Arquivo da categoria: Homilias

Espaço reservado para reflexões à luz das Escrituras.

IV DOMINGO DO TEMPO PASCAL – Ano A – 2017

Eu sou a porta das ovelhas!

Referência: Jo 10,1-10

Caros irmãos e irmãs,

Neste quarto domingo do tempo pascal celebramos o “Domingo do Bom Pastor”, onde a Liturgia da Palavra nos apresenta um trecho do Evangelho segundo São João, sendo Jesus apresentado como o Bom Pastor. O autor utiliza esta imagem para propor uma catequese sobre a missão de Jesus: conduzir o homem às pastagens verdejantes e às fontes cristalinas de onde brota a vida em abundância.

A Sagrada Escritura nos apresenta a figura do pastor desde a mais longínqua antiguidade: “Caim era lavrador, Abel era Pastor (cf. Gn 4,2).  Também  Davi foi pastor  em Belém (cf. 1Sm 16,11) a quem é atribuído o Sl 22 onde descreve a imagem de Deus como Pastor. O Salmo sublinha como o pastor guia seu rebanho para verdes pastagens e para águas tranquilas.  O salmista acentua a dedicação total do pastor e a confiança total do rebanho.

No Novo Testamento esta imagem é transferida para Jesus Cristo, o Deus conosco.  Em diversos momentos, Jesus vai assumir essa figura de pastor, como acentua, por exemplo, o Evangelho deste domingo, cujo texto está dividido em duas parábolas.

Na primeira parábola (cf. Jo 10,1-6), Jesus se apresenta como o Pastor. E como Bom Pastor Ele conhece as “ovelhas” e as chama pelo nome, mantendo com cada uma delas uma relação única, especial, pessoal. Elas  fazem parte do rebanho de Jesus e escutam a sua voz. O pastor caminhará à frente das ovelhas e elas o seguem  (v. 4). Ele indica o caminho, pois Ele próprio é o caminho (cf. Jo 14,6) que leva à vida. Isso significa, concretamente, tornar-se discípulo, aderir a Jesus, percorrer o mesmo caminho que Ele percorreu, na entrega total aos projetos de Deus e na doação aos irmãos.

Muito cedo a Igreja utilizou esta imagem do pastor para indicar a presença de Jesus a cuidar de seu rebanho, conforme testemunham nas antigas ilustrações das catacumbas, sejam em pinturas ou esculturas, onde, normalmente, o pastor traz a ovelha nos ombros, como narram as Escrituras. Assim como um rebanho ficava aos encargos e cuidados de uma pessoa, da mesma maneira nós somos guiados e protegidos por Jesus.

Na segunda parte (cf. Jo 10,7-9), Jesus se apresenta como a porta. No que diz respeito às ovelhas, isto significa que Jesus é o único lugar de acesso para que elas possam encontrar as pastagens para nutrir a vida. Passar pela porta que é Jesus significa segui-lo, acolher as suas propostas.  A porta é um dos símbolos do Cristo. Ele disse: “Eu sou a porta” (Jo 10,9). Através dele encontramos a nós mesmos e encontramos os outros. E Cristo ainda completa: “Quem entrar por mim tem a vida!” (Jo 10,9). Quem entrar por Ele não fica desiludido, não sairá defraudado e encontrará orientação para a vida. Cristo é a porta que está sempre aberta. E cada um de nós também é chamado a passar por esta porta.

No tempo de Jesus, os pastores costumavam construir nos campos um abrigo para a noite. Um retângulo cercado por pequeno muro de pedra, com uma única porta e, propositadamente, estreita.  Durante a noite vários pastores levavam ao abrigo suas ovelhas e um deles ficava de vigia a noite toda.  Pela manhã, cada pastor chamava suas ovelhas, elas saíam pela única porta estreita, ele as contava e as levava a pastar.  Mas também as cidades naquela época eram muradas.  Em Jerusalém, sobretudo, eram famosas as muralhas de Salomão e Herodes.  Entrava-se e saía-se das cidades somente pela porta.  Por isso, a porta significava proteção e segurança.  Era na porta da cidade que se recebiam os que chegavam e se despediam os que partiam.

Jesus, ao se comparar com uma porta, está dizendo que somente por Ele se entra no abrigo, somente por ele se entra na cidade de Deus, no Reino dos Céus. Mas também está dizendo que somente nele podemos encontrar segurança e proteção.

Ele é o único caminho pelo qual se pode entrar no Reino de Deus.  O pastor abre a porta para as ovelhas.  Jesus se compara a este Pastor que abre as portas e nos leva ao Pai. Jesus é o caminho seguro e certo para toda a humanidade. A porta dá acesso à salvação e, por ela entram os fiéis na casa de Deus.

A atitude do rebanho em relação ao Bom Pastor é apresentada pelo Evangelista com dois verbos específicos: ouvir e seguir. Estas palavras designam as características fundamentais daqueles que vivem o seguimento do Senhor. Antes de tudo, é pela escuta da sua Palavra, que a fé nasce e se alimenta. Só quem presta atenção à voz do Senhor é capaz de avaliar na própria consciência as justas decisões para agir segundo Deus. Por conseguinte, da escuta deriva o seguir Jesus: agimos como discípulos após ouvir e aceitar interiormente os ensinamentos do Mestre, para os vivê-los no cotidiano.

Com muita espontaneidade esse título de pastor passou a ser aplicado aos ministros da Igreja.  Aliás, Pedro foi oficialmente constituído pastor do rebanho de Cristo. As palavras de Jesus dirigidas a Pedro indicam a sua missão de guardar todo o rebanho do Senhor: “Apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,15-17).  Assim Pedro é constituído pastor e guia de toda a Igreja.  Essa imagem de pastor passará também a ser o modelo daqueles que são chamados ao ministério episcopal.  Na ordenação de um bispo, ao receber as insígnias de sua dignidade, é entregue a ele o báculo, símbolo mais evidente do pastor.

O Bom Pastor, será ainda o ideal de todo aquele que se dedica ao anúncio do Reino, modelo do serviço e da exposição da própria vida aos perigos, por causa do rebanho que lhe é confiado.

Efetivamente a missão de Cristo prossegue ao longo da história, através da obra dos Pastores aos quais Ele confia o cuidado do seu rebanho.  Como fez com os primeiros discípulos, Jesus continua a escolher para si novos colaboradores que cuidam do seu rebanho mediante o ministério da Palavra e dos Sacramentos.

A Igreja celebra ainda neste domingo o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. E não só vocações sacerdotais, mas também religiosas, uma vez que os religiosos, ao lado dos sacerdotes da Igreja, colaboram na edificação do reino de Deus.

Hoje somos também convidados a pedir ao Senhor por aqueles que estão se preparando para o sacerdócio e também por todos os ministros da Igreja.  Jesus disse aos apóstolos “vem e segue-me” (Mt 19,21).  Este mesmo chamado deve ressoar aos ouvidos dos homens de nosso tempo.  E neste contexto litúrgico, de modo particular e significativo, peçamos ao Senhor que jamais deixe de suscitar pessoas que O sigam de modo total na orientação do seu rebanho.  Peçamos também que ele sustente as vocações, em especial os sacerdotes, para que possam ser autênticos ministros do Cristo Bom Pastor, para que os fiéis, mediante a Palavra e os sacramentos, “tenham vida” e a tenham em abundância (cf. Jo 10,10).

O bom exemplo de um sacerdote é um incentivo para outros jovens seguirem o Cristo com igual disponibilidade. Por isto, neste dia dedicado às vocações, pedimos  ao “Senhor da messe” que possa continuar enviando operários para a sua vinha, porque “a messe é grande” (Mt 9, 37).

Fortalecidos pela alegria pascal e pela fé no Ressuscitado, confiemos as nossas intenções à Virgem Maria, Mãe de todas as vocações, para que, com a sua intercessão, suscite e ampare numerosas e santas vocações para o serviço do Reino de Deus.

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

III DOMINGO DO TEMPO PASCAL – Ano A – 2017

O encontro de Jesus com os discípulos de Emaús

Referência: Lc 24,13-35

Meus caros irmãos e irmãs,

Neste terceiro domingo do tempo pascal o texto evangélico nos apresenta uma narrativa da aparição de Cristo ressuscitado a dois discípulos que caminhavam de Jerusalém para Emaús.  Ao longo do texto o evangelista São Lucas coloca nos lábios de um dos peregrinos: “Nós esperávamos…” (v. 21). Este verbo no passado mostra a perda da esperança dos caminhantes… nós tínhamos acreditado… tínhamos seguido… tínhamos esperado… mas, tudo chegou ao fim. Também Jesus de Nazaré, que havia se mostrado como profeta poderoso em obras e em palavras, fracassou, e ficamos desiludidos (v. 21ss).

Este drama dos discípulos de Emaús aparece como um reflexo da situação de muitos cristãos do nosso tempo. Parece que a esperança da fé fracassou. A própria fé entra em crise, por causa de experiências negativas que nos fazem sentir abandonados pelo Senhor. Mas este caminho de Emaús em que estamos, pode se converter então em caminho de purificação e amadurecimento da nossa fé em Deus. Também hoje podemos entrar em diálogo com Jesus, escutando sua Palavra. Também hoje Ele parte o pão para nós e se entrega como nosso pão. O nosso encontro com Cristo Ressuscitado é possível também hoje, quando nos encontramos ao redor do altar e nos alimentamos da Palavra de Deus e da Sua presença real na Eucaristia.

Na sequência do relato evangélico, o autor  ressalta a presença de Jesus, que se faz companheiro de viagem destes discípulos em caminhada, interroga-os sobre o que se passou nestes dias em Jerusalém, escuta as suas preocupações, torna-se o confidente das suas frustrações.  Os dois homens contam a história do Mestre, cuja proposta os seduziu; mas a versão que relatam termina no túmulo: falta a fé no Senhor ressuscitado.

Quando Jesus se aproxima dos caminhantes, eles não têm olhos para reconhecê-lo, porque a desilusão lhes perturba o espírito.  Nem sequer as notícias do sepulcro vazio e de sua ressurreição, anunciada pelos anjos, constatada por Maria Madalena e as verificações posteriores do fato foram capazes de fazer brotar neles a esperança.  Os discípulos de Emaús se sentem tristes e derrotados. Estão eles desanimados e sem vida. Não acreditam e nem esperam mais nada.

Os três, Jesus, Cléofas e o discípulo não identificado, chegam, finalmente, à aldeia de Emaús. Os discípulos continuam a não reconhecer Jesus, mas o convidam a ficar com eles: “Fica conosco Senhor!”. A noite e os perigos da estrada são os pretextos dos dois discípulos para ficar na segurança transmitida por aquele homem, que imediatamente aceita o convite, pois sabe que a hora de revelar toda verdade aos discípulos se aproxima: o momento da partilha do pão.

Enquanto comiam, “Jesus tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía. Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus” (v. 30-31). Estas palavras usadas pelo evangelista São Lucas para descrever os gestos de Jesus evocam a celebração eucarística da Igreja primitiva. Dessa forma, São Lucas recorda aos membros da sua comunidade que é possível encontrar Jesus vivo e ressuscitado e que continua a fazer-se companheiro dos homens nos caminhos de sua história.

Neste texto evangélico é possível também constatar a estrutura da Santa Missa: na primeira parte, a escuta da Palavra através da Sagrada Escritura; na segunda, a liturgia eucarística e a comunhão com Cristo presente no Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue. O evangelista, para contar o que os discípulos de Emaús narram, utiliza uma expressão que, na Igreja primitiva, possuía um preciso significado eucarístico: “O tinham reconhecido ao partir o pão” (v. 35). É neste momento decisivo que os olhos dos discípulos se abrem e eles reconhecem Jesus (v. 31).  A partir de então é supérflua a presença física de Jesus entre eles.  Jesus desaparece porque a comunidade possui os dois sacramentos da Sua presença: a Palavra e a Eucaristia.  Basta viver isto para sentir o Cristo vivo em nosso meio.

Na última cena da nossa história os discípulos a retomam o caminho, regressam a Jerusalém e anunciam aos irmãos que Jesus está, efetivamente, vivo.  Há um grande esforço que deve ser realizado para que cada cristão se transforme em testemunha,  a anunciar com vigor e com alegria o acontecimento da morte e da ressurreição de Cristo.  Ao fazer a experiência do encontro com Cristo vivo e ressuscitado na celebração eucarística, cada crente é, implicitamente, convidado a voltar à estrada, a dirigir-se ao encontro dos irmãos e a testemunhar que Jesus está vivo e presente na história e na caminhada dos homens.

Em nossa caminhada pela vida fazemos frequentemente a experiência do desencanto, do desalento, do desânimo, como ocorreu inicialmente com os discípulos de Emaús. As crises, os fracassos, o desmoronamento daquilo que julgávamos seguro e em que apostamos tudo, bem como a falência dos nossos sonhos, nos deixam frustrados, perdidos, sem perspectivas. Então, parece que nada faz sentido e que Deus desapareceu do nosso horizonte.  No entanto, de acordo com o evangelho deste domingo,  mesmo diante das dificuldades e dos temores, Jesus, vivo e ressuscitado, caminha ao nosso lado. Ele é esse companheiro de viagem que encontra formas de vir ao nosso encontro, mesmo que nem sempre sejamos capazes de reconhecê-lo imediatamente, mas só Ele pode encher o nosso coração de esperança.

E assim como os discípulos de Emaús, possamos também dizer: Fica conosco, Senhor, nos acompanhe ao longo do nosso itinerário. Ficai conosco, porque ao redor de nós as sombras vão se tornando mais densas e necessitamos da sua luz para iluminar o nosso caminho.  Ficai conosco, Senhor, se porventura ao redor de nossa fé surgirem as névoas da dúvida, do cansaço ou da dificuldade. Iluminai todos os dias as nossas mentes com tua Palavra.

Fica conosco Senhor e sede a força a nos sustentar perante as dificuldades cotidianas, venha em nosso auxílio e fortalecei cada um de nós, diante das provações e dos sofrimentos que porventura vierem surgir. Ficai conosco Senhor, nos momentos de desânimo, nos momentos de decepção.  Fica conosco no entardecer da nossa vida.  Acompanha-nos, como fizeste com os discípulos de Emaús, no nosso caminho pessoal e familiar.  Abri os nossos olhos, para que saibamos sempre reconhecer os sinais da tua presença.

Intercedei também por nós a Virgem de Nazaré, para que cada cristão e cada comunidade, revivendo a experiência dos discípulos de Emaús, redescubra a graça do encontro transformador com o Senhor Ressuscitado. Assim seja.

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

II DOMINGO DO TEMPO PASCAL – Ano A – 2017

Jesus aparece aos Apóstolos

Referência: Jo 20,19-31

Meus caros irmãos e irmãs,

Nestes dias a Igreja canta sua fé e a sua alegria pascal, porque celebramos a Ressurreição do Cristo Senhor. Ressoa ainda em nossos ouvidos o Salmo: “Este é o dia que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e nele exultemos” (Sl 117,24). Cada domingo da Páscoa se reveste de uma solenidade especial, com leituras apropriadas, ressaltando o importante momento litúrgico.  E neste domingo, a primeira leitura nos apresenta um significativo trecho do Livro dos Atos dos Apóstolos, onde sintetiza o estilo de vida dos primeiros cristãos: comunidade de fé, comunidade de vida, comunidade de oração e ainda descreve os primeiros tempos da Igreja, como comunidade da Palavra e da Eucaristia:  “Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna e à fração do pão” (At 2,42), costume que se perpetua até os nossos dias.

Em cada domingo, somos chamados a imitar estes exemplos dos primeiros cristãos e nos reunimos para ouvir os ensinamentos dos apóstolos e para participar na fração do pão e na oração comum.  Que possamos continuar sendo esta comunidade fraterna e reunida em seu nome, para que o próprio Cristo possa estar no meio de nós.

O Evangelho nos apresenta as duas aparições de Jesus aos seus discípulos: uma na tarde do dia da Ressurreição, e a outra, oito dias depois. O texto que nos é proposto está dividido em duas partes bem distintas. Na primeira parte (v. 19-23), descreve-se uma “aparição” de Jesus aos discípulos. Pode-se observar em um primeiro momento a situação de insegurança e de fragilidade em que a comunidade estava: o “anoitecer”, as “portas fechadas”, o “medo”, e Jesus aparece no meio deles, “no centro” (v. 19). Ao aparecer “no meio deles”, Jesus assume-se como ponto de referência como um fator de unidade.

Os discípulos estão reunidos ao seu redor, pois ele é o centro onde todos vão buscar as forças necessárias para que possam vencer o “medo” e a hostilidade do mundo.  A estes discípulos, enfraquecidos pelo medo, ao anoitecer, sinal de trevas de um mundo indiferente, Jesus transmite duplamente a paz (v. 19 e 21).  É o “shalom” hebraico, que tem o sentido de harmonia, serenidade, tranquilidade, confiança. Assegura-se, assim, aos discípulos que ele venceu aquilo que o assustava, ou seja, a morte, a opressão, a apatia do mundo; e que, de agora em diante, os discípulos não têm razão para ter medo. Jesus já havia dito muitas vezes a eles: “Não tenhais medo”.

Em seguida (v. 22), vimos que Jesus “soprou” sobre os discípulos reunidos à sua volta. O verbo aqui utilizado é o mesmo do texto de Gn 2,7, quando se diz que Deus soprou sobre o homem de argila, infundindo-lhe a vida. Com o “sopro” de Gn 2,7, o homem tornou-se um ser vivente.  Ao soprar sobre os Apóstolos, Jesus transmite a eles a vida nova que os fará homens novos. Com isto, eles passam a ser portadores do Espírito Santo, a vida de Deus, para poderem, como Jesus, doar-se também aos outros.

Na segunda parte do Evangelho (vv. 24-29), encontramos uma catequese sobre a fé, onde o apóstolo Tomé faz uma experiência de Cristo vivo.  O texto nos faz rever a experiência do encontro dos apóstolos com o Cristo ressuscitado, que aparece no cenáculo, na noite do mesmo dia da ressurreição, “o primeiro da semana”, e sucessivamente “oito dias depois” (cf. Jo 20,19.26). Aquele dia, chamado posteriormente de “domingo”, que quer dizer “dia do Senhor”, o dia em que a comunidade cristã se reúne para celebrar a Eucaristia. Com efeito, com a celebração do Dia do Senhor os primeiros cristãos iniciam um culto diverso em relação ao sábado judaico.

Em cada Celebração Eucarística temos um encontro com o Senhor Ressuscitado, que torna-se realmente presente no meio da comunidade, fala-nos nas Sagradas Escrituras e parte para nós o Pão de vida eterna. Através destes sinais nós vivemos a mesma experiência dos apóstolos, isto é, o fato de ver Jesus e ao mesmo tempo de não o reconhecer; de tocar o seu corpo e estar em comunhão com Ele.

O texto evangélico nos diz que Jesus “apareceu”; ou seja, ele “deixou-se ver”.  Na verdade, depois da ressurreição, Jesus pertence a uma esfera da realidade, que normalmente se subtrai aos nossos sentidos.  Não pertence mais ao mundo perceptível com os sentidos, mas ao mundo de Deus.  Por conseguinte, só pode vê-lo aquele a quem ele próprio o concede.   Ele deixa as suas chagas serem tocadas por Tomé, todavia, Ele não é um homem que voltou a ser como antes da morte.  Impressiona, acima de tudo, o fato de os discípulos, em certas aparições, em um primeiro momento não o reconhecerem.  Isto acontece não só aos discípulos de Emaús, mas também a Maria Madalena e, depois, uma vez mais, junto do mar de Tiberíades.  Em outras palavras trata-se de um reconhecer a partir de dentro.

Jesus chega estando as portas fechadas, apresenta-se de improviso no meio dos apóstolos, atingidos pelo medo.  E, correlativamente, desaparece, como no fim do encontro com os discípulos de Emaús. Jesus aparece plenamente corpóreo, mas não está ligado às leis da corporeidade e liberdade dos vínculos do corpo, manifesta-se a essência peculiar, misteriosa, da nova existência do Ressuscitado.  Com efeito, ele é o mesmo, ou seja, Homem de carne e osso, e Ele é também o novo, aquele que entrou em um gênero diverso de existência.  O fato é que Jesus é verdadeiramente homem; e como homem, Ele sofreu e morreu; agora vive de modo novo na dimensão do Deus vivo; aparece como verdadeiro homem, todavia, a partir de Deus: e ele mesmo é Deus.   Jesus não voltou à existência empírica, sujeita à lei da morte, mas ele vive de modo novo na comunhão com Deus (cf. BENTO PP XVI, Jesus de Nazaré: Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição, Rio de Janeiro, 2011, p. 238).

É importante conhecermos alguns símbolos pascais, que se revestem de expressivos significados. Dentre estes símbolos, pode-se destacar o Círio Pascal, que representa o Cristo ressuscitado, vencedor das trevas e da morteA palavra “círio” vem do latim “cereus”, que se pode traduzir por de cera. É o símbolo de Cristo – Luz -, e é colocado sobre uma coluna ou candelabro, devidamente ornamentado, até o dia de Pentecostes. Desde os primeiros séculos o Círio é um dos símbolos mais expressivos do Tempo Pascal. Nele encontramos uma inscrição em forma de cruz, acompanhada da data do ano em curso e das letras Alfa e Ômega, a primeira e a última letra do alfabeto grego, para indicar que a Páscoa do Senhor Jesus, é o princípio e fim do tempo e da eternidade, e nos alcança com força sempre nova no ano concreto em que vivemos. O Círio Pascal tem ainda incrustados em sua cera cinco cravos de incenso que simbolizam as cinco chagas do Cristo.

Uma vez concluído o tempo Pascal, o Círio é conservado no batistério. É usado durante os batismos e nas exéquias, para ressaltar o princípio e o fim da vida temporal, para simbolizar que um cristão participa da luz de Cristo ao longo de todo o seu caminho terreno, como garantia de sua incorporação definitiva à Luz da vida eterna.  Além do simbolismo da luz, o Círio Pascal tem também o marco de uma oferenda, como cera que se consome em honra de Deus, espalhando sua Luz.  A Ressurreição de Cristo nos faz lembrar que também devemos ser luz, a fim de levarmos a luz aos outros.  Para isso, devemos estar unidos a Cristo, como diz São Paulo: Instaurar todos em Cristo (Ef 1,10).

Contudo, possamos todos nós fazer esta mesma experiência de Tomé e, com ele, coloquemos também as nossas mãos no lado traspassado de Jesus e professemos: “Meus Senhor e meu Deus” (Jo 20,28).  Que possamos reconhecer no Cristo Ressuscitado o nosso Senhor e o nosso Deus, assim como fizeram também muitos santos, que souberam edificar a Igreja com o testemunho de fé, de amor e de coragem, e anunciaram Jesus Cristo com os seus ensinamentos e com o testemunho de vida. Que eles possam interceder por nós, para que possamos também, sem cessar, buscar a santidade e continuar a nossa peregrinação a caminho da pátria celeste.  Assim seja.

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

DOMINGO DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR – Ano A – 2017

RESSURREIÇÃO DO SENHOR
Referência:
Jo 20,1-9

Caros irmãos e irmãs,

Neste domingo a liturgia nos faz chegar ao domingo da Páscoa. Hoje somos convidados a olhar o túmulo vazio de Jesus e, com admiração e gratidão, refletir sobre o grande mistério da Ressurreição do Senhor. A vida venceu a morte!

Já na Vigília pascal, entoamos novamente o grito da alegria, o “Aleluia”, uma palavra hebraica conhecida em todas as línguas e que significa “Louvai o Senhor”.  Este grito do Aleluia volta a ressoar para indicar a nossa alegria diante da Ressurreição do Senhor.  Mas este aleluia pascal deve imprimir profundamente em nós o desejo de constantemente louvar o Senhor, pelas maravilhas que Ele operou em cada um de nós.  E como consquência disso, cada cristão é chamado a ser proclamador de uma vida nova, deve fazer morrer em si  o “velho homem”, o homem marcado pelo pecado; e fazer ressurgir o “homem novo”, configurado a Cristo ressuscitado.

O texto evangélico que a Liturgia da Palavra nos apresenta para este domingo começa com uma indicação aparentemente cronológica, mas que deve ser entendida, sobretudo, em chave teológica: “No primeiro dia da semana”. Significa que com a ressurreição de Jesus começou um novo ciclo – o da nova criação, o da Páscoa definitiva. Aqui começa um novo tempo, o tempo do homem novo, que nasce a partir da doação de Jesus.

A primeira personagem em cena é Maria Madalena: ela é a primeira a dirigir-se ao túmulo de Jesus, ainda quando o sol não tinha nascido, na manhã do “primeiro dia da semana”.  Em seguida, elas correm, com medo, mas felizes, para comunicar esta notícia aos discípulos de Jesus.

Na sequência, o texto evangélico nos apresenta a visita de Pedro e do discípulo que Jesus amava ao túmulo vazio.  O evangelista São João narra com exatidão os detalhes da cena: as faixas de linho, que tinham envolvido o corpo, estavam lá depositadas e o pano da cabeça estava enrolado e colocado à parte (cf. v. 6-7).  Uma minuciosa descrição do evangelista tem a finalidade de excluir a teoria do roubo do cadáver.

O túmulo vazio é um argumento decisivo em favor da ressurreição de Jesus. É isto, como de fato, que expressa na confissão do discípulo amado que vai até ao túmulo na companhia de Pedro: “Ele viu e acreditou” (v. 8). Isto supõe que o discípulo amado terá verificado, pelo estado em que ficou o sepulcro vazio, que a ausência do corpo de Jesus não podia ter sido obra humana.  Mediante os sinais da morte: o túmulo, os lençóis, o sudário… o discípulo vê os sinais da vida.  Na verdade, vê sem ter visto ainda, e já começa a crer ou a dar crédito, até que sua fé seja plenamente confirmada e esclarecida pelas aparições.

Com relação ao Apóstolo Pedro, parece que ele é vencido não só na corrida material, mas também na espiritual.  O discípulo que Jesus amava, identificado pela tradição como o apóstolo João, mostra a sua fé na ressurreição, quanto Pedro, embora vendo as mesmas coisas, limita-se a constatar e não chegar ainda à fé na ressurreição (cf. Jo 20,3-10).

Também quando Jesus aparece junto ao mar de Tiberíades é mais uma vez o discípulo que Jesus amava que o identifica, enquanto Pedro, só mais tarde o reconhece (cf. Jo 20,7).  A não identificação do discípulo que Jesus amava no texto, pode ser uma indicação de que todos nós devemos estar no lugar deste discípulo.  Acreditar que Cristo ressuscitou para estar conosco.

Cada domingo, com o Credo, nós também renovamos a nossa profissão de fé na ressurreição de Cristo, acontecimento surpreendente que constitui a chave de volta do cristianismo.  A ressurreição de Jesus é a verdade culminante da nossa fé em Cristo, acreditada e vivida como verdade central pela primeira comunidade cristã, transmitida como fundamental pela Tradição, estabelecida pelos documentos do Novo Testamento, pregada como parte essencial do mistério pascal (cf. CigC 638).

Na Igreja tudo se compreende a partir deste grande mistério, que mudou o curso da história e que se torna atual em cada celebração eucarística. Mas existe um tempo litúrgico no qual esta realidade central da fé cristã, na sua riqueza doutrinal e inexaurível vitalidade, é proposta aos fiéis de modo mais intenso, para que cada vez mais a redescubram e mais fielmente a vivam: é o tempo pascal. Um tempo em que a Igreja revive, em cada celebração, temos a alegria da ressurreição do Cristo Senhor.  Páscoa, é a passagem de Jesus da morte para a vida, na qual se cumprem em plenitude as antigas profecias.

A morte do Senhor demonstra o amor imenso com que Ele nos amou até ao sacrifício por nós; mas só a sua ressurreição é “prova certa”, é certeza de que quanto Ele afirma é verdade que vale também para nós, para todos os tempos. E o Apóstolo São Paulo nos ensina na sua Carta aos Romanos: “Se confessares com a tua boca o Senhor Jesus e creres no teu coração que Deus O ressuscitou do entre os mortos, serás salvo” (Rm 10, 9).

O enfraquecimento da fé na ressurreição de Jesus consequentemente torna-se frágil o testemunho dos crentes. De fato, se faltar na Igreja a fé na ressurreição, tudo desmorona. Ao contrário, a adesão do coração e da mente a Cristo morto e ressuscitado muda a vida e ilumina toda a existência das pessoas. Certamente é a fé na ressurreição que sustentou e deu coragem aos primeiros discípulos e também aos mártires ao longo da história. É o encontro com Jesus ressuscitado que motivou muitos homens e mulheres, que desde o início do cristianismo continuam a deixar tudo para o seguir e colocar a própria vida ao serviço do Evangelho.

Esta verdade marcou também de forma tão profunda na vida dos apóstolos que, após a ressurreição, sentiram novamente a necessidade de continuar propagando os ensinamentos do Mestre e, ao receberem o Espírito Santo, saíram pelo mundo inteiro, para anunciar a todos o que tinham visto com os próprios olhos e experimentaram pessoalmente.  O mesmo pode-se dizer de São Paulo, cuja fé na ressurreição de Cristo o levou a dizer: “Se Cristo não ressuscitou é vã a nossa pregação e vã a nossa fé” (1Cor 15,14).

Podemos dizer aina que a ressurreição de Cristo, e o próprio Cristo Ressuscitado, é princípio e fonte da nossa ressurreição futura: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram… Do mesmo modo que em Adão todos morreram, assim também em Cristo serão todos restituídos à vida” (1Cor 15,20-22).  Cristo verdadeiramente ressuscitou! Não podemos reter somente para nós a vida e a alegria que Ele nos deu na sua Páscoa, mas devemos doá-la a quantos nos são próximos. É o nosso objetivo e a nossa missão.

Na expectativa de que isto se realize, peçamos a intercessão da Virgem Maria, para que possamos progredir sempre mais na fé, agora iluminada pela Ressurreição do Senhor, para que possamos ser para todos os que encontrarmos pelo nosso caminho, mensageiros da verdadeira luz e da alegria da Páscoa.  Assim seja.

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

VI DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Ano A – 2017

Domingo de Ramos

Referência: Mt 26,14-27

Caríssimos irmãos e irmãs

Neste último domingo da quaresma, celebramos o domingo de Ramos e, com ele, temos a abertura da Semana Santa que é a grande semana de fé cristã, o tempo litúrgico mais forte, mais rico em conteúdo e de maior intensidade religiosa de todo o ano cristão, porque nela celebramos os mistérios centrais de nossa fé: a morte e a ressurreição de Cristo.  E a Liturgia nos oferece dois evangelhos: o da entrada de Jesus em Jerusalém (cf. Mt 21,1-11) e o Evangelho em que Jesus é condenado e crucificado no Calvário, no qual contemplamos a paixão e a morte de Jesus.

A entrada de Jesus em Jerusalém é recordada nas igrejas com a bênção dos ramos e a procissão; a leitura da paixão e morte de Cristo ocorre na celebração da missa.  Isso tem uma razão histórica. Em Roma, não havia a Semana Santa. Celebrava-se no sexto domingo da quaresma a Paixão e Morte de Cristo e, no domingo seguinte, a Páscoa do Senhor. Somente no século XI é que a Procissão de Ramos, costume nascido em Jerusalém, chegou a Roma, e esta cerimônia passou a fazer parte da liturgia romana.

Juntamente com os seus discípulos e uma multidão crescente de peregrinos, Jesus sobe da planície da Galileia para a Cidade Santa, onde entra montado em um jumento, ou seja, um animal próprio das pessoas simples do campo, e além disso, um jumento que não lhe pertencia, mas que havia sido emprestado para esta ocasião.  O evangelista São João nos narra que, num primeiro momento, os discípulos não compreenderam esta atitude de Jesus. Apenas posteriormente, após a Páscoa, ao perceber que ele, com sua atitude, estava cumprindo o anúncio dos profetas e as prescrições contidas na Palavra de Deus.  O livro do profeta Zacarias já dizia: “Não temas, Filha de Sião, olha o teu Rei que chega sentado na cria de uma jumenta” (Zc 9,9).

A entrada em Jerusalém é testemunho da herança profética no coração daquele povo que estava a espera do Messias. É, ao mesmo tempo, verificação e confirmação do Evangelho, por Ele anunciado. Como de fato, o Messias devia revelar-se precisamente como tal rei: manso, montado num jumento, no potrinho de uma jumenta.  Com essa entrada de Jesus em Jerusalém, é Ele aclamado pela multidão: “Hosana! Bendito seja o que vem em nome do Senhor” (Mc 11, 9). Esta palavra faz parte do rito da festa dos tabernáculos, durante o qual os fiéis caminham ao redor do altar, tendo nas mãos alguns ramos compostos de palmas, mirtos e salgueiros.

Pois bem, com as palmas nas mãos, as pessoas elevam este clamor diante de Jesus, e o identificam como aquele que vem em nome de Deus. Esta expressão tornou-se, há muito tempo, a designação da chegada do Messias. Com esta aclamação, o povo reconhece que Jesus verdadeiramente vem em nome do Senhor e traz a presença de Deus para junto do homem. Este brado de esperança de Israel, esta aclamação a Jesus durante o seu ingresso em Jerusalém, tornou-se na Igreja exaltação de todos os fiéis para aclamar o Cristo presente na Eucaristia, para uma vez mais, estar conosco.  Neste domingo de Ramos, devemos também reviver, de maneira litúrgica, aquele acontecimento profético. Repetimos as mesmas palavras pronunciadas pela multidão quando Jesus entrou em Jerusalém. Seguramos nas mãos os nossos ramos e aclamamos o Cristo que vem.

E no decorrer da liturgia da Santa Missa, temos ainda o relato da paixão de Jesus, onde são descritos os sofrimentos que culminaram com a sua morte. O Domingo de Ramos é a única ocasião, além da Sexta-Feira Santa, em que se lê o Evangelho da Paixão de Cristo no curso de todo o ano litúrgico. Neste relato, o evangelista São Mateus, em conformidade com a sua narração, vê na paixão de Jesus o caminho do justo sofredor e, ao mesmo tempo, o começo de um novo mundo.

Também o evangelista São Mateus ressalta com insistência em seu evangelho que tudo o que está acontecendo com Jesus foi previsto pelos profetas.  No decorrer da última Ceia, Jesus já havia dito: “O Filho do Homem vai morrer, conforme diz a Escritura a respeito dele” (Mt 26,24).  O mesmo ocorre quando, no Jardim das Oliveiras, no momento em que os guardas se aproximam para prender o Cristo como se fosse um bandido. Neste momento ele diz: “…tudo isto aconteceu para se cumprir o que os profetas escreveram” (Mt 26,56).

Um outro ensinamento apresentado pelo evangelista São Mateus está na não violência, ao narrar a frase de Jesus dirigida a Pedro, que tinha empunhado a espada para defender o seu Mestre: “Guarda a espada na bainha! pois todos os que usam a espada pela espada morrerão” (v. 52). Este acontecimento deixa para nós mais uma lição do Cristo, pois a sua missão é dar a vida pelo irmão e jamais agredi-lo.

Em um mundo que associa às vezes a vingança ou mesmo o ódio e a violência ao nome de Deus, esta é uma mensagem de grande atualidade e de significado muito concreto. Na hora da paixão de Jesus, este amor manifesta-se em toda a sua força. Nos últimos momentos da sua vida terrena, na ceia com os seus amigos, Jesus diz: “Como o Pai me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor… Digo-vos isto para que a minha alegria esteja em vós” (Jo 15,9.11). Jesus quer introduzir os seus discípulos e cada um de nós, pela prática do perdão e do amor, a uma alegria plena.

Neste tempo em que celebramos a caminhada de Jesus Cristo na dor e no sofrimento, possamos também nós nos preparar para celebrar a sua Ressurreição, participar do amor de Deus que redimiu o mundo e iluminou a história. Saibamos viver este tempo precioso reavivando a fé em Jesus Cristo, para entrar no circuito de amor, extensivo a cada irmão que encontramos na nossa vida.

Neste domingo de Ramos, vamos nós também ao encontro de Jesus. Deixemos que ele nos guie, a fim de aprendermos do próprio Deus o modo reto de ser.  É Jesus quem abre o seu coração e nos revela o fulcro de toda a sua mensagem redentora: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Ele mesmo amou até entregar sua vida por nós sobre a cruz.  Também nós devemos seguir esta mesma inspiração. O Senhor conta com cada um de nós e nos chama de amigos. Só aos que se ama desta maneira é capaz de dar a vida proporcionada com sua graça. Tenhamos sempre a alegria de caminhar com Jesus, de estar com Ele e, como Simão de Cirene, o auxiliando a levar a cruz.

Possamos nestes dias participar das celebrações em espírito e devoção.  É um momento propício para avivarmos a fé que dá sentido a nossa vida e assimilarmos os sentimentos próprios de uma união com Jesus Cristo.   Que a Virgem Maria interceda sempre por nós e nos ensine a alegria do encontro com Cristo, o amor com que o devemos contemplar ao pé da cruz, para sermos sempre mensageiros da sua Palavra e da sua paz.  Assim seja.

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

V DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Ano A – 2017

A ressurreição de Lázaro

Referência: Jo 11, 1-45

Caríssimos irmãos e irmãs,

Estamos nos aproximando da Semana Santa e os temas quaresmais cada vez mais nos preparam para viver o mistério pascal de Cristo, que muito em breve celebraremos.  O primeiro milagre realizado por Jesus, como nos narra o Evangelho de São João, foi a mudança da água em vinho, nas bodas de Caná da Galiléia (cf. Jo 2,1-11).  O último milagre, já a caminho da Paixão, foi a ressurreição de Lázaro, texto que a Igreja nos apresenta para este domingo. O fato ocorre em Betânia, uma aldeia que fica nas proximidades de Jerusalém. É neste local que Jesus confirma o seu poder de dar a vida, ressuscitando Lázaro.

O texto do evangelho começa dizendo que Lázaro estava doente e suas irmãs, Marta e Maria, mostrando preocupação e solidariedade, mandam avisar a Jesus. Os mensageiros usam uma linguagem delicada, que revela o afeto entre Jesus e Lázaro: “Senhor, aquele que amas está doente!” (v. 3).  Ouvindo isto, Jesus disse: “Esta doença não leva à morte; ela serve para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela” (v. 4). Jesus era amigo de Marta, de sua irmã Maria e de Lázaro, que parecem ser os únicos membros dessa família. O evangelista São João insiste no grau de parentesco que une os três: são irmãos.

Podemos observar no texto os sinais da solidariedade diante da morte, manifestada pela ação dos amigos e vizinhos, que vão à casa das irmãs para apresentar os sentimentos e fazer lamentações, símbolo do desespero e da angústia pela perda de um membro da família. Temos também a solidariedade de Jesus, que expressa afeto sincero para com o amigo falecido e uma comoção profunda revelada pelas suas lágrimas, sinal de identificação com a dor de Marta, de Maria e dos amigos de Lázaro, como nos relata o texto bíblico: “Quando Jesus a viu chorar, e também os que estavam com ela, estremeceu interiormente, ficou profundamente comovido, e perguntou: ‘Onde o colocastes?’ Responderam: ‘Vem ver, Senhor’. E Jesus chorou” (Jo 11,33-35).

Este vínculo de amizade de Jesus com Lázaro e suas irmãs é reiteradamente recordado em toda a narrativa. O próprio Jesus afirma: “O nosso amigo Lázaro dorme. Mas eu vou acordá-lo” (Jo 11,11).  O sepultamento já havia ocorrido há quatro dias. Na mentalidade judaica, a morte era considerada definitiva a partir do terceiro dia. Quando Jesus chega, a morte de Lázaro está, portanto, consumada. Marta manifesta sua falta de esperança ao dizer que teria sido necessária a presença física de Jesus para evitar a morte de Lázaro: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido” (v. 21).  Em conformidade com a crença daquele tempo, Marta acreditava que seu irmão iria ressuscitar no último dia: “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia” (v. 24).

Por outro lado, esse diálogo revela também o convite que Jesus faz a Marta para que ela possa crescer na fé. Ela precisa deixar suas crenças anteriores sobre a ressurreição para aderir à novidade que Jesus lhe apresenta: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá.  E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?” (v.25s). Jesus se apresenta de uma maneira nova para Marta. Não é preciso esperar até o fim dos tempos para ressuscitar, Jesus é a Ressurreição! E todo aquele que nele crer também ressuscita.  O novo passo na fé de Marta é aderir a Jesus. E ela o faz: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo” (v. 27). A certeza de sua fé foi tão forte, que logo buscou a sua irmã, para que ela também conhecesse a novidade que Jesus trazia.

E Jesus se dirige em seguida ao local onde está Lázaro sepultado e suas irmãs vão com ele, seguidos pelo povo que ali estava. Mas Jesus ainda precisa insistir, pois Marta reluta na hora de retirar a pedra do túmulo: “Senhor, já cheira mal. Está morto há quatro dias” (v. 39).  Ao que Ele responde: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?” (v. 40).  Em seguida, em oração, Jesus se dirige a Deus Pai.

O momento da oração explícita de Jesus ao Pai diante do túmulo constitui a conclusão natural de toda a vicissitude: “Pai, eu te dou graças, porque me ouviste!” (Jo 11,41). Esta frase mostra um vínculo contínuo de comunhão entre Jesus com Deus Pai.  Jesus pronuncia a oração, enquanto retiram a pedra da entrada do túmulo de Lázaro. E a sua oração se desenvolve: “Eu sei que sempre me escutas. Mas digo isto por causa do povo que me rodeia, para que creia que tu me enviaste” (Jo 11,42).

Mediante esta prece, Jesus quer conduzir os seus discípulos à fé e mostrar a todos que Deus amou de tal modo o homem que enviou o seu único Filho para dar a vida a todos (cf. Jo 3,16).  A oração de Jesus constitui um testemunho vivo da presença de Deus no mundo através do Cristo Senhor, que se manifesta pela sua solidariedade a todos os que sofrem e ao mesmo tempo, se identifica com a Ressurreição e a Vida. Ele mesmo disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais” (vv. 25-26). É Deus quem dá a vida, e a oferece a aqueles que acreditam em seu Filho, Jesus Cristo.  E logo depois, diante do túmulo, Jesus grita com voz forte: “Lázaro, vem para fora!” (v. 43). O morto saiu, atado de mãos e pés, com os lençóis mortuários e o rosto coberto com um pano (cf. v. 44).

Uma lição que o evangelho deste domingo nos deixa é que Jesus não elimina a morte física, mas mostra o seu domínio sobre ela. Para quem é amigo de Jesus, a morte física não é mais do que um sono, do qual se acorda para descobrir a vida definitiva.  Usando uma linguagem humana, Jesus compara a morte ao sono (v. 11) e afirma que veio ao mundo para despertar a criatura humana desse sono.  Lázaro, então, se torna o símbolo dos que morrem na amizade de Deus, sempre que o elo dessa amizade seja Jesus, porque só Ele, nos faz passar da morte à vida. Os amigos de Jesus experimentam a morte física como uma passagem para a vida eterna, junto de Deus.  O relato da ressurreição de Lázaro pretende também trazer essa realidade.

Jesus também hoje diz a cada um de nós: “Vem para fora” (v. 43), para que possamos ter vida em abundância (cf. Jo 10,10). Ele nos ordena a sair do túmulo, a sair da escuridão, do lugar que os nossos pecados nos fizeram cair. Mas é o próprio Jesus que nos convida a uma vida nova. A nossa ressurreição começa quando decidimos obedecer este chamado do Senhor que nos exorta a sair das trevas, para encontrarmos a Luz, que é o próprio Cristo Senhor. E a Quaresma é este tempo favorável para a conversão, para sairmos da morte para a vida, ressurgir dos nossos pecados, para estarmos com Deus.

Dando continuidade ao nosso percurso quaresmal, possamos também crescer na fé e repetir como Marta: “Sim, ó Senhor; eu creio que Tu és Cristo, o Filho de Deus” (Jo 11,27). Que saibamos reconhecer esta verdade, fortalecidos na esperança, revigorada a cada dia, especialmente nos momentos mais difíceis e de maior provação. Assim seja.

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

IV DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Ano A – 2017

 A cura do cego de nascença

Referência: Jo 9,1-41                                                       

Caríssimos irmãos e irmãs

Neste dia em que a liturgia nos convida à alegria, enquanto continuamos o nosso itinerário penitencial da quaresma, lancemos o nosso olhar para a narração do Evangelho que nos mostra a cura do cego de nascença (Jo 9,1-41). O milagre narrado pelo evangelista São João, onde mostra a história de um homem que, pelas mãos de Jesus, vai passando das trevas de sua cegueira física para a visão ocular da luz, e desta, para a iluminação da fé em Cristo.

Inicialmente podemos lembrar que os “cegos” faziam parte do grupo dos excluídos da sociedade palestina de então. As deficiências físicas eram consideradas, de acordo com a teologia oficial, como resultado do pecado. Os rabinos da época chegavam a discutir de onde vinha o pecado de alguém que nascia com uma deficiência: se o defeito era o resultado de um pecado dos pais, ou se era o resultado de um pecado cometido pela criança ainda no ventre da mãe.

Segundo a concepção da época, Deus castigava de acordo com a gravidade da culpa. A cegueira era considerada o resultado de um pecado especialmente grave: uma doença que impedisse o homem de estudar a Lei era considerada uma maldição de Deus por excelência. Pela sua condição de impureza notória, os cegos eram impedidos de servir de testemunhas no tribunal e de participar nas cerimônias religiosas no Templo.

Jesus rejeita esta teoria e afirma: “Nem ele, nem seus pais pecaram” (Jo 9,3). Diante do homem marcado por sua limitação e pelo sofrimento, Jesus não pensa em possíveis culpas, mas na bondade de Deus que criou o homem para a vida.  Jesus aproveita esta ocasião para mostrar que a missão que o Pai lhe confiou é a de ser “a luz do mundo” e encher de luz a vida dos que vivem nas trevas. No texto vemos ainda que Jesus passa das palavras aos atos e prepara-se para restituir a vista ao cego (v. 6-7), começando por cuspir no chão, fazer lodo com a saliva e ungir com esse lodo os olhos do cego. O gesto de fazer lodo reproduz, evidentemente, o gesto criador de Deus, que do barro, modelou o homem (cf. Gn 2,7).  A saliva transmitia a própria força ou energia vital, equivalente ao sopro de Deus, que deu vida a Adão (cf. Gn 2,7). Assim, Jesus juntou ao barro a sua própria energia vital, repetindo o gesto criador de Deus. A missão de Jesus é criar um homem novo, animado pelo Espírito de Jesus. No entanto, a cura não é imediata: requer-se a cooperação do enfermo. “Vai lavar-te na piscina de Siloé”; diz Jesus ao cego.

A palavra “siloé” vem do hebraico e significa “enviado”.  O cego, para recuperar a visão deve lavar-se, por ordem de Jesus, na piscina chamada “enviado” e, com isto, o homem começa a ver.  A humanidade, para poder “ver” as obras de Deus precisa também banhar-se no “enviado do Pai” que é o próprio Jesus.  A fé, a aceitação de Cristo como o enviado do Pai e Salvador, abre nossa vida para uma nova visão de Deus e do mundo.

O evangelista São João tem o cuidado de explicar que “Siloé” significa “enviado”, o que parece ser uma alusão à água de Jesus, o enviado do Pai. Essa água que torna os homens novos, livres das trevas; água que traz a vida, como disse à mulher samaritana (cf. Jo 4,5-42).  Mas é pelo sacramento do batismo que saímos das trevas para viver na luz, como homens novos.  Jesus, ao enviar o jovem cego à piscina de Siloé, quer mostrar que os olhos da fé começam a se abrir através do Batismo, quando recebemos precisamente o dom da fé.  Por isso, na antiguidade o batismo se chamava também “iluminação”, e receber o batismo é ser iluminado.

A imagem do cego, dependente e inválido, transformado em homem livre e independente, leva os seus concidadãos a interrogar-se. Essa cura suscita uma discussão, pois Jesus a realiza no dia de sábado, violando, segundo os fariseus, o preceito festivo. Deste modo, ao final da narração, Jesus e o cego são expulsos da sinagoga pelos fariseus: um por ter violado a lei e o outro porque, apesar da cura, é identificado como pecador de nascença.

O caminho do cego no campo da fé é feito por etapas, que começa com o conhecimento do nome de Jesus: “Aquele homem que se chama Jesus fez lodo e ungiu-me os olhos” (v. 11). Posteriormente, mediante as perguntas insistentes dos doutores da lei, passa ele a identificar Jesus como um profeta (v. 17) e, em seguida, um homem que está próximo de Deus (v. 31). Depois de ter sido afastado do Templo, excluído da sociedade, Jesus encontra novamente com o homem que era cego e novamente abre os seus olhos, desta vez para a fé, revelando a sua própria identidade: “Eu sou o Messias”, assim lhe diz. Nesta altura, aquele que era cego exclama: “Creio, Senhor!”, e prostra-se diante de Jesus (v. 38).

Em oposição à fé do cego curado está o endurecimento do coração dos fariseus que não querem aceitar o milagre, porque rejeitam acolher Jesus como o Messias. A multidão, ao contrário, detém-se a discutir sobre o que aconteceu e permanece distante e indiferente. Os próprios pais do cego sentem-se amedrontados pelo juízo dos outros.

A imagem da “luz” e das “trevas”, utilizada no texto, aparecia frequentemente na catequese primitiva. Para o apóstolo Paulo, viver nas “trevas” é viver longe de Deus; ao passo que viver na “luz” é acolher o dom da salvação que Deus oferece, aceitar a vida nova que Ele propõe, tornar-se “filho de Deus”. Os cristãos são aqueles que escolheram viver na “luz” (cf. Ef 5,8-14).  Mais ainda: o cristão não é só chamado a viver na “luz”, mas também a dar testemunho da “luz”.

Também nós, por causa do pecado original nascemos “cegos”, mas na pia batismal fomos iluminados pela graça de Cristo. No rito do Batismo, a entrega da vela, acesa no grande círio pascal, símbolo de Cristo Ressuscitado, é um sinal que ajuda a compreender o que acontece quando recebemos este sacramento.

Hoje, somos convidados a abrir-nos à luz de Cristo para dar fruto na nossa vida. Somos chamados para caminhar decididamente pela vereda da santidade. Ela tem a sua origem no Batismo. Também nós fomos iluminados por Cristo no Batismo, para podermos ser como “filhos da luz” (Ef 5, 8), com humildade, paciência e misericórdia. Nestes dias em que estamos nos preparando para a Páscoa reavivemos em nós o dom recebido no Batismo.

Este encontro de Jesus com o cego de nascença, o fez adquirir tanto a visão física quanto a visão da fé.  Tendo sido procurado por Jesus, e dando-se conta de tratar-se do Messias, prostrou-se diante dele, fazendo sua confissão de fé:  “Eu creio, Senhor!”.  Peçamos também nós ao Senhor que nos cure da cegueira pessoal e da cegueira espiritual, para que possamos abrir os nossos olhos à luz dos valores evangélicos: a vida e o amor, o trabalho e a justiça, a convivência e a solidariedade com os irmãos, para renovarmos assim nossa opção batismal.

Deixemos que o Senhor Jesus também nos cure, Ele que deseja dar a cada um de nós a luz de Deus!  Estejamos também conscientes da nossa cegueira, das nossas miopias, que nos impedem de tomar consciência do nosso próprio pecado (cf. Sl 18,14).  Possamos abrir o nosso coração à luz do Senhor. Confiemos à Virgem Maria o caminho quaresmal que estamos percorrendo neste dias, para que também nós, como o cego curado, com a graça de Cristo, possamos progredir rumo à Luz, que é o próprio Cristo, e renascer para uma vida nova. Assim seja.

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

III DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Ano A – 2017

Jesus e a samaritana

Referência: JÓ 4,5-42

Meus caros irmãos e irmãs,

Para este domingo o texto evangélico nos apresenta o encontro de Jesus com a samaritana. O diálogo começa com o pedido de Jesus à mulher da Samaria: “Dá-me de beber” (Jo 4,5-7). Com um simples pedido de um pouco de água, ao meio-dia, inicia-se um caminho interior da samaritana, que irá culminar com a sua conversão.

O encontro de Jesus com a samaritana ocorre junto ao poço de Jacó. Trata-se de um poço estreito, aberto na rocha calcária e cuja profundidade ultrapassa os 30 metros. Segundo a tradição, teria sido aberto pelo patriarca Jacó.  Os dados arqueológicos revelam que este poço de Jacó serviu aos samaritanos entre o ano 1000 a.C. e o ano 500 d.C.

Junto a esse “poço” movimentam-se os personagens principais: Jesus e a samaritana.  A mulher aqui apresentada sem o nome próprio, pode estar se referindo à Samaria, que procura desesperadamente a água que é capaz de matar a sua sede de vida plena.  A samaritana não tem nome, mas certamente vários nomes lhe foram impostos por ter tido cinco maridos e conviver com o sexto, que não é seu marido e, apesar disso, continuar com sede da água que só Jesus, esposo da humanidade, pode dar.  Ela se aproxima, em um dia ensolarado, para buscar água. Ela não tem nome porque é a própria humanidade que está procurando, no sufoco do calor, algo que sacie de uma vez por todas sua sede.

Quando Jesus diz: “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva” (Jo 4,10).  Aquela mulher começa a interessar-se por essa água misteriosa. Mas, inicialmente, ela fica confusa. Parece disposta a remediar a situação de falência de felicidade que caracteriza a sua vida, mas ainda não sabe bem como.

É aqui que entra a novidade de Jesus. Ele senta-se “junto do poço”, como se pretendesse ocupar o seu lugar; e propõe à samaritana uma “água viva”, que matará definitivamente a sua sede de vida eterna (vv. 10-14). Jesus passa a ser o “novo poço”, onde todos os que têm sede de vida plena encontrarão resposta para a sua sede.  Sentando junto ao poço, Jesus se dá a conhecer como a fonte da qual a humanidade inteira bebe. A partir de agora não se deve mais beber água da Lei ou das instituições, porque foram superadas pela fonte de água viva que é Jesus.

No Antigo Testamento a água da fonte, água viva, simbolizava a vida espiritual que Deus dispensa (cf. Ez 47,1ss), mas também simbolizava a Lei como fonte de vida (cf. Eclo 15,1-3). No Novo Testamento o evangelista São João identifica a água com o dom do Espírito Santo (cf. Jo 7,37-39).  Em Cristo nós temos a fonte de todos os dons que podemos esperar do Pai. Na cruz, Cristo jorrou sangue e água no momento em que seu peito foi perfurado (cf. Jo 19,34). E Jesus mesmo chegou a afirmar que aquele que nele crê, nele terá como beber, pois do seio de Jesus sairão rios de água viva (cf. Jo 7,38).

Jesus está com sede, mas quem acaba pedindo água é a mulher, pois ele tem a água capaz de saciar para sempre a sede de todos: ‘Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva.  Quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna”(Jo Jo, 4,10.14).

A água que Jesus dá é o Espírito Santo, a força que vem de dentro e jorra para a vida eterna. A mulher e a humanidade tem sede dessa água e, por isso, pede: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la” (Jo 14,15).

A mulher da Samaria responde à proposta de Jesus abandonando o cântaro, que passa a ser inútil, e correndo, vai anunciar aos habitantes da cidade o desafio que Jesus lhe fez.  Atentemos no pormenor do “cântaro” abandonado pela samaritana, depois de se encontrar com Jesus.  O “cântaro” significa e representa tudo aquilo que nos dá acesso a essas propostas limitadas, falíveis e incompletas de felicidade. O abandono do “cântaro” significa o romper com todos os esquemas de procura de felicidade falsa, para abraçar a verdadeira e única proposta de vida plena.

O vínculo com Jesus transforma completamente a vida daquela mulher, que corre imediatamente a comunicar a boa nova ao povo da aldeia vizinha: “Vinde ver um homem que me disse tudo quanto fiz. Não será ele o Messias?” (Jo 4,29). A revelação de Jesus, acolhida com fé, torna-se palavra proclamada ao próximo e testemunhada através das escolhas concretas de vida. Eis a missão dos crentes, que nasce e se desenvolve a partir do encontro pessoal com o Senhor.

A samaritana, depois de encontrar o Cristo que lhe traz a água que mata a sua sede de felicidade, não limitou em guardar para si a descoberta; mas partiu para a cidade, a propor aos seus concidadãos a verdade que tinha encontrado.  Por fim, ela contou a todos a respeito de Jesus, o que resultou em um reavivamento religioso junto aos samaritanos. Aquela mulher acreditou em Jesus. Encontrou a água que mata a sede. E vai levá-la aos outros, aos seus conterrâneos.

No diálogo entre Jesus e a Samaritana vemos traçado o percurso espiritual ao qual somos chamados a redescobrir e a percorrer constantemente. Jesus quer nos levar, como fez com a Samaritana, a professar a fé em sua pessoa e depois, anunciar e testemunhar aos nossos irmãos a alegria desse encontro e as maravilhas que o seu amor realiza na nossa existência. A fé nasce do encontro com Jesus, reconhecido e acolhido como o Salvador. Quando o Senhor conquista o coração da samaritana, a sua existência se transforma e ela vai imediatamente sem hesitações comunicar a boa nova ao seu povo (cf. Jo 4,29).  Quando encontramos o Cristo sentimos necessidade e urgência de levá-lo também a todos os que nos rodeiam.

Chama a nossa atenção o caminho de conversão da samaritana. De pecadora a apóstola! Do fundo da miséria moral da sua vida, ela subiu em poucos momentos para as alturas da fé e do zelo em propagar o nome de Jesus.  Afinal, ela entendera e acolhera o dom de Deus.  Seu coração se abriu para as riquezas do Espírito Santo.  Que também nós possamos, a exemplo da samaritana, ser sinal do encontro do homem sedento para com Deus, que tanto quer a nossa conversão.

Abramos também nós, o coração à escuta da palavra de Deus para encontrar, como a samaritana, esse Jesus que nos revela seu amor e a sua identidade. Que a Virgem de Nazaré interceda sempre por nós, para que possamos obter este dom e sermos também anunciadores da boa nova que Cristo trouxe ao mundo. Assim seja.

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

II DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Ano A – 2017

 A transfiguração do Senhor

Referência: Mt 17,1-9

Caríssimos irmãos e irmãs

Neste domingo, juntamente com o Apóstolo São Pedro podemos dizer: “É bom estarmos aqui” (Mt 17,4), reunidos junto do altar do Senhor para celebrarmos a Santa Eucaristia, enquanto prosseguimos a peregrinação quaresmal para a Páscoa. E neste segundo domingo da quaresma também nós somos convidados a subir ao Monte Tabor, a fim de meditar acerca da sugestiva narração da transfiguração de Jesus.

O texto evangélico começa dizendo que “Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E foi transfigurado diante deles” (Mt 17,1s). Na Sagrada Escritura, a montanha representa o lugar da proximidade com Deus e do encontro íntimo com ele pela oração.

Recordemos também que em um outro monte, o Sinai, Moisés recebeu os dez Mandamentos. Além disso, ainda sobre este monte, Elias recebeu de Deus a revelação divina de uma missão a cumprir. E no fim da vida, Moisés foi agraciado com a promessa de que Deus suscitaria um profeta maior do que ele, cumprindo as esperanças não realizadas no Antigo Testamento: “O Senhor, teu Deus, te suscitará dentre os teus irmãos um profeta como eu: é a ele que devereis ouvir” (Dt 18,15).

Jesus é então apresentado a Pedro, Tiago e João como o grande profeta, o novo Moisés, como aquele que dá ao novo povo, na pessoa dos três discípulos, a nova lei, a revelação definitiva de Deus e é nele que toda a lei deve ser cumprida. A nuvem que se formou e os encobriu, demonstra que a voz que fala é divina.  Também Moisés tinha estado nesta montanha, como podemos ler no livro do Êxodo: “A nuvem cobriu o monte e a glória do Senhor repousou sobre o monte Sinai, que ficou envolvido na nuvem durante seis dias” (Ex 24,15s). Era o sinal de Deus que acompanhava seu povo.  Quando Moisés recebeu a lei, também a montanha foi envolvida numa nuvem, o que indicava a presença de Deus (cf. Ex 24,15s).

A finalidade desta transfiguração foi encorajar os discípulos para que não se deixassem vencer pelas provações que viriam em breve, com a paixão e morte de Cristo, por isto, a transfiguração de Jesus ocupa, nos evangelhos, lugar de especial importância, pois prepara os apóstolos para enfrentarem os dramáticos eventos do calvário, apresentando-lhes, com antecipação, aquela que será a plena e definitiva revelação da glória do Senhor no mistério pascal. Por isto, mediante este acontecimento, os discípulos são preparados para superar a terrível prova da paixão e compreender o mistério pascal de Cristo. Ao meditarmos esta página evangélica, preparamo-nos para reviver, também nós, os eventos decisivos da morte e ressurreição do Senhor, seguindo-o no caminho da cruz para chegarmos à luz e à glória.

Na transfiguração não é Jesus que recebe a revelação de Deus, mas é precisamente nele que Deus se revela e revela o seu rosto aos apóstolos. Portanto, quem quer conhecer Deus, deve contemplar o rosto de Jesus, o seu rosto transfigurado: Jesus é a revelação perfeita da santidade e da misericórdia do Pai.

Podemos dizer ainda que a transfiguração é uma revelação da pessoa de Jesus, da sua profunda realidade. Com efeito, as testemunhas oculares de tal acontecimento, ou seja, os três apóstolos foram envolvidos por uma nuvem luminosa, que na Sagrada Escritura anuncia sempre a presença de Deus, e ouviram uma voz que dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!” (v.5).  Este premente apelo a escutar o Cristo é um convite a deixar que a luz de Cristo ilumine a nossa vida e nos conceda a força para anunciarmos e testemunharmos o evangelho a todos. É um empenho que comporta, às vezes, não poucas dificuldades e sofrimentos.

Outras passagens da Sagrada Escritura também nos convidam a ouvir, a escutar a voz do Senhor, como, por exemplo, a parábola do Bom Pastor (cf. Jo 10,1-18), que mostra a relação entre escutar, crer e obedecer.  As ovelhas escutam a voz do Bom Pastor e ele caminha à frente e elas o seguem. Nesta parábola  Jesus diz que as ovelhas escutam a sua voz, mas escutar, seguir e conhecer Cristo é também acreditar.  Conhecer a voz de Cristo é identificar-se com sua mensagem, identificá-la e senti-la como própria.

Neste sentido, o Bom Pastor não é somente o modelo e exemplo de todos os pastores, mas é modelo e exemplo de todos os que crêem e querem obedecer a Deus.  Existe ainda um texto importante para compreender as exigências do escutar, que se encontra em 1Sm 3,10: “Fala, Senhor, teu servo escuta”.  Esta resposta do jovem Samuel contém em si a atitude da completa atenção, a atitude que corresponde a uma obediência total à Palavra de Deus.

E na primeira leitura temos a exortação do Senhor feita a Abraão: “Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar. Farei de ti um grande povo e te abençoarei…” (Gn 12,1s). Com a vocação de Abraão Deus intervém no decurso da história para formar para si um povo, através do qual a salvação atingiu todos os homens. E Abraão torna-se o modelo e o exemplo do crente que soube escutar e que soube obedecer.  Chamado por Deus, ele deixa a própria terra, com todas as seguranças que comporta, sustentado apenas pela fé e pela obediência confiante ao seu Senhor. Abraão confia em Deus. Ele ouve a palavra de Deus e a coloca em prática.

Deus pede também a Abraão que sacrifique o seu filho, dizendo: “Toma o teu filho, o teu único filho Isaac, a quem amas, vai à terra de Moriá e oferece-o lá em holocausto, sobre uma montanha que eu te vou indicar” (Gn 22,2). Abraão dispõe-se a obedecer à ordem de Deus. Mas quando chegou o momento de sacrificar o seu filho, o Senhor se manifesta por meio de um anjo, que diz: “Não estendas a mão contra o menino! Não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus, pois não me recusaste o teu filho único” (Gn 22,12).

Precisamente em virtude do extraordinário testemunho de fé, oferecido naquela circunstância, Abraão obtém a promessa de uma numerosa descendência: “Por meio da tua descendência, todas as nações da terra serão abençoadas, porque me obedeceste” (Gn 22,18). Graças à sua confiança incondicionada na Palavra de Deus, Abraão torna-se o pai de todos os crentes.

Também o Senhor Deus “não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós” (Rm 8,32). Abraão com a sua disponibilidade a imolar o seu filho Isaac, prenuncia o sacrifício de Cristo para a salvação do mundo. A execução efetiva do sacrifício, que foi poupada a Abraão, irá ocorrer com Jesus Cristo. Ele mesmo informa os apóstolos, ao descer do monte da Transfiguração, para que não comentem nada do que viram, antes do Filho do homem ressuscitar dos mortos. O evangelista São Marcos acrescenta: “Eles observaram a recomendação” (Mc 9,10).

Seguindo o exemplo de Abraão também nós devemos prosseguir o nosso caminho quaresmal, renunciando a nossa vontade própria, para escutar a voz do Senhor, manifestada através de Jesus Cristo. Que saibamos permanecer em constante escuta da Palavra de Deus e que possamos ser capazes de realizar gestos de solidariedade, de paz e de perdão.  Para ouvir Jesus, precisamos estar próximos dele, segui-lo, como fez também a Virgem Maria, que acompanhou o seu filho Jesus até à cruz. Que ela interceda por cada um de nós, para que possamos ser os discípulos fiéis de Cristo, escutando e colocando em prática todos os seus ensinamentos. Assim seja.

 

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

I DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – Ano A – 2017

A tentação no deserto

Referência: Mt 4,1-11

Caríssimos irmãos e irmãs

Na última quarta-feira, com o rito da imposição das cinzas iniciamos o itinerário penitencial da quaresma. As cinzas nos lembram a fragilidade de cada homem e, ao mesmo tempo, nos orientam a olhar para o Cristo que, com a sua morte e ressurreição, resgatou o homem da escravidão do pecado e do erro. A quaresma é um caminho de quarenta dias que nos levará ao Tríduo Pascal, onde celebraremos a memória da paixão, morte e ressurreição do Senhor.

Com efeito, quarenta é o número simbólico com que o Antigo e o Novo Testamento representam os momentos salientes da experiência da fé do Povo de Deus. Trata-se de um número que exprime o tempo da expectativa, da purificação, do regresso ao Senhor e da consciência de que Deus é fiel às suas promessas. Este número não representa um tempo cronológico exato, cadenciado pela soma dos dias. Mas, indica uma perseverança paciente, uma prova longa, um período suficiente para ver as obras de Deus. É o tempo das decisões maduras e sábias.

O número quarenta aparece antes de tudo na história de Noé que, devido ao dilúvio, permanece quarenta dias e quarenta noites na arca, juntamente com a sua família e com os animais que Deus lhe tinha dito que levasse consigo. E espera outros quarenta dias, depois do dilúvio, antes de tocar na terra firme (cf. Gn 7,4.12; 8,6). Também por quarenta dias e por quarenta noites, em jejum, Moisés permanece no monte Sinai, na presença do Senhor para receber a Lei (cf. Ex 24,18).

E ainda quarenta são os anos de viagem do povo judeu da terra do Egito para a Terra prometida, tempo propício para experimentar a fidelidade de Deus. O profeta Elias emprega quarenta dias para chegar ao Horeb, o monte onde se encontra com Deus (cf. 1Rs 19,8). Quarenta são os dias durante os quais os cidadãos de Nínive fazem penitência para obter o perdão de Deus (cf. Gn 3,4). Quarenta são também os anos dos reinos de Saul (cf. At 13,21), de Davi (cf. 2Sm 5,4-5) e de Salomão (cf. 1Rs 11,41), os três primeiros reis de Israel. O livro dos Atos dos Apóstolos nos diz que Jesus, depois da sua ressurreição, durante 40 dias, apareceu aos discípulos (cf. At 1,3). E antes de começar a vida pública, Jesus retira-se no deserto por quarenta dias, sem comer nem beber (cf. Mt 4,2), alimenta-se da Palavra de Deus, que utiliza como arma para derrotar o diabo. As tentações de Jesus evocam as que o povo judeu enfrentou no deserto, mas que não soube vencer.

Com este recorrente número quarenta é descrito um contexto espiritual que permanece atual e válido, e a Igreja, precisamente mediante os dias do período quaresmal, tenciona conservar o seu valor perdurável e fazer com que a sua eficácia esteja presente. A liturgia cristã da Quaresma tem a finalidade de favorecer um caminho de renovação espiritual, à luz desta longa experiência bíblica e, sobretudo, para aprender a imitar Jesus, que nos quarenta dias transcorridos no deserto, ensinou a vencer a tentação tendo como base a Palavra de Deus.

Neste tempo quaresmal, somos chamados a enfrentar o mal e a lutar contra os seus efeitos. A este propósito ressoa para nós o exemplo do próprio Cristo que a Liturgia da Palavra nos convida a meditar neste primeiro domingo da quaresma, ao nos propor a página evangélica que nos fala das tentações de Jesus no deserto (cf. Mt 4,1-11).

Com este relato evangélico temos o exemplo que Jesus deixa para nós, na tentativa de vencer o mal, o maligno. A cena das tentações antecede a vida pública de Jesus, segue-se imediatamente ao seu batismo (cf. Mt 3,13-17). Com isto, podemos observar que após receber o batismo e o Espírito Santo, será possível afrontar e vencer a tentação e o mal.

O texto nos diz que as tentações ocorreram no deserto: “O Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo.” (Mt 4,1). O deserto, de acordo com o imaginário judaico, é o lugar onde os israelitas experimentaram, por diversas vezes, a tentação do abandono do Senhor; embora seja, também, o lugar do encontro com Deus e o lugar onde o povo fez a experiência da sua fragilidade e pequenez e aprendeu a confiar na bondade e no amor de Deus.

O deserto é ainda o lugar do silêncio, da pobreza, da solidão, onde o homem permanece desprovido de uma ajuda material, sendo ameaçado pela morte, pois onde não há água também não há vida, e onde o homem sente mais intensa a tentação. Jesus vai ao deserto, e ali padece a tentação de deixar o caminho indicado pelo Pai para seguir uma outra direção, mais cômoda e de poder.

A perícope evangélica apresentada por São Mateus ressalta as opções de Jesus em três momentos. Inicialmente, o tentador sugere a Jesus que transforme as pedras em pão (v.3). O pão é um alimento essencial à vida, no entanto, Jesus responde: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (v. 4). A resposta de Jesus está em conformidade com Dt 8,3 e sugere que o seu alimento, isto é, a sua prioridade é o cumprimento da vontade do Pai.

A segunda tentação apresentada pelo evangelho nos fala da soberba da vida (v.5-7), e o tentador usa uma passagem bíblica (cf. Sl 91,11s), mas novamente o Senhor Jesus respondeu com uma outra passagem da Sagrada Escritura (cf. Dt 6,16), afirmando que seria errado abusar de Seus próprios poderes: “Não tentarás o Senhor teu Deus!” (v. 7).

Na terceira tentação Satanás diz a Jesus: “Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar” (Mt 4,9). Todo prazer, toda honra, satanás quer dar ao homem, desde que entregue a ele a sua alma, perdendo para sempre a comunhão com Deus. É a forma mais radical da tentação. Todo pecado tem algo disso em si: querer possuir uma felicidade, que não se responsabilize nem diante dos outros, nem diante de Deus.  Jesus nos mostra o único caminho: “Vai-te, Satanás… Adorarás somente ao Senhor teu Deus!” (Mt 4,10).

As três tentações apresentadas não são mais do que três faces de uma única tentação: a tentação de prescindir de Deus, de escolher um caminho que difere do projeto de Deus. Ao longo da sua vida, diante das diversas provocações que os adversários lhe lançam, Jesus vai confirmar esta sua total fidelidade à vontade de Deus.

E neste tempo quaresmal a Igreja nos indica os meios adequados para o combate quotidiano das sugestões do mal, são eles: a oração, os sacramentos, a penitência, a escuta atenta da Palavra de Deus, a vigilância e o jejum.  Também este é um ensinamento fundamental para nós: se trouxermos na mente e no coração a Palavra de Deus, poderemos rejeitar qualquer gênero de engano do tentador.

E a quaresma é um tempo em que devemos ouvir com mais atenção a voz de Deus, para vencer as tentações do Maligno e encontrar a verdade do nosso ser. Um tempo para estarmos mais próximos de Deus, usando as armas da fé.

Ao longo desta quaresma, por várias vezes seremos exortados à conversão, que significa seguir Jesus de modo que o seu Evangelho seja um guia de vida. Deixar que Deus nos transforme significa reconhecer que somos criaturas que quotidianamente dependemos de Deus e do seu amor.  Por isto, devemos renovar o nosso compromisso de direcionar os nossos passos no caminho de uma conversão concreta e decisiva. E, para isto, invoquemos a assistência maternal de Nossa Senhora, para que, neste caminho quaresmal, possamos obter copiosos frutos de conversão. Assim seja.

 

 

Dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ