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XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Parábola do rico e do pobre Lázaro

Lc 16,19-31

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo nos propõe refletir sobre a parábola do rico e do pobre Lázaro. Trata-se de um texto dirigido a alguns fariseus, como representantes daqueles que amam o dinheiro e vivem só em função dele. Jesus ressalta nesta parábola a vida de dois homens; um vive luxuosamente e realiza todos os dias grandes festas, enquanto o outro, com o nome de Lázaro, está na miséria, tem fome e encontra-se doente. No entanto, com a morte de ambos, a sorte se transforma radicalmente. Quando morreu o rico, foi para um lugar de tormentos, enquanto que Lázaro foi “levado pelos anjos ao seio de Abraão”.

O texto da parábola não diz como foi a vida de Lázaro. Não sinaliza se ele cometeu más ações ou se foi um modelo de virtudes; se trabalhava duramente ou se foi um homem acomodado e que nada quis fazer para mudar a sua triste situação. A parábola não diz se Lázaro foi um homem humilde e educado, se frequentava a Sinagoga para rezar, se foi um trabalhador exemplar e quais os motivos o levaram à pobreza extrema. Não encontramos referências às ações boas ou más praticadas pelos personagens.

O outro personagem é apresentado como “um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias” (v. 19). O único pecado do rico parece ter sido o de viver somente para si. O rico personifica o uso inadequado da riqueza. O luxo desenfreado ocupa um lugar de destaque na parábola; o importante para ele era isto. O texto da parábola mostra que o rico pensa unicamente em satisfazer-se a si mesmo, sem se preocupar minimamente com o mendigo que está à sua porta.

Ele foi incapaz de enxergar Lázaro, pobre e cheio de feridas, que estava à sua porta. A narrativa nos diz que Lázaro “queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas” (v. 21). Quando Abraão nega ao rico uma gota de água, não o repreende por alguma falta. Limita-se a lembrá-lo que ele foi rico e que na terra teve muitos prazeres, ao passo que Lázaro sofreu. Não explica o motivo da inversão da posição de ambos após a morte.

O pobre representa a pessoa da qual só Deus se ocupa: em contraposição ao rico, ele tem um nome, Lázaro, abreviação de “Eleazaro”, que significa precisamente “Deus ajuda”. Mesmo sendo esquecido por todos, Deus não o esquece; quem não tem valor aos olhos dos homens é precioso aos do Senhor. Não deixa de ser impressionante que Jesus chame o pobre pelo nome, mas ignore o nome do rico! Esta é a única parábola em que Jesus dá um nome a um dos protagonistas. O rico é descrito com todo o aparato que o rodeava: vestes luxuosas, festas esplêndidas e quotidianas. Mas não tem nome, ele é apenas “o rico”. Isto mostra que o dinheiro, quando passa a ser o centro da nossa vida, quando se apodera de nós, pode nos dominar e fazer com que percamos a própria identidade.

A narração do texto mostra como a iniquidade terrena é invertida pela justiça divina; depois da morte, Lázaro é acolhido “no seio de Abraão”, isto é, Lázaro estava à sua direita, lugar de honra no banquete celeste. Em conformidade com o imaginário judaico, os eleitos se juntarão com os patriarcas e profetas. O rico, por sua vez, termina “no inferno entre os tormentos” (v. 23). Trata-se de um alerta a todos nós, pois é durante a nossa peregrinação neste mundo que devemos corrigir os nossos atos, não é possível fazê-lo após a morte.

Esta parábola também nos faz lembrar do texto das bem-aventuranças de Lc 6,20-26, onde Jesus ressalta: “Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus. Felizes vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados…” (Lc 6,20-21). Não podemos do mesmo modo esquecer também de uma outra admoestação do Senhor, referindo-se ao momento do juízo final: “Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25,40).

A parábola nos faz lembrar a comunidade dos primeiros cristãos, quando não havia entre eles nenhum necessitado, pois eram “um só coração e uma só alma”; souberam construir uma verdadeira fraternidade (cf. At 4,32ss). Realizavam aquela partilha que falta na parábola: os que possuíam terras ou casas, vendiam e traziam o dinheiro e o colocava aos pés dos apóstolos; e distribuía-se a cada um, segundo a necessidade de cada um (cf. At 4,34-35).

Nesta história, Jesus ensina que não somos donos dos bens que Deus colocou em nossas mãos, ainda que os tenhamos adquirido de forma legítima: somos apenas administradores, encarregados de partilhar aquilo que pertence a todos. Esquecer isto é viver de forma egoísta. O pecado do rico foi não ter visto Lázaro, a quem poderia ajudar, ele demonstrou sofrer de uma forte cegueira, porque não consegue olhar para além do seu mundo, feito de banquetes e roupa fina. Na verdade, o rico não utilizou os seus bens conforme o desígnio de Deus.

O pobre Lázaro é vítima do pecado do rico que não lhe deu atenção, que não o viu. Aliás, parece ter sido ele ignorado por todos. Temos aqui uma descrição muito realista do que são muitas vezes as nossas relações. Somos normalmente indiferentes aos sofrimentos dos outros. A indiferença é verdadeiramente um pecado que pode matar. Nomeando o pobre Lázaro, Jesus nos faz recordar que para Deus cada ser humano é visto como único. Jesus veio compensar o olhar vazio e anônimo do rico. O que se reprova no rico da parábola é isto: não ter tido compaixão e amor para com o pobre que estava à sua porta, a cada dia morrendo aos poucos, sendo corroído pela fome.

Mas a mensagem da parábola vai além: recorda que, enquanto estivermos neste mundo, devemos ouvir o Senhor que nos fala mediante a Sagrada Escritura e viver segundo a sua vontade. Portanto, esta parábola nos ensina que o nosso destino eterno está condicionado pela nossa atitude. Compete a nós seguir o caminho que Deus nos mostrou para alcançar a vida, e este caminho é o amor, entendido como serviço aos outros, na caridade de Cristo, como fizeram inúmeros santos e, dentre tantos, podemos mencionar São Vicente de Paulo, que estimulado pelo amor a Cristo, organizou formas estáveis de serviço aos mais pobres, aos doentes e aos necessitados. E como também não mencionar Santa Teresa de Calcutá, a missionária da caridade, que tanto trabalhou pela causa dos pobres.

Neste mês de setembro, celebramos o mês da Bíblia e a parábola também insiste em nos mostrar que a Sagrada Escritura nos aponta o caminho seguro para que possamos assumir a atitude correta em relação aos bens que possuímos. O rico ficou surdo às interpelações da Palavra de Deus: ele não se deixou transformar por ela. Até mesmo os milagres são inúteis, quando o homem não acolhe no seu coração os ensinamentos do Senhor. Só a Palavra de Deus pode fazer com que o homem corrija seus erros, saia do seu egoísmo, aprenda a amar e a partilhar.

O texto da parábola conclui com a atenção dirigida aos cinco irmãos, que ficaram em casa. Nós somos, em certo sentido, esses cinco irmãos. A nós agora foi enviado “alguém que ressuscitou dos mortos”. Deus nos enviou o seu filho Jesus Cristo em pessoa e nos mostrou o caminho da salvação.

Possamos pedir ao Senhor que venha em nosso auxílio e nos faça colocar em prática os seus ensinamentos e sermos mais atentos aos irmãos mais necessitados, a partilhar com eles o muito ou o pouco que temos e a difundir no mundo o valor e a importância da solidariedade autêntica, para que juntos cheguemos um dia à glória da vida eterna. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Parábola do administrador infiel

Lc 16,1-13

Caríssimos irmãos e irmãs,

No Evangelho deste domingo Jesus nos conta uma parábola que nos fala de um homem rico, que tinha um administrador acusado de ser desonesto, porque dissipava os bens de seu patrão. Por isso, o patrão planeja a sua demissão, mas, antes de deixar o emprego o administrador teve que prestar contas de sua gestão. Assustado e despreparado para outro tipo de trabalho, tratou de fazer amigos para garantir o seu futuro.

O administrador entendeu que, no futuro, mais do que de dinheiro, precisaria de amigos. Ele avalia a situação em que se encontra e sabe que antes de deixar a administração, ele deve fechar as contas com o seu patrão. Ele tem consciência que são muitos os devedores e, por isso, começa a refletir: “O senhor vai me tirar a administração. Que vou fazer? Para cavar, não tenho forças; de mendigar, tenho vergonha. Ah! Já sei o que fazer para que alguém me receba em sua casa quando eu for afastado da administração’. Então ele chamou cada um dos que estavam devendo ao seu patrão. E perguntou ao primeiro: “Quanto deves ao meu patrão?’ Ele respondeu: ‘Cem barris de óleo!’ O administrador disse: ‘Pega a tua conta, senta-te, depressa, e escreve cinquenta!”(v. 6).

Esta dívida correspondia a 3.650 litros, ficou reduzida a 1.825 litros de óleo. Trata-se de uma economia bem expressiva, correspondente a um ano de salário. A pergunta, em seguida, vem para o segundo devedor: “‘E tu, quanto deves?’ Ele respondeu: ‘Cem medidas de trigo’. O administrador disse: ‘Pega a tua conta e escreve oitenta’” (v.7). Estas cem medidas de trigo correspondem a 27 toneladas, equivalentes a 42 hectares de terra. A dívida fica reduzida a oitenta medidas, ou seja, 5,5 toneladas a menos.

Na parábola, pode-se perceber que o patrão é taxativo ao dizer ao administrador: “Já não podes mais administrar meus bens” (v.2). Ao receber esta informação, o administrador não esboça nem mesmo uma autodefesa. Ele parece estar consciente das suas falhas e sabe perfeitamente que as informações recebidas pelo patrão são verdadeiras e logo pensa em soluções para garantir o seu futuro. Embora o texto apresente um elogio do patrão ao administrador pela sua esperteza (v.8), entretanto, ele não voltou atrás em sua decisão de despedir o administrador infiel.

Como homem entendido em negócios ele calcula e busca saídas para a emergência dentro do sistema econômico que ele conhece. Ele age com interesse e busca cúmplices, pois os devedores de seu patrão passam a ser devedores de seus favores. Estes devedores passam a dever muito menos ao empresário e se sentem na obrigação de reconhecer a ajuda daquele administrador.

Certamente, no futuro, estes devedores não esquecerão que foram favorecidos pela generosidade do administrador. Para melhor compreender esta parábola, faz-se necessário um retorno histórico. No tempo de Jesus não havia na Palestina uma remuneração salarial aos administradores, eles recebiam uma porcentagem, em conformidade com os negócios realizados. Os administradores de então, como os publicanos ou cobradores de impostos, não costumavam ter um salário fixo, mas uma comissão de acordo com as transações comerciais que conseguissem.

Na parábola, o administrador não reduz o valor que o seu patrão tinha estipulado. O desconto que oferece aos devedores é o resultado da não cobrança da sua parte, ou seja, da sua comissão. Ele oferece esta parte em troca da amizade dos devedores, pois, na sua reflexão, muito mais importante que ter dinheiro é ter amigos.

Um empresário não poderia ficar indiferente diante de um prejuízo de 1.825 litros de óleo e 5,5 toneladas de trigo. Este patrão louva o seu antigo administrador, que não o havia prejudicado nessa operação. Por isto, tudo indica que o administrador renunciou ao que estava acostumado a lucrar com as comissões sobre os negócios. Ele renuncia à sua comissão, ao seu próprio ganho, ao dinheiro que lhe era devido, para conquistar amigos.

A mensagem da parábola está no fato de que, a única maneira de fazer frutificar para a eternidade os nossos talentos e capacidades pessoais, assim como as riquezas que possuímos, é partilhá-las com os irmãos, sendo bons administradores daquilo que Deus nos confia.

Uma outra grande lição que deve ficar dessa parábola é a de fazer um bom uso do dinheiro em vista da eternidade. No final da parábola, Jesus aponta outro caminho: investir o dinheiro e os bens que temos, poucos ou muitos, em criar amigos nas moradas eternas do Reino, pois serão eles que nos acolherão na vida eterna.

A parábola não apresenta o administrador como modelo a ser seguido, evidentemente que Jesus não está convidando a imitar a sua desonestidade, mas a sua habilidade, sua esperteza. De fato, esta breve parábola conclui-se com estas palavras: “O senhor elogiou o administrador desonesto por ter procedido prudentemente” (Lc 16, 8). O dinheiro em si não é desonesto, mas pode fechar o homem a um egoísmo cego. Em vez de usá-lo em benefício próprio, é preciso pensar também nas necessidades dos pobres, imitando o próprio Cristo, como nos diz São Paulo, que “sendo rico se fez pobre por nós, a fim de nos enriquecer pela pobreza” (2Cor 8, 9).

Esse administrador teria todos os motivos para não dar nenhum desconto àqueles que deviam para o seu patrão, pois ele precisaria desse valor logo depois, tendo em vista que seria demitido. Mas ele vê que na vida, os bens materiais ficam, perecem, são realidades terrenas. Os relacionamentos, com Deus e com os irmãos, ao contrário, permanecem. Também nós devemos ter consciência de que muito mais importante do que os bens materiais são os relacionamentos que fazemos com os irmãos e com Deus.

A parábola do administrador infiel é uma imagem da vida do homem. Tudo o que temos é dom de Deus, e nós somos os seus administradores, mais tarde ou mais cedo também teremos de prestar contas a Ele. Trata-se, pois, de um apelo ao esforço e à vigilância tendo em vista o último dia, quando se haverá de dizer a cada um: “Presta contas da tua administração!” (Lc 16,2). O uso do dinheiro exige uma grande honestidade, tanto nos negócios mais importantes, como nos mais insignificantes, porque “quem é fiel no pouco é também fiel no muito” (Lc 16,10).

Peçamos a Virgem Maria que interceda sempre por nós e nos faça usar com sabedoria evangélica, isto é, com solidariedade generosa, os bens terrenos e que possamos sempre ter consciência que Deus é o nosso único Bem. E que ele mesmo nos faça desapegar dos bens terrenos, para desejarmos apenas os bens eternos, pois só eles não levarão à verdadeira felicidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento / RJ

XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Parábola do Filho Pródigo

Lc 15,1-32

Caros irmãos e irmãs,

Para este domingo a liturgia da Palavra propõe à nossa meditação o capítulo 15 do Evangelho de Lucas, uma das páginas mais profundas e comoventes de toda Sagrada Escritura. É belo pensar que no mundo inteiro, onde a comunidade cristã se reúne para celebrar a Eucaristia dominical, ressoa neste dia esta Boa Nova de verdade e de salvação: Deus é amor misericordioso. O evangelista São Lucas recolheu neste capítulo três parábolas sobre a misericórdia divina: as duas mais breves são as parábolas da ovelha desgarrada e da moeda perdida (cf. Lc 15,1-10); a terceira, a mais longa, é a conhecida parábola do Pai misericordioso, também habitualmente chamada de parábola do filho pródigo.

O ponto de partida para a narração da Parábola é a murmuração dos fariseus e dos escribas, diante da cena onde publicanos e pecadores escutam Jesus: “Este homem acolhe os pecadores e come com eles” (v. 2), comentam. O acolhimento dos publicanos e pecadores por parte de Jesus é algo escandaloso na perspectiva dos fariseus; comer com eles, estabelecer laços de familiaridade e de irmandade é algo abominável. Na perspectiva da teologia da época, os pecadores não podiam aproximar-se de Deus. É neste contexto que Jesus apresenta a Parábola do filho pródigo, na qual encontramos três personagens de referência: o pai, o filho mais novo e o filho mais velho.

O pai, na parábola, é aquele que sabe conjugar o respeito pelas decisões e pela liberdade dos filhos, com um amor gratuito e sem limites. Esse amor manifesta-se na emoção com que abraça o filho que volta, mesmo sem saber se esse filho mudou a sua atitude. Trata-se de um amor que permaneceu inalterado, apesar da rebeldia, da ausência e da infidelidade do filho. O amor do pai aparece representado no abraço, no beijo, no anel, símbolo da autoridade e do poder (cf. Gn 41,42; Est 3,10; 8,2) e nas sandálias, calçado do homem livre (cf. Gl 5,1).

No início da parábola observa-se que o filho exige do pai tudo aquilo que ele tem direito. A lei judaica previa que o filho mais novo recebesse apenas um terço da fortuna do pai (cf. Dt 21,15-17); mas, ainda que a divisão das propriedades pudesse fazer-se em vida do pai, os filhos não podiam tomar posse de seus bens, senão depois da morte do pai (cf. Eclo 33,20-24). O filho mais novo abandona a casa e o amor do pai e dissipa os bens colocados à sua disposição. É uma imagem de egoísmo, de orgulho e irresponsabilidade. Após gastar tudo o que possuía, aquele que se tornara totalmente livre, torna-se agora escravo: guardador de porcos. Para os judeus, o porco é um animal impuro – servir aos porcos é sinal de extrema alienação e de extrema miséria. O filho mais novo tornou-se um escravo miserável. Sem direito até mesmo de saciar a fome com o alimento oferecido aos porcos. Neste momento, ele então percebe que está perdido. Percebe que o seu nível de vida é inferior a dos porcos. Sente um tédio e um vazio inquietador, de uma vida sem sentido e da qual ele só vê um iminente morrer de fome.

O filho mais novo ao partir para um país distante geograficamente, desejava uma mudança não só exterior, mas também interior, pois queria uma vida totalmente diversa. Seu desejo era viver a liberdade, fazer tudo o que desejava e ignorar as normas do Pai que ficara distante. Passa então a perceber que era muito mais livre quando estava na casa do seu pai, pois era também ele proprietário e contribuía para a edificação do lar. Ao “cair em si” inicia uma reflexão interior que o faz almejar um novo projeto de vida. A decisão pela concretização deste objetivo o leva a uma ação exterior: ele se levanta e direciona os seus passos para um encontro com o pai, com um propósito de recomeçar a sua vida, porque já compreendeu que o caminho por ele percorrido era o caminho errado. Ele quer começar de novo e sabe que perdeu o direito de ser filho e, por isto, está disposto a ser um dos empregados, pois, para ele o mais importante agora é estar na casa do pai, não importa como.

E é neste momento que ele “entra em si mesmo”, como diz o Evangelho (cf. Lc 15,17). Podemos dizer que longe da casa do pai, em um país distante ele se afastou até de si mesmo. Vivia longe da verdade de sua existência. A sua mudança, a conversão, consiste em que ele reconhece que outrora partiu de si e agora ele regressa a si mesmo. E é em si mesmo que ele encontra a indicação de um novo caminho: o caminho da casa do Pai. As palavras que ele preparou para o seu regresso: “Pai, pequei contra o céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado teu filho…” (Lc 15,18), nos permitem reconhecer a peregrinação interior que ele então realiza.

E, ao chegar à casa, recebe do pai o abraço e o beijo, sinal de reconciliação e perdão. É oferecida uma festa e então ele percebe que a vida pode começar de novo. Regressa à casa paterna interiormente maduro e purificado: compreendeu o que é viver. Mesmo diante de possíveis tentações futuras, estará ele plenamente consciente que uma vida longe da casa do Pai não funciona: falta o essencial, falta a luz, falta o sentido da vida.

Não podemos esquecer o início do Evangelho, quando a narrativa nos faz lembrar que Jesus aproximava-se dos publicanos e dos pecadores, chegando mesmo a fazer-se convidar por eles, o que o tornava impuro, aos olhos daqueles que se sentiam puros. Na Parábola, ao abraçar o filho que julgava perdido, cobrindo-o de beijos, o pai também se torna impuro, também pelo próprio ato de tocar este filho que regressava, depois de uma vida desordenada. Como os fariseus e os escribas, o filho mais velho se recusa a entrar em comunhão com um pecador, pois se julga puro, incapaz se unir aos impuros.

O filho mais velho, cumpridor de todas as regras, sempre fez o que o pai mandou. Nunca pensou em deixar o espaço cômodo e acolhedor da casa do pai. No entanto, a sua lógica é a lógica da “justiça” e não a lógica do amor e da misericórdia. Ele acha que tem créditos superiores aos do irmão e não compreende nem aceita que o pai exerça a misericórdia para com o filho rebelde. Semelhante à imagem dos fariseus e escribas, que interpelaram Jesus porque cumpriam rigorosamente as exigências da Lei, desprezavam os pecadores e achavam que essa devia ser também a lógica de Deus. Eles desconheciam o Deus misericordioso que acolhe o pecador e se alegra com o seu regresso.

Nesta parábola conhecemos a identidade de Deus: Deus é amor (cf. 1Jo 4,16). Ele é o Pai misericordioso que em Jesus nos ama e nos perdoa. Os erros que cometemos, mesmo se grandes, não prejudicam a fidelidade do seu amor. Ele nos acolhe e nos restitui a dignidade de filhos. Com isto podemos redescobrir o Sacramento da Penitência e do Perdão, que faz brotar a alegria num coração renascido para uma vida nova.

Assim como o Filho Pródigo, hoje nós também somos convidados a percorrer um caminho interior, lançar um olhar para nós mesmos, para que possamos direcionar os nossos pensamentos e os nossos atos para a conversão que, antes de ser um esforço para mudar o nosso comportamento, é uma oportunidade para recomeçar, ou seja, abandonar o pecado e escolher voltar para Deus, para a casa do Pai.

O encanto deste texto esconde-se no verbo “splanchnizomaim”, uma palavra grega comumente traduzida como: “movido por compaixão”. Trata-se, na realidade, de um movimento visceral, como que de um parto. O filho “que estava morto e voltou à vida”, renasce no abraço misericordioso do Pai. Por isso, o Pai exclama: “É preciso alegrar-se”. Esta é a grande proposta de cada cristão: renascer, voltar ao Pai como homem novo e aceitar o irmão exatamente como ele é, ou seja, com suas limitações; abraçá-lo quando vem ao nosso encontro, trazendo as suas cicatrizes e as suas fragilidades.

Assim como o filho pródigo, quantos de nós também estamos perdidos e somos convidados a percorrer um caminho interior, lançar um olhar para nós mesmos, para que possamos direcionar os nossos passos para o caminho da conversão que, antes de ser um esforço para mudar o nosso comportamento, é uma oportunidade para recomeçar, ou seja, abandonar o pecado e escolher voltar para Deus. Possamos ser determinados em nossa decisão a deixar para trás uma vida de erro e de pecado, para irmos em direção à casa do Pai. E ao chegarmos, queira esse Pai de misericórdia ter compaixão também de nós, que ele possa correr ao nosso encontro, a nos abraçar e a nos acolher de novo em sua casa. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Carregar a cruz atrás do Cristo

Lc 14,25-33

Caríssimos irmãos e irmãs,

Para este domingo a Liturgia da Palavra nos convida a tomar consciência do quanto é exigente seguir o Senhor. O tema principal que sobressai nas leituras bíblicas é o da primazia do Criador em nossa vida. Já na primeira leitura, tirada do Livro da Sabedoria (cf. Sb 9,13-9), nos sugere indiretamente o motivo desta primazia absoluta de Deus: nele encontramos respostas para as perguntas do homem de todos os tempos que procura a verdade acerca da Divindade e de si mesmo. Sem Deus ficamos enfraquecidos e, sem a oração, isto é, sem a união interior com Ele, nada podemos fazer, como disse claramente Jesus aos seus discípulos durante a Última Ceia (cf. Jo 15,5).

No trecho evangélico temos o caminho a ser percorrido por cada seguidor de Jesus. Ele próprio apresenta as condições necessárias aos seus discípulos: amá-lo mais do que qualquer outra pessoa e mais do que a própria vida; carregar a própria cruz e segui-lo, renunciando a tudo o que possui. É o que ele diz: “Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (v. 26). E continua: “Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo” (v. 27).

Para compreender estas palavras de Jesus é preciso lembrar que o Evangelista São Lucas escreveu o seu Evangelho num contexto de perseguições. Alguns cristãos preferiam morrer a renegar a sua fé. Outros esquivavam, procurando salvar os seus bens, a família e a própria vida. O Evangelista São Lucas quis, não tanto condenar estas fraquezas na fé, mas apresentar um encorajamento àqueles que se mantinham firmes na fé, até à morte. Eram esses, os mártires, os que seguem Jesus até no mistério da sua morte na cruz.

Para sermos discípulos de Jesus, nada podemos antepor ao nosso amor por Ele, devemos carregar também a nossa própria cruz e segui-lo. Jesus bem sabe qual é o caminho que o Pai lhe pede para percorrer: o caminho da cruz, do sacrifício de si mesmo pelo perdão dos nossos pecados. A obra de Jesus é precisamente uma obra de misericórdia, de perdão, de amor.

E este perdão universal e esta misericórdia passam através da cruz. Mas Jesus conta com os seus discípulos para que possam continuar a missão que o Pai lhe confiou. E Ele dirá aos seus seguidores: “Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós… Àqueles que perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados” (Jo 20,21.22). O discípulo de Jesus renuncia a todos os bens porque encontrou em Cristo o Bem maior e reconhece nos outros bens um valor menor, tais como, os vínculos familiares e as outras relações.

Lembremos que em todos os séculos o Senhor chamou homens e mulheres para que o seguissem. Eles deixaram tudo e tornaram, no mundo, um sinal luminoso do amor de Deus. Basta pensar em pessoas como São Lourenço, Santa Luzia, São Bento, São Francisco de Assis, Santa Clara, Santo Inácio de Loyola, Santa Teresa de Ávila e muitos outros. Todos eles souberam deixar tudo, para estar à disposição de todos.

Para explicar esta exigência, Jesus usa duas parábolas: a da torre para construir e a do rei que vai para a guerra. Esta segunda parábola diz: “Qual o rei que, ao sair para guerrear com outro, não se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil? Se ele vê que não pode, enquanto o outro rei ainda está longe, envia mensageiros para negociar as condições de paz” (Lc 14,31-32). Trata-se de uma parábola, mas, na verdade, existe uma guerra mais profunda que todos nós devemos combater. É a decisão forte e corajosa de renunciar ao mal e às suas seduções e escolher o bem. Esta guerra deve ser contra o mal, contra o ódio, a violência, ao erro e ao pecado.

Apenas o amor de Deus nos torna livres e isto constitui o centro da mensagem que o Senhor nos quer comunicar no trecho evangélico, aparentemente tão severo deste domingo. Com a sua palavra Ele afirma que podemos contar com o seu amor, o amor de Deus feito homem. Reconhecer isto é a sabedoria da qual nos falou a primeira leitura.

Inspirados na Carta de São Paulo a Filêmon (cf. Fm 9-10.12-17), que a liturgia da Palavra nos faz ler na segunda leitura, que é a mais breve de todas as cartas de São Paulo. Endereçada a Filêmon, aparentemente um membro destacado da Igreja de Colossos, São Paulo trata da questão de Onésimo, escravo de Filêmon, que havia fugido da casa do seu senhor. Ao encontrar-se com Paulo, ligou-se a ele e, com este convívio, transmitiu-lhe a fé, fazendo-o cristão e, ao mesmo tempo, seu colaborador.

No entanto, a situação podia tornar-se delicada, pois, de acordo com o princípio legal, ao dar guarda a um escravo fugitivo, Paulo poderia ser cúmplice de uma grave infração ao direito privado. Enfim, Onésimo corria o risco de ser preso, devolvido ao seu senhor e severamente castigado. É neste contexto que Paulo resolve enviar Onésimo a Filêmon, levando consigo uma carta, onde explica a Filêmon a situação e intercede pelo escravo fugitivo, pedindo que o receba, já não como escravo, mas como um irmão em Cristo. E insinua que, sendo possível, lhe devolva Onésimo, já que ele vem sendo de grande utilidade para Paulo. É um significativo texto, carregado de sentimentos fraternos.

A nova fraternidade cristã supera a separação entre escravos e livres e insere na história um episódio de promoção da pessoa que levará à abolição da condição de escravo de Onésimo. Desta experiência particular de São Paulo com Onésimo, entendemos o impulso da promoção humana dado pelo Cristianismo ao caminho da civilização, do perdão, do amor e da fraternidade entre as pessoas.

Para Paulo, o amor deverá ser a suprema e insubstituível norma que dirige e condiciona as palavras, os comportamentos, as decisões. Ora, o amor tem consequências bem práticas, que os membros da comunidade cristã não podem esquecer. Implica ver em cada homem um irmão, independentemente do seu estatuto social. Todos são “filhos de Deus” e irmãos em Cristo. A conversão ao amor exige o reconhecimento da igualdade fundamental de todos os homens. A partir do amor, devemos descobrir que todos são filhos do mesmo Deus e irmãos em Cristo; a partir do amor, o escravo descobre a afirmação clara da sua dignidade de homem. É esta a questão fundamental que o texto nos apresenta.

E a Eucaristia que estamos a celebrar é o Sacramento do amor, que nos recorda o essencial: a caridade e o amor de Cristo que renova os homens e o mundo. Sentimos estas manifestações nas expressões de São Paulo na Carta a Filêmon. Nesta pequena carta sente-se de fato toda a mansidão e ao mesmo tempo o poder irresistível da caridade, que é a principal força propulsora para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e também da humanidade. Portanto, devemos sempre lembrar do mandamento antigo e sempre novo: “Amai-vos uns aos outros como o Cristo nos amou” (Jo 13,34).

Peçamos a Maria que nos ensine a colocar em prática os ensinamentos de seu Filho Jesus, para que possamos segui-lo todos os dias e, iluminados pelo Espírito Santo, sejamos no mundo, seus discípulos e testemunhas do amor e da misericórdia de Deus. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Quem se humilha, será elevado

Lc 14,1.7-14

Caros irmãos e irmãs,

Para este domingo a Liturgia da Palavra nos propõe uma reflexão sobre alguns valores importantes para o nosso quotidiano: a humildade, a gratuidade, o amor desinteressado… Na primeira leitura, tirada do Livro do Eclesiástico (cf. Eclo 3,19-21.30-31), a humildade é enfatizada como um caminho agradável a Deus, que proporciona ao homem êxito e felicidade. O texto nos apresenta uma instrução de um pai ao seu filho, na qual mostra a humildade como uma das qualidades fundamentais que todos nós devemos cultivar. É na humildade e na simplicidade que reside o segredo da sabedoria e do bem.

O homem que se deixa dominar pelo orgulho torna-se egoísta, injusto e despreza os outros, sente-se superior aos demais e pratica, com frequência, gestos de prepotência, que o torna temido, mas nunca admirado ou amado. É preciso reconhecer, com simplicidade, que tudo o que somos e temos é um dom de Deus e que as nossas qualidades não dependem dos nossos méritos, mas somente de Deus.

Na página do Evangelho encontramos Jesus como hóspede na casa de um chefe dos fariseus. Os fariseus formavam um dos principais grupos da sociedade palestina desta época. Dominavam os ofícios sinagogais e estavam presentes em todas as atividades religiosas dos israelitas. A preocupação fundamental era transmitir a todos o amor pela Torá, quer escrita, quer oral. Tratava-se de um grupo sério, verdadeiramente empenhado na santificação do Povo de Deus; mas, ao absolutizar a Lei, esquecia das pessoas e não praticava o amor e a misericórdia. Os fariseus se consideravam puros, porque viviam de acordo com a Lei e desprezavam os que não cumpriam os seus preceitos integralmente; não eram propriamente modelos de humildade. Isso talvez explique a luta pelos lugares de honra que o Evangelho faz referência.

O relato evangélico nos situa no contexto de um banquete, que no mundo semita, era o espaço do encontro fraterno, onde os convivas partilham do mesmo alimento e estabelecem laços de comunhão, de proximidade, de familiaridade, de irmandade. Jesus aparece muitas vezes em banquetes, para sublinhar o sentido da comunhão, do encontro e da familiaridade, sinais que caracterizam o reino de Deus.

Observando que os convidados escolhiam os primeiros lugares à mesa, Jesus contou uma parábola, ambientada num banquete nupcial, dizendo: “Quando tu fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: ‘Dá o lugar a ele’. Então tu ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar. Mas, quando tu fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: ‘Amigo, vem mais para cima’. E isto vai ser uma honra para ti diante de todos os convidados” (Lc 14,8-10). Alguém que ocupa logo o primeiro lugar, já não pode ser convidado pelo anfitrião para subir a um lugar melhor; só pode ser rebaixado, isto quando aparece alguma pessoa mais importante. Por isto, é melhor ocupar o último lugar, para poder receber o convite de ocupar um lugar de maior destaque.

No final da parábola Jesus sugere ao chefe dos fariseus que convide à sua mesa não os amigos, os parentes ou os vizinhos ricos, mas as pessoas mais pobres e marginalizadas, que não têm como retribuir esse gesto (cf. Lc 14,13-14). Os fariseus escolhiam cuidadosamente os seus convidados. Nas suas refeições, não convinha comparecer alguém de nível menos elevado, pois nesta refeição, não convinha estabelecer obrigatoriamente laços com pessoas tidas como desclassificadas.

Os fariseus também tinham a tendência, própria de todas as pessoas, de todas as épocas e culturas, de convidar aqueles que podiam retribuir da mesma forma. A questão é que, dessa forma, tudo se tornava um intercâmbio de favores e não gratuidade e amor desinteressado.

Jesus reprova esta prática e ressalta ser preciso convidar “os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos” (v.13), considerados pecadores notórios, amaldiçoados por Deus e, por isso, estavam proibidos de entrar no Templo (cf. 2Sm 5,8) para não profanar o lugar sagrado (cf. Lv 21,18-23). No entanto, para Jesus, são esses que devem ser os convidados para o banquete. Com isto, Jesus fala do banquete celeste, quando todos estarão unidos por laços de familiaridade e comunhão, para o qual todos são convidados, inclusive os que a cultura social e religiosa tantas vezes exclui. O acesso a este banquete escatológico não ocorre pelo jogo de interesse, mas pela gratuidade e pelo amor. Na verdade, a verdadeira recompensa, só Deus nos dará. Para participar deste banquete é necessário ser humilde, simples e estar a serviço do outro. E Jesus conclui a parábola dizendo: “Aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado” (Lc 14,11).

A humildade é uma grande virtude humana, porque, em primeiro lugar, representa o modo de agir do próprio Deus. É o caminho escolhido por Cristo que “identificado como homem, se humilhou a si mesmo, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz” (Fl 2,7-8).

Nesta parábola podemos encontrar uma mensagem importante e atual. Cristo nos convida a seguir o itinerário da humildade. Hoje somos chamados a um compromisso honesto e a um profundo interesse pelo bem comum. A humildade é, portanto, o resultado de uma vitória do amor sobre o egoísmo e da graça sobre o pecado. Esta parábola faz pensar também na nossa posição em relação a Deus. O “último lugar” pode representar a condição da humanidade atingida pelo pecado.

No cântico do “Magnificat” Maria nos diz que Deus “olhou para a humildade da sua serva” (Lc 1,48). A humildade de Maria é aquilo que Deus mais aprecia. A humildade de Deus que se fez carne, que se fez pequenino, e a humildade de Maria que O recebeu no seu seio; a humildade do Criador e a humildade da criatura. Foi deste encontro de humildade que nasceu Jesus, Filho de Deus e Filho do homem. A primeira leitura nos diz: “Quanto maior fores, tanto mais te deves humilhar, e assim encontrarás benevolência diante de Deus” (Eclo 3,18).

Humildade vem do latim “humilis”, que por sua vez deriva de “humus”, que quer dizer “terra”. Humilde é, pois, quem está ao nível do solo e se move perto da terra. Algo que corresponde exatamente à nossa pequenez e condição de criatura, parte insignificante do cosmos. Humilde é aquele que, com sabedoria e realismo, reconhece a distância que o separa do seu Criador. Por isso, Santa Teresa diz que “humildade é caminhar na verdade”.

A humildade é também muito cara para São Bento, que escreveu em sua Regra um longo capítulo dedicado a ela, ressaltando o seu valor e a sua importância para chegarmos ao reino celeste (cf. RB 7). Possamos nós seguir o modelo dos santos, que souberam praticar a humildade; e também o exemplo do próprio Cristo, que se revelou como “manso e humilde de coração” (cf. Mt 11,29).

A humildade que o Senhor nos ensinou e que os Santos puderam testemunhar, cada qual segundo a originalidade da sua própria vocação, constitui um estilo de vida, um modelo para cada um de nós. Continuando a Celebração Eucarística, centro da nossa vida, peçamos a Nossa Senhora, modelo de uma vida humilde e santa, que nos guie pelo caminho da humildade, para podermos, um dia, sermos dignos da recompensa divina. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

Lc 1,39-56

Caros irmãos e irmãs,

Neste domingo celebramos a solenidade da Assunção de Nossa Senhora, uma verdade que a Igreja professou desde os primeiros séculos, mas que só foi proclamada como dogma pelo Papa Pio XII em 1950, através da bula “Munificentissimus Deus”, onde declarava ser este dogma “revelado por Deus que a imaculada Mãe de Deus, a Virgem Maria, tendo terminado o curso de sua vida terrena, foi assunta em corpo e alma à glória celestial” (DS 3903).

Ao proclamar a Assunção da Virgem Maria, o Papa Pio XII ressaltou, implicitamente, a dignidade do corpo humano. O homem chega à glória da eternidade, quando sabe valer-se dos órgãos do corpo terreno para fazer o bem, para estar a serviço de Deus e dos irmãos, foi isto que levou Maria à glorificação final. Todos nós podemos e devemos fazer o mesmo. Guardar a dignidade do corpo na terra, para que Deus o glorifique no céu.

O evangelho nos remete ao limiar da casa de Zacarias, onde Maria, apressadamente, vem ter com Isabel, à quem se vê unida por um mistério análogo; e vem partilhar com ela a sua própria alegria. E neste encontro, João Batista exaltou de alegria no ventre de Isabel, porque o Salvador, presente em Maria, estava próximo. E Isabel reconheceu em Maria a Mãe do Salvador, a bendita entre todas as mulheres. Na saudação de Isabel temos a sequência do que se ouviu do Anjo Gabriel: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu….” (Lc 1,42.45). E nesse instante, brota dos lábios de Maria o cântico do “Magnificat”, onde os seus sentimentos exprimem a consciência do cumprimento das promessas do Senhor (cf. Lc 1,54).

O primeiro movimento deste cântico mariano (cf. Lc 1,46-50) é uma espécie de voz solista que se eleva em direção ao céu para alcançar o Senhor. Com efeito, observe-se o ressoar constante da primeira pessoa: “A minha alma… o meu espírito… meu salvador… me chamarão de bem-aventurada… fez grandes coisas em mim…”. A alma desta oração mariana é, portanto, a celebração da graça divina que transbordou no coração e na sua existência, tornando-a a Mãe do Senhor. Ouvimos precisamente a voz de Nossa Senhora que fala assim do seu Salvador, que fez maravilhas na sua alma e no seu corpo.

A estrutura íntima do seu canto é, portanto, o louvor, o agradecimento, a alegria. É um testemunho pessoal de Maria, que está consciente de ter uma missão a cumprir pela humanidade e a sua vicissitude insere-se no âmbito da história da salvação. E assim pode dizer: “A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem” (v. 50). Com este louvor ao Senhor, Maria dá voz a todas as criaturas beneficiadas pela misericórdia de Deus.

O cântico inicia com a palavra “Magnificat”: a minha alma “engrandece” o Senhor, ou seja, “proclama grande” o Senhor. Maria deseja que Deus seja grande no mundo, seja grande na sua vida, esteja presente entre todos nós. Se Deus é grande, o homem também é grande. Não podemos ficar distantes de Deus, mas tornar Deus presente; fazer com que Ele seja grande na nossa vida, para sermos, assim como ele, também santos. É importante que Deus seja grande entre nós, porque somente se Deus está presente, temos uma orientação, uma estrada comum a seguir.

No “Magnificat” Maria também diz: “De hoje em diante todas as gerações me chamarão bem-aventurada”. A Mãe do Senhor profetiza os louvores marianos da Igreja para todo o futuro, a devoção mariana do Povo de Deus até o fim dos tempos. Louvando Maria, a Igreja respondeu a esta profecia feita por ela, naquele momento de graça. E estas palavras não deixam de ser um complemento às palavras de Isabel, pronunciadas no momento em que estava ela repleta do Espírito Santo: “Bendita aquela que acreditou”. E Maria, também cheia do Espírito Santo, sequencia, afirmando: “Todas as gerações me chamarão de bem-aventurada”.

Maria é bem “bem-aventurada”, é bendita para sempre. Este é o contexto da Solenidade que a Igreja celebra neste domingo. É bem-aventurada porque está unida a Deus, vive com Deus e em Deus. O Senhor, na vigília da sua Paixão, ao despedir-se dos apóstolos, disse: “Eu vou preparar-vos, na casa do Pai, uma morada. E Há muitas moradas na casa do meu Pai”. Quando Maria dizia: “Eu sou a tua serva, faça-se em mim segundo a tua vontade” preparava aqui na terra a morada para Deus; de corpo e alma, tornou-se morada de Deus.

Maria torna-se a tenda de Deus, a morada onde Deus vem habitar. Santo Agostinho diz: “Antes de conceber o Senhor no corpo, já O tinha concebido na alma”. Reservou ao Senhor o espaço da sua alma e assim tornou-se realmente o autêntico Templo onde Deus encarnou, tornando-se presente nesta terra. Deste modo, como morada de Deus na terra, nela já está preparada a sua morada eterna, já está preparada esta morada para sempre. E é nisto que consiste todo o conteúdo do dogma da Assunção de Maria à glória do céu de corpo e alma. Maria é “bem-aventurada” porque se tornou totalmente, de corpo e alma e para sempre a morada do Senhor. Se isto é verdade, Maria não nos convida apenas à admiração, à veneração, mas também nos orienta, nos indica o caminho da vida e nos mostra como podemos tornar-nos bem-aventurados, como podemos encontrar a vereda da felicidade.

Maria, com a sua total disponibilidade, abriu as portas ao Salvador do mundo. Foi grande e heróica a obediência da sua fé; foi precisamente através desta fé que Maria se uniu perfeitamente a Cristo, na morte e na glória.


Olhando para ela fortalece em nós a fé no que esperamos, e, ao mesmo tempo, compreendemos melhor o sentido e o valor da nossa peregrinação neste mundo.

Também as palavras do Apóstolo São Paulo, na segunda leitura (cf. 1Cor 15,20-26), nos ajudam a compreender o significado desta solenidade que celebramos. Em Maria, que subiu ao Céu no termo da sua vida terrestre, resplandece a vitória definitiva de Cristo sobre a morte, que entrou no mundo em virtude do pecado de Adão. Foi Cristo, o “novo” Adão, que venceu a morte, oferecendo-se em sacrifício no calvário, em atitude de amor obediente ao Pai. Assim, Ele nos resgatou da escravidão do pecado e do mal. No triunfo da Virgem, a Igreja contempla aquela que o Pai escolheu como verdadeira Mãe do seu Filho Jesus, a quem associou intimamente ao desígnio salvífico da Redenção. Por isso, Maria constitui um sinal consolador da nossa esperança.

Em cada celebração eucarística, o Filho de Deus é doado a nós. Quem participa da comunhão leva consigo agora de modo particular o Senhor ressuscitado. Como Maria o levou no seu ventre um frágil e pequeno ser humano, totalmente dependente do amor da mãe, assim, Jesus Cristo, sob a espécie do pão, se confiou a nós. É Jesus mesmo que se doa tão inteiramente nas nossas mãos! Possamos nós ter por ele o mesmo amor que tem a sua mãe Maria! Possamos leva-lo a todos, como Maria o levou a Isabel, suscitando júbilo e alegria! A Virgem doou ao Verbo de Deus um corpo humano, para que pudesse entrar no mundo. Doemos também nós o nosso corpo ao Senhor, tornemos o nosso corpo cada vez mais um instrumento do amor de Deus, um templo do Espírito Santo!

Possamos aprender junto com Maria os caminhos que nos levam à glória do céu. Que saibamos estar na escola daquela que “guardava e meditava tudo em seu coração” (Lc 2,16). Que Nossa Senhora da Assunção nos acompanhe com a inefável generosidade de que só a Mãe de Deus é capaz. Que Maria possa sempre interceder por nós, para que, dizendo “não” ao erro e ao pecado, saibamos preparar o nosso encontro definitivo com Cristo, no final da nossa peregrinação terrestre.

Esta solenidade também nos recorda que as raízes desta vitória sobre a morte, prodigiosamente antecipada em Maria, estão na sua fé, uma fé que é obediência à Palavra de Deus e entrega total à iniciativa e à obra divina. Contemplando Nossa Senhora da Assunção no céu compreendemos melhor que a nossa vida, não obstante seja marcada por provações e dificuldades, está sempre direciona para Deus, para a plenitude da alegria e da paz. Entendemos que o nosso morrer não é o fim, mas o ingresso na vida que não conhece a morte. O nosso crepúsculo no horizonte deste mundo é um ressurgir na aurora do mundo novo, do dia eterno. Peçamos Santa Maria, para que ela possa rogar sempre por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte! Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

XX DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – NÃO VIM TRAZER A PAZ, MAS A DIVISÃO

Lc 12,49-53

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo começa definindo a missão de Jesus como um “lançar fogo à terra”, a fim de que desapareça o pecado e nasça um novo tempo. A proposta de Jesus trará, no entanto, divisão, pois é uma proposta exigente, que provocará a oposição de muitos. Na primeira parte do texto Jesus diz: “Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!” (v. 49). No Antigo Testamento o fogo traz consigo um elemento teofânico, usado para representar a santidade divina (cf. Ex 3,2; 19,18; Dt 4,12; 2Rs 2,11). O fogo também aparece na linguagem dos profetas para ressaltar o quadro do castigo das nações pecadoras (cf. Is 30,27.30.33). No entanto, ao mesmo tempo que castiga, o fogo também faz desaparecer o pecado (cf. Is 9,17-18; Jr 15,14; 17,4.27); e surge, assim, como elemento de purificação e transformação (cf. Is 6,6; Dn 3). Neste contexto, o fogo tem um poder transformador, e dele nascerá o mundo novo, de justiça e de paz.

Jesus veio revelar aos homens a santidade de Deus. A sua proposta destina-se a destruir o erro e o pecado. Também podemos lembrar do Espírito Santo, quando no dia de Pentecostes, desceu como línguas de fogo sobre os apóstolos e a Virgem Maria, estando eles reunidos em oração no Cenáculo (cf. At 2,3-11). O Espírito Santo passa a dar energia e força a eles, para que possam propagar o fogo da sua palavra e do seu amor, como pedimos na oração: “Vinde Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor…”.

Na segunda parte (v. 51-53), Jesus confessa que não veio trazer a paz, mas a divisão: “Julgais que Eu vim estabelecer a paz na terra?” E acrescenta: “Daqui por diante estarão cinco divididos numa só casa: três contra dois e dois contra três; dividir-se-ão o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra” (Lc 12,51-53).

A Sagrada Escritura nos diz que a paz é um dom messiânico (cf. Lc 2,14.29; 7,50; 8,48; 10,5-6; 11,21; 19,38.42; 24,36) e que a função do Messias será guiar os passos dos homens “no caminho da paz” (Lc 1,79). Ele é mensagem de paz por excelência. O Cristo Senhor, como escreve São Paulo, “é a nossa paz” (Ef 2,14). Ele morreu e ressuscitou para derrubar o muro da inimizade e inaugurar o Reino de Deus que é amor, alegria e paz. Jesus é anunciado no Antigo Testamento como o príncipe da paz (cf. Is 9,5) e caberia a ele anunciar a paz aos povos (cf. Zc 9,10). Por ocasião do seu nascimento os anjos anunciaram: “Paz na terra” (Lc 2,14). E após a sua ressurreição ele aparece aos seus apóstolos dizendo: “A paz esteja convosco” (Jo 20,21).

Contudo, a mensagem que Jesus traz à humanidade é questionante e interpeladora: alguns a acolhem positivamente; outros a rejeitam, não estão interessados nem em Jesus nem mesmo na proposta que ele traz. Como consequência, haverá divisão e desavença, até mesmo dentro da própria família, mediante as opções que cada um pode fazer.

Por isso, quem deseja seguir Jesus e comprometer-se sem hesitações pela verdade deve saber que encontrará oposições e se tornará, infelizmente, sinal de divisão entre as pessoas. O amor aos pais é um mandamento sagrado, mas para ser vivido de modo autêntico, nunca pode ser anteposto ao amor de Deus e de Cristo.

A fé exige que se escolha Deus como critério básico da vida. Deus é misericórdia, Deus é fidelidade, é vida que se doa a todos nós. Jesus não quer dividir os homens entre si, pelo contrário: Jesus é a nossa paz, é a nossa reconciliação! Mas esta paz comporta a renúncia ao mal, ao egoísmo, e a escolha do bem, da verdade e da justiça, mesmo quando isto exige sacrifício e renúncia aos próprios interesses. E isto sim, divide; como sabemos, divide até os vínculos mais estreitos. Mas não é Jesus que divide! Ele propõe o critério: viver para si mesmo, ou para Deus e para o próximo; ser servido, ou servir; obedecer ao próprio eu, ou obedecer a Deus. O velho Simeão já havia dito que o próprio Cristo seria um “sinal de contradição” (Lc 2,34).

Parece difícil conciliar a paz e a divisão. Por isto, para entendermos a mensagem do evangelho deste domingo, faz-se necessário lembrar de uma outra afirmação de Jesus. Ele disse: “A verdade vos libertará” (Jo 8,32). E também afirmou: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Não se pode trair a verdade. E então, poderá acontecer que algumas pessoas não concordarão com o que o Evangelho ensina e se afastarão do caminho apontado por ele.

A paz que Jesus veio trazer não é sinônimo de simples ausência de conflitos, ao contrário, a paz de Jesus é fruto de uma luta constante contra o mal. O confronto que Jesus está decidido a enfrentar não é contra homens ou poderes humanos, mas contra satanás, o inimigo de Deus e do homem. Quem quer resistir a este inimigo, permanecendo fiel a Deus e ao bem deve necessariamente enfrentar incompreensões e, às vezes, verdadeiras perseguições.

As perseguições já ocorriam na época dos profetas, como ressalta a primeira leitura, que nos mostra a figura do profeta Jeremias, cuja existência se traduziu em arriscar a vida por causa do anúncio da Palavra de Deus. Ele foi seduzido pelo Senhor e colocou-se inteiramente ao seu serviço, mesmo que isso tenha significado violentar a sua própria maneira de ser, afastar-se dos familiares, dos amigos e deparar com o ódio dos opositores à sua mensagem. Jeremias é o protótipo do profeta que dá a sua vida para que a Palavra de Deus seja anunciada a todos. Para estar a serviço da Palavra de Deus, Jeremias experimentou o sofrimento, a incompreensão e a morte, ocorrida por volta do ano 580 a.C, estando ele exilado no Egito. Uma tradição judaica diz que ele foi apedrejado até a morte pelos próprios compatriotas.

Nisso, pode-se lembrar do início do cristianismo e do tempo das perseguições. Muitos pagãos convertidos eram desprezados pelos seus familiares. Podemos lembrar de São Sebastião, que viveu no século terceiro e era amigo pessoal do Imperador Diocleciano, mas tendo se convertido ao cristianismo, foi por ele abandonado e condenado à morte. Podemos lembrar ainda dos apóstolos, de Santo Estêvão, o primeiro mártir, de São João Batista, o maior dos profetas de Cristo, que soube renegar-se a si mesmo para dar espaço ao Salvador, e sofreu e morreu pela verdade. Podemos ainda recordar de muitos outros santos que foram perseguidos e mortos por causa da verdade, por causa de Cristo. Neste mês de agosto celebramos vários deles, dentre os quais ressaltamos de São Lourenço, do século III, vindo a falecer por ocasião da perseguição contra os cristãos no ano de 258, ordenada por Valeriano, imperador pagão, que mandou amarrar Lourenço em uma grelha, para ser assado vivo e lentamente. E Santa Teresa Benedita da Cruz, também morta num campo de concentração, por ocasião da perseguição nazista.

E neste domingo, 14 de agosto, recordamos também um outro mártir, São Maximiliano Maria Kolbe, que concluiu com o martírio a sua peregrinação terrestre, também na época da perseguição nazista, há 75 anos. Foi no final de julho de 1941, quando vários prisioneiros foram destinados a morrer de fome, e, neste dia, São Maximiliano, então sacerdote, apresentou-se espontaneamente, declarando-se pronto a morrer em substituição a um deles, porque era um pai de família e a sua vida era necessária aos seus entes queridos. Dando a sua vida por um irmão, São Maximiliano soube cumprir o preceito do Senhor: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15,13). E São Maximiliano, após mais de duas semanas de tormentos por causa da fome, enfim teve tirada a sua vida, com uma injeção letal, aos 14 de agosto daquele ano. Segundo relatos, a última palavra pronunciada por São Maximiliano, foi “Ave-Maria!”, no momento em que estendia o braço para aquele que o matava.

Este é o testemunho dos santos, este é especialmente o testemunho dos mártires, associados de maneira íntima ao sacrifício redentor de Cristo, que na cruz deu a própria vida em prol da humanidade. A Virgem Maria, Rainha da Paz, partilhou até ao martírio da alma a luta do seu Filho Jesus contra o maligno, e continua a partilhá-la até o fim dos tempos. Invoquemos a sua proteção materna, para que nos ajude a sermos sempre testemunhas da paz de Cristo. Que ela nos ajude também a manter o olhar bem fixo em Jesus e a segui-lo sempre, mesmo quando for difícil. E como mãe, se digne a interceder sempre por nós, por nossa cidade, pelo mundo inteiro, para que obtenhamos um futuro que não pode ser de ódio, mas de fraternidade; que não seja de confronto, mas de colaboração, fraternidade, respeito recíproco e de paz. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento – RJ

XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – A oração do Pai nosso

Lc 11,1-13

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo nos apresenta Jesus recolhido em oração. Ele tinha o costume de passar noites e noites em oração; horas e horas em intimidade com o Senhor. Em todos os momentos da vida Jesus estava rezando. Ele fazia da sua vida uma oração e da oração a sua vida. Este exemplo de Cristo despertou em um dos seus discípulos o desejo de aprender a rezar como ele, por isto, lhe disse: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11,1), e Jesus respondeu: “Quando orardes, dizei: Pai Nosso…”. E ensinou a eles a oração do Pai Nosso (cf. Lc 11, 2-4).

A Oração do Pai nosso é a mais bela de todas as orações, sendo rezada milhões de vezes por dia pelos cristãos, em toda a terra, às vezes até de maneira muito espontânea, em certos momentos de dor ou de alegria coletiva. É também o mais profundo itinerário daquilo que significa a oração, pois nos faz começar invocando Deus como nosso Pai. É a intimidade que deve existir entre filho e Pai; e entre Pai e filho. Deus é Pai de todos nós, por isto a oração está no plural, para indicar que toda oração deve ser para todos.

Uma das maiores graças que recebemos pelo sacramento do batismo, está no fato de podermos tratar Deus como Pai. Quando chamamos a Deus de “nosso Pai”, precisamos lembrar de que devemos ter um comportamento de filhos de Deus. Podemos invocar a Deus como “Pai” porque, pelo batismo, somos incorporados e adotados como filhos de Deus. Jesus nos ensina a chamar Deus de Pai e a recorrer a Ele como filhos. Em Deus vemos um Pai cheio de bondade e amor.

Na oração do Pai Nosso, pedimos inicialmente que o nome de Deus seja santificado e que seu reino venha até nós. Começamos pedindo aquilo que deve estar acima de tudo, dominando nossos afetos e aspirações. Pedimos que o nome de Deus seja conhecido, honrado e amado por todos. Desejamos que o nome de Deus seja conhecido como santo e seja glorificado. E pedimos que o nome de Deus seja santificado pelas nossas alegrias, nossos sofrimentos, nosso trabalho, nossas orações e por toda a nossa vida.

A oração tem início com um louvor a Deus. O objetivo da oração é elevar nosso pensamento para o alto, e de desprender-nos da materialidade das coisas do tempo, que muitas vezes podem nos impedir de rezar bem. Após esta inovação a Deus como Pai, seguem os pedidos. Os sete pedidos da Oração do Pai Nosso, normalmente são divididos em duas partes, na primeira parte pedimos pelo que é eterno e na segunda, pelo que é transitório.

O número sete na Sagrada Escritura significa a plenitude, plenitude de tudo aquilo que o homem precisa. Então, esta oração é fundamental para o cristão, pois contém aquilo que precisamos para nossa vida, para a experiência da nossa fé em Deus e os pedidos em nosso benefício: o pão de cada dia, o perdão dos nossos pecados, a libertação das tentações e de todo o mal.

Pedimos que Deus perdoe as nossas ofensas, porque também nós perdoamos uns aos outros. E o ideal do perdão nos é apresentado por Jesus: “Vai primeiro reconciliar-te com teu irmão” (Mt 5,24). E agora Jesus nos manda dizer que queremos ser perdoados, pois nós também perdoamos. A nossa sorte está em nossas mãos: como perdoamos, assim também nos será perdoado. A oração do Pai Nosso nos ensina a dizer: “Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Este “como” indica que o perdão que podemos receber de Deus está condicionado ao perdão que também nós devemos oferecer ao irmão que errou contra nós. O próprio Cristo também nos exorta: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros ‘como’ eu vos amei” (Lc 13,34). É a unidade do perdão mútuo que torna possível a reconciliação, tendo como exemplo o próprio Cristo, que na cruz perdoou os seus adversários (cf. Lc 26,34).

Assim adquirem vida as palavras do Senhor sobre o perdão, esse amor que ama até o extremo do amor. A oração cristã chega até o perdão dos inimigos. O perdão é um ponto alto da oração cristã; o dom da oração não pode ser recebido a não ser num coração em consonância com a compaixão divina. O perdão dá também testemunho de que, em nosso mundo, o amor é mais forte que o pecado. O perdão é a condição fundamental da reconciliação dos filhos de Deus com seu Pai e dos homens entre si (cf. CIgC 2844).

Na parte final da oração, pedimos ao Senhor: “Não nos deixeis cair em tentação”. É um pedido que atinge a raiz do nosso pecado, que é fruto do consentimento na tentação. Pedimos ao nosso Pai que não nos “deixe cair” nas ciladas do inimigo tentador. Nós pedimos que o Senhor não nos deixe enveredar pelos caminhos que conduzem ao pecado. Este pedido implora o Espírito de discernimento e de fortaleza, para que possamos vencer a tentação.

Este “não cair em tentação” envolve uma decisão do coração. É a luta contra o mal e neste combate só conseguimos a vitória através da oração. Foi pela força da oração que Jesus venceu o tentador no deserto, o que sequenciou até o último combate de sua agonia. Também somos chamados a seguir este exemplo de Cristo, para isto necessitamos estar sempre em vigilância. Esta vigilância consiste em “guardar o coração”, e Jesus pede ao Pai que “nos guarde em seu nome” (cf. CIgC, n. 2863).

Isto nos faz lembrar uma significativa oração pronunciada pelo sacerdote no decorrer da Santa Missa, logo após a oração do Pai Nosso: “Livrai-nos de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a vossa paz. Ajudados por vossa misericórdia, sejamos sempre livres do pecado e protegidos de todos os perigos, enquanto, vivendo a esperança, aguardamos a vinda do Cristo Salvador”. Com isto temos o último pedido: “Mas livrai-nos do mal”. O cristão pede a Deus, com a Igreja, que manifeste a vitória sobre tudo aquilo que nos impede de viver dignamente a nossa união com Ele.

Com isto, podemos observar que a oração do Pai Nosso acolhe e expressa também as necessidades humanas, materiais e espirituais. E precisamente por causa das necessidades e das dificuldades de cada dia, Jesus exorta com vigor: “Portanto, eu vos digo: pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto” (Lc 11,9-10). Não é um pedir para satisfazer as próprias vontades, mas para manter viva a amizade com Deus.

Para demonstrar a eficácia da oração perseverante é que Jesus nos apresenta também, no final do Evangelho, uma pequena parábola, para nos ensinar que uma oração bem feita sempre será ouvida. Nesta parábola Jesus nos fala em pedra e pão, peixe, serpente, ovo e escorpião. Quer Ele nos ensinar que, se o que pedimos é bom, é útil à nossa salvação, se pedimos com fé e perseverança, Deus nos concederá.

Com isto Jesus nos ensina duas importantes lições, que devem dominar nossas orações: a perseverança e a confiança. Tarde da noite, não é fácil atender ao amigo inoportuno. No entanto, o pedido perseverante e confiante consegue tudo. Jesus também quer nos ensinar que, mesmo depois de “fechada a porta”, a oração será atendida, pois sua eficácia é importante.

A oração do Pai Nosso é realmente um compêndio de todo o Evangelho. É a mais perfeita das orações. Nela, não só pedimos tudo quanto podemos desejar corretamente, mas ainda, segundo a ordem em que convém desejá-lo. De modo que esta oração não só nos ensina a pedir, mas ordena também todos os nossos afetos (cf. CIgC 2763).

Peçamos também nós ao Senhor com a mesma consciência do discípulo do Evangelho: “Mestre, ensina-nos a rezar”, para que, através da oração, possa ser cumprida a vontade de Deus em cada um de nós. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – MARTA E MARIA

Lc 10, 38-42

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo traz um relato onde sobressaem as personagens femininas, que são duas irmãs, Marta e Maria, que vivem em Betânia com o irmão Lázaro, que, contudo, neste caso não parece. Jesus passa pela sua aldeia e, segundo o texto, Marta o hospeda. Este pormenor dá a entender que, das duas, Marta é a mais idosa, a que governa a casa. De fato, depois de Jesus ter entrado, Maria senta-se aos seus pés e ouve-o, enquanto Marta andava atarefada com muitos serviços, certamente devido à presença do ilustre hóspede.

Parece que vemos a cena: uma irmã que anda toda atarefada, e a outra atenta à presença do Mestre e das suas palavras. Um pouco depois Marta não resiste e protesta: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o serviço? Manda que ela me venha ajudar!”. Mas Jesus, com calma, responde: “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” (v. 42).

A cena é profundamente humana. Jesus é hóspede em casa desta família amiga. Marta se esforça para dar conta do serviço caseiro, enquanto Maria, sentada aos pés de Jesus, escuta a sua palavra. Podemos notar que ao responder a Marta, Jesus não condena sua atividade e seu zelo pelo serviço a sua pessoa, mas a adverte de um perigo: a inquietação da qual pode ser vítima. Ao dizer “Marta, Marta…”, exprime nesta repetição do nome um sinal do afeto de Jesus para com ela e um meio de torná-la mais atenta à lição que ele quer dar. Jesus a censura, por ela preocupar-se demais com as coisas materiais. Ele não condena o seu trabalho, mas procura mostrar que, acima das preocupações materiais, devem existir o cuidado e a solicitude para com o lado espiritual.

Jesus indica ainda que uma só coisa é importante e indispensável: o alimento espiritual da alma. Jesus quer a união do trabalho e da oração. Assim será a perfeição da vida: a oração, indispensável; o trabalho, necessário.

As atitudes das duas irmãs Marta e Maria são para nós ações complementares diante do Reino. Marta representa a atividade serviçal, o trabalho e a preocupação de cada dia, mas com o perigo que pode ter de nos roubar o tempo que necessitamos para escutar em silêncio a palavra de Deus. Em Marta e Maria estão representados os dois caminhos através dos quais se pode servir ao Senhor.

As atividades exteriores acabam com a morte. A união de nossa alma com Deus perdura para sempre. Maria se ocupa do único necessário: a própria salvação. Marta quer o mesmo fim, mas se ocupa demais com o trabalho material.

Também na nossa vida cristã a oração e a ação permaneçam sempre profundamente unidas. Uma oração que não leva à ação concreta a favor do irmão pobre, doente e necessitado de ajuda, o irmão em dificuldade, é uma prece incompleta. Mas do mesmo modo, quando no serviço eclesial só prestamos atenção à ação, quando damos mais importância às coisas, às funções e às estruturas, esquecendo-nos da centralidade de Cristo, sem reservar tempo ao diálogo com Ele na oração, corremos o risco de nos servirmos a nós mesmos, e não a Deus presente no irmão necessitado.

São Bento resumia o estilo de vida que indicava aos seus monges com estas palavras: “Ora et labora”, ou seja, oração e trabalho. É da contemplação de uma forte relação de amizade com o Senhor que nasce em nós a capacidade de viver e de anunciar o amor de Deus, a sua misericórdia, a sua ternura pelo próximo. E inclusive o nosso trabalho com o irmão em necessidade, a nossa tarefa de caridade nas obras de misericórdia nos levam ao Senhor.

Muitos outros santos também experimentaram uma profunda unidade de vida entre oração e ação, entre o amor total a Deus e o amor aos irmãos. São Bernardo, que é um modelo de harmonia entre contemplação e laboriosidade, insiste precisamente na a importância do recolhimento interior e da oração para se defender dos perigos de uma atividade excessiva, independentemente da condição em que se encontra e da tarefa que está a cumprir. São Bernardo afirma que as ocupações excessivas, uma vida frenética, terminam muitas vezes por endurecer o coração e fazer sofrer o espírito (cf. BENTO XVI, Audiência geral de 25 de abril de 2012).

Não podemos perder-nos no ativismo puro, mas devemos deixar-nos penetrar sempre na nossa atividade pela luz da Palavra de Deus e assim aprender a caridade autêntica, o serviço verdadeiro ao outro, que necessita do nosso auxílio.

Nesta narração evangélica fica acentuado a vocação para o primado da vida espiritual, para a necessidade de nos alimentarmos com a Palavra de Deus, a fim de darmos luz e sabor às tarefas quotidianas. Trata-se de um convite que é particularmente oportuno em qualquer tempo. Em ambos os casos, não há oposição entre os momentos de oração e da escuta de Deus e a atividade quotidiana e o exercício da caridade. A admoestação de Jesus a Marta frisa a prioridade que devemos dar a Deus frente as atividades cotidianas.

As palavras de Cristo dirigidas a Marta devem encontrar eco no nosso coração. Seguindo, portanto, a eloquência dessas palavras, peçamos a Deus para que abra os nossos corações, para atentamente escutarmos as palavras do seu Filho Jesus. Que nós também possamos, no nosso trabalho reservar um tempo para o Senhor.

O texto evangélico nos narra que Jesus se deteve na casa de Marta, Maria e Lázaro, que o acolhe. Jesus entra em casa para estar com eles. Ele é acolhido pelas duas mulheres Marta e Maria. No nosso dia a dia por vezes, as nossas inúmeras ocupações nos fazem ser como Marta: ativos e sempre preocupados com nossos afazeres. Mas outras vezes nos sentimos como Maria, paramos para refletir, para escutar o Cristo que nos fala em cada página do evangelho. Saibamos ouvi-lo, mas saibamos também, a exemplo de Marta e Maria, abrir sempre as portas da nossa casa para que ele possa entrar, para que ele possa estar com cada um de nós.

Procuremos também nós ter aquilo que não nos pode ser tirado, e para que isto venha a se concretizar, peçamos também a intercessão da Virgem Maria, Mãe da escuta e do serviço, que nos ensine a meditar no nosso coração a Palavra do seu Filho, a rezar com fidelidade, ela que preferiu alimentar-se daquilo que dizia o Senhor. E assim como Maria, saibamos também nós escutar atentamente a Palavra de Deus e colocá-la em prática, e que essa mesma Palavra de Deus possa dar sentido ao nosso agir quotidiano. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

SOLENIDADE DOS APÓSTOLOS PEDRO E PAULO

Mt 16,13-19

Caros irmãos e irmãs,

Celebramos neste domingo a Solenidade litúrgica dos Apóstolos Pedro e Paulo, colunas da Igreja, no linguajar dos santos padres, com dois estilos diferentes para uma mesma vocação missionária. Pedro, apóstolo dos judeus, Paulo dos gentios ou pagãos. Originariamente o primeiro foi um singelo pescador da Galileia; o segundo, um douto fariseu de Tarso. Tocados por Cristo, converteram-se em dois apaixonados pela difusão da mensagem do Senhor até o martírio, em Roma, Pedro no ano 64 e Paulo em 67. Pedro era um pescador da Galileia. Com André, seu irmão, passava os dias no lago de Tiberíades. Sempre o mesmo trabalho: lançar as redes para a pesca. Foi precisamente em um desses momentos que Jesus o convida a segui-lo (cf. Mc 1,17).

O texto evangélico nos apresenta uma dupla interrogação feita por Jesus aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” e “E vós, quem dizeis que eu sou?”. Jesus os convida tomar consciência desta diferente perspectiva e ouve a resposta dos seus discípulos acerca do pensamento das pessoas, que o identificam como um profeta. Isto, entretanto, não basta, é necessário aprofundar, ir além, reconhecer a singularidade da sua pessoa, a sua novidade; é preciso reconhecer Jesus como o Messias, o filho de Deus vivo. Diante da confusa resposta, Jesus transfere a pergunta aos seus discípulos; e Pedro, tomando a palavra, responde: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). Possamos também nós hoje, fazer nossa essa resposta de Pedro: “Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16).

A resposta de Pedro não é fruto de seu próprio raciocínio, mas uma revelação do Pai ao humilde pescador da Galileia, como confirma o próprio Jesus, dizendo: “Não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (Mt 16, 17). É por causa desta confissão que Jesus diz: “Tu és Pedro, e sobre esta Pedra construirei a minha Igreja” (v. 18). Pedro estava tão próximo do Senhor que se tornou ele mesmo uma rocha de fé e de amor sobre a qual Jesus edificou a sua Igreja. Com efeito, o Senhor conclui dizendo: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,19).

Com base nesta confissão de Pedro é conferida a ele uma tarefa particular, manifestada mediante três imagens: a da rocha que se torna pedra de fundamento ou pedra angular, a das chaves e a de ligar e desligar. Mediante estas imagens sobressai claramente o fato de que Pedro é inseparável do encargo pastoral que lhe foi confiado em relação ao rebanho de Cristo, o que vem a se concretizar no encontro de Cristo ressuscitado com Pedro, conforme nos narra o Evangelho de São João, quando o Senhor Ressuscitado confia a Pedro a missão de apascentar o seu rebanho (cf. 21,15-19).

O paralelismo entre Pedro e Paulo não pode diminuir o alcance do caminho histórico feito por Simão com o seu Mestre e Senhor que, desde o início, lhe atribuiu a característica de “rocha”. Na verdade, Pedro será o cimento de rocha sobre a qual estará o edifício da Igreja; terá as chaves do Reino dos céus para abrir e fechar a quem lhe pareça justo; por último, poderá atar e desatar, ou seja, poderá estabelecer ou proibir o que considere necessário para a vida da Igreja, que é e continuará sendo de Cristo. É sempre a Igreja de Cristo e não de Pedro.

O poder conferido a Pedro não é um poder segundo as modalidades deste mundo. É o poder do bem, da verdade e do amor. Sua promessa é verdadeira: os poderes da morte e as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja que Cristo edificou sobre Pedro (cf. Mt 16,18) e que Ele, precisamente desta forma, continua a edificar.

Esta posição preeminente que Jesus quis entregar a Pedro, se constata também depois da sua ressurreição. Por ocasião da ressurreição de Cristo, Maria Madalena corre a Pedro e a João para informar que a pedra foi removida da entrada do sepulcro (cf. Jo 20,2), e João lhe cederá o passo quando os dois chegam ao túmulo vazio (cf. Jo 20,4-6). Posteriormente, Pedro será entre os apóstolos, a primeira testemunha da aparição do Ressuscitado (cf. Lc 24,34; 1Cor 15,5). No Concílio de Jerusalém, Pedro ainda desempenha uma função diretiva (cf. At 15 e Gl 2,1-10), e, precisamente pelo fato de ser a testemunha da fé autêntica, o próprio Paulo reconhecerá nele um papel de “primeiro” (cf. 1Cor 15,5; Gl 1, 18; 2,7).

Podemos ainda ressaltar o testemunho de fé e a árdua luta que os Apóstolos Pedro e Paulo tiveram de enfrentar pela causa do Evangelho. Também nisto seguiram com fidelidade o modelo de Cristo: deram a vida em prol do Evangelho. Estes dois Apóstolos, tendo o olhar fixo no mistério pascal, não duvidaram da necessidade de anunciar o Cristo, mesmo diante das dificuldades e dos desafios: era o início da realização do plano de Deus.

Era a vitória sobre as forças do mal, conquistada em primeiro lugar por Cristo e depois pelos seus discípulos, mediante a fé. E sobre esta base encontramos os fundamentos firmes da fé apostólica, sobre a qual está edificada a missão da Igreja. A rocha representa a firmeza, não só no que se refere à duração, mas também no que tange à solidez dos seus ensinamentos, oriundos da Sagrada Escritura.

O Apóstolo Paulo, cujo nome antes da conversão era Saulo, era natural de Tarso. Foi inicialmente um fariseu zeloso, a ponto de perseguir e aprisionar os cristãos, sendo responsável pela morte de muitos deles. Mas o encontro com Cristo ressuscitado no caminho de Damasco marcou a mudança decisiva na vida de Paulo. Realizou-se então a sua completa transformação, uma verdadeira conversão espiritual. Tornou-se, de cruel perseguidor dos cristãos, a um fervoroso apóstolo do Evangelho. A partir daquele momento, tudo o que antes constituía para ele um valor tornou-se paradoxalmente, segundo as suas palavras, perda e lixo (cf. Fl 3,7-10). A partir daquele momento todas as suas energias foram postas ao serviço exclusivo de Jesus Cristo e do seu Evangelho.

Os Apóstolos Pedro e Paulo são testemunhas insignes da fé, dilataram o Reino de Deus com os seus diversos dons e, a exemplo do próprio Cristo, selaram com o sangue a sua pregação evangélica. O exemplo destes grandes santos possa iluminar as nossas mentes e acender em nós o desejo de realizar todos os dias a vontade de Deus, a fim de que possamos permanecer fiéis ao Evangelho, para cujo serviço eles consagraram a sua própria vida, anunciando os ensinamentos do Cristo, caminho, verdade e vida, a todos os povos. São Pedro e São Paulo, rogai por nós! Amém.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ