I DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA – A – A tentação no deserto

Caros irmãos e irmãs

    Na última quarta-feira, com o rito da imposição das cinzas iniciamos o itinerário penitencial da quaresma. As cinzas nos lembram a fragilidade de cada homem e, ao mesmo tempo, nos orientam a olhar para o Cristo que, com a sua morte e ressurreição, resgatou o homem da escravidão do pecado e do erro. A quaresma é um caminho de quarenta dias que nos levará ao Tríduo Pascal, onde celebraremos a memória da paixão, morte e ressurreição do Senhor. 

    Com efeito, quarenta é o número simbólico com que o Antigo e o Novo Testamento representam momentos significativos da experiência de fé do Povo de Deus. Trata-se de um número que exprime o tempo da expectativa, da purificação, do regresso ao Senhor e da consciência de que Deus é fiel às suas promessas. Este número não representa um tempo cronológico exato, cadenciado pela soma dos dias; mas, indica uma perseverança paciente, uma prova longa, um período suficiente para ver as obras de Deus. É o tempo das decisões maduras e sábias.

    O número quarenta aparece antes de tudo na história de Noé que, devido ao dilúvio, permanece quarenta dias e quarenta noites na arca, juntamente com a sua família e com os animais que Deus lhe tinha dito que levasse consigo. E espera outros quarenta dias, depois do dilúvio, antes de tocar na terra firme (cf. Gn 7,4.12; 8,6). Também por quarenta dias e por quarenta noites, em jejum, Moisés permanece no Monte Sinai, na presença do Senhor para receber a Lei (cf. Ex 24,18).  E ainda quarenta são os anos de viagem do povo judeu da terra do Egito para a Terra prometida, tempo propício para experimentar a fidelidade de Deus. O profeta Elias emprega quarenta dias para chegar ao Horeb, o monte onde se encontra com Deus (cf. 1Rs 19,8). Quarenta são os dias durante os quais os cidadãos de Nínive fazem penitência para obter o perdão de Deus (cf. Gn 3,4). Quarenta são também os anos dos reinos de Saul (cf. At 13,21), de Davi (cf. 2Sm 5,4-5) e de Salomão (cf. 1Rs 11,41), os três primeiros reis de Israel. O livro dos Atos dos Apóstolos nos diz que Jesus, depois da sua ressurreição, durante 40 dias, apareceu aos discípulos (cf. At 1,3). E antes de começar a vida pública, Jesus retira-se no deserto por quarenta dias, sem comer nem beber (cf. Mt 4,2), alimenta-se da Palavra de Deus, que utiliza como arma para derrotar o diabo. As tentações de Jesus evocam as que o povo judeu enfrentou no deserto, mas que não soube vencer. 

    Com este recorrente número quarenta é descrito um contexto espiritual que permanece atual e válido, e a Igreja, precisamente mediante os dias do período quaresmal, tenciona conservar o seu valor perdurável e fazer com que a sua eficácia esteja presente. A liturgia cristã desse tempo quaresmal tem a finalidade de favorecer um caminho de renovação espiritual, à luz desta longa experiência bíblica e, sobretudo, para aprender a imitar Jesus, que nos quarenta dias transcorridos no deserto, ensinou a vencer a tentação tendo como base a Palavra de Deus.

    Nós também somos chamados a enfrentar o mal e a lutar contra os seus efeitos. A este propósito ressoa para nós o exemplo do próprio Cristo que a Liturgia da Palavra nos convida a meditar neste primeiro domingo da quaresma, ao nos propor a página evangélica que nos fala das tentações de Jesus no deserto (cf. Mt 4,1-11).  Com este relato bíblico temos o exemplo que Jesus deixa para nós, na tentativa de vencer o mal, o maligno. A cena das tentações antecede a vida pública de Jesus, segue-se imediatamente ao seu batismo (cf. Mt 3,13-17). Com isto, podemos observar que após receber o batismo e o Espírito Santo, será possível afrontar e vencer a tentação e o mal. 

    O texto nos diz que as tentações ocorreram no deserto: “O Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo.” (Mt 4,1). O deserto, de acordo com o imaginário judaico, é o lugar onde os israelitas experimentaram, por diversas vezes, a tentação do abandono do Senhor; embora seja, também, o lugar do encontro com Deus e o lugar onde o povo fez a experiência da sua fragilidade e pequenez e aprendeu a confiar na bondade e no amor de Deus. O deserto é ainda o lugar do silêncio, da pobreza, da solidão, onde o homem permanece desprovido de uma ajuda material, sendo ameaçado pela morte, pois onde não há água também não há vida, e onde o homem sente mais intensa a tentação. Jesus vai ao deserto, e ali padece a tentação de deixar o caminho indicado pelo Pai para seguir em uma outra direção, mais cômoda e de poder.

    A perícope evangélica apresentada por São Mateus ressalta as opções de Jesus em três momentos. Inicialmente, o tentador sugere a Jesus que transforme as pedras em pão (v.3). O pão é um alimento essencial à vida, no entanto, Jesus responde: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (v. 4). A resposta de Jesus está em conformidade com Dt 8,3 e sugere que o seu alimento, isto é, a sua prioridade é o cumprimento da vontade do Pai. 

    A segunda tentação apresentada pelo evangelho nos fala da soberba da vida (v.5-7), e o tentador usa uma passagem bíblica (cf. Sl 91,11s), mas novamente o Senhor Jesus respondeu com uma outra passagem da Sagrada Escritura (cf. Dt 6,16), afirmando que seria errado abusar de seus próprios poderes: “Não tentarás o Senhor teu Deus!” (v. 7).

    Na terceira tentação Satanás diz a Jesus: “Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar” (Mt 4,9). É a forma mais radical da tentação. Todo pecado tem algo disso em si: querer possuir uma felicidade, que não se responsabilize nem diante dos outros, nem diante de Deus.  Jesus nos mostra o único caminho: “Vai-te, Satanás… Adorarás somente ao Senhor teu Deus!” (Mt 4,10).

    Ao longo da sua vida, diante das diversas provocações que os adversários lhe lançam, Jesus vai confirmar esta sua total fidelidade à vontade de Deus. E neste tempo quaresmal a Igreja nos indica os meios adequados para o combate quotidiano das sugestões do mal, são eles: a oração, os sacramentos, a penitência, a escuta atenta da Palavra de Deus, a vigilância e o jejum.  Também este é um ensinamento fundamental para nós: se trouxermos na mente e no coração a Palavra de Deus, poderemos rejeitar qualquer gênero de engano do tentador. 

    E a quaresma é um tempo em que devemos ouvir com mais atenção a voz de Deus, para vencer as tentações do maligno e encontrar a verdade do nosso ser. Um tempo para estarmos mais próximos de Deus, usando as armas da fé. Ao longo desta quaresma, por várias vezes seremos exortados à conversão, que significa seguir Jesus de modo que o seu Evangelho seja um guia de vida. Deixar que Deus nos transforme significa reconhecer que somos criaturas que quotidianamente dependemos de Deus e do seu amor.  Por isto, devemos renovar o nosso compromisso de direcionar os nossos passos no caminho de uma conversão concreta e decisiva. E, para isto, invoquemos a assistência maternal de Nossa Senhora, para que, neste caminho quaresmal, possamos obter copiosos frutos de conversão. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ