SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO

 

Mt 16,13-19

 

Caros irmãos e irmãs,

 

Celebramos neste domingo a solenidade dos santos Pedro e Paulo, que, por graça do Espírito Santo, tornaram-se as pedras fundamentais do cristianismo.  Esta solenidade nos faz recordar o martírio destes dois apóstolos, que foram mortos por ocasião da perseguição de Nero, por volta do ano 64.  

 

Pedro, que tinha o nome de Simão, foi um dos primeiros apóstolos a deixar as suas redes de pescador para seguir o Cristo e tornar-se pescador de homens (cf. Lc 5,1-11). E junto do apóstolo Pedro está São Paulo, que passou de perseguidor a perseguido por aceitar a missão para a qual Jesus o convidou. Missão que ele cumpriu com dedicação e especial criatividade: levar seus ensinamentos a todos os pagãos e também ao povo de Israel.

 

A referência a estes dois santos atravessa toda a liturgia da palavra deste domingo. A primeira e a segunda leituras falam, respectivamente, dos Santos Pedro e Paulo ressaltando precisamente a ação de Deus em relação a eles. Sobretudo o texto dos Atos dos Apóstolos descreve com abundância de pormenores a intervenção do anjo do Senhor, que liberta Pedro das correntes e o conduz para fora da prisão de Jerusalém, onde o rei Herodes o tinha feito encarcerar (cf. At 12,1-11). Paulo, por sua vez, escrevendo a Timóteo quando já sentia próximo o fim da sua vida terrena, faz um balanço do qual sobressai que o Senhor lhe tinha estado sempre próximo, o libertou de tantos perigos e ainda o libertará introduzindo-o no seu Reino eterno (cf. 2Tm 4, 6-8.17-18).

 

O tema é reforçado pelo Salmo responsorial (cf. Sl 33), e encontra um particular desenvolvimento também no trecho evangélico da confissão de Pedro, onde ele, antes de qualquer outro, reconhece Jesus como o Messias, e, com base nas suas palavras: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16), foi ele escolhido para ser a pedra fundamental da Igreja: “Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja” (16, 18). Com isto, é conferida a Pedro uma tarefa particular que ele deve desempenhar mediante as imagens da rocha que se torna a pedra de fundamento e do poder das chaves.

 

A promessa feita por Jesus a Pedro ocorre perto das fontes do Rio Jordão, em um momento que marca uma mudança decisiva no caminho de Jesus: agora o Senhor direciona os seus passos para Jerusalém e, pela primeira vez, diz aos discípulos que este caminho para a Cidade Santa é o caminho da cruz.  Contudo, sabendo que a sua morte estava próxima, Jesus institui a Eucaristia, e logo após a instituição deste sacramento, instrui os seus discípulos acerca do ministério que eles devem exercer e que deve ter como base o serviço, a exemplo do próprio Cristo que se encontra no meio deles como aquele que serve (cf. Lc 22,27ss).  Neste momento Jesus dirige a Pedro estas palavras: “Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos (Lc 22,31s).

 

O texto parece ressaltar que Satanás pediu para poder examinar os discípulos como o grão. Isto recorda um trecho do livro de Jó, no qual Satanás pede a Deus a permissão para provar Jó, exemplo do homem fiel a Deus (cf. Jó 1,6,22). O diabo quer colocar Deus à prova, que parecer permitir que o diabo exerça o seu domínio, aproveitando a fragilidade do homem. 

 

No caso de Jó, Deus concede a Satanás a liberdade exigida, precisamente para poder com ela defender a sua criatura, o homem e a si mesmo. Acontece assim também com os discípulos de Jesus, onde  Deus dá uma certa liberdade ao diabo. De fato Jesus fala a Pedro: “Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça” (Lc 22,32). A oração de Jesus é o limite colocado ao poder do maligno. A oração de Jesus é a proteção da Igreja.

 

Jesus reza de modo especial por Pedro, visando a estabilidade da sua fé. Esta oração de Jesus guarda e protege a fé de Pedro, a mesma que ele confessou em Cesareia de Filipe: “Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16, 16), conforme sublinha o evangelho deste domingo.  Mas Pedro já havia dito antes a Jesus: “Retira-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador” (Lc 5,8); mostrando a Jesus a sua fragilidade enquanto ser humano. Por isto, Jesus sabe que a fé de Pedro precisa ser fortalecida sempre de novo, precisamente também perante a cruz e todas as contradições do mundo. Jesus não reza só pela fé pessoal de Pedro, mas pela sua fé como serviço aos outros. É precisamente isto que ele pretende dizer com as palavras: “E tu, uma vez convertido, fortaleça os teus irmãos” (Lc 22,32).

 

Estas palavras profetizam a debilidade de Simão que, perante uma criada, negará que conhece Jesus:  “E tu, uma vez convertido” o Senhor, que lhe prediz a queda, também lhe promete a conversão. E o evangelista São Lucas busca um pormenor que vale a pena recordar. A terceira negação de Pedro, coincide com o momento em que Cristo passa carregando a cruz e neste momento, “voltando-se, o Senhor fixou os olhos em Pedro…” (Lc 22,61).  E neste instante, após experimentar o olhar de amor de Jesus, ele sai e chora amargamente (cf. Lc 22,62).

 

E depois, após a sua ressurreição, o Senhor vai confiar a Pedro a tarefa de apascentar os irmãos, tendo como base o amor. Jesus o interroga por três vezes: “Pedro, tu me amas?”; ao que ele, também por três vezes responde: “Eu te amo”, e Jesus, de imediato responde: “Apascenta as minhas ovelhas” (cf. Jo 21,15-19).  Mas este ofício confiado a Pedro, ancorado no amor, está também sedimentado na oração de Jesus: “Eu rezei por ti…” (Lc 22,32). É isto que lhe dá a segurança da sua perseverança através de todas as misérias humanas. E o Senhor lhe confia esta missão no contexto da Ceia, simultaneamente ao dom da Eucaristia. A Igreja, fundada na instituição da Eucaristia, no seu íntimo é comunidade eucarística e desta forma comunhão com o Corpo do Senhor.  Mas mesmo neste contexto, Jesus prediz a Pedro que o seu caminho irá também em direção à cruz. 

 

A promessa feita por Cristo de que o poder do inferno não prevalecerá sobre a sua Igreja, se justifica, pois foi ela edificada tendo como base o amor e a sua própria presença: “Eu estarei convosco todos os dias, até o final dos tempos” (Mt 28,20).  Estas palavras podem ter também um significativo valor ecumênico, dado que um dos efeitos típicos da ação do maligno é precisamente a divisão. De fato, as divisões são sintomas da força do pecado, que pode continuar agir. Mas a palavra de Cristo é clara: “Não prevalecerão” (Mt 16,18), pois a unidade da Igreja está radicada na sua união com Cristo (cf. BENTO PP XVI, Homilia na missa de 29 de junho de 2006).

 

Celebrar os Apóstolos Pedro e Paulo constitui um testemunho de fé na Igreja “una, santa, católica, apostólica”. Pedro é, efetivamente, a pedra que se apoia diretamente sobre a pedra angular que é Cristo. Pedro e Paulo representam duas vocações na Igreja, duas dimensões do apostolado, diferentes, mas complementares. A complementaridade dos dois “carismas” continua atual: a responsabilidade institucional e a criatividade missionária.

 

Possamos nós também imitar o exemplo destes dois grandes evangelizadores. Que o Senhor nos faça ter uma fé firme, como a de Pedro, e rica de impulso apostólico como a de Paulo, para sermos sal e luz em nossa sociedade, aceitando a mensagem de amor pela qual Pedro e Paulo sofreram o martírio. Também nos ajude a Virgem Maria, para que o nosso encontro com a Palavra do Senhor possa transformar completamente a nossa vida, para que estejamos dispostos a seguir com determinação o Mestre que deu a sua própria vida por cada um de nós. Assim seja. 

 

  1. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ.