XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – A oração do Pai nosso

Lc 11,1-13

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo nos apresenta Jesus recolhido em oração. Ele tinha o costume de passar noites e noites em oração; horas e horas em intimidade com o Senhor. Em todos os momentos da vida Jesus estava rezando. Ele fazia da sua vida uma oração e da oração a sua vida. Este exemplo de Cristo despertou em um dos seus discípulos o desejo de aprender a rezar como ele, por isto, lhe disse: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11,1), e Jesus respondeu: “Quando orardes, dizei: Pai Nosso…”. E ensinou a eles a oração do Pai Nosso (cf. Lc 11, 2-4).

A Oração do Pai nosso é a mais bela de todas as orações, sendo rezada milhões de vezes por dia pelos cristãos, em toda a terra, às vezes até de maneira muito espontânea, em certos momentos de dor ou de alegria coletiva. É também o mais profundo itinerário daquilo que significa a oração, pois nos faz começar invocando Deus como nosso Pai. É a intimidade que deve existir entre filho e Pai; e entre Pai e filho. Deus é Pai de todos nós, por isto a oração está no plural, para indicar que toda oração deve ser para todos.

Uma das maiores graças que recebemos pelo sacramento do batismo, está no fato de podermos tratar Deus como Pai. Quando chamamos a Deus de “nosso Pai”, precisamos lembrar de que devemos ter um comportamento de filhos de Deus. Podemos invocar a Deus como “Pai” porque, pelo batismo, somos incorporados e adotados como filhos de Deus. Jesus nos ensina a chamar Deus de Pai e a recorrer a Ele como filhos. Em Deus vemos um Pai cheio de bondade e amor.

Na oração do Pai Nosso, pedimos inicialmente que o nome de Deus seja santificado e que seu reino venha até nós. Começamos pedindo aquilo que deve estar acima de tudo, dominando nossos afetos e aspirações. Pedimos que o nome de Deus seja conhecido, honrado e amado por todos. Desejamos que o nome de Deus seja conhecido como santo e seja glorificado. E pedimos que o nome de Deus seja santificado pelas nossas alegrias, nossos sofrimentos, nosso trabalho, nossas orações e por toda a nossa vida.

A oração tem início com um louvor a Deus. O objetivo da oração é elevar nosso pensamento para o alto, e de desprender-nos da materialidade das coisas do tempo, que muitas vezes podem nos impedir de rezar bem. Após esta inovação a Deus como Pai, seguem os pedidos. Os sete pedidos da Oração do Pai Nosso, normalmente são divididos em duas partes, na primeira parte pedimos pelo que é eterno e na segunda, pelo que é transitório.

O número sete na Sagrada Escritura significa a plenitude, plenitude de tudo aquilo que o homem precisa. Então, esta oração é fundamental para o cristão, pois contém aquilo que precisamos para nossa vida, para a experiência da nossa fé em Deus e os pedidos em nosso benefício: o pão de cada dia, o perdão dos nossos pecados, a libertação das tentações e de todo o mal.

Pedimos que Deus perdoe as nossas ofensas, porque também nós perdoamos uns aos outros. E o ideal do perdão nos é apresentado por Jesus: “Vai primeiro reconciliar-te com teu irmão” (Mt 5,24). E agora Jesus nos manda dizer que queremos ser perdoados, pois nós também perdoamos. A nossa sorte está em nossas mãos: como perdoamos, assim também nos será perdoado. A oração do Pai Nosso nos ensina a dizer: “Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Este “como” indica que o perdão que podemos receber de Deus está condicionado ao perdão que também nós devemos oferecer ao irmão que errou contra nós. O próprio Cristo também nos exorta: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros ‘como’ eu vos amei” (Lc 13,34). É a unidade do perdão mútuo que torna possível a reconciliação, tendo como exemplo o próprio Cristo, que na cruz perdoou os seus adversários (cf. Lc 26,34).

Assim adquirem vida as palavras do Senhor sobre o perdão, esse amor que ama até o extremo do amor. A oração cristã chega até o perdão dos inimigos. O perdão é um ponto alto da oração cristã; o dom da oração não pode ser recebido a não ser num coração em consonância com a compaixão divina. O perdão dá também testemunho de que, em nosso mundo, o amor é mais forte que o pecado. O perdão é a condição fundamental da reconciliação dos filhos de Deus com seu Pai e dos homens entre si (cf. CIgC 2844).

Na parte final da oração, pedimos ao Senhor: “Não nos deixeis cair em tentação”. É um pedido que atinge a raiz do nosso pecado, que é fruto do consentimento na tentação. Pedimos ao nosso Pai que não nos “deixe cair” nas ciladas do inimigo tentador. Nós pedimos que o Senhor não nos deixe enveredar pelos caminhos que conduzem ao pecado. Este pedido implora o Espírito de discernimento e de fortaleza, para que possamos vencer a tentação.

Este “não cair em tentação” envolve uma decisão do coração. É a luta contra o mal e neste combate só conseguimos a vitória através da oração. Foi pela força da oração que Jesus venceu o tentador no deserto, o que sequenciou até o último combate de sua agonia. Também somos chamados a seguir este exemplo de Cristo, para isto necessitamos estar sempre em vigilância. Esta vigilância consiste em “guardar o coração”, e Jesus pede ao Pai que “nos guarde em seu nome” (cf. CIgC, n. 2863).

Isto nos faz lembrar uma significativa oração pronunciada pelo sacerdote no decorrer da Santa Missa, logo após a oração do Pai Nosso: “Livrai-nos de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a vossa paz. Ajudados por vossa misericórdia, sejamos sempre livres do pecado e protegidos de todos os perigos, enquanto, vivendo a esperança, aguardamos a vinda do Cristo Salvador”. Com isto temos o último pedido: “Mas livrai-nos do mal”. O cristão pede a Deus, com a Igreja, que manifeste a vitória sobre tudo aquilo que nos impede de viver dignamente a nossa união com Ele.

Com isto, podemos observar que a oração do Pai Nosso acolhe e expressa também as necessidades humanas, materiais e espirituais. E precisamente por causa das necessidades e das dificuldades de cada dia, Jesus exorta com vigor: “Portanto, eu vos digo: pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto” (Lc 11,9-10). Não é um pedir para satisfazer as próprias vontades, mas para manter viva a amizade com Deus.

Para demonstrar a eficácia da oração perseverante é que Jesus nos apresenta também, no final do Evangelho, uma pequena parábola, para nos ensinar que uma oração bem feita sempre será ouvida. Nesta parábola Jesus nos fala em pedra e pão, peixe, serpente, ovo e escorpião. Quer Ele nos ensinar que, se o que pedimos é bom, é útil à nossa salvação, se pedimos com fé e perseverança, Deus nos concederá.

Com isto Jesus nos ensina duas importantes lições, que devem dominar nossas orações: a perseverança e a confiança. Tarde da noite, não é fácil atender ao amigo inoportuno. No entanto, o pedido perseverante e confiante consegue tudo. Jesus também quer nos ensinar que, mesmo depois de “fechada a porta”, a oração será atendida, pois sua eficácia é importante.

A oração do Pai Nosso é realmente um compêndio de todo o Evangelho. É a mais perfeita das orações. Nela, não só pedimos tudo quanto podemos desejar corretamente, mas ainda, segundo a ordem em que convém desejá-lo. De modo que esta oração não só nos ensina a pedir, mas ordena também todos os nossos afetos (cf. CIgC 2763).

Peçamos também nós ao Senhor com a mesma consciência do discípulo do Evangelho: “Mestre, ensina-nos a rezar”, para que, através da oração, possa ser cumprida a vontade de Deus em cada um de nós. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – MARTA E MARIA

Lc 10, 38-42

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho deste domingo traz um relato onde sobressaem as personagens femininas, que são duas irmãs, Marta e Maria, que vivem em Betânia com o irmão Lázaro, que, contudo, neste caso não parece. Jesus passa pela sua aldeia e, segundo o texto, Marta o hospeda. Este pormenor dá a entender que, das duas, Marta é a mais idosa, a que governa a casa. De fato, depois de Jesus ter entrado, Maria senta-se aos seus pés e ouve-o, enquanto Marta andava atarefada com muitos serviços, certamente devido à presença do ilustre hóspede.

Parece que vemos a cena: uma irmã que anda toda atarefada, e a outra atenta à presença do Mestre e das suas palavras. Um pouco depois Marta não resiste e protesta: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o serviço? Manda que ela me venha ajudar!”. Mas Jesus, com calma, responde: “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” (v. 42).

A cena é profundamente humana. Jesus é hóspede em casa desta família amiga. Marta se esforça para dar conta do serviço caseiro, enquanto Maria, sentada aos pés de Jesus, escuta a sua palavra. Podemos notar que ao responder a Marta, Jesus não condena sua atividade e seu zelo pelo serviço a sua pessoa, mas a adverte de um perigo: a inquietação da qual pode ser vítima. Ao dizer “Marta, Marta…”, exprime nesta repetição do nome um sinal do afeto de Jesus para com ela e um meio de torná-la mais atenta à lição que ele quer dar. Jesus a censura, por ela preocupar-se demais com as coisas materiais. Ele não condena o seu trabalho, mas procura mostrar que, acima das preocupações materiais, devem existir o cuidado e a solicitude para com o lado espiritual.

Jesus indica ainda que uma só coisa é importante e indispensável: o alimento espiritual da alma. Jesus quer a união do trabalho e da oração. Assim será a perfeição da vida: a oração, indispensável; o trabalho, necessário.

As atitudes das duas irmãs Marta e Maria são para nós ações complementares diante do Reino. Marta representa a atividade serviçal, o trabalho e a preocupação de cada dia, mas com o perigo que pode ter de nos roubar o tempo que necessitamos para escutar em silêncio a palavra de Deus. Em Marta e Maria estão representados os dois caminhos através dos quais se pode servir ao Senhor.

As atividades exteriores acabam com a morte. A união de nossa alma com Deus perdura para sempre. Maria se ocupa do único necessário: a própria salvação. Marta quer o mesmo fim, mas se ocupa demais com o trabalho material.

Também na nossa vida cristã a oração e a ação permaneçam sempre profundamente unidas. Uma oração que não leva à ação concreta a favor do irmão pobre, doente e necessitado de ajuda, o irmão em dificuldade, é uma prece incompleta. Mas do mesmo modo, quando no serviço eclesial só prestamos atenção à ação, quando damos mais importância às coisas, às funções e às estruturas, esquecendo-nos da centralidade de Cristo, sem reservar tempo ao diálogo com Ele na oração, corremos o risco de nos servirmos a nós mesmos, e não a Deus presente no irmão necessitado.

São Bento resumia o estilo de vida que indicava aos seus monges com estas palavras: “Ora et labora”, ou seja, oração e trabalho. É da contemplação de uma forte relação de amizade com o Senhor que nasce em nós a capacidade de viver e de anunciar o amor de Deus, a sua misericórdia, a sua ternura pelo próximo. E inclusive o nosso trabalho com o irmão em necessidade, a nossa tarefa de caridade nas obras de misericórdia nos levam ao Senhor.

Muitos outros santos também experimentaram uma profunda unidade de vida entre oração e ação, entre o amor total a Deus e o amor aos irmãos. São Bernardo, que é um modelo de harmonia entre contemplação e laboriosidade, insiste precisamente na a importância do recolhimento interior e da oração para se defender dos perigos de uma atividade excessiva, independentemente da condição em que se encontra e da tarefa que está a cumprir. São Bernardo afirma que as ocupações excessivas, uma vida frenética, terminam muitas vezes por endurecer o coração e fazer sofrer o espírito (cf. BENTO XVI, Audiência geral de 25 de abril de 2012).

Não podemos perder-nos no ativismo puro, mas devemos deixar-nos penetrar sempre na nossa atividade pela luz da Palavra de Deus e assim aprender a caridade autêntica, o serviço verdadeiro ao outro, que necessita do nosso auxílio.

Nesta narração evangélica fica acentuado a vocação para o primado da vida espiritual, para a necessidade de nos alimentarmos com a Palavra de Deus, a fim de darmos luz e sabor às tarefas quotidianas. Trata-se de um convite que é particularmente oportuno em qualquer tempo. Em ambos os casos, não há oposição entre os momentos de oração e da escuta de Deus e a atividade quotidiana e o exercício da caridade. A admoestação de Jesus a Marta frisa a prioridade que devemos dar a Deus frente as atividades cotidianas.

As palavras de Cristo dirigidas a Marta devem encontrar eco no nosso coração. Seguindo, portanto, a eloquência dessas palavras, peçamos a Deus para que abra os nossos corações, para atentamente escutarmos as palavras do seu Filho Jesus. Que nós também possamos, no nosso trabalho reservar um tempo para o Senhor.

O texto evangélico nos narra que Jesus se deteve na casa de Marta, Maria e Lázaro, que o acolhe. Jesus entra em casa para estar com eles. Ele é acolhido pelas duas mulheres Marta e Maria. No nosso dia a dia por vezes, as nossas inúmeras ocupações nos fazem ser como Marta: ativos e sempre preocupados com nossos afazeres. Mas outras vezes nos sentimos como Maria, paramos para refletir, para escutar o Cristo que nos fala em cada página do evangelho. Saibamos ouvi-lo, mas saibamos também, a exemplo de Marta e Maria, abrir sempre as portas da nossa casa para que ele possa entrar, para que ele possa estar com cada um de nós.

Procuremos também nós ter aquilo que não nos pode ser tirado, e para que isto venha a se concretizar, peçamos também a intercessão da Virgem Maria, Mãe da escuta e do serviço, que nos ensine a meditar no nosso coração a Palavra do seu Filho, a rezar com fidelidade, ela que preferiu alimentar-se daquilo que dizia o Senhor. E assim como Maria, saibamos também nós escutar atentamente a Palavra de Deus e colocá-la em prática, e que essa mesma Palavra de Deus possa dar sentido ao nosso agir quotidiano. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

SOLENIDADE DOS APÓSTOLOS PEDRO E PAULO

Mt 16,13-19

Caros irmãos e irmãs,

Celebramos neste domingo a Solenidade litúrgica dos Apóstolos Pedro e Paulo, colunas da Igreja, no linguajar dos santos padres, com dois estilos diferentes para uma mesma vocação missionária. Pedro, apóstolo dos judeus, Paulo dos gentios ou pagãos. Originariamente o primeiro foi um singelo pescador da Galileia; o segundo, um douto fariseu de Tarso. Tocados por Cristo, converteram-se em dois apaixonados pela difusão da mensagem do Senhor até o martírio, em Roma, Pedro no ano 64 e Paulo em 67. Pedro era um pescador da Galileia. Com André, seu irmão, passava os dias no lago de Tiberíades. Sempre o mesmo trabalho: lançar as redes para a pesca. Foi precisamente em um desses momentos que Jesus o convida a segui-lo (cf. Mc 1,17).

O texto evangélico nos apresenta uma dupla interrogação feita por Jesus aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” e “E vós, quem dizeis que eu sou?”. Jesus os convida tomar consciência desta diferente perspectiva e ouve a resposta dos seus discípulos acerca do pensamento das pessoas, que o identificam como um profeta. Isto, entretanto, não basta, é necessário aprofundar, ir além, reconhecer a singularidade da sua pessoa, a sua novidade; é preciso reconhecer Jesus como o Messias, o filho de Deus vivo. Diante da confusa resposta, Jesus transfere a pergunta aos seus discípulos; e Pedro, tomando a palavra, responde: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). Possamos também nós hoje, fazer nossa essa resposta de Pedro: “Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16).

A resposta de Pedro não é fruto de seu próprio raciocínio, mas uma revelação do Pai ao humilde pescador da Galileia, como confirma o próprio Jesus, dizendo: “Não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (Mt 16, 17). É por causa desta confissão que Jesus diz: “Tu és Pedro, e sobre esta Pedra construirei a minha Igreja” (v. 18). Pedro estava tão próximo do Senhor que se tornou ele mesmo uma rocha de fé e de amor sobre a qual Jesus edificou a sua Igreja. Com efeito, o Senhor conclui dizendo: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,19).

Com base nesta confissão de Pedro é conferida a ele uma tarefa particular, manifestada mediante três imagens: a da rocha que se torna pedra de fundamento ou pedra angular, a das chaves e a de ligar e desligar. Mediante estas imagens sobressai claramente o fato de que Pedro é inseparável do encargo pastoral que lhe foi confiado em relação ao rebanho de Cristo, o que vem a se concretizar no encontro de Cristo ressuscitado com Pedro, conforme nos narra o Evangelho de São João, quando o Senhor Ressuscitado confia a Pedro a missão de apascentar o seu rebanho (cf. 21,15-19).

O paralelismo entre Pedro e Paulo não pode diminuir o alcance do caminho histórico feito por Simão com o seu Mestre e Senhor que, desde o início, lhe atribuiu a característica de “rocha”. Na verdade, Pedro será o cimento de rocha sobre a qual estará o edifício da Igreja; terá as chaves do Reino dos céus para abrir e fechar a quem lhe pareça justo; por último, poderá atar e desatar, ou seja, poderá estabelecer ou proibir o que considere necessário para a vida da Igreja, que é e continuará sendo de Cristo. É sempre a Igreja de Cristo e não de Pedro.

O poder conferido a Pedro não é um poder segundo as modalidades deste mundo. É o poder do bem, da verdade e do amor. Sua promessa é verdadeira: os poderes da morte e as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja que Cristo edificou sobre Pedro (cf. Mt 16,18) e que Ele, precisamente desta forma, continua a edificar.

Esta posição preeminente que Jesus quis entregar a Pedro, se constata também depois da sua ressurreição. Por ocasião da ressurreição de Cristo, Maria Madalena corre a Pedro e a João para informar que a pedra foi removida da entrada do sepulcro (cf. Jo 20,2), e João lhe cederá o passo quando os dois chegam ao túmulo vazio (cf. Jo 20,4-6). Posteriormente, Pedro será entre os apóstolos, a primeira testemunha da aparição do Ressuscitado (cf. Lc 24,34; 1Cor 15,5). No Concílio de Jerusalém, Pedro ainda desempenha uma função diretiva (cf. At 15 e Gl 2,1-10), e, precisamente pelo fato de ser a testemunha da fé autêntica, o próprio Paulo reconhecerá nele um papel de “primeiro” (cf. 1Cor 15,5; Gl 1, 18; 2,7).

Podemos ainda ressaltar o testemunho de fé e a árdua luta que os Apóstolos Pedro e Paulo tiveram de enfrentar pela causa do Evangelho. Também nisto seguiram com fidelidade o modelo de Cristo: deram a vida em prol do Evangelho. Estes dois Apóstolos, tendo o olhar fixo no mistério pascal, não duvidaram da necessidade de anunciar o Cristo, mesmo diante das dificuldades e dos desafios: era o início da realização do plano de Deus.

Era a vitória sobre as forças do mal, conquistada em primeiro lugar por Cristo e depois pelos seus discípulos, mediante a fé. E sobre esta base encontramos os fundamentos firmes da fé apostólica, sobre a qual está edificada a missão da Igreja. A rocha representa a firmeza, não só no que se refere à duração, mas também no que tange à solidez dos seus ensinamentos, oriundos da Sagrada Escritura.

O Apóstolo Paulo, cujo nome antes da conversão era Saulo, era natural de Tarso. Foi inicialmente um fariseu zeloso, a ponto de perseguir e aprisionar os cristãos, sendo responsável pela morte de muitos deles. Mas o encontro com Cristo ressuscitado no caminho de Damasco marcou a mudança decisiva na vida de Paulo. Realizou-se então a sua completa transformação, uma verdadeira conversão espiritual. Tornou-se, de cruel perseguidor dos cristãos, a um fervoroso apóstolo do Evangelho. A partir daquele momento, tudo o que antes constituía para ele um valor tornou-se paradoxalmente, segundo as suas palavras, perda e lixo (cf. Fl 3,7-10). A partir daquele momento todas as suas energias foram postas ao serviço exclusivo de Jesus Cristo e do seu Evangelho.

Os Apóstolos Pedro e Paulo são testemunhas insignes da fé, dilataram o Reino de Deus com os seus diversos dons e, a exemplo do próprio Cristo, selaram com o sangue a sua pregação evangélica. O exemplo destes grandes santos possa iluminar as nossas mentes e acender em nós o desejo de realizar todos os dias a vontade de Deus, a fim de que possamos permanecer fiéis ao Evangelho, para cujo serviço eles consagraram a sua própria vida, anunciando os ensinamentos do Cristo, caminho, verdade e vida, a todos os povos. São Pedro e São Paulo, rogai por nós! Amém.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

XIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – C – SEGUE-ME

Lc 9,51-62

Caros irmãos e irmãs,

As leituras bíblicas da santa Missa deste domingo ressaltam o tema da vocação de seguir o Cristo e as suas exigências. O Evangelho mostra Jesus a caminhar para Jerusalém, que é a meta final onde Jesus, na sua Páscoa derradeira, deve morrer e ressuscitar, elevar a cumprimento a sua missão de salvação. Ao longo desse caminho Jesus vai mostrando aos discípulos os valores do Reino de Deus. Todo este percurso que aqui se inicia converge para a cruz. Os discípulos também são exortados a seguir este “caminho”, para se identificarem plenamente com Jesus.

Se Jesus parece exigente para com aqueles que O querem seguir, é porque Ele mesmo é exigente quanto à sua própria caminhada. É caminhando que Jesus convida a colocarmos a segui-lo. Então, aqueles que o seguirem poderão dizer como Paulo: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4,7).

Ao longo do seu caminho até Jerusalém, Jesus encontra alguns homens, provavelmente jovens, os quais prometem segui-lo onde quer que ele vá. Ele os admoesta dizendo que “o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”, ou seja, não tem uma habitação estável e que quem escolhe trabalhar com Ele na sua vinha , jamais poderá arrepender-se (cf. Lc 9,57-58.61-62). A outro jovem o próprio Cristo diz: “Segue-me”, pedindo-lhe um desapego total dos vínculos familiares (cf. Lc 9, 59-60). Estas exigências podem parecer demasiado severas, mas na realidade expressam a novidade e a prioridade absoluta do Reino de Deus que se torna presente na própria pessoa de Jesus Cristo. Em última análise, trata-se daquela radicalidade que é devida ao amor de Deus, ao qual Jesus é o primeiro a obedecer. Quem renuncia a tudo, até a si mesmo, para seguir Jesus, entra numa nova dimensão da liberdade, pois está a serviço uns dos outros (cf. Gl 5,16).

Jesus chamou muitos para segui-lo. Podemos lembrar de Pedro e dos demais apóstolos. Podemos lembrar mais precisamente do evangelista e também apóstolo São Mateus (cf. Mt 9,9). Antes que Jesus o chamasse, ele desempenhava a profissão de publicano e, por isso, era considerado pecador público, excluído da “vinha do Senhor”. Mas, tudo muda quando Jesus, passando ao lado da sua mesa de impostos, fixa nele o seu olhar e diz: “Segue-me!” Foi precisamente isto que o evangelista São Mateus fez: Levantou-se e seguiu-o.

Também São Paulo experimentou a alegria de ser chamado pelo Senhor para trabalhar na sua vinha. Mas como ele mesmo confessa, foi a graça de Deus que agiu nele, aquela graça que, de perseguidor da Igreja, o transformou em Apóstolo das nações. A ponto de o levar a dizer: “Para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fl 1,21). Paulo compreendeu bem que trabalhar para o Senhor já é, nesta terra, uma recompensa.

A proposta que Jesus faz às pessoas ao dizer-lhes “Segue-me!” (v. 59), é exigente e exaltante. São elas convidadas a entrar no âmbito da sua amizade, a escutar de perto a sua Palavra e a viver com Ele; ensina-lhes a dedicação total a Deus e à propagação do seu Reino, segundo a lei do Evangelho: “Se o grão de trigo cair na terra e não morrer, fica só ele; mas, se morrer, dá muito fruto” (Jo 12, 24)

No encontro de Jesus com o jovem rico (cf. Mc 10, 17-22), na narração evangélica de São Marcos sublinha como “Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele” (Mc 10, 21). No olhar do Senhor, está o coração deste encontro e de toda a experiência cristã.

Jesus convida o jovem rico a ir mais além da satisfação das suas aspirações e dos seus projetos pessoais, dizendo-lhe: “Vem e segue-me!” (Mt 19,21). Ao jovem rico Jesus ainda diz: “Vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres… depois vem e segue-me” (Mt 19,21). Estas palavras inspiraram numerosos Cristãos ao longo da história da Igreja para seguir Cristo numa vida de pobreza radical, confiando na Providência Divina. Entre estes generosos discípulos de Cristo encontrava-se também São Bento, São Francisco de Assis e tantos outros que, sem hesitações, responderam o chamado do divino Mestre.

A vocação cristã deriva de uma proposta de amor do Senhor e só pode realizar-se graças a uma resposta de amor. Jesus convida os seus discípulos a segui-lo com uma confiança sem reservas em Deus. Os santos acolheram este convite exigente e, com humilde docilidade, põe-se a seguir Cristo crucificado e ressuscitado. A sua perfeição na lógica da fé, às vezes humanamente incompreensível, consiste em viver segundo o Evangelho.

Como de fato, muitos são aqueles que deixam a família de origem, os estudos, o trabalho, os seus bens, para se consagrar a Deus, como resposta radical à vocação divina. Para seguir Jesus Cristo é preciso estar livre de todas as ataduras, pois quem olha para trás, não está apto para o Reino de Deus (cf. Lc 9,62). Só vivemos a verdadeira liberdade se sairmos de nós mesmos, se desapegarmos de nós mesmos, para nos colocarmos a caminho com o Senhor e cumprirmos a sua vontade.

A exemplo de muitos discípulos de Cristo, possamos também nós acolher com alegria o convite a seguir Jesus, para vivermos intensa e fecundamente neste mundo. Com efeito, mediante o batismo, Ele chama cada um a segui-lo com ações concretas, a amá-lo sobre todas as coisas e a servi-lo nos irmãos. Infelizmente, o jovem rico não acolheu o convite de Jesus e retirou-se pesaroso. Não encontrara coragem para se desapegar dos bens materiais a fim de possuir o bem maior proposto por Jesus.

Jesus nunca se cansa de estender o seu olhar de amor sobre nós, chamando-nos a ser seus discípulos; a alguns, porém, Ele propõe uma opção mais radical. Possamos estar sempre disponíveis para acolher com generosidade e entusiasmo este sinal de predileção especial. Ele sabe dar alegria profunda a quem responde com coragem.

Também hoje, o seguimento de Cristo é exigente; significa aprender a ter o olhar fixo em Jesus, a conhecê-lo intimamente, a escutá-lo na Palavra e a encontrá-lo nos Sacramentos; significa aprender a conformar a nossa própria vontade à dele.

Deus serve-se de nós segundo o seu plano de amor, segundo a modalidade que Ele estabelece e pede-nos para favorecer a ação do Espírito; devemos ser os bons colaboradores do Senhor, para a eficácia realização do seu Reino.

Possamos ser atraídos pelos exemplos luminosos dos Santos que souberam dar ao mundo um testemunho do Senhor. São eles os protagonistas do amor e do bem, exemplos vivos de esperança e testemunhas de um amor que nada teme, nem sequer a morte.

Que Maria, a Mãe de Deus e nossa, que correspondeu sem reservas o chamado do Senhor, nos ajude a sermos capazes de ouvir a voz de Deus e de a seguir com determinação e decisão o caminho da santidade. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento-RJ

XII SEMANA DO TEMPO COMUM – C – E vós, quem dizeis que eu sou?

Lc 9,18-24

Caros irmãos e irmãs,

Neste domingo o texto evangélico traz uma pergunta formulada por Jesus aos seus discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Os discípulos respondem: “Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que és algum dos antigos profetas que ressuscitou” (v.19). Na opinião do povo, Jesus é comparado aos grandes personagens apresentados pela Sagrada Escritura, mas não o reconhecem como Messias, certamente porque a postura de Jesus não correspondia àquilo que se esperava de um rei forte e vencedor.

Contudo, a reação das pessoas é de admiração e enaltecimento, pois recordam João Batista, o maior dos profetas; Elias, o profeta que surgiu como um fogo, cuja palavra queimava como uma tocha (cf. Eclo 48,1). Na verdade o povo enaltece, admira, mas não reconhece a verdadeira identidade de Cristo.

Jesus viveu numa época de enormes dificuldades para o Povo de Deus. E esse sofrimento gerou grande expectativa messiânica. Todos sonhavam com a chegada do Messias anunciado pelos profetas. Neste período apareceram várias figuras que se assumiram como “enviados de Deus”; o que criou-se um clima de ebulição, visto que arrastaram atrás de si grupos de discípulos exaltados e acabaram chacinados pelas tropas romanas.

Muitos pensavam que o Messias seria um herói, um guerreiro forte semelhante a Sansão, um rei vitorioso como Davi, um político inteligente como Salomão etc. Aparentemente, Jesus não é considerado pelo povo como o novo Messias, mas o identificam como o novo Elias, o profeta que as lendas judaicas consideravam estar junto de Deus.

Em seguida temos a segunda pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” As perguntas que Cristo faz, as respostas que são dadas pelos seus discípulos e, finalmente, por Pedro, constituem uma espécie de exame da maturidade da fé daqueles que vivem mais perto de Cristo. Pedro responde em nome dos Doze, com uma profissão de fé que se diferencia de modo substancial da opinião que as pessoas têm sobre Jesus; com efeito, ele reconhece Jesus como o “Cristo de Deus” (v. 20). Ou, de acordo com a narração do Evangelista São Mateus: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16).

Esta confissão de fé apresentada por Pedro está intrinsecamente vinculada à primeira frase que no trecho evangélico, diz estar Jesus em um lugar afastado, em um momento de oração (v. 19). Um momento em que os próprios discípulos testemunham a unidade de Jesus com Deus. Frequentemente o evangelista São Lucas observa que Jesus, antes de cumprir algum gesto importante ou antes de transmitir um ensinamento com um significado extraordinário, ele se recolhe em oração. Temos nesta indicação que pela oração também podemos descobrir o rosto do Senhor e o conteúdo mais autêntico da sua missão.

Jesus não desmente a afirmação de Pedro, mas ordena que não a digam a ninguém. Dizer que Jesus é o Messias significa reconhecer nele esse “enviado” de Deus, a linhagem davídica, que havia de traduzir em realidade essas esperanças de libertação que enchiam o coração de todos. Jesus não discorda da afirmação de Pedro. Ele sabe, no entanto, que os discípulos sonhavam com um Messias, poderoso e vitorioso e apressa-se a esclarecer possíveis equívocos.

Ele é o enviado de Deus para libertar os homens, no entanto, não vai realizar essa libertação pelo poder das armas, mas pelo amor e pelo dom da vida. No seu horizonte próximo não está um trono, mas a cruz. Ele não é o Messias que todos estão esperando. Por isto, logo em seguida, o texto do Evangelho esclarece: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia” (v. 22). Com isto, Jesus mostra que não lhe espera o triunfo, mas a humilhação, o sofrimento e a morte. Porém, Deus transforma este seu sofrimento em caminho para a glorificação.

Na teologia do evangelista São Lucas, Jesus será revelado como Messias pelo sofrimento e pela paixão (cf. Lc 27,7.26.46). Sua missão messiânica consiste em vencer a morte pela cruz (cf. At 2,23s). Mas este mistério de sua messianidade ainda está oculto, para evitar falsas esperanças, por isto, Jesus proíbe aos discípulos comunicar aos outros a verdade professada por Pedro.

Imediatamente, depois da confissão petrina, Jesus anuncia a sua paixão e ressurreição, pondo em destaque o seguimento dos discípulos pelo caminho da cruz. E depois acrescenta que ser discípulo significa “perder-se a si mesmo”, isto para voltar a encontrar-se plenamente a si mesmo” (cf. Lc 9,22-24).

Mas o que significa “perder a vida por causa de Jesus?” Isto pode acontecer de dois modos: confessando explicitamente a fé, ou defendendo de modo implícito a verdade. Os mártires são o exemplo máximo da perda da vida por Cristo.

E dentre os mártires que vieram a perder a vida por causa da verdade, que é Cristo, uma vez que ele disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6), está João Batista. Ele foi o escolhido por Deus para preparar o caminho diante de Jesus e indicá-lo ao povo de Israel como o Messias, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (cf. Jo 1,29).

De Jerusalém e de todas as partes da Judeia o povo acorria para ouvir João Batista e fazer-se batizar por ele no rio Jordão, confessando os próprios pecados (cf. Mc 1,5). A fama do profeta batizador cresceu a tal ponto que muitos perguntavam se era ele o Messias. Mas ele, ressalta o evangelista São João, negou categoricamente: “Eu não sou o Messias” (Jo 1,20).

João consagrou-se totalmente a Deus e ao seu enviado, Jesus. Mas, no final, morreu em nome da verdade, quando denunciou o adultério do rei Herodes com Herodíades (cf. Mc 6,16-29). Pagou com a vida, selando com o martírio o seu serviço a Cristo, que é a Verdade em pessoa.

Para seguir Jesus, é necessário renunciar a todas as inclinações contrárias à vontade de Deus, ou seja, renunciar-se a si mesmo (v. 23). É preciso carregar a cruz todos os dias. Esta é a grande lei do cristianismo. Jesus vai à frente com a cruz e nos convida a segui-lo. E o seu convite continua atual: “Segue-me!”.

E Jesus, diante desta profissão de fé, renova a Pedro e aos demais discípulos o convite a segui-lo pela estrada exigente do amor até a cruz. Também a nós Jesus dirige a proposta de segui-lo todos os dias, e lembra que, para sermos seus discípulos, é necessário que nos apropriemos do poder da sua Cruz, ápice de nossos bens e coroa de nossa esperança.

Saibamos acolher com alegria esta palavra de Jesus. É uma regra de vida proposta a todos e que São João Batista interceda por nós para que possamos pô-la em prática. Invoquemos também a intercessão da Virgem Maria, para que, nos nossos dias, saibamos sempre manter a fidelidade a Cristo e testemunhar com coragem a sua verdade e o seu amor a todos. Ela, que se identificou como a Serva do Senhor, e que conformou a sua vontade com a de Deus, nos acompanhe durante todos os dias da nossa vida. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE

Jo 16,12-15

Meus caros irmãos e irmãs,

Celebramos neste domingo a Solenidade da Santíssima Trindade, que, em certo sentido, recapitula a revelação de Deus advinda dos mistérios pascais: morte e ressurreição de Cristo, sua ascensão à direita do Pai e a efusão do Espírito Santo.

Depois do tempo pascal, culminado na festa de Pentecostes, a liturgia prevê estas três solenidades do Senhor: a Santíssima Trindade; na próxima quinta-feira, o dia de “Corpus Christi”; e finalmente, na sexta-feira sucessiva, a festa do Sagrado Coração de Jesus. Cada uma destas celebrações litúrgicas evidencia uma perspectiva a partir da qual se abrange todo o mistério da fé cristã: ou seja, respectivamente a realidade de Deus Uno e Trino, o Sacramento da Eucaristia e o centro divino-humano da Pessoa de Cristo. Na verdade são aspectos do único mistério da salvação, que num certo sentido resumem todo o itinerário da revelação de Jesus, da encarnação à morte e ressurreição até à ascensão e ao dom do Espírito Santo.

Como sabemos, a Trindade divina passa a habitar em nós a partir do dia do Batismo: “Eu te batizo – diz o ministro – em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. O nome de Deus, no qual fomos batizados, é lembrado por nós toda vez que fazemos o sinal da cruz. Também iniciamos cada Celebração Eucarística em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. O mesmo ocorre no final, ao concluir, com a bênção do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Também no decorrer da Santa Missa fazemos a nossa profissão de fé dizendo: “Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso… e em um só Senhor, Jesus Cristo… e no Espírito Santo”. No sinal da cruz está também o anúncio que gera a fé e inspira a oração.

No texto evangélico, Jesus promete aos Apóstolos: “Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade” (Jo 16, 13). A missão do Espírito Santo será iluminar os discípulos para que eles entendam de maneira correta aquilo que o Cristo ensinou e possam conduzir a comunidade dos discípulos de Jesus ao caminho da verdade. Assim também ocorre na liturgia dominical, quando os sacerdotes oferecem, semanalmente, o pão da Palavra e da Eucaristia.

Neste domingo, as leituras nos falam da Santíssima Trindade, para nos revelar o amor que Deus tem por nós e nos mostrar o seu projeto de salvação. A primeira leitura ressalta o projeto do Pai na criação, a fonte e a origem de tudo. A segunda leitura nos revela que o projeto de Deus, prescrito na primeira leitura, se realiza em Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus, escondido desde a eternidade no seio do Pai e que estava com ele no momento da criação, mas somente com a intervenção do Espírito Santo é que saberemos compreender e aderir plenamente ao projeto de Deus para nós à obra salvadora do Filho, ou seja, do Cristo Jesus. Cabe ao Espírito Santo iluminar as mentes e os corações dos homens a respeito dos ensinamentos do Evangelho e colocar em prática as recomendações que ele nos apresenta.

Todas as celebrações são sempre em honra de Deus, Uno e Trino. Os sacramentos são realizados e celebrados mediante a invocação das três pessoas divinas. Pode-se ressaltar ainda a doxologia que conclui todos os salmos na Liturgia do Ofício Divino: “Glória ao Pai, e ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora e sempre”. E quando nos dirigimos a Deus com uma oração de impetração, podemos concluir com estas palavras: “Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus, e vive e reina convosco, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos”.

A Santíssima Trindade está, pois, incessantemente nos lábios e no coração dos cristãos. E neste domingo nós a adoramos de modo especial. Com esta solenidade, quer também a Igreja mostrar de modo mais intenso a sua devoção à Trindade Santíssima e proclamar de forma mais expressiva a sua fé.

Todas as nossas obras devem ter uma única finalidade: que o nome de Jesus seja glorificado em nós. O Pai e o Espírito Santo glorificam a Jesus e nos dão com Ele uma norma a nos orientar sempre. O lema, como que a síntese de nossa vida, deverá ser aquela significativa oração no final das preces eucarísticas da Santa Missa, onde apresentamos o Corpo e o Sangue de Jesus na patena e no cálice: “Por Cristo, com Cristo e em Cristo, a vós, Deus Pai todo-poderoso, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre, na unidade do Espírito Santo”. E, acompanhando esse momento forte de oração que brota do íntimo de nosso ser, possamos dizer com fé, mesmo que não consigamos atingir a grandeza que o mistério encerra: “Amém”.

E ao colocar esta solenidade no domingo seguinte à solenidade de Pentecostes, a Igreja vem nos lembrar que cada domingo é uma festa da Santíssima Trindade, pois o domingo é o dia do Senhor, dia em que Jesus ressuscitou e que o Espírito Santo nos santificou, descendo sobre a igreja nascente. Neste sentido, todo domingo devemos contemplar este mistério Trinitário!

Assim como Jesus, em quem vivia “a plenitude Deus” (Cl 2,4) e só fazia a vontade do Pai (cf. Jo 4,34; 5,36), assim, em nós, Deus quer ser a meta e o impulso de todas as nossas vontades, nas provações e nos momentos de esperança.

Possamos invocar a Bem-aventurada Virgem Maria, primeira criatura plenamente enriquecida pela Santíssima Trindade. Na sua humildade ela se fez serva do Senhor e acolheu a vontade do Pai e concebeu o Filho por obra do Espírito Santo. Que ela interceda sempre por nós e nos ajude a crescer na fé no mistério trinitário. A ela pedimos a sua proteção materna, para que possamos prosseguir bem a nossa peregrinação terrena. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ.

SOLENIDADE DE PENTECOSTES

 

Jo 20,19-23

Caros irmãos e irmãs,

A liturgia da Palavra deste domingo acentua a manifestação do Espírito Santo no milagre de Pentecostes e nos conduz ao Cenáculo onde nos deparamos com Maria, a Mãe de Jesus e os Apóstolos reunidos em oração (cf. At 1,14s), quando ficaram repletos do Espírito Santo (cf. At 2,1-4). Cumpria-se o prometido pelo Salvador: “O Espírito Santo, que o Pai vos enviará em meu nome. Ele vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar o que eu vos disse” (Jo 14,26).

Neste dia teve início a missão da Igreja no mundo. O próprio Jesus tinha preparado os seus apóstolos para esta missão aparecendo-lhes várias vezes depois da sua ressurreição (cf. At 1,3). Antes da ascensão ao Céu, ordenou que “não se afastassem de Jerusalém, mas que aguardassem que se cumprisse a promessa do Pai” (cf. At 1,4-5); isto é, pediu que permanecessem juntos e se preparassem para receber o dom do Espírito Santo.

O Povo de Deus, que tinha encontrado no Sinai a sua primeira configuração, vê agora um novo sinal de Deus a ponto de não conhecer qualquer fronteira de raça, cultura, espaço ou tempo. Diferente do que tinha acontecido com a torre de Babel (cf. Jo 11,1-9), quando os homens, intencionados a construir com as suas mãos um caminho para o céu, fragilizaram a sua própria capacidade de se compreenderem reciprocamente, enquanto o Espírito Santo torna os corações capazes de compreender as línguas de todos e restabelece a ponte da comunicação entre Deus e a humanidade.

No Evangelho temos a aparição de Jesus aos apóstolos para lhes comunicar a sua paz e o dom do Espírito Santo, para tirar o pecado do mundo, ou seja, para que eles continuem sua obra salvadora (cf. Jo 14,27s). Jesus sopra sobre os apóstolos, para que eles recebam o Espírito Santo e tenham o poder de perdoar os pecados. Porém, o mais grandioso é quando, na manhã de Pentecostes, um grande vendaval soprou em Jerusalém e o Espírito Santo desceu em forma de línguas de fogo sobre a comunidade inicial da Igreja, e eles ficaram repletos de uma nova vida e de uma nova luz.

O termo “Espírito” traduz o termo hebraico “Ruah” que, na sua primeira acepção, significa sopro, ar, vento. Jesus utiliza precisamente a imagem sensível do vento para sugerir a novidade transcendente daquele que é pessoalmente o Sopro de Deus, o Espírito divino. É o dom por excelência de Cristo ressuscitado conferido aos seus Apóstolos, mas Ele quer que chegue a todos. No Evangelho Jesus diz: “Eu apelarei ao Pai e Ele vos dará outro Paráclito para que esteja sempre convosco” (Jo 14,16). É o Espírito Paráclito, o Consolador, que dá a coragem de levar o Evangelho pelas estradas do mundo! O Espírito Santo ergue o nosso olhar para o horizonte e nos impele para que possamos anunciar a todos a mensagem de Jesus Cristo.

O Batismo nos concede a graça do novo nascimento em Deus Pai, por meio do Filho no Espírito Santo, que é o primeiro no despertar da nossa fé e na vida nova que consiste em conhecer o Pai e aquele que Ele enviou, Jesus Cristo.

Toda a história da Igreja, através dos séculos, desde Pentecostes até nossos dias, está vinculada à ação do Paráclito. Sua atuação é o cumprimento da promessa de Jesus: “Eu estarei convosco até o final dos tempos” (Mt 28,20b). A comunidade primitiva não só se proclamava membro do Corpo Místico de Cristo, mas igualmente acreditava ser o templo do Espírito Santo: “Não sabeis que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Cor 3,16).

Notemos ainda que em Pentecostes, o Espírito Santo manifesta-se como fogo. A sua chama desceu sobre os discípulos reunidos, acendeu-se neles e infundiu-lhes o novo ardor de Deus. Realiza-se assim aquilo que o Senhor Jesus tinha predito: “Vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele já tivesse sido ateado!” (Lc 12,49). Juntamente com os fiéis das diversas comunidades, os Apóstolos levaram esta chama divina até aos extremos confins da terra, abriram assim um caminho para a humanidade, uma senda luminosa, e colaboraram com Deus que com o seu fogo quer renovar a face da terra. O fogo de Deus, o fogo do Espírito Santo, é aquele da sarça que ardia sem se consumir (cf. Ex 3,2).

Esta chama do Espírito Santo arde, mas não queima. E, todavia, ela realiza uma transformação, e por isso, deve consumir algo no homem, o pecado que o corrompe e o impede de construir de forma satisfatória a sua relação com Deus e com o próximo. Enquanto a água significava o nascimento e a fecundidade da vida dada no Espírito Santo, o fogo simboliza a energia transformadora dos atos do Espírito Santo. São João Batista anuncia Cristo como Aquele que “há de batizar no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3,16). E São Paulo ordena: “Não apagueis o Espírito!” (1Ts 5, 19). A tradição espiritual reterá este simbolismo do fogo como um dos mais expressivos da ação do Espírito Santo (cf. CIgC, n. 696).

Possamos também lembrar que quando Cristo sobe das águas do seu batismo, o Espírito Santo, sob a forma duma pomba, desce e paira sobre Ele (cf. Mt 3,16). O símbolo da pomba para significar o Espírito Santo é tradicional na iconografia cristã. Assim, em cada batizado que celebramos, o Espírito Santo desce e repousa no coração purificado do catecúmeno (cf. CIgC, n. 701).

Na solene celebração do Pentecostes, somos enviados a professar a nossa fé na presença e na ação do Espírito Santo e a invocar a sua efusão sobre nós, sobre a Igreja e sobre o mundo inteiro. Portanto, façamos nossa, e com intensidade particular, a invocação da própria Igreja: “Vinde Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor”. Uma invocação simples e profunda que deve nos envolver de alegria e de esperança.

Na anunciação do Anjo Gabriel, Maria é convidada a ser a mãe do Salvador, em quem habitará “corporalmente toda a plenitude da Divindade” (Cl 2,9). A resposta à pergunta de Maria: “Como será isto, se eu não conheço homem?” (Lc 1,34) é dada pelo anjo dizendo: “O Espírito Santo virá sobre ti” (Lc 1,35). O Espírito Santo, que é “o Senhor que dá a vida”, como recitamos no Credo, é enviado para santificar o seio da Virgem Maria e para a fecundar pelo poder divino, fazendo com que ela venha conceber o Filho eterno do Pai, numa humanidade originada da sua. E a ela, que desde o Pentecostes se une com a Igreja nascente invocando o Espírito Santo, peçamos que fique conosco no centro deste nosso cenáculo singular, a fim de que, com a sua intercessão, possamos dar ao mundo um testemunho vivo e autêntico de Cristo, o nosso Salvador. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ

VII DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA C – ASCENSÃO DO SENHOR

Lc 24,46-53

Caros irmãos e irmãs,

A Igreja celebra neste domingo a solenidade da Ascensão do Senhor, que deve significar para nós um canto de vitória e de esperança. A liturgia da Palavra traz ler uma passagem do Evangelho de São Lucas, onde podemos ler: “Eu enviarei sobre vós aquele que meu Pai prometeu, por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto. Então Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os. Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu. Eles o adoraram. Em seguida voltaram para Jerusalém, com grande alegria. E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus” (49-52).

São Lucas descreve o acontecimento da Ascensão também no início do Livro dos Atos dos Apóstolos, para frisar que tal evento é como o elo que une a vida terrena de Jesus à vida da Igreja. São Lucas refere-se também à nuvem que subtrai Jesus à vista dos discípulos, os quais permanecem a contemplar Cristo que sobe para junto de Deus: “Foi elevado ao céu à vista deles e uma nuvem subtraiu-o ao seu olhar”. E eles “estavam com os olhos fixos no céu, para onde Jesus se afastava” (At 1, 9-10). Neste instante aparecem dois homens com vestes brancas que os convidam a não permanecer imóveis a contemplar o céu, mas a alimentar a sua vida e o seu testemunho com a certeza de que Jesus voltará do mesmo modo como o viram subir ao céu (cf. At 1, 10-11).

Estes dois homens com as vestes brancas são os mesmos que aparecem no sepulcro, no dia da Páscoa (cf. Lc 24,4). A cor branca representa, de acordo com o simbolismo bíblico, o universo de Deus. As palavras pronunciadas pelos dois homens constituem a explicação dada por Deus à ressurreição de Cristo. Indica que Jesus, condenado à morte pelos homens, foi glorificado. E o fato de serem duas testemunhas indica a veracidade do fato.

Com o olhar da fé, os apóstolos compreendem que, não obstante tenha sido subtraído aos seus olhos, Jesus permanece para sempre com eles e, na glória do Pai, não os abandona. Por isto, a Ascensão não indica a ausência de Jesus, mas nos diz que Ele está vivo no meio de nós de um novo modo. E esta é a razão pela qual os discípulos se alegram. Jesus não se encontra em um lugar específico do mundo, como antes, agora está no Senhorio de Deus, presente em cada espaço e tempo, próximo de cada um de nós. Na nossa profissão de fé dizemos que Jesus “subiu ao Céu, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso”. A vida terrena de Jesus culmina com o evento da Ascensão, ou seja, quando Ele passa deste mundo para o Pai e é elevado à sua direita.

A solenidade da Ascensão do Senhor também nos convida a sermos testemunhas de Jesus que vive na Igreja e nos corações de todos os povos. No dia da sua ascensão ao céu disse Jesus aos Apóstolos: “Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura… Eles, partindo, foram pregar por toda a parte; o Senhor cooperava com eles, confirmando a palavra com os sinais que o acompanhavam” (Mc 16, 15.20).

Com isto, podemos observar que a Ascensão de Jesus não indica sua ausência temporária do mundo, mas, principalmente, inaugura a nova e definitiva forma da sua presença entre nós uma realidade, em virtude da sua participação no poder régio de Deus. Caberá precisamente aos discípulos, fortalecidos pelo poder do Espírito Santo, tornar perceptível a presença do Cristo entre os homens, mediante o testemunho, a pregação e o compromisso missionário.

Somos chamados a testemunhar com coragem o Evangelho perante o mundo, levando a esperança aos necessitados, aos que sofrem, aos abandonados, aos desesperados, a todos os que têm sede de verdade e de paz. Fazendo o bem a todos, e sendo solícitos pelo bem comum, estarão eles testemunhando que Deus é amor.

Como eles, também nós, aceitando o convite dos “dois homens em trajes resplandecentes”, não devemos permanecer com os olhos fixos no céu, mas, sob a guia do Espírito Santo, temos que ir a toda a parte e proclamar o anúncio da morte e ressurreição de Cristo. A sua própria palavra constitui um conforto para todos nós: “Eu estarei sempre convosco, até o fim do mundo” (Mt 28,20).

Em cada Eucaristia que celebramos é Cristo que se dá a nós, nos edificando com o seu corpo. Os discípulos de Emaús reconheceram o Cristo na partilha do pão e voltaram apressadamente a Jerusalém a fim de partilhar a alegria com os irmãos na fé. Com efeito, a verdadeira alegria é reconhecer que o Senhor permanece no nosso meio, companheiro do nosso caminho. A Eucaristia nos faz descobrir que Cristo, morto e ressuscitado, se manifesta como nosso contemporâneo e caminha com cada um de nós.

A solenidade da Ascensão do Senhor também nos exorta a consolidar a nossa fé na presença real de Jesus na história; sem Ele, nada podemos realizar de eficaz na nossa vida e no nosso apostolado. Como recorda o Apóstolo São Paulo na segunda leitura, pois a nossa vocação na Igreja é também a de formar “um só corpo e um só Espírito, como existe uma só esperança no chamamento que recebestes” (Ef 4, 4).

Esta solenidade nos faz lembrar também que Jesus completa seu itinerário: “Saí do pai e vim ao mundo: outra vez deixo o mundo e volto para o Pai. Subo para meu Pai e vosso pai, disse também Jesus a Maria Madalena no mesmo dia de sua ressurreição” (Jo 16,28; 20,17).

Chama a nossa atenção este último gesto dos discípulos de Jesus: “Eles o adoraram”. Que saibamos também nós reconhecer o senhorio de Cristo e que saibamos dedicar a ele, em oração, um pouco do nosso tempo. Com a Ascensão do Senhor, podemos afirmar que em Cristo a nossa humanidade é levada à altura de Deus; assim, todas as vezes que rezamos, a terra se une ao Céu. E assim como o incenso queimado faz subir para o alto o seu fumo, também quando elevamos ao Senhor a nossa oração confiante em Cristo, ela atravessa o céu e alcança o próprio Deus e é por Ele ouvida e atendida.

Supliquemos por fim a Virgem Maria, para que nos ajude a contemplar os bens celestes e a sermos autênticas testemunhas da Ressurreição do seu filho Jesus, que é o caminho, a verdade e a Vida. Amém.
D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

V DOMINGO DO TEMPO DA PÁSCOA C – UM NOVO MANDAMENTO

Jo 13, 31-35

Caros irmãos e irmãs,

No evangelho deste domingo temos as palavras pronunciadas por Jesus aos seus discípulos, depois de lhes ter lavado os pés, na última ceia, imediatamente antes da sua Paixão: “Filhinhos… Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34-35). Jesus sabe que lhe restam poucas horas de vida e sente a necessidade de deixar algumas instruções com um típico sabor testamentário. Inicia com a expressão “Filhinhos” (v. 33), fazendo lembrar um pai a transmitir aos seus filhos o que é essencial e verdadeiramente fundamental. Assim como os filhos consideram sagradas as palavras que o pai lhes diz no leito, antes da morte, também Jesus quer que os seus discípulos não esqueçam jamais as suas palavras.

Jesus fala em um “novo mandamento”. A expressão “novo”, utilizada por Jesus, não significa que até então era este mandamento desconhecido. O próprio Jesus tinha recordado que amar a Deus e ao próximo era o mandamento maior da Lei antiga (cf. Mc 12,28-31). A novidade deste novo mandamento é que não se trata do antigo e conhecido mandamento que ordenava “amar ao próximo como a si mesmo” (Lv 19,18). O “novo” deste mandamento consiste, exatamente, no “como eu vos amei”. Nem a palavra amar, nem o mandamento do amor são novos. Novo é amar como Jesus, amar em Jesus, por causa de sua palavra impressa em cada página do evangelho.

O Senhor indica que devemos amar como Ele nos amou. Ele amou a todos sem exceção, justos e pecadores. Na cruz, perdoou até os que o haviam condenado injustamente e rezou por eles: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34).

O verbo “agapaô” – traduzido do grego como amar, utilizado no texto, define, o amor como sinal de manifestação pelo outro até ao extremo, o amor que não guarda nada para si, mas é entrega total e absoluta. O ponto de referência desse amor é o próprio Jesus, como prescreve o complemento da frase: “como eu vos tenho amado”. Amar consiste em acolher, em pôr-se ao serviço dos outros, em dar-lhes dignidade e liberdade pelo amor, e isso sem limites. Jesus é a norma, agora traduzida em palavras, o que ele mesmo manifestou com seus atos, para que os seus discípulos tenham uma referência. O amor, igual ao de Jesus, que os discípulos devem manifestar entre si, será visível para todos (v. 35). Trata-se de um amor universal, capaz de transformar todas as circunstâncias negativas e todos os obstáculos em ocasiões para progredir ainda mais neste amor.

O estilo divino desse amor de Cristo deve ser o modelo do nosso amor. De tal sorte que nossa presença junto aos irmãos seja uma sombra da presença do próprio Cristo. Um amor que presta em favor dos irmãos, os mais humildes serviços. Cristo se identifica com o outro, especialmente com os mais necessitados. É uma verdade que, mediante a fé, podemos ver o Cristo na pessoa do outro, pois será a partir deste amor a base do nosso julgamento final, pois ele mesmo disse: “Tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber…”. E completa: “Todas as vezes que o deixastes de fazer a um destes pequeninos, foi a mim eu o deixastes de fazer” (Mt 25,40-45).

Além de proclamar o mandamento do amor, Jesus deixou esta norma como sinal distintivo para os seus seguidores: “Nisso conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (v. 35). Por vontade expressa de Cristo é o amor o sinal de identificação de seus discípulos. O sinal que de agora em diante distinguirá seus discípulos deverá ser o amor mútuo. Como já nos diz o Evangelista São João: “Se alguém diz: Eu amo a Deus e odeia a seu irmão é mentiroso. Pois, quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? E dele temos este mandamento: Quem ama a Deus, ame também o seu irmão” (1Jo 4,20s). E ainda frisa: “Sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte” (1Jo 3,14).

Diante destas exigências apresentadas pelo evangelho, e lançando um olhar para cada um de nós, percebemos que somos fracos e limitados. Existe sempre em nós uma resistência ao amor e na nossa existência há muitas dificuldades que provocam divisões, ressentimentos e rancores. Mas não podemos perder a esperança. O Senhor prometeu estar presente na nossa vida, nos tornando capazes deste amor generoso e total, que sabe superar todos os obstáculos. Se estivermos unidos a Cristo, poderemos amar verdadeiramente deste modo que Ele quer. Amar os outros como Jesus nos amou só é possível com aquela força que nos é comunicada na relação com Ele, especialmente na Eucaristia, na qual se torna presente de maneira real o seu Sacrifício de amor que gera amor.

A prática do amor mútuo é a expressão da fé em Jesus. O verdadeiro discípulo distingue-se pelo amor. A capacidade de amar-se mutuamente indica o quanto Jesus está agindo na vida do cristão. A presença salvadora de Jesus tem o efeito de desatar o nó do egoísmo, que afasta os indivíduos de seus semelhantes e, por consequência, de Deus também.

Em sua carta aos coríntios São Paulo ressalta que o amor é superior a todos os dons extraordinários. O amor é maior do que o dom de língua. O amor é maior do que o dom de profecia e conhecimento. O amor é maior do que o dom de milagres. Sem amor, até as melhores obras de caridade ficam isentas de valor (cf. 1Cor 13,1-3). O amor é melhor por causa da sua excelência intrínseca e também por causa da sua perpetuidade.

São Paulo define o amor como paciente e benigno, ou seja, o amor tem uma infinita capacidade de suportar e ter paciência com as pessoas, no sentido de reagir com bondade perante aqueles que o maltratam. São Paulo ainda explica que o amor não é ciumento, ufanoso e ensoberbecido. Não se conduz inconvenientemente, não procura os seus próprios interesses e não se ressente com o mal. O amor não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade. E, por fim, diz São Paulo que o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta (cf. 1Cor 13,4-7). E ainda segundo São Paulo, dentre as virtudes teologias: fé, esperança e caridade, a maior de todas é a caridade, ou seja, o amor (cf. 1Cor 13,13). Os textos sagrados nos mostram como o amor ao próximo deve ser a bússola da nossa vida. Esse ensinamento deve ser aplicado às circunstâncias em que nos encontramos habitualmente.

Podemos correr o risco de alegrarmos com o fracasso dos nossos inimigos. Há um mal intrínseco em nós mesmos. Podemos sentir um falso alívio quando vemos os nossos adversários fracassando e caindo, mas isto não é amor. O amor, além de perdoar, esquece e não mantém um registro do que foi dito e feito contra nós. A ausência de amor faz com que o cristão perca o seu significado diante de Deus.

Possamos hoje questionar a nós mesmos: “Estou vivendo e compartilhando este amor que Jesus pede? Estou testemunhando a todos, com gestos concretos, o amor de Deus?” Saibamos haurir diariamente da relação de amor com Deus pela oração, a força para transmitir o anúncio profético de salvação a todas as pessoas com as quais convivemos.

O verdadeiro remédio para as feridas da humanidade, quer materiais, como a fome e as injustiças, quer psicológicas e morais, causadas por um falso bem-estar, é uma regra de vida baseada no amor fraterno, que tem a sua fonte no amor de Deus. Por isso, é preciso abandonar o caminho do erro, da arrogância e da violência utilizada, para obter posições de poder sempre maiores.

Peçamos ao Senhor o auxílio necessário para colocarmos em prática este mandamento novo do amor que Ele nos ordena a praticar. E nos faça abrir de par em par as portas do nosso coração para perdoar e amar verdadeiramente todos os nossos irmãos. Interceda por nós também a Virgem de Nazaré, para que possamos aprender de Jesus a verdadeira humildade e, imbuídos do amor, possamos difundir para todas as pessoas os seus frutos de alegria de paz. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ

 

Veja também:

Site oficial da Paróquia São Judas Tadeu em Augusto Vasconcelos-RJ