DOMINGO DA RESSUREIÇÃO DO SENHOR

Caros irmãos e irmãs,

    Neste domingo a liturgia nos faz chegar ao domingo da Páscoa, quando somos convidados a olhar o túmulo vazio de Jesus e, com admiração e gratidão, refletir sobre o grande mistério da Ressurreição do Senhor. A vida venceu a morte!

    Já na Vigília pascal, entoamos novamente o grito da alegria, o “Aleluia”, uma palavra hebraica conhecida em todas as línguas e que significa “Louvai o Senhor”.  Este grito do Aleluia volta a ressoar para indicar a nossa alegria diante da Ressurreição do Senhor. Mas este aleluia pascal deve imprimir profundamente em nós o desejo de constantemente louvar o Senhor, pelas maravilhas que Ele operou em cada um de nós.  E como consequência disso, cada cristão é chamado a ser proclamador de uma vida nova, deve fazer morrer em si o “velho homem”, o homem marcado pelo pecado; e fazer ressurgir o “homem novo”, configurado a Cristo ressuscitado. 

    O texto evangélico que a Liturgia da Palavra nos apresenta para este domingo começa com uma indicação aparentemente cronológica, mas que deve ser entendida, sobretudo, em chave teológica: “No primeiro dia da semana”. Significa que com a ressurreição de Jesus começou um novo ciclo – o da nova criação, o da Páscoa definitiva. Aqui começa um novo tempo, o tempo do homem novo, que nasce a partir da doação de Jesus. 

    A primeira personagem em cena é Maria Madalena. Ela é a primeira a dirigir-se ao túmulo de Jesus, ainda quando o sol não tinha nascido, na manhã do “primeiro dia da semana”.  Em seguida, ela corre, com medo, mas feliz, para comunicar esta notícia aos discípulos de Jesus.  

    Na sequência, o texto evangélico nos apresenta a visita de Pedro e do discípulo que Jesus amava ao túmulo vazio.  O evangelista São João narra com exatidão os detalhes da cena: as faixas de linho, que tinham envolvido o corpo, estavam lá depositadas e o pano da cabeça estava enrolado e colocado à parte (cf. v. 6-7). Esta minuciosa descrição do evangelista tem a finalidade de excluir a teoria do roubo do cadáver.

    O túmulo vazio é um argumento decisivo em favor da ressurreição de Jesus. É isto, como de fato, que expressa na confissão do discípulo amado que vai até ao túmulo na companhia de Pedro: “Ele viu e acreditou” (v. 8). Isto supõe que o discípulo amado terá verificado, pelo estado em que ficou o sepulcro vazio, que a ausência do corpo de Jesus não podia ter sido obra humana.  Mediante os sinais da morte: o túmulo, os lençóis, o sudário… o discípulo vê os sinais da vida. Na verdade, vê sem ter visto ainda, e já começa a crer ou a dar crédito, até que sua fé seja plenamente confirmada e esclarecida pelas aparições.  

    Com relação ao Apóstolo Pedro, parece que ele é vencido não só na corrida material, mas também na espiritual.  O discípulo que Jesus amava, identificado pela tradição como o apóstolo João, mostra a sua fé na ressurreição; quanto Pedro, embora vendo as mesmas coisas, limita-se a constatar e não chegar ainda à fé na ressurreição (cf. Jo 20,3-10).  

    Também quando Jesus aparece junto ao mar de Tiberíades é mais uma vez o discípulo que Jesus amava que o reconhece, enquanto Pedro, só mais tarde o reconhece (cf. Jo 20,7).  A não identificação do nome do discípulo que Jesus amava no texto, pode ser um indicativo de que todos nós devemos estar no lugar deste discípulo. Acreditar que Cristo ressuscitou para estar conosco. 

    Cada domingo, com a recitação do Credo, nós também renovamos a nossa profissão de fé na ressurreição de Cristo, acontecimento surpreendente que constitui a chave de volta do cristianismo.  A ressurreição de Jesus é a verdade culminante da nossa fé em Cristo, acreditada e vivida como verdade central pela primeira comunidade cristã, transmitida como fundamental pela Tradição, estabelecida pelos documentos do Novo Testamento e pregada como parte essencial do mistério pascal (cf. CIgC 638).

    Na Igreja tudo se compreende a partir deste grande mistério, que mudou o curso da história e que se torna atual em cada celebração eucarística. Mas existe um tempo litúrgico no qual esta realidade central da fé cristã, na sua riqueza doutrinal e inexaurível vitalidade, é proposta aos fiéis de modo mais intenso, para que cada vez mais a redescubram e mais fielmente a vivam: é o tempo pascal. Um tempo em que a Igreja revive, em cada celebração, onde temos a alegria de vivenciar a ressurreição do Cristo Senhor.  Páscoa é a passagem de Jesus da morte para a vida, na qual se cumprem em plenitude as antigas profecias. 

    A morte do Senhor demonstra o amor imenso com que Ele nos amou até ao sacrifício por nós; mas só a sua ressurreição é “prova certa”, é certeza de que quanto Ele afirma é verdade que vale também para nós, para todos os tempos. E o Apóstolo São Paulo nos ensina na sua Carta aos Romanos: “Se confessares com a tua boca o Senhor Jesus e creres no teu coração que Deus O ressuscitou do entre os mortos, serás salvo” (Rm 10, 9).

    O enfraquecimento da fé na ressurreição de Jesus consequentemente torna-se frágil o testemunho dos crentes. De fato, se faltar na Igreja a fé na ressurreição, tudo desmorona. Ao contrário, a adesão do coração e da mente a Cristo morto e ressuscitado muda a vida e ilumina toda a existência das pessoas. Certamente é a fé na ressurreição que sustentou e deu coragem aos primeiros discípulos e também aos mártires ao longo da história. É o encontro com Jesus ressuscitado que motivou muitos homens e mulheres, que desde o início do cristianismo continuam a deixar tudo para O seguir e colocar a própria vida ao serviço do Evangelho. 

    Esta verdade marcou também de forma tão profunda na vida dos apóstolos que, após a ressurreição, sentiram novamente a necessidade de continuar propagando os ensinamentos do Mestre e, ao receberem o Espírito Santo, saíram pelo mundo inteiro, para anunciar a todos o que tinham visto com os próprios olhos e experimentaram pessoalmente.  O mesmo pode-se dizer de São Paulo, cuja fé na ressurreição de Cristo o levou a dizer: “Se Cristo não ressuscitou é vã a nossa pregação e vã a nossa fé” (1Cor 15,14).

    Podemos dizer aina que a ressurreição de Cristo, e o próprio Cristo Ressuscitado, é princípio e fonte da nossa ressurreição futura: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram… Do mesmo modo que em Adão todos morreram, assim também em Cristo serão todos restituídos à vida” (1Cor 15,20-22).  Cristo verdadeiramente ressuscitou! Não podemos reter somente para nós a vida e a alegria que Ele nos deu na sua Páscoa, mas devemos doá-la a quantos nos são próximos. É o nosso objetivo e a nossa missão continuar anunciando, assim como fez Maria Madalena, que Cristo Ressuscitou e caminha conosco ao logo da vida.

    Na expectativa de que isto se realize, peçamos a intercessão da Virgem Maria, para que possamos progredir sempre mais na fé, agora iluminada pela Ressurreição do Senhor, para que possamos ser para todos os que encontrarmos pelo nosso caminho, mensageiros da verdadeira luz e da alegria da Páscoa.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

SEXTA-FEIRA SANTA

Caros irmãos e irmãs,

    A sexta-feira santa é o único dia do ano em que não se celebra missa. A eucaristia é a celebração de Deus vivo e, por isto, não faz sentido celebrar a eucaristia no dia em que Cristo morre. A Igreja está recolhida, em oração. Dia de penitência. Dia de jejum. Dia de abstinência de carne. Dia em que devemos voltar nossos pensamentos para viver os sofrimentos atrozes vividos pelo Salvador e Redentor da humanidade.

    A liturgia nos faz sentir, de maneira especial, o significado do sofrimento de Cristo, e as duas leituras que preparam o Evangelho são fundamentais para penetramos no Mistério que celebramos. A leitura da Paixão segundo João constitui o modo privilegiado de acesso ao mistério pascal, que neste dia revivemos, sobretudo como morte do Senhor. A primeira Leitura (cf. Is 52,13-53,12) é o quarto canto do Servo de Javé. Nesta leitura retirada do livro do profeta Isaías, a Igreja nascente encontrou, através das nuvens da história antiga, o fio que a existência de Jesus retornou e levou ao fim: a doação da vida do justo, pela salvação dos homens e mulheres, pela salvação dos irmãos, mesmo dos que o rejeitaram e mesmo daqueles que o traíram.

    Já a segunda leitura, retirada da Carta aos Hebreus (cf. Hb 4,14-16;5,7-9), coloca em evidencia que Jesus participou em tudo de nossa condição humana. Assim, devemos nos colocar perante o mistério de hoje: Jesus, se fazendo homem em tudo, exceto no pecado, morre pela salvação da humanidade, para o perdão de nossos pecados, inaugurando o novo tempo: o tempo da salvação e da glória.

    Nesta celebração acompanhamos os passos do Senhor em sua paixão até a sua entrega total na cruz. Contemplando e adorando o Senhor Crucificado, elevamos nossa oração por todas as pessoas com quem o sangue de Cristo nos fez irmãos, especialmente os que sofrem, prolongando hoje, o mistério de sua cruz.

    Neste dia, somos chamados a contemplar a Paixão e Morte de Jesus. Somos levados a contemplar e vivenciar o mistério da iniqüidade humana na pessoa de Jesus sim, mas, sobretudo, o mistério do Seu triunfo definitivo. O rito da apresentação e adoração da cruz vem como conseqüência lógica da proclamação da paixão de Cristo. A Igreja ergue diante dos fiéis o sinal do triunfo do Senhor, que Ele mesmo havia dito: “Quando levantarem o Filho do Homem, saberão que Eu sou” (Jo 8,28). Enquanto apresenta a cruz, o celebrante canta por três vezes: “Eis o lenho da cruz, do qual pendeu a salvação do mundo”. A assembléia, cada vez, responde: “Vinde, adoremos!”.

    E neste dia, a liturgia nos convida a lançar um olhar para o Calvário de Cristo. E lá podemos também contemplar Maria, silenciosa aos pés da cruz, com o coração retalhado de dor, Maria é figura da humanidade redimida. Nesta Sexta-feira Santa somos também convidados a contemplar o mistério da cruz de Cristo, através do olhar maternal de Maria. O evangelista São João refere-nos que aos pés da cruz, onde o Senhor entrega a vida, estavam a mãe de Jesus, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena; e ainda o próprio evangelista São João (cf. Jo 19,25). Jesus foi praticamente abandonado por todos. Os discípulos se dispersaram, restando apenas João, aquele que Jesus amava, segundo a tradição, os miraculados desapareceram, as multidões que o seguiam e o aclamaram como Messias nas ruas de Jerusalém, pediram a sua condenação. Só Maria, sua mãe, acompanhada por duas amigas, e João, são fiéis até ao fim.

    Eles vencem o medo e superam a dor e não evitam a cruz. Essa é a primeira atitude que podemos aprender com Maria: não ter medo da cruz, contemplá-la com amor, porque aquele crucificado é a encarnação do amor. Aproximamos da cruz porque nela está suspenso alguém que nos ama infinitamente, nosso Senhor e Mestre. Naquela cruz joga-se o nosso destino; ali somos gerados para uma vida nova, nas núpcias misteriosas entre Deus e a humanidade; e Maria, que dera à luz o Verbo encarnado, surge como Mãe da nova humanidade, participando como mulher e Mãe nesse parto doloroso da humanidade redimida. Jesus explicita essa nova maternidade de Maria, ao dizer-lhe, referindo-se a São João: “Mulher, eis o teu filho” (Jo 19,26). A maldição que tinha caído sobre outra mulher, Eva, a primeira mãe da humanidade, condenada a dar à luz os seus filhos na dor (cf. Gn 3,16) é vencida na dor de Maria. Também ela, aos pés da cruz, gera os novos filhos na dor, mas a sua dor é o sofrimento da redenção.

    Aos pés da Cruz está Maria como co-redentora. Quis Deus que entre ela e o seu Filho, houvesse uma unidade de missão, e essa missão Maria a aceitou, desde o primeiro momento, na obediência da fé. Ao anjo disse: “Eu sou a Serva do Senhor, cumpra-se em mim a tua Palavra” (Lc 1,38). Essa obediência total à vontade do Pai será a atitude contínua de Jesus. A Sua fidelidade é uma obediência que, segundo São Paulo, encontra a sua máxima expressão naquela Cruz: humilhando-Se ainda mais, obedeceu até à morte na cruz (cf. Fl 2,8).

    E na Carta aos Hebreus diz-se que Ele, “apesar de ser Filho, aprendeu, de quanto sofrera, o que é obedecer” (Hb 5,8). Aprender a obediência, aprofundar a atitude de abandono à vontade de Deus, eis algo que Maria não deixou de aprofundar, desde a anunciação até à cruz. Aos pés da cruz, tal como Seu Filho, Maria obedece, abandona-se ao desígnio misterioso de Deus e percebe, na cruz, qual era a vontade de Deus. A sua obediência é, agora, mais radical e profunda, pois percebe que é mais exigente aceitar a vontade de Deus acerca do Seu Filho do que acerca dela própria.

    Aprendamos com Maria a obedecer à vontade do Senhor, quando nos convida à conversão, quando nos atrai para a intimidade, quando nos envia em missão, quando nos interpela a sermos santos, como ele é Santo. A cruz de Cristo é, em cada momento, um apelo à conversão, um convite à confiança, um desafio de amor.

    Contemplando Maria, aos pés da cruz, aprenderemos, com ela, a abraçar a nossa cruz, isto é, as nossas provações, os nossos sofrimentos e que possamos fazer deles a oferta eucarística e hóstia de louvor, para a redenção do mundo. Assim seja.

 

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

TRÍDUO PASCAL – Quinta-feira Santa – Ceia do Senhor

Caros irmãos e irmãs,

    Neste domingo a liturgia nos faz chegar ao domingo da Páscoa, quando somos convidados a olhar o túmulo vazio de Jesus e, com admiração e gratidão, refletir sobre o grande mistério da Ressurreição do Senhor. A vida venceu a morte!

Já na Vigília pascal, entoamos novamente o grito da alegria, o “Aleluia”, uma palavra hebraica conhecida em todas as línguas e que significa “Louvai o Senhor”.  Este grito do Aleluia volta a ressoar para indicar a nossa alegria diante da Ressurreição do Senhor. Mas este aleluia pascal deve imprimir profundamente em nós o desejo de constantemente louvar o Senhor, pelas maravilhas que Ele operou em cada um de nós.  E como consequência disso, cada cristão é chamado a ser proclamador de uma vida nova, deve fazer morrer em si o “velho homem”, o homem marcado pelo pecado; e fazer ressurgir o “homem novo”, configurado a Cristo ressuscitado. 

    O texto evangélico que a Liturgia da Palavra nos apresenta para este domingo começa com uma indicação aparentemente cronológica, mas que deve ser entendida, sobretudo, em chave teológica: “No primeiro dia da semana”. Significa que com a ressurreição de Jesus começou um novo ciclo – o da nova criação, o da Páscoa definitiva. Aqui começa um novo tempo, o tempo do homem novo, que nasce a partir da doação de Jesus. 

    A primeira personagem em cena é Maria Madalena. Ela é a primeira a dirigir-se ao túmulo de Jesus, ainda quando o sol não tinha nascido, na manhã do “primeiro dia da semana”.  Em seguida, ela corre, com medo, mas feliz, para comunicar esta notícia aos discípulos de Jesus.  

    Na sequência, o texto evangélico nos apresenta a visita de Pedro e do discípulo que Jesus amava ao túmulo vazio.  O evangelista São João narra com exatidão os detalhes da cena: as faixas de linho, que tinham envolvido o corpo, estavam lá depositadas e o pano da cabeça estava enrolado e colocado à parte (cf. v. 6-7). Esta minuciosa descrição do evangelista tem a finalidade de excluir a teoria do roubo do cadáver.

    O túmulo vazio é um argumento decisivo em favor da ressurreição de Jesus. É isto, como de fato, que expressa na confissão do discípulo amado que vai até ao túmulo na companhia de Pedro: “Ele viu e acreditou” (v. 8). Isto supõe que o discípulo amado terá verificado, pelo estado em que ficou o sepulcro vazio, que a ausência do corpo de Jesus não podia ter sido obra humana.  Mediante os sinais da morte: o túmulo, os lençóis, o sudário… o discípulo vê os sinais da vida. Na verdade, vê sem ter visto ainda, e já começa a crer ou a dar crédito, até que sua fé seja plenamente confirmada e esclarecida pelas aparições.  

    Com relação ao Apóstolo Pedro, parece que ele é vencido não só na corrida material, mas também na espiritual.  O discípulo que Jesus amava, identificado pela tradição como o apóstolo João, mostra a sua fé na ressurreição; quanto Pedro, embora vendo as mesmas coisas, limita-se a constatar e não chegar ainda à fé na ressurreição (cf. Jo 20,3-10).  

    Também quando Jesus aparece junto ao mar de Tiberíades é mais uma vez o discípulo que Jesus amava que o reconhece, enquanto Pedro, só mais tarde o reconhece (cf. Jo 20,7).  A não identificação do nome do discípulo que Jesus amava no texto, pode ser um indicativo de que todos nós devemos estar no lugar deste discípulo. Acreditar que Cristo ressuscitou para estar conosco. 

    Cada domingo, com a recitação do Credo, nós também renovamos a nossa profissão de fé na ressurreição de Cristo, acontecimento surpreendente que constitui a chave de volta do cristianismo.  A ressurreição de Jesus é a verdade culminante da nossa fé em Cristo, acreditada e vivida como verdade central pela primeira comunidade cristã, transmitida como fundamental pela Tradição, estabelecida pelos documentos do Novo Testamento e pregada como parte essencial do mistério pascal (cf. CIgC 638).

    Na Igreja tudo se compreende a partir deste grande mistério, que mudou o curso da história e que se torna atual em cada celebração eucarística. Mas existe um tempo litúrgico no qual esta realidade central da fé cristã, na sua riqueza doutrinal e inexaurível vitalidade, é proposta aos fiéis de modo mais intenso, para que cada vez mais a redescubram e mais fielmente a vivam: é o tempo pascal. Um tempo em que a Igreja revive, em cada celebração, onde temos a alegria de vivenciar a ressurreição do Cristo Senhor.  Páscoa é a passagem de Jesus da morte para a vida, na qual se cumprem em plenitude as antigas profecias. 

    A morte do Senhor demonstra o amor imenso com que Ele nos amou até ao sacrifício por nós; mas só a sua ressurreição é “prova certa”, é certeza de que quanto Ele afirma é verdade que vale também para nós, para todos os tempos. E o Apóstolo São Paulo nos ensina na sua Carta aos Romanos: “Se confessares com a tua boca o Senhor Jesus e creres no teu coração que Deus O ressuscitou do entre os mortos, serás salvo” (Rm 10, 9).

    O enfraquecimento da fé na ressurreição de Jesus consequentemente torna-se frágil o testemunho dos crentes. De fato, se faltar na Igreja a fé na ressurreição, tudo desmorona. Ao contrário, a adesão do coração e da mente a Cristo morto e ressuscitado muda a vida e ilumina toda a existência das pessoas. Certamente é a fé na ressurreição que sustentou e deu coragem aos primeiros discípulos e também aos mártires ao longo da história. É o encontro com Jesus ressuscitado que motivou muitos homens e mulheres, que desde o início do cristianismo continuam a deixar tudo para O seguir e colocar a própria vida ao serviço do Evangelho. 

    Esta verdade marcou também de forma tão profunda na vida dos apóstolos que, após a ressurreição, sentiram novamente a necessidade de continuar propagando os ensinamentos do Mestre e, ao receberem o Espírito Santo, saíram pelo mundo inteiro, para anunciar a todos o que tinham visto com os próprios olhos e experimentaram pessoalmente.  O mesmo pode-se dizer de São Paulo, cuja fé na ressurreição de Cristo o levou a dizer: “Se Cristo não ressuscitou é vã a nossa pregação e vã a nossa fé” (1Cor 15,14).

    Podemos dizer ainda que a ressurreição de Cristo, e o próprio Cristo Ressuscitado, é princípio e fonte da nossa ressurreição futura: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram… Do mesmo modo que em Adão todos morreram, assim também em Cristo serão todos restituídos à vida” (1Cor 15,20-22).  Cristo verdadeiramente ressuscitou! Não podemos reter somente para nós a vida e a alegria que Ele nos deu na sua Páscoa, mas devemos doá-la a quantos nos são próximos. É o nosso objetivo e a nossa missão continuar anunciando, assim como fez Maria Madalena, que Cristo Ressuscitou e caminha conosco ao logo da vida.

    Na expectativa de que isto se realize, peçamos a intercessão da Virgem Maria, para que possamos progredir sempre mais na fé, agora iluminada pela Ressurreição do Senhor, para que possamos ser para todos os que encontrarmos pelo nosso caminho, mensageiros da verdadeira luz e da alegria da Páscoa.  Assim seja.

 

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ