XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – A messe é grande, mas os operários são poucos.

 

Lc 10,1-12.17-20

 

Caros irmãos e irmãs,

 

A Liturgia da Palavra deste domingo nos oferece algumas reflexões com uma temática missionária. O texto do Evangelho começa por nos apresentar o número dos discípulos enviados: setenta e dois (v. 1). Trata-se, evidentemente, de um número simbólico e certamente esse número se refere à totalidade das nações pagãs que habitavam a terra. Significa, portanto, que a proposta de Jesus é uma proposta universal, destinada a todos os povos, de todas as raças.

 

Em seguida, o Evangelista São Lucas assinala que os discípulos foram enviados dois a dois. Viajar aos pares era um costume dos judeus na época.  A própria Sagrada Escritura nos mostra isto na passagem em que nos narra o episódio dos dois discípulos de Emaús (cf. Lc 24,13ss). O envio desta forma podia ser uma medida prática para defesa e ajuda mútua contra bandidos ou outros perigos. Trata-se de assegurar que o seu testemunho tem valor jurídico (cf. Dt 17,6; 19,15); e de sugerir que o anúncio do Evangelho é uma tarefa comunitária; eles devem ser ajuda mútua e dar testemunho de amor fraterno.  A ação missionária não é feita por iniciativa pessoal e própria, mas em comunhão com os irmãos.

 

Jesus ainda quer assinalar que a tarefa dos discípulos não é pregar a sua própria mensagem, mas preparar o caminho de Jesus e dar testemunho dele.  Depois desta apresentação inicial, São Lucas passa a descrever a forma como a missão deve ser concretizada. Há, em primeiro lugar, um aviso acerca da dificuldade da missão: os discípulos são enviados “como cordeiros para o meio de lobos” (v. 3).  É uma referência a uma possível hostilidade do mundo e das pessoas perante a mensagem do Evangelho.

 

Muito evangelizadores experimentaram esta incompreensão ao longo de seu trabalho missionário. Na segunda leitura São Paulo nos diz: “Quanto a mim, Deus me livre de me gloriar, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo” (6, 14).  Como de fato, no seu ministério, São Paulo experimentou o sofrimento, a fraqueza e a derrota, mas também a alegria e a consolação. Mas foi precisamente o ter-se deixado configurar à morte de Jesus que fez São Paulo participar na sua ressurreição, na sua vitória.

 

A fecundidade pastoral, a fecundidade do anúncio do Evangelho não deriva do sucesso nem do insucesso vistos segundo critérios de avaliação humana, mas de conformar-se com a lógica da cruz de Jesus, que é a lógica de sair de si mesmo e dar-se, a lógica do amor. É a cruz que garante a fecundidade da nossa missão. E é da cruz, supremo ato de misericórdia e amor, que se renasce como “nova criação” (Gl 6,15). Como de fato, na segunda leitura (cf. Gl 6,14-18), o Apóstolo São Paulo certifica que a Cruz constituiu o centro da sua vida, deu-lhe a força para enfrentar as penitências ásperas e os momentos mais exigentes, desde a juventude até à última hora: ele estava sempre consciente de que a salvação provém dela.

 

No Evangelho também encontramos uma exigência de pobreza e simplicidade para esta missão: os discípulos não devem levar consigo nem bolsa, nem alforje, nem sandálias; não devem deter-se a saudar ninguém pelo caminho (v. 4); também não devem saltar de casa em casa (v. 7). Essas indicações de não levar nada para o caminho sugerem que a força do Evangelho não reside nos meios materiais, mas na força da Palavra.  A indicação de não saudar ninguém pelo caminho indica a urgência da missão, que não permite deter-se nas demoradas saudações típicas da cortesia oriental, podiam impedir o motivo urgente do anúncio do reino; a indicação de que não devem saltar de casa em casa sugere que a preocupação fundamental dos discípulos deve ser a dedicação total à missão e não deter em uma hospitalidade mais confortável.

 

O anúncio fundamental a ser apresentado pelos discípulos deve ser o de paz. Eles devem começar por anunciar “a paz” (v. 5-6). Não se trata da saudação normal entre os judeus, mas do anúncio dessa paz messiânica que antecede ao Reino. É a paz como um dom divino que é reconciliação e bênção. É o anúncio desse mundo novo de fraternidade, de harmonia com Deus e com os outros, de bem-estar, de felicidade, o que é sugerido pela palavra hebraica “shalom”. Além de serem arautos de Jesus, os discípulos são como reservatórios dessa paz.  Portanto, se não houver na casa alguém digno dessa paz ela retornará ao enviado que a desejou. Esse anúncio deve ser complementado por gestos concretos, que mostrem a presença do Reino no meio dos homens (v. 9). Ao chegarem em uma casa devem dizer: “A paz esteja neste casa!” (v. 5). Não o dizem somente com a boca, mas irradiam aquilo de que estão repletos; pregam a paz e possuem a paz. 

 

Além da paz que já traduz o conteúdo do anúncio (v.5), Jesus explicita melhor a relação gesto e palavra ao afirmar: “Curai os doentes que nela houver e dizei ao povo: o Reino de Deus está próximo de vós” (v.9). Tal relação se evidencia no retorno da missão: “Eis que vos dei o poder de pisar serpentes, escorpiões e todo o poder do inimigo” (v.19).  Serpentes e escorpiões são conhecidos por serem portadores de um mortífero veneno, mas no Antigo Testamento eram considerados como símbolo de todo gênero de males. Lembremos as serpentes do deserto que eram vencidas com a serpente de bronze fundida por ordem de Moisés. Já no livro do Gênesis a serpente é tida como a causadora de todo o mal na terra (Gn 3,1-14) e o escorpião é símbolo do castigo divino (cf. 1Rs 12,11.14). No final do Evangelho de São Marcos temos que os discípulos “pegarão em serpentes e nada sofrerão” (Mc 16,18) é uma referência, embora tímida, deste poder que Jesus entrega a seus discípulos: um poder sobre toda força maligna, como é o inimigo, entendido como Satanás.

 

Finalmente, o retorno dos discípulos confirma a eficácia do poder de Jesus que se operou neles: “Senhor, até os demônios se nos submetem em teu nome!” (v.17). Confirma também a eficiência do conteúdo da mensagem salvífica do Evangelho, na sua relação gesto e palavra, e dá validade aos meios empregados. Assim Jesus esclarece que o Reino é sinal da vitória espiritual sobre Satanás (v.18) e a vitória material sobre os males e limitações sofridas pelo homem.  São Lucas faz ressaltar o entusiasmo dos discípulos pelos bons frutos da missão, e traz esta expressão de Jesus: “Não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos, antes, por estarem os vossos nomes escritos nos céus” (Lc 10,20).

 

Este texto do Evangelho deve despertar em todos os batizados a consciência de que também são missionários de Cristo, chamados a preparar-lhe o caminho mediante as palavras e o testemunho da vida. Mas também nós somos chamados a pedir ao dono da messe que envie mais operários para a sua messe. A missão de anunciar o Evangelho não está reservada apenas ao grupo dos doze ou dos setenta e dois, mas é confiada a todos os discípulos, para irem até aos confins da terra levando a Boa Nova da salvação. É toda a Igreja que é constituída missionária. E se os operários são poucos, é talvez porque os batizados não estão ainda suficientemente conscientes da sua missão.

 

Todos nós devemos ser transmissores do bom odor de Cristo e estar sempre em uma união com cada vez mais intensa com ele pela oração.  Peçamos também a intercessão da Virgem Maria, para que ela nos proteja sempre para que possamos desenvolver este nosso compromisso de evangelizadores, gerando bons frutos na vinha do Senhor.  Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ