I DOMINGO DA QUARESMA – C

As tentações no deserto

Lc 4,1-13

Caros irmãos e irmãs,

Na última quarta-feira, com o rito da imposição das cinzas, entramos no clima penitencial da Quaresma, um tempo litúrgico que nos recorda os quarenta dias transcorridos por Jesus no deserto e constitui para todos os batizados um forte convite à conversão. Trata-se de um itinerário de quarenta dias que nos conduzirá ao Tríduo Pascal, memória da paixão, morte e ressurreição do Senhor, o coração do mistério da nossa salvação.

Quarenta é um numero simbólico com o qual o Antigo e o Novo Testamento representam os momentos fortes da experiência de fé do Povo de Israel. É um número que exprime o tempo de espera, da purificação, do retorno ao Senhor, da consciência que Deus é fiel às suas promessas. Este número não representa um tempo cronológico exato, uma soma de dias. Indica mais que isso, uma paciente perseverança, uma longa prova, um período suficiente para ver as obras de Deus, um tempo no qual é necessário decidir-se e a assumir as próprias responsabilidades (cf. BENTO XVI, Audiência Geral, 22 de fevereiro de 2012).

O número quarenta é particularmente significativo no mundo bíblico. Noé, um homem justo, por causa do dilúvio permanece por quarenta dias e quarenta noites na arca, junto à sua família e os animais, em conformidade com a vontade de Deus. Ele também espera outros quarenta dias, depois do dilúvio, antes de tocar na terra firme, que foi salva da destruição (cf. Gn 7,4.12;8,6). O povo hebreu viveu quarenta anos de vida nômade no deserto cf. Ex 15,22-18,27). Moisés passou quarenta dias na presença de Deus no Monte Sinai para acolher a Lei (cf. Ex 24,18). Também o profeta Elias leva quarenta dias para atingir o Oreb, o monte onde encontra Deus (cf. 1Rs 19,8). Quarenta são os dias durante os quais os cidadãos de Nínive fazem penitência para obterem o perdão de Deus (cf. Jn 3,4). O Salmo 94 também nos lembra:  “Não vos torneis endurecidos como em Meriba, como no dia de Massa no deserto, onde vossos pais me provocaram e me tentaram, apesar de terem visto as minhas obras. Durante quarenta anos desgostou-me aquela geração, e eu disse: É um povo de coração desviado, que não conhece os meus desígnios. Por isso, jurei na minha cólera: Não hão de entrar no lugar do meu repouso” (Sl 94,8-11).

Lançando um olhar para o Novo Testamento, constamos que Jesus, antes de iniciar a vida pública, se retira no deserto por quarenta dias, sem comer, nem beber (cf. Mt 4,2), se nutre da Palavra de Deus, que usa como arma para vencer o diabo. As tentações de Jesus fazem referência àquelas que o povo hebraico enfrentou no deserto, mas que não souberam vencer. Quarenta são os dias durante os quais Jesus Ressuscitado instruiu os seus discípulos, antes de ascender ao Céu e enviar o Espírito Santo (cf. At 1,3).

Neste primeiro domingo do tempo quaresmal, a Liturgia da Palavra nos apresenta Cristo, conduzido pelo Espírito Santo ao deserto, onde é tentado pelo demônio, após receber o batismo junto do Rio Jordão. O deserto, local para onde Jesus se retira, é o lugar do silêncio, da pobreza, onde o homem permanece desprovido do auxílio material. Mas é também o lugar da morte, pois onde não há água também não há vida, é o lugar da solidão, onde o homem pode sentir, de forma mais intensa, o drama da tentação. Jesus vai ao deserto, onde é tentado por satanás a fazê-lo deixar o caminho indicado pelo Pai para seguir outras trilhas, mais fáceis e mundanas.  O relato evangélico é constituído em torno de um diálogo em que tanto o diabo como Jesus citam passagens da Sagrada Escritura como base para certificar as suas afirmações. Jesus não usou milagres nem força sobrenatural para resistir à tentação do maligno. Ele simplesmente usou a Palavra de Deus para vencer as tentações.

No texto evangélico encontramos três tentações às quais Satanás submete Jesus. A primeira tem origem na fome, ou seja, na necessidade material: “Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão” (v. 3). Mas Jesus responde: “Não só de pão vive o homem” (v. 4; cf. Dt 8,3).  Esta tentação sugere que Jesus poderia ter optado por um caminho de facilidade e de riqueza, utilizando a sua divindade para resolver qualquer necessidade material.

Jesus sabe que o caminho para Deus não passa pela acumulação egoísta de bens e frisa que o seu alimento, ou seja, a sua prioridade, é a Palavra de Deus. Esta tentação nos faz lembrar também do momento em que Cristo estava na cruz. Naquela hora ele também foi convidado a realiza um milagre em proveito próprio, sendo desafiado a descer da cruz: “Se és Filho de Deus, desce da cruz” (Mt 27,40). Caso Jesus tivesse descido da cruz, seria um vitorioso diante dos homens, mas não diante de Deus.

Depois, na segunda tentação, o diabo mostra a Jesus todos os reinos da terra e diz: “Eu te darei todo este poder e toda a sua glória, porque tudo isso foi entregue a mim e posso dá-lo a quem eu quiser. Portanto, se te prostrares diante de mim em adoração, tudo isso será teu” (v. 6-7). E Jesus responde: “A Escritura diz: ‘Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás’” (v.8; cf. Dt 6, 13).  Trata-se da adoração do poder, que Jesus recusou seguir.

Por fim, na terceira e última tentação, o diabo propõe a Jesus que realize um outro milagre: Lançar-se dos altos muros do Templo e fazer-se salvar pelos anjos, de modo que todos acreditassem nele. Mas Jesus responde que Deus nunca deve ser posto à prova. Jesus responde a esta proposta citando Dt 6,16, que manda “não tentar” o Senhor Deus (v. 12).  Ao contrário do que aconteceu com Adão e Eva no paraíso terrestre (cf. Gn 3), e de modo diferente do povo de Deus no deserto (cf. Ex 16-17; Dt 8), Jesus resiste à tentação e triunfa sobre o maligno.

No núcleo dessas três tentações que Jesus sofre está a proposta de instrumentalizar Deus, de usá-lo para os próprios interesses, glória e sucesso. E, portanto, de se colocar no lugar de Deus, removendo-o da sua existência e fazendo-o parecer supérfluo. O texto bíblico nos mostra que entre Jesus e o diabo há a Palavra de Deus.  E fazendo referência à Sagrada Escritura, Jesus antepõe aos critérios humanos o único critério autêntico: a obediência, a conformidade com a vontade de Deus, que é o fundamento do nosso ser. Também este é um ensinamento fundamental para nós: se trouxermos na mente e no coração a Palavra de Deus, poderemos rejeitar qualquer gênero de engano do tentador.

Na história, houve multidões de homens e mulheres que escolheram imitar o Cristo que se retira ao deserto, como os monges e eremitas. Eles escolheram um espaço no deserto; nós devemos escolher ao menos um tempo de deserto. Passar um tempo de deserto significa fazer um pouco de vazio e de silêncio ao nosso redor; reencontrar o caminho do nosso coração, subtrair-nos das agitações e dos chamados externos, a fim de entrar em contato com as fontes mais profundas de nosso ser e de nosso crer.

Quaresma é tempo de renovação espiritual, de conversão interior e de renovação da vida. É um tempo propício para revermos a nossa vida e redescobrirmos a fé em Deus. Isto comporta sempre uma luta, um combate espiritual, porque o espírito do mal naturalmente se opõe à nossa santificação e procura desviar-nos do caminho de Deus. Por esta razão, no primeiro domingo da quaresma, todos os anos é proclamado o Evangelho das tentações de Jesus no deserto.  Somos continuamente chamados a lutar contra a tentação do demônio usando as armas da fé, ou seja, a oração, a escuta da Palavra de Deus e a penitência, que deve nos acompanhar ao longo desse nosso itinerário quaresmal. Também o cristão, cuja existência é guiada pelo mesmo Espírito recebido no Batismo e na Confirmação, é chamado a enfrentar o quotidiano combate da fé, sustentado pela graça de Cristo.

Por conseguinte, não tenhamos receio de enfrentar, também nós, o combate contra o espírito do mal. Saibamos agir como o Cristo Senhor, soube vencer as tentações para estar unicamente a serviço do Pai. E para que também nós possamos seguir o seu exemplo, peçamos a intercessão da Virgem Maria, a quem invocamos com confiança filial, para que possamos, na hora da provação, afastarmos as tentações com a Palavra de Cristo, e deste modo voltarmos a colocar Deus no centro da nossa vida. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ