SOLENIDADE DE CORPUS CHRISTI

 

Lc 9,11-17

 

Caros irmãos e irmãs,

 

Na quinta-feira depois da Solenidade da Santíssima Trindade a Igreja celebra o dia de “Corpus Christi”, quando veneramos a Eucaristia: Sacramento do Corpo e do Sangue do Senhor.

 

Esta celebração, nascida no século XIII, é um festivo desdobramento da Quinta-feira Santa, quando na Última Ceia, na véspera de sua Paixão, Jesus instituiu o sacramento da Eucaristia, tomou o pão, abençoou-o e o partiu e o deu a seus discípulos, dizendo:  “Tomai e comei, isto é o meu corpo. Fazei isto em memória de mim. Da mesma forma, tomou o vinho e, dando graças, o distribuiu, dizendo: Tomai e bebei, este é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de vós. Toda vez que dele beberdes, fazei-o em memória de mim” (Mt 26,26ss; 1Cor 10,23-27).  Disse ainda: “Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna” (Jo 6,54).

 

Na Eucaristia, o Corpo de Cristo torna-se verdadeiramente o alimento; e o sangue, a bebida para a vida eterna, para a ressurreição. De fato, aquele que come este Corpo eucarístico do Senhor e bebe na Eucaristia o Sangue por Ele derramado para a redenção do mundo, chega àquela comunhão com Cristo, da qual o Senhor mesmo disse: “Permanece em Mim e Eu nele” (Jo 15,4).  

 

Na celebração da Eucaristia, memorial da morte e ressurreição do seu Senhor, este acontecimento central de salvação torna-se realmente presente e realiza-se também a obra da nossa redenção. Verdadeiramente, pelo Sacramento da Eucaristia Jesus demonstra por cada um de nós um amor sem medida (cf. Jo 13, 1).

 

Na liturgia da Missa, nós exprimimos a nossa fé na presença real de Cristo sob as espécies do pão e do vinho, entre outras maneiras, ajoelhando ou inclinando profundamente em sinal de adoração do Senhor. E desde os tempos mais antigos a Igreja Católica prestou e continua a prestar este culto de adoração que é devido ao sacramento da Eucaristia, não só durante a missa, mas também fora da sua celebração: conservando com o maior cuidado as hóstias consagradas, apresentando-as aos fiéis para que solenemente as venerem, e levando-as em procissão (Cf. CIgC 1378), como acontece no dia de “Corpus Christi”.

 

O Evangelho deste dia traz o relato da multiplicação dos pães, quando o Senhor Jesus proferiu a bênção, partiu e distribuiu os pães pelos seus discípulos para alimentar a multidão, o que prefigura a superabundância deste pão único da sua Eucaristia (cf. Lc 9,11-17). Na multiplicação dos pães o evangelista São Lucas nos faz compreender melhor o dom e o mistério da Eucaristia.

 

Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, elevou os olhos ao céu, abençoou-os, partiu-os e deu-os aos Apóstolos, para que os distribuíssem ao povo. Todos, observa São Lucas, comeram e ficaram saciados e ainda se encheram dozes cestos de fragmentos que sobraram .  Trata-se de um prodígio surpreendente, que constitui como que o início de um longo processo histórico: o constante multiplicar-se na Igreja do pão da vida nova para os homens de toda a raça e cultura. Este ministério sacramental foi confiado aos Apóstolos e aos seus sucessores. E eles, fiéis à recomendação do divino Mestre, não cessam de partir e de distribuir o Pão eucarístico de geração em geração.

 

O povo de Deus recebe este pão da vida com devota participação e como remédio de imortalidade, pois dele nutriram-se inúmeros santos e mártires, de onde tiraram a força para resistir também a duras e prolongadas tribulações. Eles acreditaram nas palavras que um dia Jesus pronunciou em Cafarnaum: “Eu sou o pão vivo, descido do céu. Se alguém comer deste pão, viverá eternamente”.

 

Assim como os discípulos, que escutaram admirados o seu discurso em Cafarnaum, também nós percebemos que esta linguagem não é fácil de ser entendida . Poderíamos às vezes ser tentados a dar-lhe uma interpretação relativa. Mas isto nos levaria para longe de Cristo, como aconteceu para aqueles discípulos que a partir de então já não andavam com ele .

 

Na celebração da Eucaristia, torna-se presente a Pessoa de Cristo, o Verbo encarnado, que foi crucificado, morreu e ressuscitou pela salvação do mundo, com uma presença misteriosa, sobrenatural e única. Encontramos o fundamento desta doutrina na própria instituição da Eucaristia, quando Jesus identificou os dons que oferecia, com o seu Corpo e com o seu Sangue: “Isto é o meu Corpo… este é o cálice do meu Sangue…” , ou seja, com a sua corporeidade inseparavelmente unida ao Verbo e, portanto, com a sua Pessoa total.

 

Jesus Cristo está certamente presente, de múltiplas maneiras, na sua Igreja: na sua Palavra, na oração dos fiéis , nos pobres, doentes e prisioneiros (cf. Mt 25,31-46), nos sacramentos e especialmente na pessoa do ministro sacerdote. Mas, sobretudo, está presente sob as espécies eucarísticas.

 

Nós celebramos, portanto, a solenidade do Corpo e do Sangue de Cristo, na quinta-feira depois da Santíssima Trindade, para colocar em evidência precisamente aquela Vida que nos dá a Eucaristia.  E a Igreja, desde seus primeiros dias, celebra sempre esse mistério, com o nome de fração do pão, mais tarde Missa e Eucaristia, que deve ocupar um lugar central na vida da comunidade (cân. 528 § 2). E deve ser “fonte e ápice de toda a vida cristã” (LG 11).

 

Neste dia, em muitas cidades, as ruas se tornam caminho de Deus, pela passagem de Cristo presente na hóstia sagrada.   Nesta quinta-feira, somos chamados a caminhar com o Senhor, a seguir o Cristo pelas ruas de nossa cidade. Segui-lo quer dizer sair de nós mesmos e fazer da nossa vida uma perfeita oferenda a Ele e também ao nosso irmão. A sua passagem em frente das casas e pelas ruas da nossa cidade será para quantos nela habitam uma oferenda de alegria, de vida imortal, de paz e de amor. É o Cristo que passa pelo quotidiano da nossa vida.  Ele caminha onde nós caminhamos, para viver onde nós vivemos. E, com Ele, possamos nós caminhar pelas estradas do mundo.

 

Neste dia de “Corpus Christi” Deus se faz próximo de nós; humilha-se no sacrifício da Cruz, entrando na obscuridade da morte para nos dar a sua vida, que vence o mal, o egoísmo e a morte. Jesus entrega-se a nós também na Eucaristia, compartilha o nosso próprio caminho e se faz alimento, o alimento autêntico que sustém a nossa vida inclusive nos momentos em que a vereda se torna árdua, quando os obstáculos diminuem os nossos passos.

 

Peçamos em oração que a nossa participação na Eucaristia nos estimule sempre a seguir o Senhor a cada dia, a sermos instrumentos de comunhão com Ele e também com o nosso próximo.  Assim Seja.

 

  1. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento /RJ.