QUARTA-FEIRA DE CINZAS – A esmola, a oração e o jejum

Caros irmãos e irmãs,

    Com a Quarta-feira de Cinzas, começamos um novo caminho quaresmal, um caminho que se estende por quarenta dias e nos conduz à alegria da Páscoa do Senhor, à vitória da Vida sobre a morte.

    A Igreja começa a Quaresma com as palavras do Profeta Joel: “Mas agora diz o Senhor, convertei-vos a mim de todo o coração com jejuns, com lágrimas, com gemidos” (Jl 2, 12).  A Igreja nos propõe em primeiro lugar este forte apelo que o profeta Joel dirige ao povo de Israel, e também a cada um de nós neste início da quaresma.

    A imposição das cinzas, que neste dia os fiéis recebem, é um gesto próprio e exclusivo do primeiro dia da quaresma. Trata-se de um gesto que nos faz compreender a atualidade da admoestação do profeta Joel, que ressoou na primeira Leitura, advertência que conserva também para nós a sua validez saudável: aos gestos exteriores devem corresponder sempre a sinceridade da alma e a coerência das obras.  Não teria valor rasgar as vestes, se o coração permanece distante do Senhor, isto é, do bem e da justiça.

    As cinzas benzidas, impostas sobre a nossa cabeça, são um sinal que nos recorda a nossa condição de criaturas, que nos convida à penitência e a intensificar o compromisso de conversão para seguir cada vez mais o Senhor. A Igreja benze hoje as cinzas, tiradas dos ramos benzidos no domingo de Ramos do ano passado. A cinza, como sinal de humildade, recorda ao cristão a sua origem e o seu fim: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra” (Gn 2,7). E no sinal das cinzas reconheçamos toda a verdade das palavras dirigidas por Deus ao primeiro homem: “Recorda-te que és pó e em pó te hás de retornar” (Gn 3,19).

    A Quaresma nos faz recordar a existência cristã é um combate incessante, no qual devem ser utilizadas as “armas” da oração, do jejum e da penitência, para lutarmos contra o pecado, morrer para si mesmos para viver em Deus é o itinerário ascético que cada discípulo de Jesus está chamado a percorrer com humildade e paciência e perseverança. O jejum e as outras práticas quaresmais são consideradas, pela tradição cristã, “armas” espirituais para combater o mal, as paixões negativas e os vícios.

    O que deve ser importante é o voltar para Deus, com o coração sinceramente arrependido, para obter a sua misericórdia (cf. Jl 2, 12-18). Um coração renovado e um espírito novo: é isto que pedimos com o Salmo penitencial por excelência, como repetimos no refrão: “Perdoai-nos, Senhor, porque pecamos”.

    Na Quaresma sentiremos ressoar com insistência o convite a converter-nos e a crer no Evangelho.  Que este convite possa nos encontrar abertos para acolher este apelo que a Igreja nos faz. Não fiquemos surdos ao apelo à conversão que nos é dirigido nomeadamente com o rito austero – tão simples e ao mesmo tempo tão sugestivo – da imposição das cinzas. Confiantes na misericórdia do Senhor, iniciemos o nosso itinerário quaresmal. 

    Que a Virgem Maria, fiel discípula do Senhor, nos ajude em nosso santo propósito a sermos cada vez mais bons e perfeitos filhos do Senhor. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ