYPUs.whatsapp

VIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – A boca fala do que o coração está cheio

 

Lc 6,39-45

Caros irmãos e irmãs,

A página do Evangelho para este domingo nos apresenta uma série de ensinamentos provavelmente dirigidos por Jesus aos fariseus (cf. Mt 15,14), um grupo observante da lei de Moisés que se apresentava como guia do povo no caminho para a santidade. Eram eles assíduos no estudo das leis e procuravam observá-las em seus mínimos detalhes. Para eles o importante era o que estava escrito na Lei, mas careciam de amor para com os outros. Estes ensinamentos tornam-se válidos também para cada um de nós hoje.

Jesus começa dizendo: “Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco?” (v. 39). Com isto, Jesus quer mostrar que o guia de uma comunidade não pode ser cego. Ele deverá ser iluminado pelo ensinamento de Jesus para que possa iluminar, também, o seu irmão. Nos primeiros séculos da Igreja os que recebiam o batismo eram chamados de iluminados, porque a luz de Cristo lhes tinha aberto os olhos. Os cristãos deveriam ser aqueles que enxergam bem, os que sabem escolher os valores certos da vida e que estão em condições de apontar o caminho seguro para quem ainda peregrina na escuridão. Jesus adverte os seus discípulos sobre um grave perigo: eles também correm o risco de perder a luz do Evangelho, de voltar novamente às trevas, quando deixam-se guiar pelos falsos testemunhos. Quando isto acontece, eles se tornam guias cegos, nos quais já não é possível confiar.

A cegueira da qual Jesus fala é aquela de quem ainda não descobriu suas próprias sombras, seus defeitos. Se estamos cegos, não reconhecemos as nossas próprias falhas e não buscamos corrigir o que está imperfeito em nós. A trave nos nossos olhos nos impede de enxergar as nossas fraquezas e limitações. Para tirá-la, nós precisamos pedir ao Espírito Santo que purifique os nossos pensamentos, sentimentos e atitudes. Caso contrário, Jesus nos lembra: poderemos cair no buraco e levar muitos conosco.

Nesta linha de intenções, a primeira leitura aponta um exercício e um critério que é norma de sabedoria para ajuizar uma pessoa: a palavra que sai de sua boca (cf. Eclo 27,5-8). Com isso, Jesus fala do aspecto interior da pessoa: “O homem bom, do bom tesouro que é seu coração, tira o bem; mas o homem mau, do seu mau tesouro, tira o mal, pois a boca fala do que o coração está cheio” (Lc 6,45). Na Sagrada Escritura, o co- ração do homem é a própria fonte de sua personalidade e, por isso, já no Antigo Testamento vimos que o homem precisava trocar o seu coração de pedra por um coração de carne (cf. Ez 36,25s). No Novo Testamento Jesus sequencia os ensinamentos dos profetas e chama a atenção para o verdadeiro mal, proveniente do coração: “É do coração do homem que procedem maus desejos, homicídios, adultérios… são estas coisas que tornam o homem impuro” (Mt 15,19ss). Jesus, por várias vezes, lembra a exigência divina de generosidade interior: é preciso receber a palavra num coração bem disposto (cf. Lc 8,15), amar a Deus de todo o coração (cf. Mt 23,37), perdoar ao irmão do fundo do coração (cf. Mt 18,35). E é aos puros de coração que Jesus promete a visão de Deus (cf. Mt 5,8). E nós somos convidados a imitar o próprio Cristo que é “manso e humilde de coração” (Mt 11,29).

Neste sentido, numa linguagem bíblica, o coração é centro dos nossos pensamentos, desejos e sentimentos, é a fonte de nossas obras boas ou más e sede de nossas decisões. O que procede de nosso coração permite reconhecer como está nosso interior. Como centro de nossas decisões, o coração assemelha-se ao cofre forte de um tesouro. Os discípulos de Jesus devem acumular nesse cofre um tesouro salvífico que façam deles homens bons e os levem às boas obras. Este tesouro interno jorrará pelas suas palavras, como afirma Jesus: “A boca fala daquilo de que o coração está cheio” (v. 45). Sabemos que o discípulo de Jesus deve ser luz para os outros, por isso, o seu coração deve ser semelhante ao coração de Cristo. No texto evangélico Jesus usa uma frase forte, que deve encontrar eco também em cada um de nós: “Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás enxergar bem para tirar o cisco do olho do teu irmão” (v. 42). O termo “hipócrita” não designa só o homem dissimulado, falso, cujos atos não correspondem ao seu pensamento e às suas palavras, mas equivale ao termo aramaico “hanefa” que, no Antigo Testamento, significa “perverso”, “ímpio”. São aqueles que estão sempre à procura de uma falha dos outros para condenar, mas não estão preocupados com os seus próprios erros e falhas. Hipócrita é aquele que continuamente acha motivo para falar mal dos outros e nunca se pergunta se aquilo que de- testa dos outros, como a vaidade, o egoísmo, a avareza, a falsidade, não se encontra, em medida maior ou menor, nele mesmo.

Em outras passagens da Sagrada Escritura Jesus usa esta mesma expressão: “Quando, pois, deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louva- dos pelos homens. Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa” (Mt 6,2.5). Diante destas considerações podemos definir a hipocrisia como uma falsidade do coração, a ilusão de contentar a Deus com as aparências. O hipócrita é aquele que usa moeda falsa para Deus, alguém que o honra com os lábios enquanto seu coração está longe (cf. Mt 15,8).

Jesus hoje nos chama à purificação. Possamos organizar corajosamente nosso exame de consciência e deixar-nos julgar pelo evangelho. Talvez sejamos obrigados a admitir, por mais que nos desagrade, que somos todos hipócritas. Como todos os discursos de Cristo, também este sobre a hipocrisia pode encontrar ressonância em nós. Através do evangelho de hoje todos nós somos chamados a lançar um olhar para nós mesmos. Com frequência queremos tirar o cisco do olho alheio sem nos preocuparmos em remover a trave do nosso. Criticamos os outros sem olhar a nós mesmos.

O verdadeiro discípulo de Jesus é aquele que dá bons frutos (v.43- 45). Na primeira leitura ouvimos: “O fruto revela como foi cultivada a árvore; assim, a palavra mostra o coração do homem” (Eclo 27,7). É um sábio ensinamento para desvendar o que há no coração de cada pessoa. Cristo acrescenta ainda as obras, que também brotam do coração; e frisa que é pelos frutos conhecemos a árvore: “Não há árvore boa que dê maus frutos, nem árvore má que dê bons frutos. Cada árvore se conhece pelo seu fruto” (v.43). Nossa ação exterior e nossa intenção interior devem formar unidade.

Precisamos necessariamente produzir bons frutos, mas, para que isso se concretize, é necessário um processo prévio de interiorização, de contato com Deus pela oração, assimilando a sua Palavra num diálogo pessoal com Ele no silêncio de nosso coração. No final da oração do Pai Nosso, dizemos: “Livrai-nos do mal”, é deste mal que devemos pedir a Deus que nos liberte: do mal da hipocrisia, da falsidade, do erro, do pecado. Que o Senhor nos conceda esta graça para que possamos apresentar ao Senhor frutos maduros e saborosos. Que Ele mesmo nos ajude a reagir abrindo o nosso coração ao bem e ao amor, para que a nossa vida interior nunca se assemelhe a árvore seca e sem vida. Que Ele também nos ajude a tirar a trave que carregamos em nossos olhos, a fim de termos condições de ajudar os nossos irmãos e irmãs a tirarem o cisco de seus olhos. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

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VII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – O perdão e o amor aos inimigos

Lc 6,27-38

Caros irmãos e irmãs,

A primeira leitura da Liturgia da Palavra deste domingo nos prepara para melhor compreender o texto evangélico que a Igreja nos convida a refletir neste dia. Trata-se de um fragmento tirado do Primeiro Livro de Samuel (cf. 1Sm 26,2.7-9.12-13.22-23) onde relata uma grande lição de misericórdia. Davi e Saul eram inimigos e o ódio de Saul contra Davi era tão grande, que o levou a perseguir Davi no deserto de Zif, com uma tropa de três mil guerreiros. Aconteceu que, enquanto Saul dormia em plena noite, com sua lança fincada no chão, à sua cabeceira, Davi e seu companheiro de armas, Abisai, conseguiram penetrar no meio dos seus soldados, sem acordar ninguém. Abisai disse a Davi: “Deus entregou hoje em tuas mãos o teu inimigo. Vou cravá-lo em terra com uma lançada, e não será preciso repetir o golpe” (v. 8). Mas Davi não deixou, respondendo: “Não o mates! Pois quem poderia estender a mão contra o ungido do Senhor, e ficar impune?” (v. 8). Tomou apenas a lança e o cantil que lhe estava ao lado, retirou-se, e de amanhã, do alto de uma colina fronteira gritou para os homens de Saul, que alguém viesse buscar a lança do rei.

Através da atitude de Absai, pensamos na lógica humana, que pro- põe agredir o nosso inimigo, destruir quem praticou o mal. Também nos faz pensar na atitude de Davi, ou seja, o perdão incondicional ao adversário. O argumento usado por Davi é que não podemos estender a mão contra um “ungido do Senhor” (v. 8) e, pelo mesmo motivo, também contra os nossos inimigos, pois eles necessitam do nosso amor, para que possam se recuperar. Eles também são “ungidos do Senhor”, por serem criados à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26). E, pelo batismo, podemos repetir com São Paulo: “Acaso não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós?” (1Cor 3,16).

Esta cena do perdão de Davi a Saul nos remete à primeira palavra do Evangelho, onde Jesus diz a seus discípulos: “Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, e rezai por aqueles que vos caluniam” (cf. Lc 6,27-28). Encontramos nesta frase quatro imperativos: amai, fazei o bem, bendizei, rezai. É assim que o cristão deve se comportar diante de quem pratica o mal. É a novidade do espírito do Evangelho, em vivo contraste com o espírito do mundo. Amar os inimigos é um princípio da identidade cristã, uma norma da não violência, que consiste em não render-se frente ao mal, mas em responder com o bem, destruindo, dessa forma, a corrente da injustiça. Somos chamados a enfrentar a violência e o mal com as únicas armas do amor e da verdade. O amor ao inimigo constitui um autêntico dom de Deus.

Esta proposta de Cristo é realista, pois, não se pode superar a situação de uma sociedade violenta e injusta, a não ser contrapondo com o amor, a bondade e o incentivo ao perdão. O próprio Cristo deixou um exemplo para nós, pois ele mesmo fez o bem a quem o odiava, perdoou a quem o crucificava, não julgou e não condenou ninguém, lembrando que só Deus pode condenar (cf. Mt 7,1). Também muitos santos souberam imitar o Cristo neste exemplo, dentre tantos, podemos lembrar de Santo Estêvão, o primeiro que seguiu os passos de Jesus mediante o martírio. Ele morreu como Jesus, confiando a própria vida a Deus e perdoando os seus perseguidores. Enquanto o apedrejavam, disse: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito!” (At 7,59). São palavras semelhantes às pronunciadas por Cristo na cruz: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!” (Lc 23,46).

A atitude de Estêvão é um convite a cada um de nós, a também perdoar. A confiança em Deus nos fortalece nos momentos de provações. Por ocasião do seu martírio, Santo Estêvão, de joelhos, exclamou em voz alta: “Senhor, não lhes imputes por este pecado” (At 7,60). O perdão dilata o coração, gera partilha, proporciona serenidade e paz. A lógica do perdão e da misericórdia é sempre vencedora e abre horizontes de esperança. Mas o perdão cultiva-se com a oração, que nos permite manter o olhar fixo em Jesus. Santo Estêvão foi capaz de perdoar os seus assassinos porque, cheio do Espírito Santo, fitou o céu, conservando os olhos abertos para Deus (cf. At 7,55). Com a oração ele recebeu a força para padecer o martírio.

Tem verdadeiro amor em seu coração aquele que é capaz de amar seus inimigos, fazer o bem a quem o odeia, bendizer quem o amaldiçoa e rezar pelos caluniadores. Para assim proceder é preciso ser forte, estar imbuído de profundas convicções e, sobretudo, ser movido pelo Espírito Santo. Oferecer a outra face, dar a quem pede, romper a violência de quem nos tira o manto entregando-lhes também a nossa túnica, são atitudes de gente forte. Quem assim procede está rompendo um mecanismo de repetição que só pode ser rompido pela gratuidade.

A oração pelos inimigos é o ponto mais alto do amor, porque pressupõe um coração disposto a deixar-se purificar de qualquer forma de ódio. Ao rezarmos pelos nossos inimigos o nosso coração entra em sintonia com o coração de Deus que está nos céus, pois “ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos” (Mt 5,45). Quem acolhe o Senhor na sua vida e o ama com todo o coração é capaz de um novo início. Pode cumprir a vontade de Deus e realizar uma nova forma de existência, animada pelo amor até mesmo para com aqueles que nos odeiam. A grande lição de Jesus é a misericórdia. E o paradigma dessa misericórdia é o coração do próprio Deus: “Sede misericordiosos, como vosso Pai é misericordioso” (v. 36). E as afirmações se vão sucedendo como numa verdadeira cascata de misericórdia: “Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e vos será dado” (v. 37-38).

Amar quem nos ama, elogia e prestigia, é fácil. Todo jogo dos interesses passa por este tipo de relação. Mas amar quem nos prejudica, quem nos amaldiçoa, quem não corresponde às nossas expectativas, é mais difícil e até mesmo impossível sem a graça de Deus. Às vezes nos fechamos ao amor gratuito, cujo modelo maior é Deus, de quem temos de aprender generosidade, compreensão, acolhida, aceitação e intimidade, alegria no partilhar, amor e perdão. As exigências de Jesus vão muito mais a fundo: ele exige um amor gratuito, baseado em uma justiça comutativa (v. 34). Devemos recordar sempre que o evangelho nos permite e nos obriga a condenar o pecado, mas não o pecador. Este é o amor, especialmente nas relações familiares. Não podemos esperar que seja sempre o outro a dar o primeiro passo. Amar os que nos amam e fazer bem aos que nos fazem o bem é natural a todos.

Os versículos seguintes mostram que a principal tarefa do cristão é “ser como Deus é”. Então Deus será eternamente fiel ao que ele tem operado de belo, de puro, de misericordioso na nossa vida: “…E não sereis julgados; … e não sereis condenados; … e sereis perdoados… Colocar-vos-ão no regaço medida boa, cheia, recalcada e transbordante”. A bondade de Deus não está apenas nele próprio. Ela transborda, ela age. Por isso o cristão deve fazer o bem. Uma das formas mais sutis de parecermos com Deus é a generosidade de “não julgar”. A tendência da criatura de julgar os outros é talvez uma tentativa de se autocompensar de suas frustrações e incompetências.

Que a Virgem de Nazaré interceda por nós, para que possamos colocar em prática os ensinamentos do Senhor e saibamos amar o nosso próximo como ele nos amou, e sermos misericordiosos como nosso Pai celestial é misericordioso (v. 36). E que o Senhor nos ensine a abrir o nosso coração ao perdão e nos faça amar uns aos outros e a acolher até mesmo os nossos inimigos como irmãos, filhos do mesmo Pai celeste. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

 

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VI DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – AS BEM – AVENTURANÇAS

Lc 6,17.20-26

Caros irmãos e irmãs

Este domingo o texto evangélico traz para a nossa reflexão o conhecido Sermão da Montanha, um novo programa de vida para se livrar dos falsos valores do mundo e abrir-se aos verdadeiros bens presentes e futuros. Quando Deus conforta, sacia a fome de justiça, enxuga as lágrimas dos que choram, isso significa que, além de recompensar cada um de forma sensível, abre também para os que passam por estas provações, o Reino do Céu.

As bem-aventuranças iluminam as ações e atitudes que caracterizam a vida cristã e exprimem o que significa ser discípulo de Cristo (cf. CIgC, n. 1717). Ao mesmo tempo, elas são como que uma biografia interior oculta de Jesus, um retrato da sua figura. Devemos olhar como Jesus viveu estas bem-aventuranças. Os evangelhos são, do início ao fim, uma demonstração da mansidão de Cristo, em seu duplo aspecto de humildade e de paciência. Ele mesmo se propõe como modelo de mansidão para nós.

O texto bíblico nos mostra que Jesus, dirigindo o olhar aos seus discípulos, diz: “Bem-aventurados os pobres… bem-aventurados vós, que agora tendes fome… bem-aventurados vós, que chorais… bem-aventurados vós, quando os homens… desprezarem o vosso nome”. Após as quatro menções aos “bem-aventurados vós”: os pobres, os famintos, os que choram e os que sofrem insultos por causa de Jesus, temos também quatro “ais”: ai de vós os ricos, ai de vós os que têm fartura, ai dos que riem e ai dos que são elogia- dos. Como afirma Jesus, tudo irá inverter no final dos tempos: os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos” (cf. Lc 13, 30).

Jesus diz inicialmente: “Bem-aventurados vós os pobres, porque vosso é o Reino de Deus” (v. 20). A palavra grega usada por São Lucas para “pobres” (ptôchos) traduz certos termos hebraicos (‘anawim, dallim, ebionim) que, no Antigo Testamento, definem uma classe de pessoas privadas de bens. São os desprotegidos, os pequenos, as vítimas da injustiça, que com frequência são privados dos seus direitos e da sua dignidade. Por isso, eles têm fome, choram, são perseguidos. Ora, serão eles, precisamente, os primeiros destinatários da salvação de Deus, que, na sua bondade, quer derramar sobre eles a sua bondade, a sua misericórdia, a sua salvação. Depois, a salvação de Deus dirige-se prioritariamente a estes porque eles, na sua simplicidade, humildade, disponibilidade e despojamento, estão mais abertos para acolher a proposta que Deus lhes faz em Jesus.

Jesus reassume neste sermão das bem-aventuranças as promessas divinas de que os pobres não terão nem fome e nem sede (cf. Is 49,10.13; Ez 34,29) e anuncia que eles serão saciados. Aos pobres, é prometido o Reino de Deus e assegurada, também, a participação na mesa da casa do Pai. A participação no Reino de Deus fará com que os pobres, que agora choram, possam ter motivos para rir e estar alegres.
O grande mal de todos os tempos é o de almejar a fortuna para um interesse pessoal e não para melhor servir a Deus. Sob esse prisma, não vem ao caso ser rico ou pobre, porque o primeiro desprezará o segundo, este invejará o outro e ambos incorrerão na sentença contida no versículo 24: “Mas ai de vós, os ricos, porque tendes já a vossa consolação” (v. 24). Os pobres em bens, podem ser ricos na fé, como dizia o apóstolo São Tiago: “Não escolheu Deus os pobres deste mundo para que fossem ricos na fé e herdeiros do Reino prometido por Deus aos que o amam?” (Tg 2,5). A ver- dadeira riqueza que torna os pobres bem-aventurados é o Reino de Deus.

No episódio da pesca milagrosa (cf. Lc 5,1-11), temos o chamado dos primeiros discípulos de Jesus, o texto conclui dizendo: Eles, atracando as barcas à terra, deixaram tudo e o seguiram” (Lc 5,11). Nesta mesma página do evangelho encontramos o chamado de Levi, e a conclusão é semelhante: “Ele, abandonando tudo, levantou-se e o seguiu” (Lc 5,28). Esta é uma das características do verdadeiro discípulo de Jesus: Abandonar tudo para segui-lo. Os apóstolos e também muitos santos souberam reconhecer que a vida do homem não depende dos bens que ele possui.

O homem que constrói sua vida e projeta o seu futuro somente em função de si mesmo, é como aquele homem que construiu a sua casa sobre a areia (cf. Mt 7,21-29). Neste sentido, o rico pode tornar-se pobre, pois, a sua pobreza se mede pelo que ele perde: o Reino de Deus, como nos narra o mesmo evangelista São Lucas: “Assim acontece com quem guarda para si riquezas, mas não é rico para com Deus” (Lc 12,21).

Neste sentido devemos sempre nos questionar de qual lado estamos: Entre os que constroem a vida sobre si mesmos ou entre aqueles que constroem sobre o Reino de Deus? Devemos estar sempre conscientes de que não podemos servir a Deus e ao dinheiro (cf. Mt 6,24). O motivo da alegria anunciada para os pobres consiste na promessa que é feita: para eles chegou o reino de Deus, para aqueles que fizeram a opção de não colocar a própria segurança nos bens materiais já teve início um novo mundo, pois tudo passa a ser em comum (cf. At 4,34). Esta é a proposta que Jesus faz aos seus primeiros apóstolos que deixam tudo para o seguir. Jesus também diz: “Bem-aventurados os que agora tendes fome, porque sereis saciados” (v. 21). O mais alto grau desta bem-aventurança consiste em suportar com resignação cristã, ou seja, sem revolta, sem in- veja e sem ódio, os sacrifícios decorrentes da pobreza material, isto torna o pobre um bem-aventurado. Por outro lado, também são bem-aventurados os que têm fome de Deus. A estes últimos, Deus alimentará com a sua graça, com mais abundância, na medida do desejo de perfeição.

Os pecadores encontram sua falsa felicidade na transgressão da lei de Deus. A estes adverte Jesus severamente, porque no dia do Juízo hão de chorar sua condenação eterna: “Ai de vós, os que agora rides, porque gemereis e chorareis” (v. 26). Ademais, ainda nesta terra, apesar de sua aparente alegria, vivem de tristeza, pois a consciência continuamente os acusa de suas faltas. Ao prazer decorrente do pecado sempre se segue o remorso pela falta cometida. Mas aqueles que choram de arrependimento pelos próprios pecados, já encontram, na sua contrição, consolo e felicidade. A experiência nos ensina que o arrependimento traz alegria, e é fruto da graça de Deus.

Lancemos uma vez mais o nosso olhar para a Virgem Maria, aquela que todas as gerações a proclamam de “bem-aventurada”, porque acreditou na boa nova que o Senhor lhe anunciou (cf. Lc 1,45.48). Que ela, mãe de Deus e nossa, interceda por cada um de nós e nos faça trilhar, todos os dias, com o coração dilatado, o caminho das bem-aventuranças. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

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