XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – Parábola do Filho Pródigo

Lc 15,1-32

Caros irmãos e irmãs,

Para este domingo a liturgia da Palavra propõe à nossa meditação o capítulo 15 do Evangelho de Lucas, uma das páginas mais profundas e comoventes de toda Sagrada Escritura. É belo pensar que no mundo inteiro, onde a comunidade cristã se reúne para celebrar a Eucaristia dominical, ressoa neste dia esta Boa Nova de verdade e de salvação: Deus é amor misericordioso. O evangelista São Lucas recolheu neste capítulo três parábolas sobre a misericórdia divina: as duas mais breves são as parábolas da ovelha desgarrada e da moeda perdida (cf. Lc 15,1-10); a terceira, a mais longa, é a conhecida parábola do Pai misericordioso, também habitualmente chamada de parábola do filho pródigo.

O ponto de partida para a narração da Parábola é a murmuração dos fariseus e dos escribas, diante da cena onde publicanos e pecadores escutam Jesus: “Este homem acolhe os pecadores e come com eles” (v. 2), comentam. O acolhimento dos publicanos e pecadores por parte de Jesus é algo escandaloso na perspectiva dos fariseus; comer com eles, estabelecer laços de familiaridade e de irmandade é algo abominável. Na perspectiva da teologia da época, os pecadores não podiam aproximar-se de Deus. É neste contexto que Jesus apresenta a Parábola do filho pródigo, na qual encontramos três personagens de referência: o pai, o filho mais novo e o filho mais velho.

O pai, na parábola, é aquele que sabe conjugar o respeito pelas decisões e pela liberdade dos filhos, com um amor gratuito e sem limites. Esse amor manifesta-se na emoção com que abraça o filho que volta, mesmo sem saber se esse filho mudou a sua atitude. Trata-se de um amor que permaneceu inalterado, apesar da rebeldia, da ausência e da infidelidade do filho. O amor do pai aparece representado no abraço, no beijo, no anel, símbolo da autoridade e do poder (cf. Gn 41,42; Est 3,10; 8,2) e nas sandálias, calçado do homem livre (cf. Gl 5,1).

No início da parábola observa-se que o filho exige do pai tudo aquilo que ele tem direito. A lei judaica previa que o filho mais novo recebesse apenas um terço da fortuna do pai (cf. Dt 21,15-17); mas, ainda que a divisão das propriedades pudesse fazer-se em vida do pai, os filhos não podiam tomar posse de seus bens, senão depois da morte do pai (cf. Eclo 33,20-24). O filho mais novo abandona a casa e o amor do pai e dissipa os bens colocados à sua disposição. É uma imagem de egoísmo, de orgulho e irresponsabilidade. Após gastar tudo o que possuía, aquele que se tornara totalmente livre, torna-se agora escravo: guardador de porcos. Para os judeus, o porco é um animal impuro – servir aos porcos é sinal de extrema alienação e de extrema miséria. O filho mais novo tornou-se um escravo miserável. Sem direito até mesmo de saciar a fome com o alimento oferecido aos porcos. Neste momento, ele então percebe que está perdido. Percebe que o seu nível de vida é inferior a dos porcos. Sente um tédio e um vazio inquietador, de uma vida sem sentido e da qual ele só vê um iminente morrer de fome.

O filho mais novo ao partir para um país distante geograficamente, desejava uma mudança não só exterior, mas também interior, pois queria uma vida totalmente diversa. Seu desejo era viver a liberdade, fazer tudo o que desejava e ignorar as normas do Pai que ficara distante. Passa então a perceber que era muito mais livre quando estava na casa do seu pai, pois era também ele proprietário e contribuía para a edificação do lar. Ao “cair em si” inicia uma reflexão interior que o faz almejar um novo projeto de vida. A decisão pela concretização deste objetivo o leva a uma ação exterior: ele se levanta e direciona os seus passos para um encontro com o pai, com um propósito de recomeçar a sua vida, porque já compreendeu que o caminho por ele percorrido era o caminho errado. Ele quer começar de novo e sabe que perdeu o direito de ser filho e, por isto, está disposto a ser um dos empregados, pois, para ele o mais importante agora é estar na casa do pai, não importa como.

E é neste momento que ele “entra em si mesmo”, como diz o Evangelho (cf. Lc 15,17). Podemos dizer que longe da casa do pai, em um país distante ele se afastou até de si mesmo. Vivia longe da verdade de sua existência. A sua mudança, a conversão, consiste em que ele reconhece que outrora partiu de si e agora ele regressa a si mesmo. E é em si mesmo que ele encontra a indicação de um novo caminho: o caminho da casa do Pai. As palavras que ele preparou para o seu regresso: “Pai, pequei contra o céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado teu filho…” (Lc 15,18), nos permitem reconhecer a peregrinação interior que ele então realiza.

E, ao chegar à casa, recebe do pai o abraço e o beijo, sinal de reconciliação e perdão. É oferecida uma festa e então ele percebe que a vida pode começar de novo. Regressa à casa paterna interiormente maduro e purificado: compreendeu o que é viver. Mesmo diante de possíveis tentações futuras, estará ele plenamente consciente que uma vida longe da casa do Pai não funciona: falta o essencial, falta a luz, falta o sentido da vida.

Não podemos esquecer o início do Evangelho, quando a narrativa nos faz lembrar que Jesus aproximava-se dos publicanos e dos pecadores, chegando mesmo a fazer-se convidar por eles, o que o tornava impuro, aos olhos daqueles que se sentiam puros. Na Parábola, ao abraçar o filho que julgava perdido, cobrindo-o de beijos, o pai também se torna impuro, também pelo próprio ato de tocar este filho que regressava, depois de uma vida desordenada. Como os fariseus e os escribas, o filho mais velho se recusa a entrar em comunhão com um pecador, pois se julga puro, incapaz se unir aos impuros.

O filho mais velho, cumpridor de todas as regras, sempre fez o que o pai mandou. Nunca pensou em deixar o espaço cômodo e acolhedor da casa do pai. No entanto, a sua lógica é a lógica da “justiça” e não a lógica do amor e da misericórdia. Ele acha que tem créditos superiores aos do irmão e não compreende nem aceita que o pai exerça a misericórdia para com o filho rebelde. Semelhante à imagem dos fariseus e escribas, que interpelaram Jesus porque cumpriam rigorosamente as exigências da Lei, desprezavam os pecadores e achavam que essa devia ser também a lógica de Deus. Eles desconheciam o Deus misericordioso que acolhe o pecador e se alegra com o seu regresso.

Nesta parábola conhecemos a identidade de Deus: Deus é amor (cf. 1Jo 4,16). Ele é o Pai misericordioso que em Jesus nos ama e nos perdoa. Os erros que cometemos, mesmo se grandes, não prejudicam a fidelidade do seu amor. Ele nos acolhe e nos restitui a dignidade de filhos. Com isto podemos redescobrir o Sacramento da Penitência e do Perdão, que faz brotar a alegria num coração renascido para uma vida nova.

Assim como o Filho Pródigo, hoje nós também somos convidados a percorrer um caminho interior, lançar um olhar para nós mesmos, para que possamos direcionar os nossos pensamentos e os nossos atos para a conversão que, antes de ser um esforço para mudar o nosso comportamento, é uma oportunidade para recomeçar, ou seja, abandonar o pecado e escolher voltar para Deus, para a casa do Pai.

O encanto deste texto esconde-se no verbo “splanchnizomaim”, uma palavra grega comumente traduzida como: “movido por compaixão”. Trata-se, na realidade, de um movimento visceral, como que de um parto. O filho “que estava morto e voltou à vida”, renasce no abraço misericordioso do Pai. Por isso, o Pai exclama: “É preciso alegrar-se”. Esta é a grande proposta de cada cristão: renascer, voltar ao Pai como homem novo e aceitar o irmão exatamente como ele é, ou seja, com suas limitações; abraçá-lo quando vem ao nosso encontro, trazendo as suas cicatrizes e as suas fragilidades.

Assim como o filho pródigo, quantos de nós também estamos perdidos e somos convidados a percorrer um caminho interior, lançar um olhar para nós mesmos, para que possamos direcionar os nossos passos para o caminho da conversão que, antes de ser um esforço para mudar o nosso comportamento, é uma oportunidade para recomeçar, ou seja, abandonar o pecado e escolher voltar para Deus. Possamos ser determinados em nossa decisão a deixar para trás uma vida de erro e de pecado, para irmos em direção à casa do Pai. E ao chegarmos, queira esse Pai de misericórdia ter compaixão também de nós, que ele possa correr ao nosso encontro, a nos abraçar e a nos acolher de novo em sua casa. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ