SANTA MÃE DE DEUS – MARIA – B

SANTA MÃE DE DEUS, MARIA – B
Lc 2,16-21

Caros irmãos e irmãs

Iniciamos um novo ano civil e a Igreja nos convida a confiá-lo à celeste proteção de Nossa Senhora, que hoje a liturgia nos faz invocar com o seu título mais antigo e importante, o de Mãe de Deus. Com o seu “sim” ao Anjo, no dia da Anunciação, a Virgem concebeu no seu seio, por obra do Espírito Santo, o Verbo eterno. E em Belém, na plenitude dos tempos, Jesus nasceu de Maria: o Filho de Deus fez-se homem para nossa salvação e a Virgem tornou-se verdadeira Mãe de Deus.

O texto do Evangelho de hoje é a continuação daquele que foi lido na noite de Natal, quando após o anúncio do “anjo do Senhor”, os pastores dirigiram-se a Belém e encontraram o menino, deitado numa manjedoura de uma gruta de animais. Ao lado do berço de Jesus aparecem novamente os pastores, considerados pela sociedade judaica como pessoas impuras e desprezadas. Em conformidade com a mensagem recebida, eles se dirigem a Belém e encontram José, Maria e o Menino que está deitado na manjedoura.

Segundo os relatos apresentados pelo evangelista São Lucas sobre o nascimento de Jesus, observa-se um certo destaque ao espanto e à alegria das pessoas que se sentiam envolvidas no projeto de Deus. Isabel, por exemplo, ao perceber que estava grávida, manifesta a todos o seu contentamento: “Eis o que fez por mim o Senhor” (Lc 1,25). Simeão e a profetisa Ana começam a louvar a Deus que lhes concedeu ver a salvação preparada para todos os povos (cf. Lc 2,30.38); também Maria e José ficam admirados (cf. Lc 2.33.48), contudo, nesta passagem o evangelista São Lucas sublinha uma discreta reação de Maria diante da narrativa dos pastores, pois diz que ela “guardava todas essas coisas no seu coração, meditando-as” (v. 19). Ao mencionar estas palavras, o evangelista São Lucas descreve Maria como uma mulher silenciosa, constantemente à escuta da Palavra de Deus. Maria conserva no seu coração as palavras que provêm de Deus e, unindo-as como num mosaico, aprende a compreendê-las. Saibamos também nós seguir este exemplo da Virgem, para que possamos nos orientar sempre e unicamente por Jesus Cristo, que é o mesmo ontem, hoje e para sempre (cf. Hb 13,8).

Mas o texto do evangelho termina com uma particular atitude dos pastores, que retornam “glorificando a Deus”. São eles os mais humildes e os mais pobres, que sabem acolher o acontecimento da Encarnação e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto (cf. Lc 2,20). O Anjo tinha-lhes anunciado que na cidade de Davi, isto é, em Belém, tinha nascido o Salvador e que teriam encontrado o sinal: um menino envolto em panos numa manjedoura (cf. Lc 2,11-12). Eles foram e voltaram contentes porque encontram o Salvador.

Lançando agora um olhar para a primeira leitura temos a solene bênção que os sacerdotes pronunciavam sobre os Israelitas nas grandes festas religiosas: ela é marcada precisamente pelo nome do Senhor, repetido três vezes, como que para exprimir a plenitude e a força que derivam desta invocação. Trata-se de uma antiga súplica de bênção que Deus sugerira a Moisés, para que a ensinasse a Aarão e seus filhos: “O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja propício. O Senhor dirija para ti o seu olhar e te conceda a paz” (Nm 6,24-26). Conforme observamos a cada uma destas três invocações são acrescentados dois pedidos de bênção.

A palavra “abençoar” significa a formulação de um desejo, de um voto, para que a alguém aconteçam coisas boas na vida. Para os israelitas, se um homem de Deus ou uma pessoa com poderes extraordinários tivesse pronunciado uma bênção ou uma maldição, as suas palavras teriam a sua eficácia. Também para os israelitas, a força da bênção não dependia dos poderes misteriosos do sacerdote que a pronunciava, mas do poder e da vontade de Deus. Compreende-se, deste modo, o motivo pelo qual a bênção que a liturgia nos propõe esteja baseada sobre três invocações do nome do Senhor. Antigamente este nome santo só poderia ser pronunciado em circunstâncias particularmente solenes, somente pelos sacerdotes e pelo rei.

É muito significativo ouvir estas palavras de bênção no início de um novo ano. Trata-se de algo que acompanhará o nosso caminho neste novo ano que agora tem início. São palavras de força, coragem e esperança. Os sacerdotes de Israel abençoavam o povo impondo o nome do Senhor. Assim, hoje também a Igreja quer os que seus sacerdotes abençoem os fiéis com as mesmas palavras sagradas que eram usadas pelos sacerdotes do Antigo Testamento, para que sejam eles fortalecidos pela vitalidade da nova luz que provém da fé. Em qualquer acontecimento, alegre ou triste, estão eles em condições de descobrir que tudo o que acontece está no âmago da vontade de Deus.

E dentre os seis benefícios solicitados nas três invocações da bênção, no último deles está o pedido de paz. Os judeus piedosos sabiam que a paz era um dom de Deus; mas, para podermos caminhar pela vereda da paz, precisamos ser iluminados pelo “rosto” de Deus e ser abençoados pelo seu “nome”. Precisamente, isto se concretizou de modo definitivo com a Encarnação: a vinda do Filho de Deus na nossa carne e na história trouxe uma bênção irrevogável, uma luz que nunca se apaga e que oferece aos crentes e aos homens de boa vontade a possibilidade de construir a civilização do amor e da paz. Ele é a nossa paz e Cristo é a nossa paz; e também anunciou a paz àqueles que estavam longe e àqueles que estavam perto (cf. Ef 2,14.17).

Para acolher o dom da paz, devemos abrir-nos à verdade que foi revelada na pessoa de Jesus, que nos ensinou o conteúdo juntamente com o método da paz, isto é, o amor. E Deus, que é o Amor perfeito e subsistente, revelou-se em Jesus, assumindo a nossa condição humana. Deste modo, indicou-nos o caminho da paz através do diálogo, do perdão, da solidariedade. Eis a única estrada que conduz à paz verdadeira.

Olhando para Maria, iniciemos, portanto, este novo ano que recebemos das mãos de Deus como um dom precioso para fazermos frutificar, como uma ocasião providencial para contribuir para a realização do Reino de Deus. Que a Virgem Maria, a quem invocamos como Rainha da paz, interceda sempre por nós, para que possamos transcorrer o ano que inicia hoje na fraternidade e na concórdia. Ela nos apresenta o seu Filho como o “Príncipe da Paz” (cf. Is 9,5) e nos faz permanecer na luz deste rosto, que brilha sobre nós (cf. Nm 6,25). A Mãe de Deus nos acompanhe neste novo ano e obtenha para nós e para o mundo inteiro o almejado dom da paz. Assim seja.