BATISMO DO SENHOR – B

Mc 1,7-11

Caros irmãos e irmãs

Neste domingo depois da solenidade da Epifania, celebramos a festa do Batismo do Senhor que conclui o tempo litúrgico do Natal. Hoje contemplamos Jesus que, à idade de uns trinta anos, fez-se batizar por João no rio Jordão. Tratava-se de um batismo de penitência, que utilizava o símbolo da água para expressar a purificação do coração e da vida. João, chamado o “Batista”, ou seja, o que batizava, pregava este batismo a Israel para preparar a vinda do Messias, e dizia a todos que depois dele viria outro, maior que ele, que não batizaria com água, mas com o Espírito Santo (cf. Mc 1,7-8). Quando Jesus foi batizado no Jordão, o Espírito Santo desceu, pousou sobre Ele com uma aparência corporal de uma pomba, e João Batista reconheceu que Ele era o Cristo, o “Cordeiro de Deus”, vindo para tirar o pecado do mundo (cf. Jo 1,29).

No texto do Evangelho, São Marcos escreveu: “Enquanto saiu da água viu que os céus se abriam e que o Espírito, em forma de pomba, descia sobre ele. E ouviu uma voz que vinha dos céus: ‘Tu és meu Filho amado, em ti me comprazo’” (v. 11). Este trecho que a liturgia da Palavra nos propõe é uma síntese curta daquilo que o precursor João Batista anunciava: ele proclamava a vinda de alguém do qual não se sentia digno sequer de desatar as correias das suas sandálias. João Batista tinha consciência da sua missão, mas, diante de Jesus, sentia ser menor do que um servo (v. 7-8). Segundo o relato apresentado pelo evangelista São Marcos, vemos que “os céus se abriram” (v. 11). Esta informação indica que, com o início da vida pública de Jesus, ocorreu a reconciliação entre o céu e a terra, entre Deus e os homens. A imagem da pomba, também presente no texto, evoca o acontecimento ocorrido no tempo do dilúvio (cf. Gn 7), quando também o céu estava fechado e havia inimizade entre Deus e os homens. A pomba com o ramo de oliveira foi o sinal de que a paz estava restabelecida (cf. Gn 8,11). A figura da pomba como sinal do Espírito Santo nos faz lembrar que, em Israel, a pomba tinha o símbolo da doçura e do amor. Este é o estilo com o qual Jesus se aproxima do homem pecador e afastado de Deus; não é como uma águia, mas com o estilo suave de uma pomba.

Outro detalhe que nos chama a atenção é que no Antigo Testamento, o povo de Israel, guiado por Josué, teve que atravessar o Rio Jordão antes de entrar na terra prometida (cf. Js 3,11). Jesus é apresentado pelo evangelista São Marcos como o novo Josué, que guia o novo povo de Deus. É também significativo que, em hebraico, o nome de Jesus é o mesmo que Josué. Após atravessar o do Rio Jordão, Josué foi inundado pelo Espírito de Deus para poder cumprir a difícil tarefa de conduzir para a terra prometida o povo que o acompanhava (cf. Dt 34,9). O mesmo ocorre com Jesus: saindo da água recebe o Espírito Santo, a força de Deus, para conduzir os homens ao caminho da vida (v. 11).

Hoje, também somos convidados a lembrar a importância do batismo que recebemos e a fazer reviver toda a riqueza que ele trouxe para a nossa vida. Ao sermos batizados, também o Senhor Deus, de certo modo, pode repetir para cada um de nós uma palavra semelhante à que disse a Cristo: “Este é o meu filho amado” (v. 11). Como de fato, o batismo nos faz filhos de Deus. Nós somos os filhos adotivos, que, pela graça recebida no batismo, nos tornamos irmãos do Cristo e participantes da sua divindade, como nos diz o apóstolo São Pedro (cf. 2Pd 1,4). E como diz São João no prólogo do seu Evangelho: “A todos os que o receberam, deu o poder se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,12).

O Batismo expressa e realiza o mistério do novo nascimento à vida divina em Cristo: os pais levam seus filhos à fonte batismal, representação do âmago da Igreja, de cujas águas abençoadas são gerados os filhos de Deus. O dom recebido pelos recém-nascidos exige que seja acolhido por eles, uma vez que se façam adultos, de maneira livre e responsável: este processo de amadurecimento os levará depois a receber o sacramento da Confirmação, que precisamente confirmará o Batismo e lhes conferirá o “selo” do Espírito Santo.

Esta celebração de hoje é uma oportunidade propícia para que todos os cristãos redescubram a alegria e a beleza de seu Batismo que, vivido com fé, é uma realidade sempre atual: renova em nós continuamente a imagem do homem novo, na santidade dos pensamentos e das ações. O Batismo, também une os cristãos de toda confissão. Enquanto batizados, todos somos filhos de Deus em Cristo Jesus, nosso Mestre e Senhor.

O batismo é essencialmente isto: o dom da vida dado ao homem pelos méritos de Cristo, o fundamento de toda a vida cristã e a porta que dá acesso aos outros sacramentos. Pelo Batismo somos libertos do pecado e regenerados como filhos de Deus: tornamo-nos membros de Cristo e somos incorporados na Igreja e tornados participantes na sua missão (cf. CIgC, n. 1213). Este sacramento tem o nome de batismo por causa do rito central com que se realiza: batizar (baptizeis, em grego) significa “mergulhar, imergir”. A imersão na água simboliza a sepultura do catecúmeno na morte de Cristo, de onde sai pela ressurreição com Ele como uma nova criatura (cf. 2Cor 5,17; Gl 6,15). Também este sacramento é chamado de chamado “banho da regeneração e da renovação no Espírito Santo” (Tt 3,5), porque significa e realiza aquele nascimento da água e do Espírito, sem o qual “ninguém pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3,5).

Jesus começa a sua vida pública depois de Se ter feito batizar por São João Baptista no Rio Jordão. E, depois da sua ressurreição, confere esta missão aos Apóstolos: “Ide, pois, fazei discípulos de todas as nações; batizai-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo e ensinai-os a cumprir tudo quanto vos mandei” (Mt 28,19-20). Cristo sujeitou-se voluntariamente ao Batismo de São João, destinado aos pecadores, como sinal do seu “aniquilamento” (cf. CIgC, n. 1224). E, desde o dia de Pentecostes que a Igreja vem celebrando e administrando o santo Batismo. Com efeito, São Pedro declara à multidão, abalada pela sua pregação: “Convertei-vos e peça cada um de vós o Batismo em nome de Jesus Cristo, para vos serem perdoados os pecados. Recebereis então o dom do Espírito Santo” (At 2,38).

Os Apóstolos e os seus colaboradores oferecem o Batismo a quem quer que acredite em Jesus: judeus, pessoas tementes a Deus, pagãos etc. O Batismo aparece sempre ligado à fé: “Acredita no Senhor Jesus e serás salvo juntamente com a tua família”, declara São Paulo ao seu carcereiro em Filipos. E a narrativa continua: “O carcereiro logo recebeu o Batismo, juntamente com todos os seus” (At 16,31-33).

O Batismo não somente purifica de todos os pecados, como faz também do neófito uma nova criatura, um filho adotivo de Deus, tornado participante da natureza divina, membro de Cristo e templo do Espírito Santo (cf. CIgC, 1265).

Peçamos uma vez mais a Virgem de Nazaré que interceda por nós e nos ajude a compreender cada vez mais o dom do Batismo, para que possamos vivê-lo com coerência nas situações de cada dia. Assim seja.
D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB