SANTA MÃE DE DEUS – MARIA – B

SANTA MÃE DE DEUS, MARIA – B
Lc 2,16-21

Caros irmãos e irmãs

Iniciamos um novo ano civil e a Igreja nos convida a confiá-lo à celeste proteção de Nossa Senhora, que hoje a liturgia nos faz invocar com o seu título mais antigo e importante, o de Mãe de Deus. Com o seu “sim” ao Anjo, no dia da Anunciação, a Virgem concebeu no seu seio, por obra do Espírito Santo, o Verbo eterno. E em Belém, na plenitude dos tempos, Jesus nasceu de Maria: o Filho de Deus fez-se homem para nossa salvação e a Virgem tornou-se verdadeira Mãe de Deus.

O texto do Evangelho de hoje é a continuação daquele que foi lido na noite de Natal, quando após o anúncio do “anjo do Senhor”, os pastores dirigiram-se a Belém e encontraram o menino, deitado numa manjedoura de uma gruta de animais. Ao lado do berço de Jesus aparecem novamente os pastores, considerados pela sociedade judaica como pessoas impuras e desprezadas. Em conformidade com a mensagem recebida, eles se dirigem a Belém e encontram José, Maria e o Menino que está deitado na manjedoura.

Segundo os relatos apresentados pelo evangelista São Lucas sobre o nascimento de Jesus, observa-se um certo destaque ao espanto e à alegria das pessoas que se sentiam envolvidas no projeto de Deus. Isabel, por exemplo, ao perceber que estava grávida, manifesta a todos o seu contentamento: “Eis o que fez por mim o Senhor” (Lc 1,25). Simeão e a profetisa Ana começam a louvar a Deus que lhes concedeu ver a salvação preparada para todos os povos (cf. Lc 2,30.38); também Maria e José ficam admirados (cf. Lc 2.33.48), contudo, nesta passagem o evangelista São Lucas sublinha uma discreta reação de Maria diante da narrativa dos pastores, pois diz que ela “guardava todas essas coisas no seu coração, meditando-as” (v. 19). Ao mencionar estas palavras, o evangelista São Lucas descreve Maria como uma mulher silenciosa, constantemente à escuta da Palavra de Deus. Maria conserva no seu coração as palavras que provêm de Deus e, unindo-as como num mosaico, aprende a compreendê-las. Saibamos também nós seguir este exemplo da Virgem, para que possamos nos orientar sempre e unicamente por Jesus Cristo, que é o mesmo ontem, hoje e para sempre (cf. Hb 13,8).

Mas o texto do evangelho termina com uma particular atitude dos pastores, que retornam “glorificando a Deus”. São eles os mais humildes e os mais pobres, que sabem acolher o acontecimento da Encarnação e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto (cf. Lc 2,20). O Anjo tinha-lhes anunciado que na cidade de Davi, isto é, em Belém, tinha nascido o Salvador e que teriam encontrado o sinal: um menino envolto em panos numa manjedoura (cf. Lc 2,11-12). Eles foram e voltaram contentes porque encontram o Salvador.

Lançando agora um olhar para a primeira leitura temos a solene bênção que os sacerdotes pronunciavam sobre os Israelitas nas grandes festas religiosas: ela é marcada precisamente pelo nome do Senhor, repetido três vezes, como que para exprimir a plenitude e a força que derivam desta invocação. Trata-se de uma antiga súplica de bênção que Deus sugerira a Moisés, para que a ensinasse a Aarão e seus filhos: “O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja propício. O Senhor dirija para ti o seu olhar e te conceda a paz” (Nm 6,24-26). Conforme observamos a cada uma destas três invocações são acrescentados dois pedidos de bênção.

A palavra “abençoar” significa a formulação de um desejo, de um voto, para que a alguém aconteçam coisas boas na vida. Para os israelitas, se um homem de Deus ou uma pessoa com poderes extraordinários tivesse pronunciado uma bênção ou uma maldição, as suas palavras teriam a sua eficácia. Também para os israelitas, a força da bênção não dependia dos poderes misteriosos do sacerdote que a pronunciava, mas do poder e da vontade de Deus. Compreende-se, deste modo, o motivo pelo qual a bênção que a liturgia nos propõe esteja baseada sobre três invocações do nome do Senhor. Antigamente este nome santo só poderia ser pronunciado em circunstâncias particularmente solenes, somente pelos sacerdotes e pelo rei.

É muito significativo ouvir estas palavras de bênção no início de um novo ano. Trata-se de algo que acompanhará o nosso caminho neste novo ano que agora tem início. São palavras de força, coragem e esperança. Os sacerdotes de Israel abençoavam o povo impondo o nome do Senhor. Assim, hoje também a Igreja quer os que seus sacerdotes abençoem os fiéis com as mesmas palavras sagradas que eram usadas pelos sacerdotes do Antigo Testamento, para que sejam eles fortalecidos pela vitalidade da nova luz que provém da fé. Em qualquer acontecimento, alegre ou triste, estão eles em condições de descobrir que tudo o que acontece está no âmago da vontade de Deus.

E dentre os seis benefícios solicitados nas três invocações da bênção, no último deles está o pedido de paz. Os judeus piedosos sabiam que a paz era um dom de Deus; mas, para podermos caminhar pela vereda da paz, precisamos ser iluminados pelo “rosto” de Deus e ser abençoados pelo seu “nome”. Precisamente, isto se concretizou de modo definitivo com a Encarnação: a vinda do Filho de Deus na nossa carne e na história trouxe uma bênção irrevogável, uma luz que nunca se apaga e que oferece aos crentes e aos homens de boa vontade a possibilidade de construir a civilização do amor e da paz. Ele é a nossa paz e Cristo é a nossa paz; e também anunciou a paz àqueles que estavam longe e àqueles que estavam perto (cf. Ef 2,14.17).

Para acolher o dom da paz, devemos abrir-nos à verdade que foi revelada na pessoa de Jesus, que nos ensinou o conteúdo juntamente com o método da paz, isto é, o amor. E Deus, que é o Amor perfeito e subsistente, revelou-se em Jesus, assumindo a nossa condição humana. Deste modo, indicou-nos o caminho da paz através do diálogo, do perdão, da solidariedade. Eis a única estrada que conduz à paz verdadeira.

Olhando para Maria, iniciemos, portanto, este novo ano que recebemos das mãos de Deus como um dom precioso para fazermos frutificar, como uma ocasião providencial para contribuir para a realização do Reino de Deus. Que a Virgem Maria, a quem invocamos como Rainha da paz, interceda sempre por nós, para que possamos transcorrer o ano que inicia hoje na fraternidade e na concórdia. Ela nos apresenta o seu Filho como o “Príncipe da Paz” (cf. Is 9,5) e nos faz permanecer na luz deste rosto, que brilha sobre nós (cf. Nm 6,25). A Mãe de Deus nos acompanhe neste novo ano e obtenha para nós e para o mundo inteiro o almejado dom da paz. Assim seja.

SAGRADA FAMÍLIA DE NAZARÉ

Lc 2,22-40

Caros irmãos e irmãs,

Neste primeiro domingo depois da celebração do Natal, a liturgia nos convida a celebrar a festa da Sagrada Família de Nazaré. Deus quis nascer em uma família humana, quis ter uma mãe e um pai, como nós. Com isto, a Igreja nos propõe a família de Jesus como exemplo e modelo para as nossas famílias.

O texto evangélico nos apresenta Nossa Senhora e São José no momento em que, quarenta dias depois do nascimento de Jesus, levam o filho a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor (v. 23), em conformidade com a Lei de Moisés, e oferecem por ele “um par de rolas ou duas pombinhas” (Lc 2,24).O oferecer aos deuses os primogênitos é um costume cananeu que consistia na apresentação da criança no Templo, onde a mãe oferecia um ritual de purificação (cf. Lv 12,2-8).

A cena da apresentação de Jesus no Templo de Jerusalém apresenta uma catequese bem amadurecida e bem refletida, que procura dizer quem é Jesus e qual a sua missão no mundo. Antes de mais, o autor sublinha a fidelidade da família de Jesus à Lei do Senhor (v. 22.23.24), como se quisesse deixar claro que Jesus, desde o início da sua vida entre nós, viveu na fidelidade aos mandamentos e aos projetos do Pai.

No Templo, dois personagens acolhem Jesus: Simeão e Ana. As palavras e os gestos de Simeão são particularmente sugestivos. Simeão toma Jesus nos braços e o apresenta ao mundo, ao mesmo tempo em que o define como “a salvação” que Deus quer oferecer “a todos os povos”, “luz para se revelar às nações e glória de Israel” (v. 28-32). E Ana,ao reconhecer em Jesus a salvação anunciada por Deus, “falava do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém” (v. 38). Jesus é reconhecido como o Messias tão longamente esperado, aquele que é “luz das nações” e “glória de Israel”.Nas figuras de Ana e Simeão, o texto bíblico nos propõe também o exemplo de dois anciãos de olhos postos no futuro, capazes de perceber os sinais de Deus e de testemunhar a sua presença no meio dos homens.

Lançando um olhar para a primeira leitura deste domingo, encontramos de forma muito prática, algumas atitudes que os filhos devem ter para com os pais. O livro do Eclesiástico, de onde foi extraída a primeira leitura, é um livro sapiencial e que pretende apresentar uma reflexão sobre a arte de viver bem e ser feliz. O texto apresenta uma série de indicações que os filhos devem observar nas relações com os seus pais. Uma palavra sobressai no texto: o verbo “honrar”, que, por sua vez nos faz lembrar do quarto mandamento da Lei de Deus (cf. Ex 20,12). Honrar uma pessoa quer dizer “dar glória” a ela; é certificar a sua importância; “dar glória aos pais” é reconhecer que eles são a fonte, através da qual Deus nos dá a vida e isso deve conduzir à gratidão; e essa gratidão tem consequências a nível prático. Implica ampará-los na sua velhice e não os desprezar nem abandonar; implica assisti-los materialmente em suas necessidades.

É natural que, por trás destas indicações aos filhos, esteja também a preocupação com os valores tradicionais, valores que os mais antigos preservam e que passam aos jovens. Como recompensa desta atitude de “honrar” os pais o texto promete o perdão dos pecados, a alegria, a vida longa e a atenção de Deus.

Desde o princípio, o matrimônio e a família estão ordenados para o bem dos esposos e para a procriação e educação dos filhos. O amor dos esposos e a geração dos filhos estabelecem entre os membros de uma mesma família, relações pessoais e responsabilidades primordiais. Um homem e uma mulher, unidos em matrimônio, formam com os seus filhos, uma família. Ao criar o homem e a mulher, Deus instituiu a família humana e dotou-a da sua constituição fundamental (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2201-2203).

O Concílio Vaticano II frisa que o “papel dos pais na educação dos filhos é de tal importância que é impossível substituí-los” (CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Declaração “Gravissimum Educationis”, n. 3). O direito e o dever da educação dos filhos são primordiais e inalienáveis para os pais). Os pais devem olhar para os seus filhos como filhos de Deus e respeitá-los como pessoas humanas. Cabe a eles educar os seus filhos no cumprimento da lei de Deus, na medida em que eles próprios se mostrarem como testemunhas para os seus filhos. Testemunham esta responsabilidade pela edificação de um lar onde são regra a ternura, o perdão, o respeito, a fidelidade e o serviço desinteressado (cf. S. JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica “Familiaris Consortio”, n. 36.

O homem e a mulher, criados à imagem de Deus, tornam-se no matrimônio “uma única carne” (Gn 2,24), isto é, uma comunhão de amor que gera vida nova. Por isto, Os cônjuges devem ser um para o outro e para os filhos testemunhas da fé e do amor de Cristo. A obediência aos pais cessa com a emancipação: mas não o respeito que sempre lhes é devido (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2117).O respeito favorece a harmonia de toda a vida familiar; engloba também as relações entre irmãos e irmãs. O respeito pelos pais deve impregnar todo o ambiente familiar.E São Paulo exorta: “Suportai-vos uns aos outros na caridade, com toda a humildade, mansidão e paciência” (Ef 4, 2).

Assim, são eles os primeiros educadores da fé, mediante a palavra e o exemplo. Quando os filhos podem ver em seus pais o amor mútuo, plena honradez e sinceridade, compreendem que podem contar com os seus pais como verdadeiros amigos e companheiros. É neste contexto que os pais podem educar com seu exemplo e a sua palavra na transmissão de valores básicos e permanentes, tantos humanos como cristãos, tais como a honradez, a fé, a oração, a verdade, a justiça, o amor e o serviço.

A família cristã transmite a fé, quando os pais ensinam os filhos a rezar e rezam com eles; quando os aproximam dos sacramentos e os vão introduzindo na vida da Igreja; quando todos se reúnem para ler a Sagrada Escritura, iluminando a vida familiar à luz da fé.

A solenidade da Sagrada Família é uma festa que incentiva a aprofundar o amor familiar, examinar a situação do próprio lar e buscar soluções que ajudem o pai, a mãe e os filhos a serem cada vez mais como a Família de Nazaré. Família é o lugar onde deve reinar a unidade de todos, pois onde há amor, também há compreensão e perdão. Cada família cristã deve ser um lugar privilegiado onde se experimenta cada dia a alegria do perdão. O perdão é a essência do amor, que sabe compreender o erro e pôr-lhe remédio. É no seio da família que as pessoas são educadas para o perdão, porque é neste ambiente familiar que deve haver a compreensão e o amparo, mesmo diante dos erros que se possam cometer.

Peçamos a intercessão da Sagrada Família de Nazaré por todas as famílias, a fim de que possam viver na fé, na concórdia, na ajuda recíproca; para que cumpram com dignidade e serenidade a missão que Deus lhes confiou. Assim seja.

NATAL DO SENHOR – O verbo de Deus se faz carne e habitou entre nós

Jo 1,1-18

Caros irmãos e irmãs,

Celebramos a festa do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nasceu para nós o Salvador! Sinal pleno de alegria. Sinal de paz e felicidade a todos quantos sentem no coração o eco alegre da mensagem da Noite Feliz que os anjos proclamam: “Glória a Deus nas alturas, e Paz na terra aos homens por ele amados” (Lc 2,14).

O texto do evangelho prescrito para este dia nos apresenta o prólogo do Evangelho de São João, onde são antecipados os temas fundamentais do texto joanino. É semelhante a um hino em que o tema principal é o Logos. O prólogo começa com a mesma palavra do livro do Gênesis (cf. Gn 1,1). Em João encontramos a afirmação de uma existência que precede o começo. O Evangelista São João proclama de forma grandiosa que no início (cf. Gn 1,1) era a Palavra da criação (cf. Gn 1,3), e esta Palavra é aquele que veio ao mundo, mas o mundo não O acolheu (cf. Jo 1,5), aquele que se tornou carne como nós, mortal como nós (Jo 1,14). Mas exatamente nesta sua condição carnal, na sua doação até a morte, manifestou Ele a glória de Deus. Jesus é a comunicação de Deus. É o permanente nascimento de Cristo na história, que vai renovando o mundo para que ele seja todo cristão.

O Evangelista São João está descrevendo um novo começo. Se o livro do Gênesis registra a primeira criação, este primeiro versículo do Evangelho joanino descreve a nova criação. Em ambas as ocasiões, o agente da obra criadora é o mesmo Verbo (ou Palavra) de Deus. “Palavra” e “luz” são duas formas de falar da mesma realidade, a saber, que Deus entrou na história humana para reconduzi-la à plenitude. Na mentalidade hebraica, a palavra é o meio através do qual alguém se revela ou expressa seus pensamentos e vontade. Conforme nos relata a Sagrada Escritura, a melhor forma pela qual Deus se expressou foi através da existência humana de Jesus no mundo.

O verbo de Deus, ou seja, a Palavra de Deus, veio como a luz no meio das trevas (v. 5), isto porque a humanidade estava caminhando no erro e no pecado e, com o nascimento de Cristo começa uma nova criação, surge um novo tempo. Contudo, esta luz não foi acolhida pacificamente no mundo. A parte central do trecho do evangelho deste dia nos fala da luta dura, entre a luz vinda do céu e as trevas que continuam a envolver o mundo. Trata-se das forças do mal que são os pecados e os erros que constituem as nossas trevas.

A luz veio ao mundo (v. 9). O Antigo Testamento se refere a Deus como a fonte da luz e da vida em várias passagens. O salmista indica que Deus é a fonte da vida e da luz (Sl 36,9). O Evangelista São João, seguindo o conceito do salmista, afirma que o Verbo é a vida e a luz dos homens. João utiliza o termo “Verbo” em um sentido muito pessoal, de um Deus que ama, se compadece e se identifica com os seres humanos, tomando sobre si sua natureza, e sofrendo uma morte vergonhosa com o fim de prover um meio para a reconciliação do homem com seu Criador.

O termo “mundo” nesse texto significa o mundo dos homens e seus assuntos, o qual, concretamente, está submetido ao pecado e às trevas. A função da luz é basicamente combater ou vencer a obscuridade. Trevas é um termo metafórico que, no quarto evangelho se refere a tudo o que se opõe à mensagem de Jesus, é a obscuridade moral e espiritual. Por isso, o tema da primeira parte do quarto evangelho é a fé e a incredulidade é o resultado da influência das trevas.

A missão de Jesus no mundo foi uma espécie de conflito entre a luz e as trevas, culminando no Getsêmani e na cruz. Por isso, o verbo “vencer” cabe bem neste contexto. A luz brilha nas trevas e as trevas não tinham o poder para vencê-la (v.5). A luz luta contra as trevas continuará, até a plena vitória da luz, vitória garantida pela ressurreição de Cristo (cf. Jo 16,33).

Mas o evangelista São João afirma: “Deus é luz e nele não há trevas” (1Jo 1,5). No Livro do Gênesis, lemos que, quando teve início o universo, “a terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo…”. E Deus disse: “Faça-se a luz! E a luz foi feita” (Gn 1,2-3). A Palavra criadora de Deus é Luz, fonte da vida. Tudo foi feito por meio da Palavra de Deus e sem esta Palavra nada foi feito de tudo quanto existe (cf. Jo 1,3). Esta é a razão pela qual tudo o que Deus criou é bom, por traz os vestígios de Deus.

Entretanto, quando Jesus nasceu da Virgem Maria, a mesma Luz veio ao mundo, como professamos na oração do Credo: “Deus de Deus, Luz da Luz”. João Batista não era a luz, mas veio para ajudar o povo a descobrir a presença luminosa e consoladora da Palavra de Deus na vida de cada um. O testemunho de João Batista foi tão importante que muita gente pensava que Ele fosse o Cristo de Deus (cf. At 19,3; Jo 1,20). Mas o “mundo” não reconheceu o Cristo e nem acolheu a sua mensagem.

Desde os tempos de Abraão e Moisés, Deus continua enviando seus mensageiros, mas o “mundo” continua rejeitando a Palavra de Deus. O evangelista São João indica que, na época de Jesus, tanto o império como a religião da época, ficaram fechados em si e não foram capazes de reconhecer e receber o Evangelho, que é a presença luminosa da Palavra de Deus.

O texto evangélico nos diz que a Palavra se fez carne, isto porque Deus não quer ficar longe de nós. Por isso, a sua Palavra chegou mais perto ainda e se fez presente no meio de nós na pessoa de Jesus. Literalmente o texto diz: “A Palavra se fez carne e montou sua tenda no meio de nós!”. No tempo do Êxodo, lá no deserto, Deus vivia numa tenda, no meio do povo (cf. Ex 25,8). Agora, a tenda onde Deus mora conosco é Jesus. Jesus veio revelar quem é este nosso Deus que está presente em tudo, desde o começo da criação.

A perícope evangélica deste dia evoca ainda a profecia de Isaías, segundo a qual a Palavra de Deus é como a chuva que vem do céu e para lá não volta sem ter realizado a sua missão aqui na terra (cf. Is 55,10-11). Assim é a caminhada da Palavra de Deus. Ela veio de Deus e desceu entre nós na pessoa de Jesus. Através da obediência de Jesus ela realizou sua missão aqui na terra. Na hora de morrer, Jesus entregou o Espírito e voltou para o Pai. Cumpriu a missão que tinha recebido.

Na noite de Natal, Jesus se fez Luz para iluminar os nossos caminhos. Cristo vem trazer a luz também a nós, para que possamos sair da escuridão e das trevas. Que esta luz de Cristo possa iluminar cada ser humano e fazer brilhar a esperança e a consolação especialmente para os que vivem nas trevas da miséria, da injustiça, do ódio, da desunião. Jesus veio ao mundo para resgatar o ser humano do poder das trevas e reconduzi-lo à luz, mediante uma vida nova.

Peçamos a Maria, aquela que chamamos de Bem aventurada, porque acreditou nas palavras do Senhor, que ela interceda sempre por nós e nos faça caminhar na estrada de Jesus, a única via iluminada pela luz do amor e da paz. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

IV – DOMINGO DO ADVENTO – B – A anunciação do anjo a Maria

Lc 1,26-38

Meus caros irmãos e irmãs,

Já está próximo o Natal do Senhor e a liturgia da Palavra nos prepara para este momento e convida a meditar a narração do anúncio do Anjo a Maria. O anjo Gabriel revela à Virgem Maria a vontade do Senhor, que Ela se torne Mãe do seu Filho unigênito: “Eis que conceberás e darás à luz um filho, e que lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo!” (Lc 1,31-32).

O texto evangélico começa dizendo que o anjo Gabriel “foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré” (Lc 1,26). Os moradores daquela região eram pagãos, exceção feita a uns poucos israelitas. Nazaré era uma cidade tão insignificante que não é citada nem uma vez no Antigo Testamento. No entanto, ali Cristo seria concebido. Mais tarde Bartolomeu antes de se tornar apóstolo, indagará a Filipe que lhe dizia ter encontrado o Messias, Jesus: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré da Galileia”? (Jo 1,47).

Havia de fato um enorme preconceito contra os galileus. No entanto, foi na pequena Nazaré, uma aldeia simples, ignorada e sem importância no cenário político da época e à margem dos caminhos de Deus e da salvação, o lugar em que ocorreria a concepção de Jesus. Nazaré teve a honra de ser o lugar no qual o Verbo de Deus se encarnou. Na pequena cidade de Belém, Jesus nasceria; ao passo que em Jerusalém, a capital, seria condenado, crucificado e morto na cruz.

O relato evangélico continua e identifica Maria como “uma virgem prometida em casamento a um homem chamado José” (Lc 1,27). O casamento hebraico considerava o compromisso matrimonial em duas etapas: havia uma primeira fase, na qual os noivos se prometiam um ao outro: os “esponsais”; só numa segunda fase surgia o compromisso definitivo, a cerimônia do matrimônio. Entre os “esponsais” e o rito do matrimônio, passava um tempo mais ou menos longo, durante o qual qualquer uma das partes podia voltar atrás, ainda que sofrendo alguma penalidade.

Durante os “esponsais”, os noivos não viviam em comum; mas o compromisso que os dois assumiam tinha já um caráter estável, de tal forma que, se surgisse um filho, este era considerado filho legítimo de ambos. A Lei de Moisés considerava a infidelidade da “prometida” como uma ofensa semelhante à infidelidade da esposa (cf. Dt 22,23-27). E a penalidade seria a morte por apedrejamento. José e Maria estavam, portanto, na situação de “prometidos”, pois ainda não tinham celebrado o matrimônio, mas já tinham celebrado os “esponsais”.

Dentro deste contexto, ocorre o anúncio do anjo a Maria, e a primeira palavra usada pelo anjo no momento da anunciação é “chaire”, uma expressão de origem grega, que significa “rejubila, alegra-te”. Normalmente a saudação entre os judeus era “Shalom”, que pode ser traduzida como “paz”, enquanto a saudação no mundo grego era “Chaire”, ou seja, “alegra-te”. É de se admirar que o anjo, ao entrar na casa de Maria, a cumprimente com a saudação dos gregos. Com isto, podemos compreender que com o início do Novo Testamento, a que se referia esta página do Evangelista São Lucas, teve lugar também a abertura para a salvação, à universalidade do Povo de Deus, que incluía não só o povo hebreu, mas também o mundo na sua totalidade, todos os povos. Nesta saudação grega do anjo manifesta-se a nova universalidade do Reino do verdadeiro Filho de Davi (cf. BENTO PP XVI, A infância de Jesus, São Paulo, 2012, p. 30-31).

Usando esta saudação “alegra-te”, podemos dizer que o mensageiro celeste retoma uma expressão já presente no Antigo Testamento, presente no Livro do profeta Sofonias. O profeta Sofonias, inspirado por Deus, diz a Israel: “Alegra-te, filha de Sião; o Senhor está contigo e acolhe-te na sua morada” (Sf 3,16). Com isto, o evangelista São Lucas quer dizer que, no Filho de Maria, se realizaram todas as profecias: a virgem concebeu, como anunciou o profeta Isaías (cf. Is 7,14) e Deus se fez presente como Salvador do seu povo em Maria, identificada como filha de Sion, da qual falou o profeta Sofonias. E pelo Canto do Magnificat, percebemos que Maria reconhece ser a “filha de Sião”, de que o profeta falou, e, portanto, o Senhor tem uma intenção especial para ela, pois foi chamada para ser a mãe do Salvador, a morada de Deus por excelência. Maria é o lugar por excelência do cumprimento das profecias divinas. É nela que a Palavra de Deus se cumpre no sentido mais pleno.

Com este diálogo do anjo Gabriel com Maria, começa realmente o Novo Testamento. Portanto, podemos dizer que a primeira palavra do Novo Testamento é um convite à alegria. E esta é a grande alegria que o cristianismo anuncia. Com o convite à alegria tem início um tempo novo. Esta alegria que a humanidade recebeu, não pode conservá-la somente para si; a alegria deve ser sempre compartilhada, deve ser comunicada. Maria foi imediatamente transmitir a sua alegria à sua prima Isabel. Também nós somos chamados a anunciar a alegria. Este é o verdadeiro compromisso desse tempo litúrgico: levar a alegria aos outros. O verdadeiro presente de Natal é a alegria. Nós podemos transmitir esta alegria de modo simples: com um sorriso, com um bom gesto, com uma pequena ajuda, um perdão.

Na sequência, ao ouvir as palavras do arcanjo Gabriel, Maria ficou a pensar no significado da saudação que lhe havia sido dirigida (cf. Lc 1,29; mas logo em seguida, o anjo dirá: “Não tenhas medo, Maria!” (v. 30). Maria tinha motivo para ter medo, além das circunstâncias legais da época, era grande o peso de carregar o fardo do mundo sobre si mesma, ser a mãe do Rei do Universo, ser a mãe do Filho de Deus! Um peso acima das forças de um ser humano! Mas o anjo tranquiliza Maria dizendo: “Não tenhas medo!” (v. 30). Com esta expressão do anjo Gabriel também nós recebemos uma valiosa lição: Não precisamos ter medo de receber Jesus neste Natal e de testemunhá-lo a todos.

Neste trecho evangélico, é também significativa a resposta de Maria ao anjo, concluindo o diálogo: “Eis aqui a Serva do Senhor. Faça-se em mim, segundo a tua palavra” (v. 38). Maria diz “sim” àquela vontade divina e, com isto, abre a porta do mundo a Deus. Com estas palavras, podemos lembrar da oração do Pai Nosso, onde temos uma expressão semelhante: “Seja feita a vossa vontade”. Maria deu a cada um de nós o exemplo: Devemos fazer sempre a vontade de Deus.

Esta resposta de Maria precisa ser considerada. Ela chama a si mesma de “Serva do Senhor”. O Evangelista São Lucas a havia chamado de “Virgem”, o anjo, de “cheia de graça”; e seus pais, de “Maria”. O servo depende de seu senhor, da sua vontade. E Maria, se auto identificou como a Serva do Senhor. A palavra do anjo é uma ordem: “Conceberás e darás à luz”; que Maria aceita em sinal de obediência e alegria. É também importante notar que o Filho de Deus não se encarnou sem o consentimento daquela que devia ser sua mãe. Este exemplo se aplica aos dois fatores de nossa santificação: A graça de Deus e a cooperação da nossa vontade.

O exemplo da Virgem de Nazaré é para todos nós um convite a acolher com total abertura de espírito o Cristo que vem no Natal, que por amor se faz nosso irmão. Ele vem para trazer a paz ao mundo: “Paz na terra aos homens por Ele amados!” (Lc 2,14), como anunciaram os anjos aos pastores. O dom precioso do Natal é a paz, e Cristo é a nossa paz.

Preparemo-nos para celebrar dignamente o Natal já próximo. Sigamos com Maria e José rumo a Belém. Que os nossos passos caminhem em direção ao Menino Jesus que nasce; e os nossos olhos se abram para que possamos ver e reconhecer o Filho de Deus entre nós e que possamos abrir de par em par as portas do nosso coração para acolhê-lo. Um feliz Natal a todos! Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ