VII DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA C – ASCENSÃO DO SENHOR

Lc 24,46-53

Caros irmãos e irmãs,

A Igreja celebra neste domingo a solenidade da Ascensão do Senhor, que deve significar para nós um canto de vitória e de esperança. A liturgia da Palavra traz ler uma passagem do Evangelho de São Lucas, onde podemos ler: “Eu enviarei sobre vós aquele que meu Pai prometeu, por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto. Então Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os. Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu. Eles o adoraram. Em seguida voltaram para Jerusalém, com grande alegria. E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus” (49-52).

São Lucas descreve o acontecimento da Ascensão também no início do Livro dos Atos dos Apóstolos, para frisar que tal evento é como o elo que une a vida terrena de Jesus à vida da Igreja. São Lucas refere-se também à nuvem que subtrai Jesus à vista dos discípulos, os quais permanecem a contemplar Cristo que sobe para junto de Deus: “Foi elevado ao céu à vista deles e uma nuvem subtraiu-o ao seu olhar”. E eles “estavam com os olhos fixos no céu, para onde Jesus se afastava” (At 1, 9-10). Neste instante aparecem dois homens com vestes brancas que os convidam a não permanecer imóveis a contemplar o céu, mas a alimentar a sua vida e o seu testemunho com a certeza de que Jesus voltará do mesmo modo como o viram subir ao céu (cf. At 1, 10-11).

Estes dois homens com as vestes brancas são os mesmos que aparecem no sepulcro, no dia da Páscoa (cf. Lc 24,4). A cor branca representa, de acordo com o simbolismo bíblico, o universo de Deus. As palavras pronunciadas pelos dois homens constituem a explicação dada por Deus à ressurreição de Cristo. Indica que Jesus, condenado à morte pelos homens, foi glorificado. E o fato de serem duas testemunhas indica a veracidade do fato.

Com o olhar da fé, os apóstolos compreendem que, não obstante tenha sido subtraído aos seus olhos, Jesus permanece para sempre com eles e, na glória do Pai, não os abandona. Por isto, a Ascensão não indica a ausência de Jesus, mas nos diz que Ele está vivo no meio de nós de um novo modo. E esta é a razão pela qual os discípulos se alegram. Jesus não se encontra em um lugar específico do mundo, como antes, agora está no Senhorio de Deus, presente em cada espaço e tempo, próximo de cada um de nós. Na nossa profissão de fé dizemos que Jesus “subiu ao Céu, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso”. A vida terrena de Jesus culmina com o evento da Ascensão, ou seja, quando Ele passa deste mundo para o Pai e é elevado à sua direita.

A solenidade da Ascensão do Senhor também nos convida a sermos testemunhas de Jesus que vive na Igreja e nos corações de todos os povos. No dia da sua ascensão ao céu disse Jesus aos Apóstolos: “Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura… Eles, partindo, foram pregar por toda a parte; o Senhor cooperava com eles, confirmando a palavra com os sinais que o acompanhavam” (Mc 16, 15.20).

Com isto, podemos observar que a Ascensão de Jesus não indica sua ausência temporária do mundo, mas, principalmente, inaugura a nova e definitiva forma da sua presença entre nós uma realidade, em virtude da sua participação no poder régio de Deus. Caberá precisamente aos discípulos, fortalecidos pelo poder do Espírito Santo, tornar perceptível a presença do Cristo entre os homens, mediante o testemunho, a pregação e o compromisso missionário.

Somos chamados a testemunhar com coragem o Evangelho perante o mundo, levando a esperança aos necessitados, aos que sofrem, aos abandonados, aos desesperados, a todos os que têm sede de verdade e de paz. Fazendo o bem a todos, e sendo solícitos pelo bem comum, estarão eles testemunhando que Deus é amor.

Como eles, também nós, aceitando o convite dos “dois homens em trajes resplandecentes”, não devemos permanecer com os olhos fixos no céu, mas, sob a guia do Espírito Santo, temos que ir a toda a parte e proclamar o anúncio da morte e ressurreição de Cristo. A sua própria palavra constitui um conforto para todos nós: “Eu estarei sempre convosco, até o fim do mundo” (Mt 28,20).

Em cada Eucaristia que celebramos é Cristo que se dá a nós, nos edificando com o seu corpo. Os discípulos de Emaús reconheceram o Cristo na partilha do pão e voltaram apressadamente a Jerusalém a fim de partilhar a alegria com os irmãos na fé. Com efeito, a verdadeira alegria é reconhecer que o Senhor permanece no nosso meio, companheiro do nosso caminho. A Eucaristia nos faz descobrir que Cristo, morto e ressuscitado, se manifesta como nosso contemporâneo e caminha com cada um de nós.

A solenidade da Ascensão do Senhor também nos exorta a consolidar a nossa fé na presença real de Jesus na história; sem Ele, nada podemos realizar de eficaz na nossa vida e no nosso apostolado. Como recorda o Apóstolo São Paulo na segunda leitura, pois a nossa vocação na Igreja é também a de formar “um só corpo e um só Espírito, como existe uma só esperança no chamamento que recebestes” (Ef 4, 4).

Esta solenidade nos faz lembrar também que Jesus completa seu itinerário: “Saí do pai e vim ao mundo: outra vez deixo o mundo e volto para o Pai. Subo para meu Pai e vosso pai, disse também Jesus a Maria Madalena no mesmo dia de sua ressurreição” (Jo 16,28; 20,17).

Chama a nossa atenção este último gesto dos discípulos de Jesus: “Eles o adoraram”. Que saibamos também nós reconhecer o senhorio de Cristo e que saibamos dedicar a ele, em oração, um pouco do nosso tempo. Com a Ascensão do Senhor, podemos afirmar que em Cristo a nossa humanidade é levada à altura de Deus; assim, todas as vezes que rezamos, a terra se une ao Céu. E assim como o incenso queimado faz subir para o alto o seu fumo, também quando elevamos ao Senhor a nossa oração confiante em Cristo, ela atravessa o céu e alcança o próprio Deus e é por Ele ouvida e atendida.

Supliquemos por fim a Virgem Maria, para que nos ajude a contemplar os bens celestes e a sermos autênticas testemunhas da Ressurreição do seu filho Jesus, que é o caminho, a verdade e a Vida. Amém.
D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

V DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA C – UM NOVO MANDAMENTO

Jo 13, 31-35

Caros irmãos e irmãs,

No evangelho deste domingo temos as palavras pronunciadas por Jesus aos seus discípulos, depois de lhes ter lavado os pés, na última ceia, imediatamente antes da sua Paixão: “Filhinhos… Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34-35). Jesus sabe que lhe restam poucas horas de vida e sente a necessidade de deixar algumas instruções com um típico sabor testamentário. Inicia com a expressão “Filhinhos” (v. 33), fazendo lembrar um pai a transmitir aos seus filhos o que é essencial e verdadeiramente fundamental. Assim como os filhos consideram sagradas as palavras que o pai lhes diz no leito, antes da morte, também Jesus quer que os seus discípulos não esqueçam jamais as suas palavras.

Jesus fala em um “novo mandamento”. A expressão “novo”, utilizada por Jesus, não significa que até então era este mandamento desconhecido. O próprio Jesus tinha recordado que amar a Deus e ao próximo era o mandamento maior da Lei antiga (cf. Mc 12,28-31). A novidade deste novo mandamento é que não se trata do antigo e conhecido mandamento que ordenava “amar ao próximo como a si mesmo” (Lv 19,18). O “novo” deste mandamento consiste, exatamente, no “como eu vos amei”. Nem a palavra amar, nem o mandamento do amor são novos. Novo é amar como Jesus, amar em Jesus, por causa de sua palavra impressa em cada página do evangelho.

O Senhor indica que devemos amar como Ele nos amou. Ele amou a todos sem exceção, justos e pecadores. Na cruz, perdoou até os que o haviam condenado injustamente e rezou por eles: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34).

O verbo “agapaô” – traduzido do grego como amar, utilizado no texto, define, o amor como sinal de manifestação pelo outro até ao extremo, o amor que não guarda nada para si, mas é entrega total e absoluta. O ponto de referência desse amor é o próprio Jesus, como prescreve o complemento da frase: “como eu vos tenho amado”. Amar consiste em acolher, em pôr-se ao serviço dos outros, em dar-lhes dignidade e liberdade pelo amor, e isso sem limites. Jesus é a norma, agora traduzida em palavras, o que ele mesmo manifestou com seus atos, para que os seus discípulos tenham uma referência. O amor, igual ao de Jesus, que os discípulos devem manifestar entre si, será visível para todos (v. 35). Trata-se de um amor universal, capaz de transformar todas as circunstâncias negativas e todos os obstáculos em ocasiões para progredir ainda mais neste amor.

O estilo divino desse amor de Cristo deve ser o modelo do nosso amor. De tal sorte que nossa presença junto aos irmãos seja uma sombra da presença do próprio Cristo. Um amor que presta em favor dos irmãos, os mais humildes serviços. Cristo se identifica com o outro, especialmente com os mais necessitados. É uma verdade que, mediante a fé, podemos ver o Cristo na pessoa do outro, pois será a partir deste amor a base do nosso julgamento final, pois ele mesmo disse: “Tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber…”. E completa: “Todas as vezes que o deixastes de fazer a um destes pequeninos, foi a mim eu o deixastes de fazer” (Mt 25,40-45).

Além de proclamar o mandamento do amor, Jesus deixou esta norma como sinal distintivo para os seus seguidores: “Nisso conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (v. 35). Por vontade expressa de Cristo é o amor o sinal de identificação de seus discípulos. O sinal que de agora em diante distinguirá seus discípulos deverá ser o amor mútuo. Como já nos diz o Evangelista São João: “Se alguém diz: Eu amo a Deus e odeia a seu irmão é mentiroso. Pois, quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? E dele temos este mandamento: Quem ama a Deus, ame também o seu irmão” (1Jo 4,20s). E ainda frisa: “Sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte” (1Jo 3,14).

Diante destas exigências apresentadas pelo evangelho, e lançando um olhar para cada um de nós, percebemos que somos fracos e limitados. Existe sempre em nós uma resistência ao amor e na nossa existência há muitas dificuldades que provocam divisões, ressentimentos e rancores. Mas não podemos perder a esperança. O Senhor prometeu estar presente na nossa vida, nos tornando capazes deste amor generoso e total, que sabe superar todos os obstáculos. Se estivermos unidos a Cristo, poderemos amar verdadeiramente deste modo que Ele quer. Amar os outros como Jesus nos amou só é possível com aquela força que nos é comunicada na relação com Ele, especialmente na Eucaristia, na qual se torna presente de maneira real o seu Sacrifício de amor que gera amor.

A prática do amor mútuo é a expressão da fé em Jesus. O verdadeiro discípulo distingue-se pelo amor. A capacidade de amar-se mutuamente indica o quanto Jesus está agindo na vida do cristão. A presença salvadora de Jesus tem o efeito de desatar o nó do egoísmo, que afasta os indivíduos de seus semelhantes e, por consequência, de Deus também.

Em sua carta aos coríntios São Paulo ressalta que o amor é superior a todos os dons extraordinários. O amor é maior do que o dom de língua. O amor é maior do que o dom de profecia e conhecimento. O amor é maior do que o dom de milagres. Sem amor, até as melhores obras de caridade ficam isentas de valor (cf. 1Cor 13,1-3). O amor é melhor por causa da sua excelência intrínseca e também por causa da sua perpetuidade.

São Paulo define o amor como paciente e benigno, ou seja, o amor tem uma infinita capacidade de suportar e ter paciência com as pessoas, no sentido de reagir com bondade perante aqueles que o maltratam. São Paulo ainda explica que o amor não é ciumento, ufanoso e ensoberbecido. Não se conduz inconvenientemente, não procura os seus próprios interesses e não se ressente com o mal. O amor não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade. E, por fim, diz São Paulo que o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta (cf. 1Cor 13,4-7). E ainda segundo São Paulo, dentre as virtudes teologias: fé, esperança e caridade, a maior de todas é a caridade, ou seja, o amor (cf. 1Cor 13,13). Os textos sagrados nos mostram como o amor ao próximo deve ser a bússola da nossa vida. Esse ensinamento deve ser aplicado às circunstâncias em que nos encontramos habitualmente.

Podemos correr o risco de alegrarmos com o fracasso dos nossos inimigos. Há um mal intrínseco em nós mesmos. Podemos sentir um falso alívio quando vemos os nossos adversários fracassando e caindo, mas isto não é amor. O amor, além de perdoar, esquece e não mantém um registro do que foi dito e feito contra nós. A ausência de amor faz com que o cristão perca o seu significado diante de Deus.

Possamos hoje questionar a nós mesmos: “Estou vivendo e compartilhando este amor que Jesus pede? Estou testemunhando a todos, com gestos concretos, o amor de Deus?” Saibamos haurir diariamente da relação de amor com Deus pela oração, a força para transmitir o anúncio profético de salvação a todas as pessoas com as quais convivemos.

O verdadeiro remédio para as feridas da humanidade, quer materiais, como a fome e as injustiças, quer psicológicas e morais, causadas por um falso bem-estar, é uma regra de vida baseada no amor fraterno, que tem a sua fonte no amor de Deus. Por isso, é preciso abandonar o caminho do erro, da arrogância e da violência utilizada, para obter posições de poder sempre maiores.

Peçamos ao Senhor o auxílio necessário para colocarmos em prática este mandamento novo do amor que Ele nos ordena a praticar. E nos faça abrir de par em par as portas do nosso coração para perdoar e amar verdadeiramente todos os nossos irmãos. Interceda por nós também a Virgem de Nazaré, para que possamos aprender de Jesus a verdadeira humildade e, imbuídos do amor, possamos difundir para todas as pessoas os seus frutos de alegria de paz. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

 

Veja também:

IV DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA C – O BOM PASTOR

Jo 10, 27-30

Caros irmãos e irmãs,

Este quarto domingo da Páscoa nos apresenta Jesus como o Bom Pastor. O trecho evangélico nos traz estas palavras de Jesus: “As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão. E ninguém vai arrancá-las de minha mão. Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai. Eu e o Pai somos um” (Jo 10,27-30). São quatro versículos que resumem a mensagem de Jesus e nos fazem compreender o sentido e o significado da figura do Pastor, que é o tema central apresentado pela Liturgia da Palavra deste domingo.

A imagem do pastor vem de longe. No Antigo Oriente, os reis costumavam designar-se a si mesmos como pastores dos seus povos. No Antigo Testamento, Moisés e Davi, antes de serem chefes e pastores do Povo de Deus, foram efetivamente pastores de rebanhos. Nas dificuldades do período do exílio, diante do fracasso dos pastores de Israel, isto é, dos chefes políticos e religiosos, o profeta Ezequiel traçou a imagem do próprio Deus como Pastor do seu povo. Através do profeta, Deus disse: “Como o pastor se preocupa com o seu rebanho… assim me preocuparei com o meu” (Ez 34, 12).

O próprio Deus é apresentado no salmo 23 como pastor de seu povo: “O Senhor é meu pastor, nada me falta” (Sl 23, 1). E o salmo 95 continua: “Ele é nosso Deus e nós, o povo de seu rebanho” (Sl 95, 7). O futuro Messias também é descrito com a imagem do pastor: “Como o pastor, ele pastoreia seu rebanho; recolhe em braços os cordeirinhos, leva-os no seio e trata com cuidado os recém-nascidos” (Is 40, 11). Como de fato, esta imagem ideal de pastor encontra sua plena realização em Cristo. Ele é o bom pastor que se compadece do povo porque o vê “como ovelhas sem pastor” (Mt 9, 36). E Pedro identifica Jesus como “o pastor de nossas almas” (1Pd 2, 25) e a Carta aos Hebreus, faz uma referência a Cristo como “o grande pastor das ovelhas” (Hb 13, 20).

O evangelho apresenta apenas uma parte do grande discurso de Jesus sobre os pastores. Neste relato, o Senhor Jesus faz referências a algumas situações a respeito do verdadeiro pastor: ele dá a própria vida pelas suas ovelhas; ele as conhece e elas o conhecem. A frase que com grande vigor permeia todo o discurso sobre os pastores é esta: “O pastor dá a vida pelas suas ovelhas” (Jo 10,11). O mistério da Cruz encontra-se no centro do serviço de Jesus como pastor. Este é o grande serviço que Ele presta a todos nós. Ele entrega-se a si mesmo, e não apenas num passado longínquo. Na sagrada Eucaristia, realiza isto todos os dias, doando-se a si mesmo mediante as mãos dos sacerdotes. Por isso, justamente, no âmago da vida sacerdotal encontra-se a celebração eucarística, onde o sacrifício de Jesus na cruz permanece contínua e realmente presente no meio de nós.

E Jesus ainda diz: “Minhas ovelhas escutam minha voz; eu as conheço e elas me seguem” (v. 27). Nesta frase, são duas relações que parecem totalmente diferentes e encontram-se entrelaçadas: a relação entre Jesus e o Pai e a relação entre Jesus e as ovelhas que lhe são confiadas. Em certos países, as ovelhas são criadas especialmente para a carne, em Israel se criavam, sobretudo, visando a lã e o leite. Por isso, permaneciam anos e anos em companhia do pastor, que acabava por conhecer o caráter de cada uma e passava a chamá-la com algum afetuoso apelido. Neste sentido, o pastor conhece as suas ovelhas e as suas ovelhas o conhecem.

Jesus busca esta inspiração para mostrar a sua unidade com o Pai. Trata-se de uma relação pessoal profunda. Um conhecimento do coração, próprio de quem ama e de quem é amado; de quem é fiel e de quem sabe que, por sua vez, se pode confiar. Um conhecimento de amor, em virtude do qual, é comparado com a imagem do pastor dedicado às suas ovelhas.

Grande parte da Judéia era uma planície de solo áspero e pedregoso, mais adequado ao pastoreio que à agricultura. Devido a escassez de ervas, o rebanho deveria ser transferido continuamente; não havia cercas e isso exigia a constante presença do pastor atento aos movimentos de seu rebanho. O pesadelo dos pastores de Israel eram os animais selvagens, lobos, hienas e salteadores. Em lugares tão isolados, constituíam uma ameaça constante. Era o momento em que se evidenciava a diferença entre o verdadeiro pastor e o assalariado, que se põe ao serviço de algum pastor só pelo pagamento que dele recebe. Frente ao perigo, o mercenário foge e deixa as ovelhas sob a ameaça do lobo ou do malfeitor; o verdadeiro pastor enfrenta o perigo para salvar o rebanho. Isso explica porque a liturgia nos propõe o Evangelho do bom pastor no tempo pascal. A Páscoa foi o momento em que Cristo demonstrou ser o bom pastor, porque na cruz, ele deu a vida pelas suas ovelhas.

As ovelhas, por sua vez, devem escutar a voz do Pastor e segui-lo (cf. v. 27). Isto significa que fazer parte do rebanho de Jesus é aderir a Ele, escutar as suas propostas, comprometer-se com Ele e, como Ele, entregar-se sem reservas numa vida de amor e de doação ao Pai e também aos irmãos. E nós, como ovelhas de Jesus, também precisamos “escutar a sua voz” e segui-lo… E devemos diferenciar a “voz” de Jesus, o nosso Pastor, de outros apelos através de um confronto permanente com a sua Palavra e através da participação nos sacramentos. Nos dias atuais podemos ouvir a voz do Senhor e reconhecê-lo através da pregação dos Apóstolos e dos seus sucessores.

E neste domingo em que também celebramos o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Todos os fiéis são exortados a rezar de modo particular para as vocações sacerdotais e também para a vida consagrada. Ainda hoje o Senhor continua chamando muitos pelo nome, como fez um dia com os Apóstolos na margem do Lago da Galileia, para que se tornem “pescadores de homens”, isto é, seus colaboradores mais diretos no anúncio do Evangelho e no serviço do Reino de Deus.

A Igreja antiga encontrou na escultura e nos ícones do seu tempo a figura do pastor que carrega uma ovelha nos próprios ombros. Para os cristãos, esta figura tornou-se, com toda naturalidade, a imagem daquele que foi à procura da ovelha perdida e a levou de volta ao redil. Por isto, peçamos também hoje ao Cristo Bom Pastor, para que, em nossas fraquezas e em nossas provações, e nas vezes em que também sentirmos perdidos e sem rumo, Ele também nos ampare e nos conduza de volta, nos carregue em seus ombros e nos faça retomar ao bom caminho, ao caminho da perfeição e da santidade. Que Ele também possa conceder o dom da perseverança a todos os sacerdotes. Que se mantenham fiéis às suas promessas e assimilem dia após dia os mesmos sentimentos e as atitudes de Jesus Bom Pastor.

E que a Virgem de Nazaré, a Mãe do Bom Pastor, que respondeu prontamente ao chamado de Deus dizendo: “Eis aqui a escrava do Senhor” (Lc 1, 38), nos ajude a acolher com alegria e disponibilidade o convite de Cristo para sermos os bons trabalhadores da sua vinha (cf. Mt 20,1-16). Que ela vele todos os dias por cada um de nós e nos proteja de todos os perigos. Ela é a Virgem do Sim. Ela também, como mãe, aprendeu a reconhecer a voz de Jesus, desde quando o trazia no seu ventre. Que ela também possa nos ajudar a reconhecer cada vez melhor a voz de Jesus, o Bom Pastor, que nos chama a segui-lo pelo caminho do bem. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ