XIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – SEGUE-ME

Lc 9,51-62

Caros irmãos e irmãs,

As leituras bíblicas da santa Missa deste domingo ressaltam o tema da vocação de seguir o Cristo e as suas exigências. O Evangelho mostra Jesus a caminhar para Jerusalém, que é a meta final onde Jesus, na sua Páscoa derradeira, deve morrer e ressuscitar, elevar a cumprimento a sua missão de salvação. Ao longo desse caminho Jesus vai mostrando aos discípulos os valores do Reino de Deus. Todo este percurso que aqui se inicia converge para a cruz. Os discípulos também são exortados a seguir este “caminho”, para se identificarem plenamente com Jesus.

Se Jesus parece exigente para com aqueles que O querem seguir, é porque Ele mesmo é exigente quanto à sua própria caminhada. É caminhando que Jesus convida a colocarmos a segui-lo. Então, aqueles que o seguirem poderão dizer como Paulo: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4,7).

Ao longo do seu caminho até Jerusalém, Jesus encontra alguns homens, provavelmente jovens, os quais prometem segui-lo onde quer que ele vá. Ele os admoesta dizendo que “o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”, ou seja, não tem uma habitação estável e que quem escolhe trabalhar com Ele na sua vinha , jamais poderá arrepender-se (cf. Lc 9,57-58.61-62). A outro jovem o próprio Cristo diz: “Segue-me”, pedindo-lhe um desapego total dos vínculos familiares (cf. Lc 9, 59-60). Estas exigências podem parecer demasiado severas, mas na realidade expressam a novidade e a prioridade absoluta do Reino de Deus que se torna presente na própria pessoa de Jesus Cristo. Em última análise, trata-se daquela radicalidade que é devida ao amor de Deus, ao qual Jesus é o primeiro a obedecer. Quem renuncia a tudo, até a si mesmo, para seguir Jesus, entra numa nova dimensão da liberdade, pois está a serviço uns dos outros (cf. Gl 5,16).

Jesus chamou muitos para segui-lo. Podemos lembrar de Pedro e dos demais apóstolos. Podemos lembrar mais precisamente do evangelista e também apóstolo São Mateus (cf. Mt 9,9). Antes que Jesus o chamasse, ele desempenhava a profissão de publicano e, por isso, era considerado pecador público, excluído da “vinha do Senhor”. Mas, tudo muda quando Jesus, passando ao lado da sua mesa de impostos, fixa nele o seu olhar e diz: “Segue-me!” Foi precisamente isto que o evangelista São Mateus fez: Levantou-se e seguiu-o.

Também São Paulo experimentou a alegria de ser chamado pelo Senhor para trabalhar na sua vinha. Mas como ele mesmo confessa, foi a graça de Deus que agiu nele, aquela graça que, de perseguidor da Igreja, o transformou em Apóstolo das nações. A ponto de o levar a dizer: “Para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fl 1,21). Paulo compreendeu bem que trabalhar para o Senhor já é, nesta terra, uma recompensa.

A proposta que Jesus faz às pessoas ao dizer-lhes “Segue-me!” (v. 59), é exigente e exaltante. São elas convidadas a entrar no âmbito da sua amizade, a escutar de perto a sua Palavra e a viver com Ele; ensina-lhes a dedicação total a Deus e à propagação do seu Reino, segundo a lei do Evangelho: “Se o grão de trigo cair na terra e não morrer, fica só ele; mas, se morrer, dá muito fruto” (Jo 12, 24)

No encontro de Jesus com o jovem rico (cf. Mc 10, 17-22), na narração evangélica de São Marcos sublinha como “Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele” (Mc 10, 21). No olhar do Senhor, está o coração deste encontro e de toda a experiência cristã.

Jesus convida o jovem rico a ir mais além da satisfação das suas aspirações e dos seus projetos pessoais, dizendo-lhe: “Vem e segue-me!” (Mt 19,21). Ao jovem rico Jesus ainda diz: “Vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres… depois vem e segue-me” (Mt 19,21). Estas palavras inspiraram numerosos Cristãos ao longo da história da Igreja para seguir Cristo numa vida de pobreza radical, confiando na Providência Divina. Entre estes generosos discípulos de Cristo encontrava-se também São Bento, São Francisco de Assis e tantos outros que, sem hesitações, responderam o chamado do divino Mestre.

A vocação cristã deriva de uma proposta de amor do Senhor e só pode realizar-se graças a uma resposta de amor. Jesus convida os seus discípulos a segui-lo com uma confiança sem reservas em Deus. Os santos acolheram este convite exigente e, com humilde docilidade, põe-se a seguir Cristo crucificado e ressuscitado. A sua perfeição na lógica da fé, às vezes humanamente incompreensível, consiste em viver segundo o Evangelho.

Como de fato, muitos são aqueles que deixam a família de origem, os estudos, o trabalho, os seus bens, para se consagrar a Deus, como resposta radical à vocação divina. Para seguir Jesus Cristo é preciso estar livre de todas as ataduras, pois quem olha para trás, não está apto para o Reino de Deus (cf. Lc 9,62). Só vivemos a verdadeira liberdade se sairmos de nós mesmos, se desapegarmos de nós mesmos, para nos colocarmos a caminho com o Senhor e cumprirmos a sua vontade.

A exemplo de muitos discípulos de Cristo, possamos também nós acolher com alegria o convite a seguir Jesus, para vivermos intensa e fecundamente neste mundo. Com efeito, mediante o batismo, Ele chama cada um a segui-lo com ações concretas, a amá-lo sobre todas as coisas e a servi-lo nos irmãos. Infelizmente, o jovem rico não acolheu o convite de Jesus e retirou-se pesaroso. Não encontrara coragem para se desapegar dos bens materiais a fim de possuir o bem maior proposto por Jesus.

Jesus nunca se cansa de estender o seu olhar de amor sobre nós, chamando-nos a ser seus discípulos; a alguns, porém, Ele propõe uma opção mais radical. Possamos estar sempre disponíveis para acolher com generosidade e entusiasmo este sinal de predileção especial. Ele sabe dar alegria profunda a quem responde com coragem.

Também hoje, o seguimento de Cristo é exigente; significa aprender a ter o olhar fixo em Jesus, a conhecê-lo intimamente, a escutá-lo na Palavra e a encontrá-lo nos Sacramentos; significa aprender a conformar a nossa própria vontade à dele.

Deus serve-se de nós segundo o seu plano de amor, segundo a modalidade que Ele estabelece e pede-nos para favorecer a ação do Espírito; devemos ser os bons colaboradores do Senhor, para a eficácia realização do seu Reino.

Possamos ser atraídos pelos exemplos luminosos dos Santos que souberam dar ao mundo um testemunho do Senhor. São eles os protagonistas do amor e do bem, exemplos vivos de esperança e testemunhas de um amor que nada teme, nem sequer a morte.

Que Maria, a Mãe de Deus e nossa, que correspondeu sem reservas o chamado do Senhor, nos ajude a sermos capazes de ouvir a voz de Deus e de a seguir com determinação e decisão o caminho da santidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento-RJ

XII SEMANA DO TEMPO COMUM – C – E vós, quem dizeis que eu sou?

Lc 9,18-24

Caros irmãos e irmãs,

Neste domingo o texto evangélico traz uma pergunta formulada por Jesus aos seus discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Os discípulos respondem: “Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que és algum dos antigos profetas que ressuscitou” (v.19). Na opinião do povo, Jesus é comparado aos grandes personagens apresentados pela Sagrada Escritura, mas não o reconhecem como Messias, certamente porque a postura de Jesus não correspondia àquilo que se esperava de um rei forte e vencedor.

Contudo, a reação das pessoas é de admiração e enaltecimento, pois recordam João Batista, o maior dos profetas; Elias, o profeta que surgiu como um fogo, cuja palavra queimava como uma tocha (cf. Eclo 48,1). Na verdade o povo enaltece, admira, mas não reconhece a verdadeira identidade de Cristo.

Jesus viveu numa época de enormes dificuldades para o Povo de Deus. E esse sofrimento gerou grande expectativa messiânica. Todos sonhavam com a chegada do Messias anunciado pelos profetas. Neste período apareceram várias figuras que se assumiram como “enviados de Deus”; o que criou-se um clima de ebulição, visto que arrastaram atrás de si grupos de discípulos exaltados e acabaram chacinados pelas tropas romanas.

Muitos pensavam que o Messias seria um herói, um guerreiro forte semelhante a Sansão, um rei vitorioso como Davi, um político inteligente como Salomão etc. Aparentemente, Jesus não é considerado pelo povo como o novo Messias, mas o identificam como o novo Elias, o profeta que as lendas judaicas consideravam estar junto de Deus.

Em seguida temos a segunda pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” As perguntas que Cristo faz, as respostas que são dadas pelos seus discípulos e, finalmente, por Pedro, constituem uma espécie de exame da maturidade da fé daqueles que vivem mais perto de Cristo. Pedro responde em nome dos Doze, com uma profissão de fé que se diferencia de modo substancial da opinião que as pessoas têm sobre Jesus; com efeito, ele reconhece Jesus como o “Cristo de Deus” (v. 20). Ou, de acordo com a narração do Evangelista São Mateus: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16).

Esta confissão de fé apresentada por Pedro está intrinsecamente vinculada à primeira frase que no trecho evangélico, diz estar Jesus em um lugar afastado, em um momento de oração (v. 19). Um momento em que os próprios discípulos testemunham a unidade de Jesus com Deus. Frequentemente o evangelista São Lucas observa que Jesus, antes de cumprir algum gesto importante ou antes de transmitir um ensinamento com um significado extraordinário, ele se recolhe em oração. Temos nesta indicação que pela oração também podemos descobrir o rosto do Senhor e o conteúdo mais autêntico da sua missão.

Jesus não desmente a afirmação de Pedro, mas ordena que não a digam a ninguém. Dizer que Jesus é o Messias significa reconhecer nele esse “enviado” de Deus, a linhagem davídica, que havia de traduzir em realidade essas esperanças de libertação que enchiam o coração de todos. Jesus não discorda da afirmação de Pedro. Ele sabe, no entanto, que os discípulos sonhavam com um Messias, poderoso e vitorioso e apressa-se a esclarecer possíveis equívocos.

Ele é o enviado de Deus para libertar os homens, no entanto, não vai realizar essa libertação pelo poder das armas, mas pelo amor e pelo dom da vida. No seu horizonte próximo não está um trono, mas a cruz. Ele não é o Messias que todos estão esperando. Por isto, logo em seguida, o texto do Evangelho esclarece: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia” (v. 22). Com isto, Jesus mostra que não lhe espera o triunfo, mas a humilhação, o sofrimento e a morte. Porém, Deus transforma este seu sofrimento em caminho para a glorificação.

Na teologia do evangelista São Lucas, Jesus será revelado como Messias pelo sofrimento e pela paixão (cf. Lc 27,7.26.46). Sua missão messiânica consiste em vencer a morte pela cruz (cf. At 2,23s). Mas este mistério de sua messianidade ainda está oculto, para evitar falsas esperanças, por isto, Jesus proíbe aos discípulos comunicar aos outros a verdade professada por Pedro.

Imediatamente, depois da confissão petrina, Jesus anuncia a sua paixão e ressurreição, pondo em destaque o seguimento dos discípulos pelo caminho da cruz. E depois acrescenta que ser discípulo significa “perder-se a si mesmo”, isto para voltar a encontrar-se plenamente a si mesmo” (cf. Lc 9,22-24).

Mas o que significa “perder a vida por causa de Jesus?” Isto pode acontecer de dois modos: confessando explicitamente a fé, ou defendendo de modo implícito a verdade. Os mártires são o exemplo máximo da perda da vida por Cristo.

E dentre os mártires que vieram a perder a vida por causa da verdade, que é Cristo, uma vez que ele disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6), está João Batista. Ele foi o escolhido por Deus para preparar o caminho diante de Jesus e indicá-lo ao povo de Israel como o Messias, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (cf. Jo 1,29).

De Jerusalém e de todas as partes da Judeia o povo acorria para ouvir João Batista e fazer-se batizar por ele no rio Jordão, confessando os próprios pecados (cf. Mc 1,5). A fama do profeta batizador cresceu a tal ponto que muitos perguntavam se era ele o Messias. Mas ele, ressalta o evangelista São João, negou categoricamente: “Eu não sou o Messias” (Jo 1,20).

João consagrou-se totalmente a Deus e ao seu enviado, Jesus. Mas, no final, morreu em nome da verdade, quando denunciou o adultério do rei Herodes com Herodíades (cf. Mc 6,16-29). Pagou com a vida, selando com o martírio o seu serviço a Cristo, que é a Verdade em pessoa.

Para seguir Jesus, é necessário renunciar a todas as inclinações contrárias à vontade de Deus, ou seja, renunciar-se a si mesmo (v. 23). É preciso carregar a cruz todos os dias. Esta é a grande lei do cristianismo. Jesus vai à frente com a cruz e nos convida a segui-lo. E o seu convite continua atual: “Segue-me!”.

E Jesus, diante desta profissão de fé, renova a Pedro e aos demais discípulos o convite a segui-lo pela estrada exigente do amor até a cruz. Também a nós Jesus dirige a proposta de segui-lo todos os dias, e lembra que, para sermos seus discípulos, é necessário que nos apropriemos do poder da sua Cruz, ápice de nossos bens e coroa de nossa esperança.

Saibamos acolher com alegria esta palavra de Jesus. É uma regra de vida proposta a todos e que São João Batista interceda por nós para que possamos pô-la em prática. Invoquemos também a intercessão da Virgem Maria, para que, nos nossos dias, saibamos sempre manter a fidelidade a Cristo e testemunhar com coragem a sua verdade e o seu amor a todos. Ela, que se identificou como a Serva do Senhor, e que conformou a sua vontade com a de Deus, nos acompanhe durante todos os dias da nossa vida. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE

Jo 16,12-15

Meus caros irmãos e irmãs,

Celebramos neste domingo a Solenidade da Santíssima Trindade, que, em certo sentido, recapitula a revelação de Deus advinda dos mistérios pascais: morte e ressurreição de Cristo, sua ascensão à direita do Pai e a efusão do Espírito Santo.

Depois do tempo pascal, culminado na festa de Pentecostes, a liturgia prevê estas três solenidades do Senhor: a Santíssima Trindade; na próxima quinta-feira, o dia de “Corpus Christi”; e finalmente, na sexta-feira sucessiva, a festa do Sagrado Coração de Jesus. Cada uma destas celebrações litúrgicas evidencia uma perspectiva a partir da qual se abrange todo o mistério da fé cristã: ou seja, respectivamente a realidade de Deus Uno e Trino, o Sacramento da Eucaristia e o centro divino-humano da Pessoa de Cristo. Na verdade são aspectos do único mistério da salvação, que num certo sentido resumem todo o itinerário da revelação de Jesus, da encarnação à morte e ressurreição até à ascensão e ao dom do Espírito Santo.

Como sabemos, a Trindade divina passa a habitar em nós a partir do dia do Batismo: “Eu te batizo – diz o ministro – em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. O nome de Deus, no qual fomos batizados, é lembrado por nós toda vez que fazemos o sinal da cruz. Também iniciamos cada Celebração Eucarística em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. O mesmo ocorre no final, ao concluir, com a bênção do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Também no decorrer da Santa Missa fazemos a nossa profissão de fé dizendo: “Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso… e em um só Senhor, Jesus Cristo… e no Espírito Santo”. No sinal da cruz está também o anúncio que gera a fé e inspira a oração.

No texto evangélico, Jesus promete aos Apóstolos: “Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade” (Jo 16, 13). A missão do Espírito Santo será iluminar os discípulos para que eles entendam de maneira correta aquilo que o Cristo ensinou e possam conduzir a comunidade dos discípulos de Jesus ao caminho da verdade. Assim também ocorre na liturgia dominical, quando os sacerdotes oferecem, semanalmente, o pão da Palavra e da Eucaristia.

Neste domingo, as leituras nos falam da Santíssima Trindade, para nos revelar o amor que Deus tem por nós e nos mostrar o seu projeto de salvação. A primeira leitura ressalta o projeto do Pai na criação, a fonte e a origem de tudo. A segunda leitura nos revela que o projeto de Deus, prescrito na primeira leitura, se realiza em Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus, escondido desde a eternidade no seio do Pai e que estava com ele no momento da criação, mas somente com a intervenção do Espírito Santo é que saberemos compreender e aderir plenamente ao projeto de Deus para nós à obra salvadora do Filho, ou seja, do Cristo Jesus. Cabe ao Espírito Santo iluminar as mentes e os corações dos homens a respeito dos ensinamentos do Evangelho e colocar em prática as recomendações que ele nos apresenta.

Todas as celebrações são sempre em honra de Deus, Uno e Trino. Os sacramentos são realizados e celebrados mediante a invocação das três pessoas divinas. Pode-se ressaltar ainda a doxologia que conclui todos os salmos na Liturgia do Ofício Divino: “Glória ao Pai, e ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora e sempre”. E quando nos dirigimos a Deus com uma oração de impetração, podemos concluir com estas palavras: “Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus, e vive e reina convosco, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos”.

A Santíssima Trindade está, pois, incessantemente nos lábios e no coração dos cristãos. E neste domingo nós a adoramos de modo especial. Com esta solenidade, quer também a Igreja mostrar de modo mais intenso a sua devoção à Trindade Santíssima e proclamar de forma mais expressiva a sua fé.

Todas as nossas obras devem ter uma única finalidade: que o nome de Jesus seja glorificado em nós. O Pai e o Espírito Santo glorificam a Jesus e nos dão com Ele uma norma a nos orientar sempre. O lema, como que a síntese de nossa vida, deverá ser aquela significativa oração no final das preces eucarísticas da Santa Missa, onde apresentamos o Corpo e o Sangue de Jesus na patena e no cálice: “Por Cristo, com Cristo e em Cristo, a vós, Deus Pai todo-poderoso, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre, na unidade do Espírito Santo”. E, acompanhando esse momento forte de oração que brota do íntimo de nosso ser, possamos dizer com fé, mesmo que não consigamos atingir a grandeza que o mistério encerra: “Amém”.

E ao colocar esta solenidade no domingo seguinte à solenidade de Pentecostes, a Igreja vem nos lembrar que cada domingo é uma festa da Santíssima Trindade, pois o domingo é o dia do Senhor, dia em que Jesus ressuscitou e que o Espírito Santo nos santificou, descendo sobre a igreja nascente. Neste sentido, todo domingo devemos contemplar este mistério Trinitário!

Assim como Jesus, em quem vivia “a plenitude Deus” (Cl 2,4) e só fazia a vontade do Pai (cf. Jo 4,34; 5,36), assim, em nós, Deus quer ser a meta e o impulso de todas as nossas vontades, nas provações e nos momentos de esperança.

Possamos invocar a Bem-aventurada Virgem Maria, primeira criatura plenamente enriquecida pela Santíssima Trindade. Na sua humildade ela se fez serva do Senhor e acolheu a vontade do Pai e concebeu o Filho por obra do Espírito Santo. Que ela interceda sempre por nós e nos ajude a crescer na fé no mistério trinitário. A ela pedimos a sua proteção materna, para que possamos prosseguir bem a nossa peregrinação terrena. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ.

SOLENIDADE DE PENTECOSTES

 

Jo 20,19-23

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia da Palavra deste domingo acentua a manifestação do Espírito Santo no milagre de Pentecostes e nos conduz ao Cenáculo onde nos deparamos com Maria, a Mãe de Jesus e os Apóstolos reunidos em oração (cf. At 1,14s), quando ficaram repletos do Espírito Santo (cf. At 2,1-4). Cumpria-se o prometido pelo Salvador: “O Espírito Santo, que o Pai vos enviará em meu nome. Ele vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar o que eu vos disse” (Jo 14,26).

Neste dia teve início a missão da Igreja no mundo. O próprio Jesus tinha preparado os seus apóstolos para esta missão aparecendo-lhes várias vezes depois da sua ressurreição (cf. At 1,3). Antes da ascensão ao Céu, ordenou que “não se afastassem de Jerusalém, mas que aguardassem que se cumprisse a promessa do Pai” (cf. At 1,4-5); isto é, pediu que permanecessem juntos e se preparassem para receber o dom do Espírito Santo.

O Povo de Deus, que tinha encontrado no Sinai a sua primeira configuração, vê agora um novo sinal de Deus a ponto de não conhecer qualquer fronteira de raça, cultura, espaço ou tempo. Diferente do que tinha acontecido com a torre de Babel (cf. Jo 11,1-9), quando os homens, intencionados a construir com as suas mãos um caminho para o céu, fragilizaram a sua própria capacidade de se compreenderem reciprocamente, enquanto o Espírito Santo torna os corações capazes de compreender as línguas de todos e restabelece a ponte da comunicação entre Deus e a humanidade.

No Evangelho temos a aparição de Jesus aos apóstolos para lhes comunicar a sua paz e o dom do Espírito Santo, para tirar o pecado do mundo, ou seja, para que eles continuem sua obra salvadora (cf. Jo 14,27s). Jesus sopra sobre os apóstolos, para que eles recebam o Espírito Santo e tenham o poder de perdoar os pecados. Porém, o mais grandioso é quando, na manhã de Pentecostes, um grande vendaval soprou em Jerusalém e o Espírito Santo desceu em forma de línguas de fogo sobre a comunidade inicial da Igreja, e eles ficaram repletos de uma nova vida e de uma nova luz.

O termo “Espírito” traduz o termo hebraico “Ruah” que, na sua primeira acepção, significa sopro, ar, vento. Jesus utiliza precisamente a imagem sensível do vento para sugerir a novidade transcendente daquele que é pessoalmente o Sopro de Deus, o Espírito divino. É o dom por excelência de Cristo ressuscitado conferido aos seus Apóstolos, mas Ele quer que chegue a todos. No Evangelho Jesus diz: “Eu apelarei ao Pai e Ele vos dará outro Paráclito para que esteja sempre convosco” (Jo 14,16). É o Espírito Paráclito, o Consolador, que dá a coragem de levar o Evangelho pelas estradas do mundo! O Espírito Santo ergue o nosso olhar para o horizonte e nos impele para que possamos anunciar a todos a mensagem de Jesus Cristo.

O Batismo nos concede a graça do novo nascimento em Deus Pai, por meio do Filho no Espírito Santo, que é o primeiro no despertar da nossa fé e na vida nova que consiste em conhecer o Pai e aquele que Ele enviou, Jesus Cristo.

Toda a história da Igreja, através dos séculos, desde Pentecostes até nossos dias, está vinculada à ação do Paráclito. Sua atuação é o cumprimento da promessa de Jesus: “Eu estarei convosco até o final dos tempos” (Mt 28,20b). A comunidade primitiva não só se proclamava membro do Corpo Místico de Cristo, mas igualmente acreditava ser o templo do Espírito Santo: “Não sabeis que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Cor 3,16).

Notemos ainda que em Pentecostes, o Espírito Santo manifesta-se como fogo. A sua chama desceu sobre os discípulos reunidos, acendeu-se neles e infundiu-lhes o novo ardor de Deus. Realiza-se assim aquilo que o Senhor Jesus tinha predito: “Vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele já tivesse sido ateado!” (Lc 12,49). Juntamente com os fiéis das diversas comunidades, os Apóstolos levaram esta chama divina até aos extremos confins da terra, abriram assim um caminho para a humanidade, uma senda luminosa, e colaboraram com Deus que com o seu fogo quer renovar a face da terra. O fogo de Deus, o fogo do Espírito Santo, é aquele da sarça que ardia sem se consumir (cf. Ex 3,2).

Esta chama do Espírito Santo arde, mas não queima. E, todavia, ela realiza uma transformação, e por isso, deve consumir algo no homem, o pecado que o corrompe e o impede de construir de forma satisfatória a sua relação com Deus e com o próximo. Enquanto a água significava o nascimento e a fecundidade da vida dada no Espírito Santo, o fogo simboliza a energia transformadora dos atos do Espírito Santo. São João Batista anuncia Cristo como Aquele que “há de batizar no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3,16). E São Paulo ordena: “Não apagueis o Espírito!” (1Ts 5, 19). A tradição espiritual reterá este simbolismo do fogo como um dos mais expressivos da ação do Espírito Santo (cf. CIgC, n. 696).

Possamos também lembrar que quando Cristo sobe das águas do seu batismo, o Espírito Santo, sob a forma duma pomba, desce e paira sobre Ele (cf. Mt 3,16). O símbolo da pomba para significar o Espírito Santo é tradicional na iconografia cristã. Assim, em cada batizado que celebramos, o Espírito Santo desce e repousa no coração purificado do catecúmeno (cf. CIgC, n. 701).

Na solene celebração do Pentecostes, somos enviados a professar a nossa fé na presença e na ação do Espírito Santo e a invocar a sua efusão sobre nós, sobre a Igreja e sobre o mundo inteiro. Portanto, façamos nossa, e com intensidade particular, a invocação da própria Igreja: “Vinde Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor”. Uma invocação simples e profunda que deve nos envolver de alegria e de esperança.

Na anunciação do Anjo Gabriel, Maria é convidada a ser a mãe do Salvador, em quem habitará “corporalmente toda a plenitude da Divindade” (Cl 2,9). A resposta à pergunta de Maria: “Como será isto, se eu não conheço homem?” (Lc 1,34) é dada pelo anjo dizendo: “O Espírito Santo virá sobre ti” (Lc 1,35). O Espírito Santo, que é “o Senhor que dá a vida”, como recitamos no Credo, é enviado para santificar o seio da Virgem Maria e para a fecundar pelo poder divino, fazendo com que ela venha conceber o Filho eterno do Pai, numa humanidade originada da sua. E a ela, que desde o Pentecostes se une com a Igreja nascente invocando o Espírito Santo, peçamos que fique conosco no centro deste nosso cenáculo singular, a fim de que, com a sua intercessão, possamos dar ao mundo um testemunho vivo e autêntico de Cristo, o nosso Salvador. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ