IV DOMINGO DA QUARESMA – ANO C – A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO

Lc 15,1-3.11-32

Caros irmãos e irmãs,

Em cada Celebração Eucarística, é o próprio Cristo que se faz presente no meio de nós, a nos iluminar com o seu ensinamento na Liturgia da Palavra e a nos alimentar com o seu Corpo e o seu Sangue na Liturgia Eucarística e na Comunhão. É Ele que nos ensina o caminho do acolhimento, do amor e do perdão. Neste tempo da quaresma a Igreja nos exorta a percorrer este itinerário e, para isto, o próprio Cristo nos mostra o caminho da conversão e da vida nova ao nos apresentar para a nossa reflexão a Parábola do Filho Pródigo, que é a leitura evangélica deste domingo.

O ponto de partida para a narração da Parábola é a murmuração dos fariseus e dos escribas, diante da cena onde publicanos e pecadores escutam Jesus: “Este homem acolhe os pecadores e come com eles” (v. 2), comentam. O acolhimento dos publicanos e pecadores por parte de Jesus é algo de escandaloso na perspectiva dos fariseus; comer com eles, estabelecer laços de familiaridade e de irmandade é algo abominável. Na perspectiva da teologia da época, os pecadores não podiam aproximar-se de Deus. É neste contexto que Jesus apresenta a Parábola do filho pródigo, na qual encontramos três personagens de referência: o pai, o filho mais novo e o filho mais velho.

O pai, na parábola, é aquele que sabe conjugar o respeito pelas decisões e pela liberdade dos filhos, com um amor gratuito e sem limites. Esse amor manifesta-se na emoção com que abraça o filho que volta, mesmo sem saber se esse filho mudou a sua atitude de orgulho e de auto-suficiência. Trata-se de um amor que permaneceu inalterado, apesar da rebeldia, da ausência e da infidelidade do filho. O amor do pai aparece representado no anel, símbolo da autoridade e do poder (cf. Gn 41,42; Est 3,10; 8,2) e nas sandálias, calçado do homem livre (cf. Gl 5,1).

O filho exige do pai tudo aquilo a que tem direito. A lei judaica prescrevia que o filho mais novo recebesse apenas um terço da fortuna do pai (cf. Dt 21,15-17); mas, ainda que a divisão das propriedades pudesse fazer-se em vida do pai, os filhos não podiam tomar posse de seus bens, senão depois da morte do pai (cf. Eclo 33,20-24). O filho mais novo abandona a casa e o amor do pai e dissipa os bens colocados à sua disposição. É uma imagem de egoísmo, de orgulho e irresponsabilidade. Após gastar tudo o que possuía, aquele que se tornara totalmente livre, torna-se agora escravo: guardador de porcos. Para os judeus o porco é um animal impuro, pois servir aos porcos era sinal de extrema alienação e de extrema miséria. O filho mais novo tornou-se um escravo miserável. Sem direito até mesmo de saciar a fome com o alimento oferecido aos porcos. Neste momento ele então percebe que está perdido. Percebe que o seu nível de vida é inferior a dos porcos. Sente um tédio e um vazio inquietador, de uma vida sem sentido e da qual ele só vê um iminente morrer de fome.

O filho mais novo ao partir para um país distante geograficamente, desejava uma mudança não só exterior, mas também interior, pois queria uma vida totalmente diversa. Seu desejo era viver a liberdade, fazer tudo o que desejava e ignorar as normas do pai que ficara distante. Passa a perceber que era muito mais livre quando estava na casa do seu pai, pois era também ele proprietário e contribuía para a edificação do lar. Ao “cair em si” inicia uma reflexão interior que o faz almejar um novo projeto de vida. A decisão pela concretização deste objetivo o leva a uma ação exterior: ele se levanta e direciona os seus passos para um encontro com o pai, com um propósito de recomeçar a sua vida, porque já compreendeu que o caminho por ele percorrido era o caminho errado. Ele quer começar de novo e sabe que perdeu o direito de ser filho e, por isto, está disposto a ser um dos empregados, pois, para ele o mais importante agora é estar na casa do pai, não importa como.

E é neste momento que ele “entra em si mesmo” (cf. v.17). Podemos dizer que longe da casa do pai, em uma terra distante ele se afastou até de si mesmo. Ele vivia longe da verdade de sua existência. A sua mudança, a sua conversão, consiste em que ele reconhece que outrora partiu de si e agora ele regressa a si mesmo. E é em si mesmo que ele encontra a indicação de um novo caminho: o caminho da casa do Pai. As palavras que ele preparou para o seu regresso: “Pai, pequei contra o céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado teu filho…” (Lc 15,18), nos permitem reconhecer a peregrinação interior que ele então realiza.

E ao chegar à casa recebe do pai o abraço e o beijo, sinal de reconciliação e perdão. É oferecida uma festa e então ele percebe que a vida pode começar de novo. Ele regressa à casa paterna interiormente maduro e purificado: compreendeu o que é viver. Mesmo diante de possíveis tentações futuras, estará ele plenamente consciente de que uma vida longe da casa do Pai não funciona: falta o essencial, falta a luz, falta o sentido da vida.

Não podemos esquecer o início do Evangelho, quando a narrativa nos faz lembrar que Jesus aproximava-se dos publicanos e dos pecadores, chegando mesmo a fazer-se convidar por eles, o que o tornava impuro, aos olhos daqueles que se sentiam puros. Na Parábola, ao abraçar o filho que julgava perdido, cobrindo-o de beijos, o pai também se torna impuro, também pelo próprio ato de “tocar” este filho que regressava, depois de uma vida desordenada. Como os fariseus e os escribas, o filho mais velho se recusa a entrar em comunhão com um pecador, por se julgar puro e não podia se unir aos impuros.

O filho mais velho, cumpridor de todas as regras, sempre observou o que o pai mandou. Nunca pensou em deixar o espaço cômodo e acolhedor da casa do pai. No entanto, a sua lógica é a lógica da “justiça” e não a lógica do amor e da misericórdia. Ele acha que tem créditos superiores aos do irmão e não compreende nem aceita que o pai queira exercer a misericórdia para com o filho rebelde. Semelhante à imagem dos fariseus e escribas que interpelaram Jesus porque cumpriam rigorosamente as exigências da Lei, desprezavam os pecadores e achavam que essa devia ser também a lógica de Deus. Eles desconheciam o Deus misericordioso que acolhe o pecador e se alegra com o seu regresso.

Nesta parábola conhecemos a identidade de Deus: Deus é amor (cf. 1Jo 4,16). Ele é o Pai misericordioso que em Jesus nos ama e nos perdoa. Os erros que cometemos, mesmo se grandes, não prejudicam a fidelidade do seu amor. Ele nos acolhe e nos restitui a dignidade de filhos. Com isto podemos redescobrir o Sacramento da Penitência e do Perdão, que faz brotar a alegria num coração renascido para a verdadeira vida.

Mas a grande beleza deste texto se esconde na palavra grega “splanchnizomai”, normalmente traduzido para o português como: “movido de compaixão”. Trata-se, na realidade, de um movimento visceral, como que de parto. O filho “que estava morto e voltou à vida” (v. 24), renasce no abraço misericordioso do Pai. Por isso o pai exclama: “É preciso fazer festa e alegrar-se” (v. 24).

Assim como o Filho Pródigo, hoje nós também somos convidados a percorrer um caminho interior, lançar um olhar para nós mesmos, para que possamos direcionar os nossos pensamentos e os nossos atos para a conversão que, antes de ser um esforço para mudar o nosso comportamento, é uma oportunidade para recomeçar, ou seja, abandonar o pecado e escolher voltar para Deus, para a casa do Pai.

A verdadeira miséria do filho mais novo é de não ter ninguém atento a ele, que o olhe. Para os seres humanos, o olhar é vital. O filho sente a falta de um olhar de amor, sente fome de amor. Jesus quer mudar esta situação, renovando relações em que o amor possa circular de novo. Jesus lança o seu olhar de amor também sobre cada um de nós. Um olhar que é fonte de vida! Um olhar do qual não podemos fugir!

A segunda parte da parábola deste domingo é uma crítica à conduta do filho mais velho, mas também uma crítica da nossa própria conduta. Se estamos a serviço de Deus sem nunca ter desobedecido às suas leis, podemos correr o risco de faltar em nós o amor e a misericórdia. Com esta parábola é Deus que por meio de Cristo fala conosco.

Possamos também nós um dia receber este abraço do Pai a nos acolher em sua casa, participando do banquete que Ele nos preparou, em plena união com Ele e com os nossos irmãos. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

III DOMINGO DA QUARESMA – ANO C – A PARÁBOLA DA FIGUEIRA ESTÉRIL

Lc 13,1-9

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia deste terceiro domingo de Quaresma traz novamente à nossa reflexão o tema da conversão e nos convida a reconhecer o mistério de Deus, que se torna presente na nossa vida, como ressalta na primeira leitura tirada do Livro do Êxodo e nos mostra Moisés, que, enquanto apascentava o rebanho, vê uma sarça em chamas, mas que não se consome. Aproxima-se para observar este prodígio, quando uma voz pronuncia o seu nome e o convida a tomar consciência da sua indignidade. Esta mesma voz lhe ordena a tirar as sandálias, porque o lugar é santo. E Deus revela a Moisés o seu próprio nome, ao dizer: “Eu sou aquele que sou!” (Ex 3,14), para que ele o comunique ao povo de Israel. Há algum tempo atraz esta expressão “Eu sou aquele que sou!” foi entendida em sentido filosófico: eu sou aquele que existe, isto é, o Ser absoluto, o único que existe por si mesmo. Atualmente os estudiosos da Sagrada Escritura descobriram algo que muda esse significado: o verbo “ser”, que deve ser entendido aqui no sentido de “estar presente”, ou seja, “eu existo para ti”. Deus é aquele que existe para a humanidade e para que todos possam sentir a sua presença a sua proximidade. É o anúncio do que Deus tornará um dia: o Emanuel, isto é, o Deus conosco.

No encontro com Moisés Deus também se revela como “o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó” (Ex 3,15). Ele é o Deus dos nossos pais, mas é também um Deus pessoal. É alguém que mantém relacionamentos de pessoa para pessoa, de geração a geração e continua na história a manter este mesmo relacionamento. É ele presente também no meio de nós, sensível aos gritos de quem sofre.

E agora, voltando o nosso olhar para a página do Evangelho prescrita para este domingo, encontramos dois acontecimentos históricos: um crime cometido por Pilatos e o desabamento de uma torre ao lado da piscina de Siloé. Dois fatos trágicos bem diversos: um provocado pelo homem e o outro acidental. Segundo a mentalidade da época, pensava-se que uma desgraça com vítimas era sinal de uma culpa pessoal grave. Mas Jesus diz: “E aqueles dezoito que morreram, quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? Eu vos digo que não” (v. 4). E para ambos os casos conclui: “Mas, se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo” (v. 5). Com estas exortações, Jesus faz aos seus ouvintes um apelo à conversão. Essas pessoas não Foram punidas por causa dos seus pecados: foram vítimas de uma fatalidade. Mas este acontecimento pode ser interpretado como um apelo à conversão, que consiste na mudança no nosso modo de agir e de pensar.

Na segunda parte do Evangelho, referindo-se a um costume do seu tempo, Jesus apresenta a parábola de uma figueira plantada numa vinha. Esta figueira, contudo, é estéril, não dá frutos (v. 6-9). O diálogo que se desenvolve entre o dono e o vinhateiro, manifesta, por um lado, a misericórdia de Deus, que é paciente e deixa ao homem, ou seja, a todos nós, um tempo para a conversão; e, por outro, a necessidade de iniciar imediatamente a mudança de vida, para não perder as ocasiões que a misericórdia de Deus nos oferece para superar a nossa preguiça espiritual e corresponder ao amor de Deus com o nosso amor filial.

O Senhor Jesus, mais uma vez, toma por base a figura de uma árvore. Numa linguagem simples define o destino dos que, plantados por Deus para darem frutos, não os produziram. A narrativa serviu de lição para o povo de Israel e hoje, serve de lição para cada um de nós que compomos o grupo dos discípulos do Senhor. Ele nos escolheu, a fim de produzirmos frutos para o engrandecimento do seu reino.

A Sagrada Escritura com frequência faz referência à figueira, que duas vezes ao ano, na primavera e no outono, produz saborosos frutos. Em tempos remotos ela simbolizava a prosperidade e a paz (cf. 1Rs 4,25; Is 36,16). No deserto os israelitas sonhavam com uma terra rica em nascentes de água, trigais e figueiras (cf. Dt 8,8). No nosso texto, encontramos uma figueira no meio da vinha (v. 6). A vinha é uma plantação de videiras, cultivadas para produzir uvas. No Antigo Testamento, quando Deus se referia ao estado desejado para o povo de Israel, prometia que cada um se assentaria debaixo de suas videiras e figueiras, em alusão a paz, segurança e prosperidade (1Rs 4,25; Mq 4,4; Zc 3,10).

A parábola nos diz que um homem tinha uma figueira em sua vinha, algo muito comum em Israel. Ela ocupava uma certa área do terreno que podia ter sido usada para as videiras. Cada ano a árvore permanecia estéril, o que significava prejuízo para o seu proprietário. Ela absorvia umidade e nutrientes que serviam para as videiras. A figueira era como uma dívida, que aumentava na medida em que se passavam os anos. Por causa da sua localização, deduzimos que a árvore tinha sido muito bem cuidada. Outra árvore ou videira poderia ter sido plantada ali e, dentro de alguns anos, produziria frutos.

O proprietário deu instruções ao homem que cuidava da vinha para que cortasse a figueira. Mas ele pediu ao dono que tivesse ainda um pouco mais de paciência. Queria dar mais um ano à árvore, durante o qual cavaria o solo ao seu redor e a adubaria. O Antigo Testamento tinha utilizado a figueira como símbolo de Israel (cf. Os 9,10), por isto uma figueira tinha um papel importante na vida de um israelita, representava prosperidade e abastança e era muito comum para cada israelita ter pelo menos uma figueira em sua casa.

Na parábola, o proprietário é geralmente considerado como o representante de Deus e o agricultor, o próprio Cristo Jesus, o enviado à casa de Israel, a fim de cuidar da figueira especial “no meio da vinha” (Mt 15,24). O Evangelho de São João, referindo-se a Jesus, nos diz: “Ele veio para o que era seu, mas os seus não o receberam” (Jo 1,11); e frisa o tempo que Jesus oferece aos seus ouvintes como uma última chance para o arrependimento. O período de tempo limitado mencionado faz uma referência à urgência da nossa conversão.

O homem deve frutificar no tempo, isto é, durante a vida terrena. Todavia este seu agir no tempo, não pode fazer-lhe esquecer da sua outra dimensão essencial: a de um ser orientado para a eternidade: portanto, o homem deve, simultaneamente, frutificar também para a eternidade, pois sem esta perspectiva, ele continuará a ser uma figueira estéril.

O dono da vinha tinha uma predileção especial pela figueira, estabelecida no meio da sua plantação de videiras. Isso significa a escolha de Israel, no meio das outras nações. Espiritualmente falando, para Deus, o centro da Terra é Jerusalém, é Israel. Deus esperava que ela frutificasse, mas se decepcionou: “Foi procurar nela fruto, não o achando, disse ao vinhateiro; Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira, e não o acho” (vv. 6.7). Este período, segundo intérpretes da Bíblia, refere-se aos três anos do ministério terreno de Jesus, durante o qual, Ele, o Messias, como bom vinhateiro, fez tudo o que pôde, a fim de que a nação escolhida desse bons frutos para Deus.

Diante da frustração, em face da não produção dos frutos esperados, o dono da vinha ordenou ao vinhateiro que cortasse a figueira estéril. Mas Jesus procedeu com muito cuidado e zelo. Tamanha é a sua misericórdia, mostrando-se tolerante com a fraqueza humana. Neste ponto, temos grandes lições espirituais a observar. Ele escolheu Israel como seu representante entre os povos, daí a localização da figueira: no meio da vinha. Em contrapartida, esperou que desse fruto, mas ocorreu o contrário. Os judeus rejeitaram o seu plano. Assim, se desejamos fazer parte da vinha do Senhor, precisamos dar frutos, para não sermos cortados.

O ensinamento da parábola é claro: daquele que ouviu a mensagem do Evangelho, Deus espera frutos saborosos e abundantes. E o tempo da quaresma é um tempo de graça, como um novo tempo precioso que é concedido para que a figueira, que representa cada um de nós, produza frutos. Deus hoje nos convida a fazer uma mudança em nossa própria existência, para que possamos viver segundo o Evangelho, corrigindo algo no nosso agir, porque ele quer o nosso bem, a nossa felicidade e a nossa salvação. Possamos responder com um sincero esforço interior

Peçamos a intercessão da Virgem Maria, para que ela possa nos acompanhar e nos amparar ao longo desse itinerário quaresmal, e para que ela interceda sempre por nós e nos ajude a redescobrir a grandeza de uma autêntica conversão. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

 

Veja também:

II DOMINGO DE QUARESMA – C: A TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS

Lc 9, 28b-36

Caros irmãos e irmãs,

Neste segundo domingo de Quaresma a liturgia da Palavra nos convida a meditar acerca das sugestivas narrações da Transfiguração de Jesus. No alto do Monte Tabor, na presença de Pedro, Tiago e João, testemunhas privilegiadas deste importante acontecimento, Jesus é revestido, também exteriormente, da glória de Filho de Deus que lhe pertence.

O quadro evangélico tem como fundo de cena o céu escuro ainda pela madrugada, quando Jesus se transfigurou diante dos olhos dos apóstolos. Seu rosto se tornou brilhante como o sol, e suas vestes ficaram alvas como a neve. Uma nuvem luminosa, sinal bíblico da presença de Deus, os envolveu. E apareceram Moisés e Elias, conversando com Jesus. Do meio da nuvem ouviu-se uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Eleito. Escutai-o”. A alegria de todos foi tão grande, que Pedro exclamou: “Senhor, é bom estarmos aqui, façamos três tendas, uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias” (Lc 9,33).

E como o apóstolo Pedro, podemos também dizer: “É bom estarmos aqui” (Lc 9,33). É bom estarmos juntos, reunidos ao altar do Senhor. É bom estarmos na Casa do Senhor para escutarmos a mensagem que o seu Filho nos traz através do seu Evangelho. Este é o convite que o próprio Deus nos faz: “Escutai o que Ele diz” (Lc 9,35). Devemos escutá-lo porque só ele pode nos conduzir à Vida. Só ele tem palavras de vida eterna (cf. Jo 6,68). Nós somos chamados a escutá-lo, mas também a fazer tudo o que ele nos disser (cf. Jo 2,5). Escutando a sua Palavra e praticando os seus ensinamentos seremos verdadeiramente discípulos de Cristo.

Neste domingo a primeira leitura nos apresenta a figura de Abraão, o modelo do crente que soube escutar a voz do Senhor. Diante do chamado do Senhor, ele deixou a própria terra, sustentado apenas pela fé e pela obediência ao seu Senhor. Com Abraão, também nós somos convidados a escutar e confiar nos desígnios de Deus. E nesta primeira Leitura temos a narração da aliança estabelecida por Deus com Abraão, que responde “esperando contra toda a esperança” (Rm 4,18); por este motivo, ele torna-se pai na fé de todos os crentes, porque acreditou no Senhor. Como Abraão, também nós queremos prosseguir o nosso caminho quaresmal, renunciando às nossas próprias vontades para estarmos em conformidade com a vontade divina.

Mas a transfiguração de Jesus não deixa de apontar também para a nossa própria transfiguração. Como nos exorta São Paulo: “O Senhor Jesus Cristo transformará o nosso corpo perecível, tornando-o conforme ao Seu corpo glorioso” (Fl 3, 21). Estas palavras do Apóstolo enfatizadas na segunda leitura deste domingo, nos recordam que a nossa pátria verdadeira está no céu e que Jesus transfigurará o nosso corpo mortal num corpo glorioso como o Seu. Como de fato, Jesus quis dar um sinal e uma profecia da sua Ressurreição gloriosa, da qual também nós somos chamados a participar.

O evangelista Lucas ressalta como este fato extraordinário se verifica precisamente num contexto de oração. Enquanto rezava, o rosto de Jesus mudou de aspecto (cf. Lc 9, 29). Jesus tinha o costume de subir ao monte para rezar (cf. Lc 6,12) e, normalmente, “à noite”, por lhe permitir estar a sós com o Senhor (cf. Mc 1,35; Lc 6, 12).

Por diversas vezes e sobretudo nos momentos mais urgentes e complexos, a oração de Jesus tornava-se mais prolongada e intensa. Na iminência da escolha dos doze Apóstolos, por exemplo, São Lucas sublinha a duração da oração preparatória de Jesus: “Naqueles dias, Jesus foi para o monte fazer a oração e passou toda a noite a orar a Deus. Quando nasceu o dia, convocou os seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de Apóstolos” (Lc 6, 12-13). Assim também deve ser a nossa oração, sinal da nossa amizade com Deus, a nossa intimidade com Ele. A oração deve ser entendida também como tempo para estar com o Senhor.

Sobressaem na oração três elementos: a fé em um Deus pessoal, vivo; a fé em sua presença efetiva; o diálogo entre o homem e Deus. Um diálogo pessoal, íntimo, profundo. Quem reza sabe que se encontra diante da Sabedoria Suprema, diante daquele que nos conhece. Assim, quem reza tem fé na presença ativa de Deus. É a fé viva da oração. Onde cessa a oração, cessa também a fé viva; e onde cessa a fé, cessa a oração. A oração é este diálogo, este colóquio com o Senhor.

E a exemplo de Cristo, que se colocava frequentemente em oração, sejamos também nós convidados a viver o itinerário quaresmal em espírito de oração e de penitência, a fim de nos preparar desde agora para receber a luz divina que resplandecerá na Páscoa.

Estamos no tempo da Quaresma, esses quarenta dias de oração e de penitência com que a Igreja nos prepara para a solene celebração da Páscoa. Quarenta era um número particularmente significativo no mundo bíblico. O dilúvio durou quarenta dias e quarenta noites. O povo hebreu viveu quarenta anos de vida nômade no deserto. Moisés passou quarenta dias junto de Deus no Sinai. Também foi o prazo dado por Jonas aos ninivitas para a conversão. Mas, sobretudo, Jesus passou quarenta dias de jejum no deserto, o que inspirou o estabelecer-se na Igreja estes quarenta dias de penitência da Quaresma.

O tempo da Quaresma nos é oferecido, precisamente, como uma ocasião para nos colocarmos mais na escuta da Palavra de Deus que Se fez carne. Possamos aproveitar para aprofundar o nosso silêncio interior, tornando-nos mais atentos ao que Jesus quer dizer a cada um de nós.

E agora, ao celebrar a Eucaristia, Jesus nos dá o seu corpo e o seu sangue, para que de certa forma possamos saborear já aqui na terra a situação final, quando os nossos corpos mortais forem transfigurados à imagem do corpo glorioso de Cristo.

Como Pedro, Tiago e João, também nós somos convidados a subir ao Monte Tabor juntamente com Jesus, e a nos deixar deslumbrar pela Sua glória. E Maria, que como Abraão esperou contra toda a esperança, nos ajude a reconhecer em Jesus o Filho de Deus e o Senhor da nossa vida. E que esta quaresma possa constituir para cada um de nós um momento privilegiado de graça e possa trazer abundantes frutos de bem. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

 

Veja também:

 

I DOMINGO DA QUARESMA – C – As tentações no deserto

Lc 4,1-13

Caros irmãos e irmãs,

Na última quarta-feira, com o tradicional rito das cinzas, entramos no clima penitencial da Quaresma, um tempo litúrgico que nos recorda os quarenta dias transcorridos por Jesus no deserto e constitui para todos os batizados um forte convite à conversão.

Neste primeiro domingo do tempo quaresmal, o Evangelho nos apresenta Cristo, conduzido pelo Espírito Santo ao deserto, onde é tentado pelo demônio, após receber o Batismo de João no Jordão.

O relato evangélico é constituído em torno de um diálogo em que tanto o diabo como Jesus citam passagens da Sagrada Escritura como base para certificar as suas afirmações. Das três tentações às quais Satanás submete Jesus, a primeira tem origem na fome, ou seja, na necessidade material: “Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pão”. Mas Jesus responde: “Nem só de pão vive o homem” (Lc 4,3-4; cf. Dt 8,3). Esta tentação sugere que Jesus poderia ter optado por um caminho de facilidade e de riqueza, utilizando a sua divindade para resolver qualquer necessidade material. No entanto, Jesus sabe que o caminho do Pai não passa pela acumulação egoísta de bens e sugere que o seu alimento, ou seja, a sua prioridade, é a Palavra do Pai.

Depois, na segunda tentação, o diabo mostra a Jesus todos os reinos da terra e diz: “Tudo será teu se, prostando-te, me adorares”. É o engano do poder. E Jesus desmascara esta tentativa dizendo: “Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a Ele prestarás culto” (cf. Dt 6, 13). Não à adoração do poder, mas só a Deus. Jesus poderia ter escolhido um caminho de poder semelhante aos dos grandes poderosos da terra. No entanto, Jesus sabe que esses esquemas são diabólicos e que não entram nos planos do Pai; por isso, citando Dt 6,13, diz que só o Pai é o seu “absoluto” e que não se deve adorar mais nada: adorar o poder que corrompe e escraviza não tem nada a ver com o projeto de Deus.

Por fim, na terceira e última tentação, o diabo propõe a Jesus que realize um milagre espetacular: lançar-se dos altos muros do Templo e fazer-se salvar pelos anjos, de modo que todos acreditassem nele. Mas Jesus responde que Deus nunca deve ser posto à prova (cf. Dt 6, 16). Não podemos “fazer uma experiência” na qual Deus deve responder e mostrar-se Deus: devemos acreditar nele. Jesus responde a esta proposta citando Dt 6,16, que manda “não tentar” o Senhor Deus.

O texto nos mostra que entre Jesus e o diabo há a Palavra de Deus. E fazendo referência à Sagrada Escritura, Jesus antepõe aos critérios humanos o único critério autêntico: a obediência, a conformidade com a vontade de Deus, que é o fundamento do nosso ser. Também este é um ensinamento fundamental para nós: se trouxermos na mente e no coração a Palavra de Deus, se esta entrar na nossa vida, se tivermos confiança em Deus, poderemos rejeitar qualquer gênero de engano do Tentador.

Jesus não está só no deserto. O evangelista São Lucas assinala que o Espírito Santo acompanha Jesus. Ele está cheio do Espírito Santo e é por Ele conduzido. Com o Espírito Santo, Jesus resiste às tentações. E se o demónio se afasta até ao momento fixado, quando este momento vier, Jesus será ainda o grande vencedor sobre o Maligno. Jesus não escolhe partir para o deserto. É conduzido pelo Espírito Santo.

Na história, houve multidões de homens e mulheres que escolheram imitar esse Jesus que se retira ao deserto. Mas o convite a seguir Jesus ao deserto não se dirige só a monges e ermitãos. De maneira diferente, também se dirige a todos. Monges e eremitas escolheram um espaço no deserto; nós devemos escolher ao menos um tempo de deserto. Passar um tempo de deserto significa fazer um pouco de vazio e de silêncio ao nosso redor; reencontrar o caminho do nosso coração, subtrair-nos das agitações e dos chamados externos, a fim de entrar em contato com as fontes mais profundas de nosso ser e de nosso crer.

Quaresma é tempo de renovação espiritual, de conversão interior e de renovação da vida. É um itinerário que nos deve fazer rever a nossa vida. É como um longo “retiro”, durante o qual cair de novo em nós mesmos e ouvir a voz de Deus, para vencer as tentações do Maligno e encontrar a verdade do nosso ser. Podemos dizer, um tempo de “competição” espiritual para viver juntamente com Jesus, usando as armas da fé, ou seja, a oração, a escuta da Palavra de Deus e a penitência. Deste modo poderemos chegar a celebrar a Páscoa na verdade, prontos para renovar as promessas do nosso Batismo.

O Evangelho nos fala de pão e de tentação. Estas duas palavras aparecem na oração do Pai Nosso: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje… não nos deixeis cair em tentação”. Se não alimentamos com o pão da Palavra, não temos forças para resistirmos, quando chegar a prova da tentação.

Confiantes comecemos o itinerário quaresmal. Ressoe em nós intensamente o convite à conversão, a “converter-se a Deus de todo o coração”, acolhendo a sua graça que faz de nós novas criaturas. Não fiquemos surdos a este apelo, que nos é dirigido neste tempo quaresmal.

Também o cristão, cuja existência é guiada pelo mesmo Espírito recebido no Batismo e na Confirmação, é chamado a enfrentar o quotidiano combate da fé, sustentado pela graça de Cristo.

Ajude-nos a Virgem Maria para que, guiados pelo Espírito Santo, vivamos com alegria e proveito este tempo de graça.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

 

Veja mais: